14 de dezembro de 1983

A semana termina com a nostalgia tomando conta de mim. Nenhum amigo percebeu nem disse assim. Não havia tristeza como…

A semana termina com a nostalgia tomando conta de mim. Nenhum amigo percebeu nem disse assim. Não havia tristeza como na letra de Paulinho da Viola. Houve saudade e revolta em duas perdas de gente querida – meu primo Felipe e Maurício Baíto, suavidade em boemia e amizade, estresse além do limite, reflexões sobre a idade, retrospectiva existencial e lembranças de 30 anos atrás. Fiz meu Vale a Pena Ver de Novo particular.

Há 30 anos, sonhava nas manhãs colegiais com as tardes de domingo para ver um time de futebol, o melhor da minha vida e sobre o qual também escrevi esta semana na figura do seu zagueiro espetacular, Alexandre Mineiro. Faz três décadas que tenho a idade de minha filha mais nova de quem confesso minha singela inveja.

Foi o tempo em que vivi livre e sem sobressaltos, sem o luxo que jamais tive, nunca desejei, mas milionário de liberdade e orgulho. Foi o dourado da vitória e de um título que se abria aos meus olhos com a nitidez verdadeira, diferente de uma criança de 8 anos que guarda fragmentos das cenas de sua primeira vez vibrando por uma taça.

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É hoje, 14 de dezembro, que o campeonato de 1983 torna-se um cidadão de 30 anos, senhor de suas responsabilidades, talvez um compenetrado funcionário público concursado, casado, pai de três filhos, morador de um apartamento de dois quartos e propenso a crescer testando em provas as suas aptidões.

O campeonato de 1983 só foi comemorado com a paixão dos iniciantes pela grandeza do adversário. O ABC montou um timaço e o América também contava com uma máquina buscando seu pentacampeonato ainda inédito.

Vivemos – eu e meus amigos alvinegros –, o sofrimento adolescente das gozações ferinas por quatro fracassos consecutivos a partir de 1979, decisão que terminei chorando no estacionamento do estádio consolado por adultos torcedores dos dois clubes. Era uma criança e crianças comoviam naquele tempo. Transbordavam verdade sentimental.

Nos dois primeiros anos, o América venceu o ABC nos pênaltis após empates em 0×0 no tempo regulamentar e na prorrogação. Nos tiros livres, 4×2. Pontaria vermelha lembrava a dos atiradores de elite da KGB, polícia secreta da então União Soviética, temida na Guerra Fria contra os Estados Unidos.

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Em 1981, o América perdeu o primeiro turno para o ABC que contratava mal. O América acertava na malandragem dos seus cartolas e o alvinegro parecia um convento de bem intencionados e conformados com um vexatório terceiro lugar quando o campeonato acabou. América tricampeão.

Eleições diretas para governador voltaram em 1982 e no Rio Grande do Norte, o mito Aluízio Alves perdeu para o jovem ex-prefeito de Natal José Agripino Maia. Meu pai saiu candidato pelo PT, o PT pobre e visionário, andando pelo Estado afora com uma Kombi e sem nenhuma estrutura. Obteve exatos 3.207 votos, público de um ABC x Ferroviário, em dia de dilúvio, uma sexta-feira, por exemplo.

O América venceu de ponta a ponta, como se fosse uma máquina Caterpillar. Invicto, demoliu seus adversários com o gigante Rafael no gol, o solista Ailton no meio-campo, o ponta Curió e o musicista centroavante Silva, o melhor que já pisou em terras potiguares, driblando e fazendo gol de biquinho de chuteira.

Tetra. O tetra que a seleção de Telê Santana perdera para a Itália em julho, chegou para o América em dezembro num trenó direto para a sede social da Avenida Rodrigues Alves.

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O ABC começou 1983 fora de qualquer competição. Terminara em terceiro o Estadual e foi juntando os cacos da autoestima. Seu novo presidente, Rui Barbosa da Costa, andava de camisa 10 da seleção brasileira e fora eleito deputado estadual. Jogava futebol no time de sua empresa de vigilância, a Emserv. Assim que prometeu quebrar a hegemonia do América, foi tratado com deboche.

Respondeu trazendo Silva, ex-América. Para formar a grande dupla de área do Castelão (Machadão) com o meia-atacante Marinho Apolônio, versão mais próxima do que foi Alberi. Rui contratou Dedé de Dora, um meia-armador canhoto de Currais Novos, ironizado pelo apelido ostensivamente brejeiro.

Rui Barbosa mandou buscar o lateral-direito Alexandre Cearense, campeão brasileiro pelo Guarani em 1978, o goleiro Lulinha, famoso no Ceará, de onde também vieram o volante Nicácio e o lateral-esquerdo Dudé.

O ABC quebrou tabu de três anos sem ganhar do América aplicando 4×2 no primeiro turno que ganhou fácil, assim como o segundo veio em ritmo de gole de cachaça em boteco. Já estavam no time o quarto-zagueiro Alexandre Mineiro e o ponta-direita Curió, além do veterano atacante Reinaldo, para fazer sombra ao ponta-esquerda Djalma, driblador e de chute potente, trazido do Alecrim. De casa no time titular, o vigoroso zagueiro Joel.

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Cansei de levar puxões de orelha. Pensava nos jogos, nos treinos, nas escalações, nas contratações, nas noites insones do sábado para o domingo, que começava na respiração ofegante até o apito final. Assistia em lugar privilegiado, ao lado do meu pai, comentarista de rádio.

O ABC deu um cochilo e o América se reforçou, trazendo de novo o meia Ailton, o zagueiro Otávio Souto, o ponta Amílton Rocha, ex-Palmeiras, e os atacantes Alcino, um gigante baderneiro e Tião Marçal. Deu América, no terceiro turno.

“É marmelada!”, gritava o exaltado no Grande Ponto, centro de Natal, sem aceitar a reação rubra e insistindo na desculpa da busca do dinheiro das rendas pelos clubes. O fato é que a decisão foi nervosa. O América fez 1×0 com Ailton, logo aos 3 minutos. Se fechou. O ABC, desordenado, demorou a se articular. O goleiro Rafael cimentou as traves com defesas desproporcionais à sua estatura de Sansão. Pegava tudo.

Até os 42 minutos do segundo tempo, quando Silva entrou na área, gingando, e chutou a primeira vez. Estádio em silêncio. Rafael esticou o braço e espalmou caído.

A bola, caprichosa e volúvel, se ofereceu de novo a Silva, que tocou devagar, rede balançando em câmera lenta, como se vingasse cada tristeza acumulada. ABC 1×1 e campeão. A narrativa do lance é baseada na reprise da TV-Universitária no dia seguinte. Na hora, eu estava agachado, sozinho, aflito, reivindicando o fim do mundo.

 

 

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