Santa Maria, dos Asfixiados
A fatalidade em sua crueza seria a sentença implacável do destino. Alan Kardec aborda o assunto em um dos capítulos do seu Livro dos Espíritos, de forma indiscutível, sumária, quase transformando a vida num martelar de tribunal. Estive próximo à linha espiritualista embora seja distante das religiões, especialmente daquelas que tiram dinheiro de pobre e abusam de sua ignorância, de sua boa fé.
Para os miseráveis, crença é analgésico. Se houvesse justiça, haveria na terra, e sem segregação entre milionários e aqueles que imploram um copo de água para beber ou uma farofa com carne de charque em lata de Goiabada Cascão.
A pilha de corpos de meninos da faixa etária do meu filho mais velho desmente teorias sobre fatalidade. O destino pode até estar desenhado para um, dois ou dez, mas para mais de 230 numa noite apenas para agonia de seus pais é demais apelar para explicações extraterrenas.
Alex Medeiros escreveu ontem um texto emocional sobre o assunto. Confessou que jornalista é gente e sofre, chora, ao contrário do que dizem alguns pernósticos especialmente iniciantes que jamais viram um cadáver com vísceras expostas ou cabeça separada do pescoço ao vivo e em tintas vermelhas. A eles, a profissão e a vida ensinarão um bocado em pancada cotidiana e em choque de realidade.
Aprendi a ter medo de fatalidade ainda criança. Morro de medo de circo e o medo não me envergonha. O medo é instinto de defesa. Desde que assinavam a extinta Revista Manchete em nossa família e, a cada ano, Adolpho Bloch, estupendo vendedor de publicações caprichava na lembrança do incêndio do Gran Circus Norte-Americano em Niterói, líder no ranking macabro brasileiro.
Três bandidos, contratados para ajudar na montagem da lona, tocaram fogo no espaço superlotado. Morreram em 1961 , na hora, 372 pessoas e calculam-se que o total tenha chegado a 500 incluídos os hospitalizados. Entrava em circo(acho que umas duas ou três vezes), em pânico absoluto e silêncio alerta, temendo a presença sinistra de um incendiário.
O caso de Niterói não foi uma fatalidade, mas um crime associado à cobiça do dono do circo apodrecido pelo lucro fácil e mantando entrar gente muito mais do que a capacidade permitia. Nunca me chamem a um circo, já me bastam as palhaçadas sem graça cometidas por gente maquiada pela própria face falsificada.
Em Santa Maria, a dos Asfixiados, as imagens me fizeram um Zumbi em pleno domingo de futebol. Um bombeiro retirava do bolso da calça de um menino magro e musculatura em formação, sem camisa, um aparelho celular. Pensei nos telefonemas dos seus pais tão logo o fogo consumiu a boate.
Boate que funcionava sem licença, alvará, irresponsabilidades lembradas somente depois que os mortos foram sendo enfileirados ao chão para seguir em caixões ao ginásio, parando o Brasil numa tristeza perplexa e imóvel. Moviam-se apenas as lágrimas do Oiapoque ao Chuí.
Jamais terá sido fatalidade o caso de Santa Maria dos Asfixiados. Depoimentos informam que bombeiros tiveram dificuldades de chegar à retaguarda do local pela intensidade do fogo e a escuridão.
Muitos teriam morrido no breu, como afogados pelas labaredas do desespero, meninos tentando salvar uns aos outros e indo juntos em agonia, na perversa falta de ar, para a morte inexplicável.
Inexplicável, sim, inexplicável. Consolar em orações os pais daqueles adolescentes inertes e em expressões de terror é, como foi escrito antes, leniência, um velho mertiolate para a alma rasgada. Foram mais de 230 falecidos e pelo menos outros 600 mortos-vivos. Gente para quem a razão de amanhecer, acabou.
Fatalidade é lembrar do amigo perdido(ele) aos 15 anos, em pleno vigor da doce inconsequência ao receber uma moto potente e se espatifar na avenida mais movimentada de Natal. Nunca fatalidade e jamais jogar a culpa nos familiares que erraram sem intenção e encostam o travesseiro junto ao imaginário rosto magro do garoto.
O Brasil é um país de ufanismos e dores coletivas. É um gigante passional de perdões, pecados, crimes e culpados. Aos mortos de Santa Maria, dos Asfixiados, o silêncio do respeito, se é que o descanso consolará o peito dilacerado de quem ficou.
É assim
Depois das mortes em Santa Maria, passaremos uns 15 dias de fiscalizações e blitz por boates, bares, casas noturnas, teatros e estádios. Depois, volta tudo ao normal. Ou seja, tudo volta à bagunça, ao descumprimento elementar das regras.
Rodízio
O rodízio adotado pelo técnico do América, Roberto Fernandes, deve ser para conhecer o elenco inteiro e a qualidade de cada um em 2013. Se for para ganhar campeonato, é preciso ter um time definido, entrosado e forte, sem mudanças o tempo todo.
Pichação
Picharam muros do ABC. Quem pichou, além de tomar uma atitude irresponsável, é burro. O patrimônio do clube deve ser preservado, expandido, melhorado. O patrimônio não é culpado pelas besteiras que a diretoria possa fazer.
No Castelão
Em Fortaleza, domingo, a PM levou em cana um baderneiro com a camisa do Sport – não é um torcedor do Sport – que quebrou uma cadeira no dia da inauguração de um dos estádios para a Copa do Mundo. Deveria pagar o estrago do próprio bolso ou em serviço comunitário, tipo, lavar cueca de presidiário.
W2
Washington, o homem de 50 mil reais e aproveitamento de 50 centavos, fez os seus dois primeiros gols pelo Brasiliense ao vencer o Brazlândia por 2×0. O Brazlândia deve ser um Barcelona. Romarinho, filho do Romário verdadeiro, mais uma vez passou em branco. Ainda donzelo.
Leandrão
Pelo twitter, o centroavante Leandrão enfrentou o Superintentende de Futebol do ABC, Gustavo Mendes e desmentiu que tivesse ido para o Rio Branco por conta própria, como anunciou o cartola. Leandrão afirmou que Mendes declarou não ter dinheiro para cobrir a proposta.
Aliás
Quem conhece bem o Superintendente Gustavo Mendes, o poderoso homem do futebol do ABC(que vai pagando caro por ele), é o técnico do América, Roberto Fernandes. No Náutico, Mendes quis peitar Fernandes e perdeu o emprego.
Judas
No dia 2 de fevereiro, sábado, tem prévia carnavalesca do Bloco Viúvas de Judas Tadeu, confraria que homenageia o ex-presidente do ABC. Em Pirangi do Norte saindo do Bar do Suvaco às 14 horas. Judas começou a reunir o grupo num bar e terminou em frevo.


