A arte do desencontro

Convenhamos: não foi só um desencontro de horários o que acabou levando o desembargador Virgílio Macedo Júnior a determinar a…

Convenhamos: não foi só um desencontro de horários o que acabou levando o desembargador Virgílio Macedo Júnior a determinar a prisão de dois secretários. Como não foi a razão que motivou a passeata dos médicos. Nem tampouco os números desastrosos colhidos na manhã de ontem na planilha da Consult. Ou melhor: e foi. Afinal, o governo tem feito do desencontro sua maior marca ao longo de dois anos, sem conseguir encontrar a sintonia política estável com os governados e a classe política.

Parece exagero, mas não é. O governo fundou-se na opinião pública nas primeiras semanas de sua gestão estabelecendo não um conflito de opinião, até seria natural, no trato com os funcionários do Estado. Deflagrou uma guerra, sob o pálio de ameaças, declaradas umas e veladas outras, na sua tola teimosia de substituir a negociação pela luta. Instalou-se no coronelismo jurídico do tipo que preferia levar a discussão para o Fórum como se lá fosse mais fácil vencer os fracos e destituir seus direitos.

Assim, não apenas fechou as portas sem abrigar em seu próprio território a discussão num bom exercício democrático, como se negou, naquela hora, a honrar o próprio estilo que escolhera para ser a sua marca. Ou seja: pagou a chamada Parcela Autônoma aos magistrados, procuradores, conselheiros e parlamentares, dividindo o governo em fortes e fracos, para só agora tentar demonstrar o que diz ser um colapso financeiro usando sua força para cortar dos pequenos vetando planos de cargos e salários.

Pior: pressionado pelas greves das categorias numerosas, acabou negociando com as polícias militar e civil e os professores, como se a partir dali pudesse negar às outras categorias a isonomia de um direito garantido também por lei. Ergueu o escudo da Lei de Responsabilidade com seu Limite Prudencial, mas as exceções nascidas da concessão às outras categorias já era a jurisprudência que os advogados precisavam levar aos tribunais daqui e Brasília, numa barafunda de crassos desencontros.

Seu modelo mais do que centralizador, do tipo que transforma a opinião pessoal no legal e no ilegal, acima das leis e do bom senso político, ainda paga o preço de arrastar vozes desencontradas, mas dissonantes do regime democrático que, bem ou mal, a sociedade conquistou. Vozes sussurradas do outro lado das cortinas dos gabinetes, invisíveis, sectárias e serviçais, mas que parecem agradar a quem pode transformá-las em decisão. Uma receita desastrosa que degrada a sua própria imagem.

Aos dois anos, o Governo Rosalba Ciarlini tem 86% de rejeição dos natalenses, mais do que o percentual da então prefeita Micarla de Sousa aos 24 meses de gestão; e 71% no Estado, marcas bem mais elevadas que as nas pesquisas anteriores. Resta saber se os números substituirão a força das vozes invisíveis. Se substituírem, terá tempo de ajustar a sua postura para posicionamentos sintonizados com a sociedade. Do contrário, as vozes continuarão sussurrando, mas como um triste réquiem de adeus.

 

ESCAPE – I
Bem engendrada, embora não tenha colado, a versão que um desencontro de horário levou a Justiça a não saber a tempo que o Governo cumpria a sentença depositando o salário devido aos funcionários.

BARREIRA – II
Teria sido perfeito se na defesa dos servidores não estivesse o advogado João Élder Cavalcanti, um dos mais competentes profissionais do Direito do Trabalho. Com o destemor de defender os seus clientes.

DEPOIS – III
O governo esqueceu que teve bastante prazo e manteve alegação de limite prudencial e pagou a três grupos: polícia militar, civil e professores, caracterizando o desejo de relegar as pequenas categorias.

TANTO – IV
Que, em Brasília, junto ao Superior Tribunal de Justiça, o argumento do limite prudencial sequer foi levado em consideração diante dos pagamentos feitos dentro dos mesmos planos de cargos e salários.

ALIÁS – V
A contradição de argumento do Governo estava exposta na Nota Oficial ao contestar a sentença de um desembargador e na decisão da Justiça suspendendo o pedido de prisão e fixando o prazo de 48 horas.

EFEITO – VI
O episódio garantiu os aumentos dos funcionários do Idema e Fundação José Augusto e pode derrubar os nove vetos aos orçamentos do Poder Judiciário e Ministério Público que mandou para a Assembléia.

PESO – VII
O governo sente o peso de três grandes derrotas nascidas de erros cometidos nos últimos dias: a reação dos médicos ameaçados de punição; a derrota acachapante na Justiça e sua rejeição que bate recorde.

ANOTEM
Anotem e deixem que o tempo construa o que hoje ainda parece invisível: o wilmismo não anda tão feliz assim nos corredores do Palácio Felipe Camarão. É que lá o chefe da tribo é também o feiticeiro.

ATENÇÃO
Um enorme terreno foi cercado de repente bem abaixo da Ponte Newton Navarro, em plena área de servidão reservada quando de sua construção. A ponte é estadual, portanto, cabe ao Estado fiscalizar.

GESTO
É injusta a crítica, se é que aconteceu, contra o gesto da governadora Rosalba Ciarlini ao abrigar seus dois secretários na residência oficial quando estavam com mandado de prisão. Ora, amigo faz assim.

AVISO
O longo e forte bombardeio sobre o deputado Henrique Alves não impedirá sua eleição à presidência da Câmara Federal. Mas obriga o deputado a fazer uma gestão exemplar e exemplarmente edificante.

BOLSA
Há quem admita na governadoria que o médico Isaú Gerino perdeu as condições políticas para tocar a Secretaria da Saúde por absoluta falta de diálogo com a categoria. Mas só sairá se ele mesmo desejar.

MAIS
Também não é confortável a condição do secretário de segurança, Aldair da Rocha. Delegado federal de carreira, ainda assim a segurança é a segunda posição mais forte de desgaste do governo Rosalba.

LIVRO
Thiago Gonzaga autografa amanhã, na Livraria Nobel, ali de frente ao Hospital Walfredo Gurgel – na Av. Salgado Filho, 1782, início da noite, seu livro ‘Literatura ETC. – Conversas com Manoel Onofre’.

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