A carne e o espírito
Veja Senhor Redator, o quanto é trabalhoso viver. Nem rompia a manhã e já andava de olhos enfiados nessas estantes a procura de consultar a Bíblia. Sabia de cor da advertência do Evangelho de Mateus, mas queria em latim. No seu capítulo 26, versículo 41. Encontrei: ‘Spiritus promptus este, caro autem infirma’. Ou seja, em claro e singelo português para quem duvidar: o espírito está sempre preparado, mas a carne é fraca. Nestes tempos medonhos de hoje, creia, a carne anda fraca e perigosa.
Joguei longe a soberba de duvidar do seu poder. Acho até – se não parecer blasfêmia – que a carne é pecadora porque nela foi plantada a flor do prazer. O espírito muitas vezes resiste às tentações, mas, como já dizia Mário de Andrade, é fascinante não resistir. Tudo começou no Paraíso. Eva, um belo símbolo da fraqueza, não viu pecado na serpente naquela hora de intensos desejos. Nem foi culpa de Adão, injustamente acusado de manicaca. E Deus sabia do perigo. Por isso, não nos abandonou.
Danado é quem duvida da carne, Senhor Redator. Não diria como o poeta Shelley, ao lançar o olhar sobre a medusa, que ali está o tempestuoso encanto do horror. Se a beleza e o medo são divinos, quando pousados sobre uma mulher bonita, tanto mais perigoso. A carne é triste, mas voluptuosa. Por isso, deve ter mesmo os enigmas de que fala Baudelaire. Embora criados por Deus, algumas vezes parecem coisas do velho Demônio, como se o sagrado e o profano lutassem dentro da alma humana.
Uma vez, conversando com Odilon Ribeiro Coutinho numa manhã de verão luminoso, em Areia Preta, ele reclamou da indiferença dos jovens diante dos romances de José Lins do Rego e dos versos sensuais de Manuel Bandeira. Citou Gilberto Freyre – o rangido da cama de vento exalando o odor do sexo nas senzalas, e anotei na memória ao citar Carlos Lacerda para lembrar que, em Tróia, os soldados arriavam suas lanças para verem passar, sobre os muros da cidade sitiada, a beleza de Helena.
Acho até que muito mais pelo falso pudor do que por qualquer outra razão mais justa, a nudez foi condenada pelos olhos obscenos de uma falsa moralidade que durante séculos dominou o mundo com seu gosto obsceno vendo na carne nua a imagem do pecado. O erótico acabou confundido com o imoral. Mesmo no romantismo, os romances com cenas fortes de sexo eram quase sempre proibidos e nas bibliotecas as bibliotecárias ruborizavam quando alguém pedia um livro de Marquês de Sade.
Fui do tempo, naquele Atheneu de noturnas imaginações, das revistas suecas andando de mão em mão, e dos livros de Cassandra Rios e Adelaide Carraro que vagavam pelos seus corredores como fantasmas proibidos aos olhos das meninas. Tudo parecia ser coisa do Demônio. Só alguns anos depois, a nudez saltou das revistas e dos livros e caiu livremente nos olhos do mundo. Mas a carne, essa não. Até hoje mantém seu misterioso encantamento. Entre Deus e o Diabo. Como dois lobos.
RECADO – I
Ao lutar por Fábio Faria para ser o segundo vice da chapa o deputado Henrique Alves manda um aviso a quem interessar: o PMDB não é herdeiro dos adversários do governo. Nem como forma de agradar.
EFEITO – II
Com isso não significa que fará uma aliança com o PSD de Robinson Faria até pela chance real de ter um candidato próprio, mas fixa uma posição política: não esquece seus aliados quando chega ao poder.
ALIÁS – III
A governadora Rosalba Ciarlini que chegou ao governo como a candidata da classe política prefere o isolamento a prestigiar os aliados. Todos os partidos reclamam do seu descaso. Até o próprio DEM.
BLOQUEIO – I
Não pode ser apenas um erro do governo Rosalba Ciarlini não cumprir decisões judiciais. Parece ser o seu estilo. Não quer pagar aos funcionários da Fundação José Augusto nem por determinação judicial.
PROSÃO – II
Foi público e constrangedor o pedido de prisão dos secretários de administração e planejamento e as 48 horas de prazo. O governo acintosamente descumpre a palavra com servidores e a própria Justiça.
AGORA – III
Resultado: a Justiça bloqueia R$ 5,5 milhões de reais da conta do governo para pagar aos salários da Fundação José Augusto. Sem falar na decisão do Idema que também recebeu uma sentença favorável.
ISTO – IV
Depois de nove vetos ao orçamento, recuar, sentar com o Judiciário e o Legislativo e prometer pagar, de novo se volta contra os fracos dizendo que deseja um RN melhor. E se desejasse pior, como seria?
ATENÇÃO
O governo pode ter novo confronto com professores se não cumprir compromissos que acertou quando da última negociação com a categoria. Mesmo que a secretária Betânia Ramalho afirme não acreditar.
MOSTEIRO
As irmãs do Carmelo de Nossa Senhora do Sorriso querem inaugurar dia 19 de março seu mosteiro em Emaús, perto do Cemitério Morada da Paz. Atualmente estão hospedadas na casa de campo do clero.
DATA
Não vai haver festa nos 20 anos de pároco do padre José Freitas Campos na paróquia de S. Sebastião, na Avenida 9. O seu povo é humilde como sua paróquia, onde padre Campos professa seu ministério.
QUEDA
Mesmo com a beleza e o bom gosto, o acesso ao altar da Igreja Matriz, na Praça André de Albuquerque não é tão fácil. Monsenhor Lucas Batista foi o quarto padre a tropeçar e cair nos degraus.
CARNAVAL
O maior perigo contra o carnaval, festa profana e pecadora, é vivê-lo com humildade, superação e resignação, como anunciam. As fantasias viram mortalhas escondendo a imensa tristeza dos papangus.
FREVO – I
Sábado é o dia de frevo e Rochinha, muito cedo, já mandou deixar aqui uma sombrinha, colares e dois CDs. Ele não sabe frevar, mas ouve com o riso manso. Como se cada frevo falasse ao próprio coração.
ROCHINHA – II
O cronista, comovido, agradece. E confessa, olhando a sombrinha colorida sobre a mesa: os frevos são hinos da infância que um dia dobrou a esquina e nunca mais vai voltou. E receba este abraço que é seu.


