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A Grande Ceia

Data: 21 março 2013 - Hora: 17:50 - Por: Dani Pacheco

Um dos maiores bens conhecidos e estimados do mundo é um afresco de Leonardo da Vinci, “A Última Ceia” criado para a igreja de seu protetor, o Duque Lodovico Sforza. A obra representa a cena da última ceia de Jesus com os apóstolos, antes de ser preso e crucificado como descreve a Bíblia. Está baseada em João 13:21, no qual Jesus anuncia aos doze apóstolos que alguém, entre eles, o trairia. Essa pintura, na história evangélica, é considerada a mais dramática de todas.

E, pelo terceiro ano consecutivo o produtor cultural Lula Belmont realiza a exposição “A Grande Ceia”, com 12 artistas plásticos onde cada um mostrará uma obra livre inspirada na célebre imagem onde Cristo está representado ao centro, com os braços abertos, em um gesto de resignação tranquila, formando o eixo central da composição e ao seu lado encontram as figuras dos discípulos em um ambiente que, do ponto de vista de perspectiva, é exato.

A exposição coletiva acontece Bardallos Comida e Arte (Rua Gonçalves Lêdo -678,Cidade Alta). A abertura da mostra acontece hoje, às 20h e segue até 10 de abril. O horário da visitação será na segunda-feira: das 11h às 15h, de terça à sexta-feira: das 16h à 0h e nos Sábados: a partir das 11h até 0h. A entrada é gratuita.

“A Grande Ceia” que também uma homenagem aos 561 anos do nascimento de Leonardo Da Vinci, conta com obras dos artistas: Allan, Assis Marinho, Assis Costa, Carlos Sérgio Borgess, Lavoisier, Mário Rasec, Rita Machado, Rosa Maciel, Roberto Medeiros, Reinaldo Azevedo, Tiago Vicente e Valderedo.

O JORNAL DE HOJE entrevistou a artista plástica e radialista Rita Machado que contou sobre a concepção da sua obra, seu processo de criação, sentimentos, seu olhar artístico, entre outros. Vale à pena, conferir!

 

O JORNAL DE HOJE – Fale um pouco sobre a sua obra?
Rita Machado – A obra se chama ANOCHE que em português significa ontem à noite. Não gosto muito de titular, mas seria um objeto interativo. Consiste em uma imagem de Jesus de gesso revestido com tecidos e recortes do novo testamento, mais precisamente as palavras de Mateus, Marcos e Lucas ,que são os três dos quatro evangelhos onde A Santa Ceia é descrita de forma mais explícita. No peito dele, o sagrado coração virou um QR-code, um código de barras bidimensional que pode ser facilmente escaneado usando a maioria dos telefones celulares equipados com câmera. Esse código levará o leitor da obra a um vídeo exclusivo todo referenciado na obra do grande Leonardo da Vinci; No qual tento traspor um pouco da inquietude do acontecimento que para muitos é apenas uma simples ceia, que pode facilmente ser pendurado na sala de jantar. Não vou falar muito, quero ouvir a leitura de vocês.

O JORNAL DE HOJE – Como surgiu o convite para participar desta exposição coletiva?
Rita Machado – Já é o segundo ano que sou convidada para participar da exposição “A Grande Ceia´´  em que cada artista recria ao seu modo e estilo a famosa pintura de Leonardo da Vinci  “A Última Ceia´”. Este ano recebi um telefonema do querido Ricardo Nelson que trabalha com Lula Belmont no Bardallos e fiquei muito feliz. Adoro o trabalho dos artistas selecionados e em especial o do artista Mario Rasec, grande amigo que admiro demais e um dos artista potigures que queria que todos pudessem conhecer. Já participei da exposição em 2011 com a obra “Os últimos preparativos para a festa” que retratava no cenário da última ceia de Leonardo apenas Maria Madalena. Essa obra foi adquirida pelo grande professor do qual sou fã, Eduardo Pinto.

O JORNAL DE HOJE – O que lhe motiva expressar seus sentimentos e pensamentos através da arte?
Rita Machado – Os olhares das pessoas. Muitas vezes quero gritar algo e sei que ninguém vai ouvir, as palavras faladas se desmancham muito facilmente com o vento. Vê, muitas vezes, é mais fácil de fixar se não levarmos em consideração a complexidade do alfabetismo visual. Os novos questionamentos que vão surgir com “aquilo” exposto é o que mais me excita. Ver a obra ganhar novos sentidos não tem preço.

O JORNAL DE HOJE – Uma de suas características é sempre se posicionar à frente, isto é, sempre levanta uma questão contemporânea. Fale um pouco da sua visão como artista?
Rita Machado – O novo é perturbador. Muitas vezes me sentir acuada pela modernidade. Sou apaixonada por vinis e máquinas de escrever. Meu primeiro rádio gravador foi aos 10 anos e todos já tinham no bairro; tive que aprender rapidamente para não ficar pra atrás e foi assim com o computador também. Meus primeiros trabalhos na faculdade eram à mão…Isso me levou a ser curiosa e tentar usar ao máximo o novo meio que me é imposto. Gosto dessa briga com o digital. Busco apreender para ter como ferramenta, como arma e o questiono muito. Acho que a arte é um grande questionamento. E quero ter um certo domínio dessas ferramentas para fazer ganhar um sentido/sentir em mim. Foi assim com essa “tecnologia” do QR-code, vi esses códigos em uma embalagem de comida e logo fui pesquisar. Amigos me explicaram como funcionavam e pesquisei sobre o assunto. Descobri que apesar de ter sido lançado no mercado há um tempão, ela é subutilizada; assim, logo pensei em usar em algo que fizesse sentido para mim.

O JORNAL DE HOJE – O que lhe inspira?
Rita Machado – Minha inspiração vem dos “instante-já” (Clarice Lispector), do agora, do sentir… O sorriso e a dor do que vejo, do que sinto. Do texto que se esconde no que vi. Adoro produzir, adoro discutir ideias… Adoro pegar ônibus e observar as ruas. Gosto de ver pessoas, de conversar… sentir o mundo… o mar. Adoro andar! A realidade é muito inspiradora! Adoro ler imagem e faço isso todos os dias, na internet, em meus livros. Busco imagens para palavras aleatórias e monto um dicionário delas em minha mente. Isso me inspira… me leva a caminhos e me conduz a criar. Gosto do que me perturba! Ver muito, ver com todos os sentidos do corpo e da alma.

O JORNAL DE HOJE – E, o que lhe influencia?
Rita Machado – A música brasileira, as palavras que escuto das cores que sinto, as grandes obras que carregam o olhar do tempo, filmes esquisitos e mal pagos, porém mais sentidos, a cultura de um lugar, a feira do Alecrim. E, essencialmente, a semiótica.

O JORNAL DE HOJE – Você também é radialista. Como você concilia as duas profissões?
Rita Machado – Ser radialista é ser artista também. Sou uma apaixonada por Rádio. Não diferencio muito, tento entregar aos dois o máximo de mim e misturar tudo no que faço. Adoro trabalhar com música, editar, conhecer, pesquisar, criar imagens a partir de sons. Imaginar e mexer com a imaginação das pessoas, informar com poesias cantadas com notas e timbres que por si só, já informam. Determinar que trilha compõe aquela informação que quero transmitir. E isso tudo não deixo de lado em meus trabalhos. Também trabalho com vídeos. Estou estudando e pesquisando sobre imagem e dança e os conhecimentos musicas que adquiri com o rádio são essenciais. Recentemente lançamos o vídeo “A paixão” baseado na obra “ a paixão Segundo G.H.” de Clarice Lispector . O Vídeo é o primeiro de uma série que pretendo expor, e tem a belíssima atuação de Charles Sales que transmite, pintando no ar, com gestos e entrega, toda a inquietude presente no obra de Clarice Lispector. Esse vídeo “a paixão” vocês podem conferir no Youtube.

O JORNAL DE HOJE – Rita, conte pra gente, como acontece o seu processo criativo?
Rita Machado – Geralmente penso em algo e bombardeio de ideias e questionamentos. Leio muito e pesquiso bastante sobre o assunto. Ando, revejo e vejo o que quero fazer. Busco vivências, sentir o som, o cheiro e a cor do que produzo.

O JORNAL DE HOJE – Por exemplo, quanto tempo você dedicou a produção da obra selecionada para a exposição?
Rita Machado – Dediquei mais de um mês… Do convite ao dia da Exposição são tantas horas e pensamentos que não sei contabilizar em números. Geralmente quando faço algo me entrego e só penso nisso, por dias e noites. Envolvo meus amigos e família. Minha mãe e seus estudos pedagógicos-neuro-científicos (risos), minha irmã e sua ajuda em descobrir os materiais necessários.  Sou muito perfeccionista – mas prometo que não sou chata – eu juro, é que adoro semiótica e linguística. Procuro sentir e sentidos para tudo; da cola, da cor, da composição à mensagem sem esquecer das várias leituras para aquilo.

O JORNAL DE HOJE – Outro destaque da exposição será a homenagem aos 561 anos de Leonardo da Vinci. Qual a sua opinião sobre ele? E, de alguma forma ele influência na sua obra?
Rita Machado – Leonardo da Vinci é um dos maiores artistas semióticos de todos os tempos, uma pessoa de diversos talentos. Capaz de gerar questionamentos não só na época em que viveu, mas até hoje. Produtor de obras que ganham vida e novas possibilidades a cada segundo. Dono de uma sutileza sem tamanho e que sabia usar todos os conhecimentos apreendidos, sejam biológicos, anatomistas ou matemáticos em sua obra. Gosto demais de ler sobre os seus engenhos. Influência constante com certeza.

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