A Partitura do Canibal
Se você é daqueles que está de saco cheio de histórias de serial killers, esqueça esta resenha. Sério mesmo, entenderei numa boa, diante da enormidade de crimes noticiados diariamente que esgotaram o tema. Depois de Hannibal Lecter (“O Silêncio dos Inocentes”) e John Doe (“Seven – Os Sete Pecados Capitais”), qualquer sanguinário parece ilusionista do Fantástico.
Da mesma forma, vire a página, caso reflexões profundas sobre a existência humana norteiam suas escolhas na hora de consumir produtos culturais. Mas, se seu objetivo é o puro entretenimento literário, “Eu Mato”, de Giorgio Faletti, atenderá expectativas com folga. Suspense, brutalidade, enigmas, detetives problemáticos, tudo o que o gênero pode oferecer – logo na capa, sabemos que o livro vendeu mais de 4 milhões de cópias só na Itália. Uma adaptação para o cinema já foi encomendada.
O cenário é o ultracivilizado Principado de Mônaco, “terra dos esnobes, pavimentada de ouro e indiferença”. Enquanto desarma o circo da Fórmula 1, os ricos monegascos acompanham o programa de rádio chamado Voices, apresentado pelo carismático e cada vez mais influente Jean-Lop Verdier. Maior audiência no microestado, Voices é escolhido como canal difusor do maníaco apelidado pela imprensa de ‘Ninguém’ – por repetir a frase “Sou um e nenhum. Sou ninguém” nas conversas com o radialista. O primeiro diálogo travado entre o locutor e o psicopata é de arrepiar.
Nervoso, tenso sob as trevas que atormentam qualquer mente insana, ‘Ninguém’ avisa o que costuma fazer nas noites angustiantes: “Eu Mato…”. O clima de assombro no estúdio é total. Ao vivo, também em regiões da França e da Itália, a voz sombria se propaga e chega até a polícia, agitada com o assassinato de um piloto de automobilismo em fim de carreira e de sua bela namorada. O afogamento da mulher é fichinha perto da mutilação do galã – a retirada da pele do rosto das vítimas é uma marca registrada.
Enfrentando corporativismo e desconfiança da polícia local, o americano Frank, agente do FBI, vira o principal investigador. Juntamente com o delegado Hulot, são os dois principais personagens da narrativa. A partir do primeiro crime, uma curiosidade é observada no contato do assassino com o programa de rádio: sempre uma música de fundo tem ligação com a identidade das vítimas. No ‘cardápio’, trilha do filme “Um Homem, Uma mulher”, de Claude Leloach, músicas de Carlos Santana, do jazzista Robert Fulton e até de um obscuro DJ italiano.
Acostumados a desvendar queimas de arquivos, mortes por vingança ou rixas, crimes comuns, Frank e Hulot se indagarão: como vencer alguém que luta contra demônios pessoais? Qual a motivação para tanta bestialidade, é que o leitor se perguntará também. A sequência de ações eletrizantes mantém o interesse em alta. Ainda mais quando surge o General Parker, veterano do Vietnã, da Guerra do Golfo, de grande influência no establishment ianque e pai de Arijane, a única mulher morta por Ninguém.
Frank é pressionado para favorecer a vingança do general, ao mesmo tempo em que corre atrás de um assassino que gosta de música e perfeição. Nenhuma pista é encontrada nas cenas dos crimes. Apenas a frase “Eu Mato”, escrita com sangue dos esfolados. No requinte de Mônaco, o som da morte pode estar próximo ou distante, apreciado por ouvintes comuns ou especialistas.
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