A separação do matuto

Êita, qui sodade do matuto João Motta, meu pai! Papai era daquele matuto brabo; qui aprendeu a lê o suficiente…

Êita, qui sodade do matuto João Motta, meu pai! Papai era daquele matuto brabo; qui aprendeu a lê o suficiente mode lê tudo o qui era de jorná qui aparicêsse na sua frente… E minha gente; purêsse simpres mutivo; êle era o qui pudia se chamá de um “arto-didata”; qui sem ir à escola, trabaiô feito doido e “fundô uma firma qui ôtos afundô” aiguns ano adispôi da sua morte; e o ingraçado nisso tudo; se num fôsse trágico; é qui quem afundô sua imprêsa; “num foi o seu fíi alcoólatra e inrresponsáve”… Inda hoje o pobre do véio deve de tá se remexendo de disgôsto, dento da catatumba… Mais, dêxando isso prá lá; ramo falá do qui reaimente tem importânça; dais peripéça do nosso irmãozíin matuto.O matuto é um ser humano tão dispruvido de mardade no seu coração, de uma purêza tão cristalina, qui cunsegue arranjá mutivo prá surrí inté dais suas própria dificulidade, qui muntas vêiz se acumula in Pg, progressão geométrica (valei-me meu quirido e sodoso Professô João Faustino Ferrêra Neto, de quem tenho munto orgúio in tê sido aluno…). Pois é, minha gente! Esse “leriado” é a porta de entrada do nosso causo de hoje. Nuis tempo de antigamente, quando soutian inda era “califon” e King Kong inda era um “sonhíin”; uis hôme e ais muié, nuis seus casamento, era de uma seriedade muntas vezes inté “machucante”… Falá in sexo na frente duis fíi; nem pensá… Um simpres bêjo na bôca, era mutivo suficiente para a obrigatoriedade de um casamento. Uma “lapimbochadazinha de leve”; nem in sonhe; pudia dá inté in morte. O rapaiz, quando robava uma môça. “era môça mêrmo”; tinha cabaço in todos uis buraco do côipo; só num tinha nuis zóio, pruquê chorava p’ru quaiqué bestêra… E tem maise; assim qui robava a dita, cuja, referida (como diria o saudosíssimo Cel. Ludrugero); o rapaiz guardava-a na casa de uma famía de sua cunfiança, inquanto resôivia a questão cum a famía da pretensa noiva. Da casa daquela família, a môça só saia p’rú o cartóro ou prá igreja… Pois bem, conta a sabedoria do Zé Povo, qui um casá criado nesses padrão de cumportamento, brigô e resôiveu se separá. O hôme, se era “grosso qui só papé de inrrolá prego; a muié dizia; sai da frente qui eu quero passá”… E do jeito qui era cumpricado o casamento, era cumpricado se discasá tombém; tinha qui tê a assistênça jurídica p’rú riba de pau e peda… E êsse casá, de pôcas posse, procurô um “adevogado sem fóimação universitára, ô sêja, um rábula” mode vê se cunsiguia ficá livre, um do ôto… E êsse adevogado qui foi procurado, era tipo meu quirido e sodoso amigo Ramiro Pereira da Silva, de Lages-RN; o Ramiro Capitão; cuja inrreverênça chegô nêle e parô. E fôro dereto ao interrogatóro de praxe, quando o rábula se dirigiu aos dois:

- Por que vocês estão querendo se separar ? Não tem jeito de fazerem as pazes não ?

A muié foi quem arrespostô premêro:

- De jeito e qualidade; esse véio, dispôi duis setenta, só qué vivê puros putêro de bêra de istrada; fora de casa é um leão; dento de casa é um rato numa casa de ferrage; num come naaaada…

- E você, meu amigo o que tem a me dizer ?

- É isso mêrmo; ela num tá mintindo não.

- Então vocês estão dispostos a se separarem mesmo ?

- Tamo; e logo.

- O que é que vocês tem para ser dividido ?

O homem gritou logo:

- Eu num tenho porra ninhuma; só a vida aperriada junto dessa muié…

- E a senhora, tem alguma coisa?

- Munto mais pió; eu só tenho disgôsto e má lembrança do tempo qui passei cum êsse peste.

Então, o rábula, depois de pensar um pouco, disparou:

- A questão é munto tôla;

aqui mêrmo eu lhes disquito.

Fique você cum sua rôla.

e você, cum seu priquito!…

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