Abuso sexual mancha legado de João Paulo 2º, que será canonizado dia 27 de abril

Papa polonês e seus conselheiros fracassaram em entender problema até muito tarde em seu pontificado de 26 anos

Papa João Paulo 2º (D) é ajudado por seu secretário pessoal, Stanislaw Dziwisz, ao chegar em Como, 2C norte da Itália. Foto: Divulgação
Papa João Paulo 2º (D) é ajudado por seu secretário pessoal, Stanislaw Dziwisz, ao chegar em Como, 2C norte da Itália. Foto: Divulgação

O papa João Paulo 2º corretamente recebe os créditos por ter ajudado a pôr fim ao comunismo, por inspirar uma nova geração de católicos com um papado de tours globais e por explicar o ensinamento da igreja em várias questões delicadas enquanto a cristandade entrava no terceiro milênio.

Mas o escândalo de abuso sexual que aconteceu sob seu papado continua uma mancha em seu legado.

João Paulo e seus principais conselheiros fracassaram em compreender a severidade do problema do abuso até muito tarde em seu pontificado de 26 anos, apesar de bispos nos EUA terem pedido à Santa Sé desde o final dos anos 1980 por uma forma mais rápida de excomungar padres pedófilos.

Acredita-se que a experiência de João Paulo na Polônia sob o comunismo e o regime nazista, onde padres inocentes eram frequentemente desacreditados por acusações falsas, tenha influenciado sua defesa geral do clero. O êxodo do clero depois dos turbulentos anos 1960 igualmente lhe fez querer manter os padres que ainda tinha.

O papa Francisco herdou o fracasso mais notório de João Paulo no front do abuso sexual — a ordem da Legião de Cristo que João Paulo e seus principais conselheiros apresentavam como modelo. Francisco, que canonizará João Paulo no domingo (27), deve decidir se assinará o três anos de reforma do projeto do Vaticano, imposto depois que a Legião admitiu que seu fundador morto abusou sexualmente de seus seminaristas e teve três filhos.

Apesar disso, a admissão feita em 2009 pela Legião sobre a vida dupla do reverendo Marcial Maciel de nenhuma forma foi novidade para o Vaticano.

Documentos dos arquivos da então Congregação Sagrada para as Religiões do Vaticano mostra como uma sucessão de papados — incluindo o de João 23, que também será canonizado no domingo — simplesmente fingiram que não viram relatos críveis de que Maciel era um vigarista, dependente de drogas, pedófilo e uma fraude religiosa.

Até 1948, sete anos depois de ele ter fundado a ordem, a Santa Sé tinha documentos de enviados e bispos nomeados pelo Vaticano no México e Espanha questionando a legitimidade da ordenação de Maciel (pelo seu tio, depois que ele havia sido expulso de vários seminários), pontuando a questionável base legal da fundação de sua ordem e sinalizando seu comportamento “totalitário” e violações espirituais de seus seminaristas jovens.

Os documentos mostram que a Santa Sé estava bem ciente da dependência de drogas, abuso sexual e incorreções financeiras de Maciel já no início de 1956, quando ordenou uma investigação inicial e o suspendeu por dois anos para que se livrasse do hábito de consumir morfina.

Durante décadas no entanto, graças à habilidade de Maciel de manter seus próprios padres em silêncio, sua previdência em colocar confiáveis padres da Legião em escritórios-chave do Vaticano e ao cuidado com que cultivou cardeais do Vaticano, bispos mexicanos e poderosos e ricos católicos seculares, Roma fingiu que não viu. Em vez disso, as autoridades do Vaticano estavam impressionadas com a ortodoxia de seus padres e com a habilidade de Maciel de atrair novos pendores religiosos e doações.

João Paulo, que em 1994 elogiou Maciel como um “eficaz guia para a juventude”, não estava sozinho em ser enganado. Seus principais conselheiros foram alguns dos mais fiéis partidários de Maciel, convencidos de que as acusações contra ele eram típicas “calúnias” lançadas contra um grande santo.

Em 2008, dois anos depois que o Vaticano o sentenciou a uma vida de penitência e prece por abusar sexualmente de seus seminaristas, o número 2 de João Paulo 2º, cardeal Angelo Sodano, ainda elogiava o espírito de Maciel e sua “humildade” em se afastar depois que o Vaticano finalmente o confrontou com as acusações.

O prefeito de João Paulo na Congregação para as Religiões, cardeal Franc Rode, disse aos padres da Legião que naquele mesmo ano ele havia absolvido Maciel e enaltecido os bons “frutos” que a Legião de Maciel deu à Igreja.

A fraude de Maciel, um dos maiores escândalos da Igreja Católica no século 20, levanta questões desconfortáveis para o Vaticano hoje sobre quantas pessoas podem ter sido enganadas por tanto tempo. Também levanta as questões de como a estrutura, os valores e as prioridades da própria Igreja permitiram que uma ordem similar a um culto crescesse a partir de dentro e sobre quão longe a prestação de contas sobre os danos deve ir.

Finalmente, ela implora a questão sobre se a ordem realmente foi limpa de todos os abusos que permitiram a gerações de padres submeter-se à ordem cega a um falso profeta.

Em seu livro de 2013 “Vivi com um Santo”, o assessor de longa data polonês de João Paulo, cardeal Stanislaw Dziwisz, disse que seu papa não sabia “nada, absolutamente nada” dos crimes de Maciel. Ele culpou a “estrutura extremamente burocrática” do Vaticano por impedir que tal informação chegasse a João Paulo e negou que seu pontífice tenha sido lento em reagir ao abuso sexual.

Juan Vaca discorda. Vaca era o superior da Legião nos EUA de 1971 a 1976, quando deixou a ordem e se uniu à diocese de Rockville Center, Nova York. Em 1979, um ano depois da eleição de João Paulo, o bispo de Vaca enviou à Congregação para as Religiões vários documentos explosivos em que Vaca e outro ex-padre da Legião detalharam os abusos que eles e outros 19 padres passaram nas mãos de Maciel.

Mais tarde ele foi um de seis legionários que apresentaram um caso canônico contra Maciel no Vaticano em 1998. Demorou oito anos — e a morte de João Paulo — para que o papa Bento 16 punisse Maciel.

“Sinto-me mais uma vez ultrajado e furioso com sentimentos de decepção e rebelião perante o processo de circo para transformar em ‘santo’ um papa que nada fez para preservar a Igreja Católica e a sociedade da crise horrorosa infligida contra elas pelo abuso sexual do clero católico”, disse Vaca por email à Associated Press.

Vaca questionou por que Francisco “seguia a mesma decisão dúbia — iniciada por Bento 16 — de transformar em santo com tanta urgência uma personalidade que esteve envolvida em uma cumplicidade voluntária ou em uma ignorância irresponsável em relação a Maciel”.

Fonte: IG

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