Acerto de contas – Rubens Lemos

O confronto de tradição nas quartas de final da Copa do Mundo será Alemanha contra a França. É uma história…

O confronto de tradição nas quartas de final da Copa do Mundo será Alemanha contra a França. É uma história por terminar. O vigor Panzer venceu o charme de Champs-Élysées em duas cutiladas do destino. A Alemanha não mereceu em 1982 e nem tanto quatro anos depois.

A entourage de Pogba, Valbuena e Benzema pode reparar pecados cruéis da ciranda boleira. É jogo imprevisível contra os assustadores e indiferentes alemães de Muller e do goleiro Neuer, homens gélidos e descendentes de uma história de resistência e recuperação em mundiais.

O Brasil maravilhoso de Telê Santana, Zico, Sócrates e Falcão, sobre o qual escrevo abaixo ao lembrar a sua vitória mais bela e emblemática, havia sido abatido pela Azurra de Paolo Rossi.

A Itália engrenava depois de campanha medíocre, jogando um futebol duro e com repentes de refino em craques do nível de Antognioni, Scirea, Tardelli, Bruno Conti e o lateral-esquerdo Cabrini, o do cruzamento para o primeiro de Paolo Rossi subindo alto enquanto o quarto-zagueiro Luizinho grudava no chão do Sarriá em Barcelona.

A França de 1982 era a geração frustrante de 1978 amadurecida, liderada por um fleumático Michel Platini no esplendor dos 28 anos e toques traçados no impressionismo de Monet. A França perdeu para a Inglaterra na estreia, parecia repetir o fracasso e resolveu transformar a Copa numa brincadeira levemente séria.

Haja tocar a bola. Abusava na postura modelar da superioridade sem abusos, nos dribles sensuais e na opção ortodoxa pelo jogo ofensivo. O mundo torcia por uma final Brasil x França.

Os galos azuis poderiam amenizar nosso sofrimento de morte pela geração dourada e efêmera em tantos anos de imitação ridícula do jeito horroroso do pior da escola europeia, a marcação tosca e réplica barata do rúgbi.

A França chegou à semifinal contra a Alemanha e encheu de ternura o planeta sensível diante de tanto despojamento tático. O importante era criar e enfeitiçar de desembaraço um jogo eliminatório, que para os alemães nunca deixou de ser a conjunção militar da disciplina e da seriedade.

O jogo marcial dos alemães, porém, virou selvageria na agressão do goleiro Schumacher ao meia Battiston, uma cena covarde e gatilho para a indignação no Estádio de Sevilha chegar ao clímax.

Quando estava 1×1 e o magro Battiston entrou livre para desempatar nos 90 minutos, Shumacher assassinou qualquer princípio esportivo e aplicou uma tesoura voadora no adversário.

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A deslealdade é a mais espantosa das Copas pela impunidade. Shumacher meteu o pé na cabeça de Battiston. O francês caiu como quem leva um tiro certeiro. Parecia defunto de boletim de ocorrência. O árbitro mandou o lance seguir, não marcou pênalti e Shumacher sorriu para as câmeras com semblante de soldado da SS, a impiedosa força paramilitar da Segunda Guerra.

De maca, Battiston deixava o estádio direto para a UTI. Sofreu concussão cerebral, quebrou vértebras, dentes e passou seis meses sem jogar. Shumacher ficou onde estava.

A mordida do uruguaio Luís Suárez no italiano em 2014 é beijo na boca se comparada ao que ocorreu há 32 anos. A Itália daria o troco enfiando três em Shumacher na decisão e Maradona ganharia 1986 em cima dele.

Indignada, a França recompôs sua orquestra e jogou pelo companheiro abatido. O jogo foi para a prorrogação. O magnífico líbero Trésor, um negro imenso e desgarrado de funções defensivas, justificou o sinônimo francês do seu batismo: Tesouro e acertou um chute forte, no ângulo de Shumacher. França 1×0. Alemães em assustadora naturalidade.

Bola de pé em pé, estádio inteiro vibrando como se o Brasil lá estivesse, transcendental, de Rocheteau para Platini, do camisa 10 a Didier Six, de Six ao caprichoso Giresse: França 2×0 na prorrogação e a vã convicção de que tudo havia acabado.

Os alemães incorporaram os antepassados de 1954, que viraram um jogo perdido para a Hungria de Puskas. Num vacilo dos bléus, o zagueiro Foerster diminuiu para 3×2 sem comemorar. Pegou a bola e correu para adiantar o recomeço do jogo. Com o astro Rumennigge em campo, machucado, a Alemanha pressionou, a França não resistiu e Fischer empatou: 2×2 na prorrogação.

Na decisão por pênaltis, empate na primeira série por 4×4. Shumacher, vilão premiado, segurou o chute de Bossis e o gigante Hrubesch selou um final tão injusto quanto o de Brasil contra a Itália.

A Alemanha foi vice como também seria em 1986, eliminando outra vez a França, por 2×0, graças a um frangaço do goleiro Bats, carrasco do Brasil. Combinações de fatalismo dramatizam o universo do futebol. Sexta, a Agradável França pode mudar o roteiro. A Alemanha é um pouquinho diferente. O que não serve para animar. É melhor e (até mais) pragmática.

Primeiros nas quartas

Os oito classificados para as quartas de final foram primeiros colocados em seus grupos na primeira fase. Sem exceção, passaram os melhores. O que aconteceu nas oitavas, jogos equilibrados e até injustos ao final, vira estatística.

Messi

Xingar a Argentina e desancar Messi não vai mudar o destino do Brasil na Copa. Messi parece que que escuta cornetas em protesto e decide resolver no fim.

Homenagem a Rivaldo

Contra os suiços, Messi açucarou o pé de Di Maria, gol igual ao de Rivaldo contra a Inglaterra, em 2002.

David Luiz

Se tiver que botar um zagueiro de volante tem que ser ele. Henrique é para a segunda divisão. Potiguar.

Sabe fazer

David Luiz sabe jogar de volante e é melhor que o Edmílson da mesma função doze anos atrás. Fernandinho tentaria parar James Rodríguez. Missão ingrata.

Brasil perto do título

Foi a manchete do Jornal do Brasil no dia seguinte à vitória brasileira sobre a Argentina (3×1) pela Copa do Mundo de 1982, dia 2 de julho. Uma aula de futebol-arte. Zico, Serginho Chulapa e Júnior, com Ramon Díaz marcando para os hermanos. O time, que seria eliminado pela Itália três dias depois, é mais reverenciado que os vitoriosos de 1994 e 2002.

Times

O Brasil: Valdir Peres; Leandro(Edevaldo), Oscar, Luizinho e Júnior; Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico(Batista); Serginho Chulapa e Éder. Técnico: Telê Santana. Argentina: Fillol; Olguín, Galván, Passarella e Tarantini; Barbas, Ardiles, Maradona e Kempes(Ramon Díaz); Bertoni(Santamaria) e Calderón. Técnico: César Luis Menotti.

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