Aconteceu em Istambul

O mineiro Sabará ocupou a lateral-direita do ABC por três anos. Veio no avião de jogadores trazidos pelo técnico Célio…

O mineiro Sabará ocupou a lateral-direita do ABC por três anos. Veio no avião de jogadores trazidos pelo técnico Célio de Souza para a primeira participação de um clube potiguar no Campeonato Brasileiro da série principal, graça alcançada pela inauguração do Estádio Castelo Branco, depois João Machado, em 1972.

Célio de Souza, treinador de categorias de base de clubes como o Flamengo e o Vasco, do qual chegou a ser o técnico principal, ficou encarregado de apresentar as propostas e convencer os boleiros.

Depois de acertar com o goleiro Tião, o zagueiro Nilson Andrade, o volante Maranhão, o meia Danilo Menezes – que veio a contragosto de alguns dirigentes locais e foi consagrado melhor armador da história do clube, o ponta-direita Libânio e o centroavante Everaldo, faltava fechar com o lateral-direito.

A posição era ocupada pelo valente Preta, das poeiras de faroeste do velho Estádio Juvenal Lamartine e magoadíssimo ao saber que seria reserva de alguém mais tarimbado e acostumado aos pegas nacionais. Preta batia do pescoço para baixo e da canela para cima.

Avisaram a Célio de Souza que havia nomes para a camisa 2 no Bonsucesso, clube valente no passado e difícil de ser vencido em seu alçapão, o Estádio da Rua Teixeira de Castro. Célio de Souza, ocupado em fazer reservas de passagens aéreas e juntar a malandragem para viajar logo a Natal e iniciar os treinamentos, despachou um cartola natalense para escolher, com sua visão de lince, quem seria o contratado.

Nos anos 1970, segundo semestre era nulo para os clubes considerados pequenos nos grandes centros, obrigados a disputar amistosos ou simplesmente treinar por treinar, sem dinheiro para pagar a folha de pessoal.

O cartola, conhecido pela sinceridade e o pavio curto, foi muito bem recebido pelo supervisor do Bonsucesso. Explicou a demanda e vislumbrou o sorriso aliviado do anfitrião.

- Temos opções a calhar para o ABC. Aquele crioulo, Sabará, bom de marcação, vibrante, sabe espantar ponta-esquerda na marretada. E aquele outro cabeludo ali, sabe como é né?, cabeludo de juventude transviada, dessas coisas de Roberto Carlos, esse cantor. Mas o garoto é um cavalo, chuta forte, cruza bem, bate de curva, é um monstro.

Escolado, macaco velho e metido a esperto, o cartola já estava decidido:

- Vou levar Sabará que é a cara da torcida do ABC, time de massa. Torcida do ABC gosta de raça e esse negão é a cara do ABC.

Dois anos depois, o cabeludo desprezado disputava a Copa do Mundo de 1974, na Alemanha. Chamava-se Nelinho, lateral-direito do Cruzeiro. Formado pelo Bonsucesso, jogou aquele brasileiro pelo Remo e foi uma das revelações.

Sabará, se não era Nelinho, não decepcionou. Foi titular em 1972, chegou a fazer gol contra o Santa Cruz de Recife na vitória de 2×0 e agradou a Frasqueira pela simpatia e vigor. No ABC ficou até 1975, quando chegou ao América o ponta-esquerda Ivanildo Arara, que lhe deu bailes homéricos no bicampeonato vermelho. Sabará foi para o Alecrim.

Antes de ir embora, seria tetracampeão pelo ABC e participaria da famosa excursão de 102 dias pela Europa e a África em 1973, consolação da Fifa após o clube ter sido suspenso de brasileiros no ano anterior, ao escalar três irregulares: o quarto-zagueiro Nilson Andrade, o lateral-esquerdo Rildo – titular da seleção na Copa de 1966 -, e o meia Marcílio.

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Sabará fez sucesso na Europa. Disputado pelas louras, se apresentava como o craque Alberi, astro do time. O ABC fez campanha decente: 24 jogos, 7 vitórias, 12 empates e 5 derrotas. Um dos resultados mais importantes foi o 1×1 contra a seleção da Romênia, base do time derrotado por suados 3×2 pelo Brasil tricampeão do mundo.

O ABC começou sua aventura pela Turquia. Em Istambul, antiga e lendária Constantinopla, vitória sobre o principal clube do país, o Fenerbahce, gol do ponta-esquerda Morais. A pose do time todo de branco era a do Santos das grandes epopeias.

No Fenerbahce, jogariam craques de primeiro escalão: os brasileiros Éder, o lateral Roberto Carlos e o meia Alex. Zico passou breve temporada de técnico. O clube ainda abrigaria o goleiro alemão Schumacher, vice-campeão mundial de 1982, o hábil meia nigeriano Jay-Jay Okocha e o argentino Ariel Ortega.

Em 1973, o Fenerbahce sucumbiu a Alberi e Danilo Menezes. No meio-campo, iniciaram a jogada do gol de Morais. Vitória a ser comemorada efusivamente com prêmios mixurucas pagos pelo empresário Elias Zacour.

Alguns foram passear pela cidade. No hotel quatro estrelas, ficaram o chefe da delegação, ex-deputado Jácio Fiúza e Sabará, este em diálogos sem legenda com uma profissional. Uma banda tocava jazz e clássicos internacionais.

Jácio Fiúza se delicia solitário ao som de Frank Sinatra. My Way, New York, New York, bebe uísque. Solícito, o crooner recebe os pedidos por escrito. Sabará discute com a mariposa e se dirige ao cantor. Passa a insultá-lo, manobrando os braços como tribuno de senado.

- Seu Jácio, como é que o senhor suporta uma banda ruim assim? Os caras não sabem nada.

Elegante, Jácio Fiúza graceja e discorda:

- A banda é da melhor qualidade, Sabará. Repertório de alto nível. Atendeu a todos os meus pedidos.

Antes de deixar o hall e procurar os colegas em locais menos suntuosos e mais pragmáticos, Sabará desabafou:

- A gente pede uma música e os caras não atendem, não entendem. Sou mais a furiosa (banda municipal) de minha terra.

Monge de paciência, Jácio Fiúza, lembrando a política em Santa Cruz, região Trairí do Rio Grande do Norte, perguntou:

- Que música você pediu Sabará? Não é possível que eles não conheçam.

- Pois não sabem não, seu Jácio. Eu pedi o Neguinho Gostou da Filha da Madame. Escrevi, cantarolei e nada. São enganadores. Uma banda não conhecer o grande Noite Ilustrada (foto acima) não presta!

Jácio Fiúza continuou bebericando. Havia muito tempo e confusões para administrar até a volta. Elogiou o bom gosto musical de Sabará. Até criticou a banda.

PS. O título da música pedida por Sabará é O Neguinho e a Senhorita, do sambista de morro Noel Rosa de Oliveira, não o Noel Rosa famoso. Noite Ilustrada fez sucesso de intérprete.

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