Ado, o príncipe e o plebeu – Rubens Lemos Filho

O futebol brasileiro teve um Ado galã. Goleiro do Corinthians, chegou a colecionar sete namoradas. Ficava com uma a cada…

O futebol brasileiro teve um Ado galã. Goleiro do Corinthians, chegou a colecionar sete namoradas. Ficava com uma a cada dia da semana. Loiro, madeixas sobre os ombros, protótipo masculino desejado pelo mulherio nos anos 1970.

Ado aparecia em revistas de moda, foi convidado a participar de telenovelas, um dia foi titular da seleção brasileira numa derrota por 2×0 para a Argentina, auge do complô que derrubou o jornalista João Saldanha do comando do time que seria tricampeão com Zagallo de técnico e Ado de reserva imediato de Félix, o mais humilhado pentacampeão de todos os tempos.

De recursos limitados, Félix, já falecido, chorava quando algum locutor dizia: “O Brasil foi tricampeão, apesar do Félix”. Félix falhou em alguns jogos, mas fez defesas cruciais contra a Inglaterra e na decisão contra a Itália, quando o placar marcava 0x0 até o triunfal 4×1. Ado estava na reserva de Félix.

O Ado goleiro, bonito como um príncipe de passarela de roupas extravagantes, virou sapo. Sucumbiu ao Corinthians amaldiçoado e sem títulos e perambulou por times pequenos, até encerrar a carreira mantendo nos velhos álbuns de figurinha e nas revistas mofadas o charme do movimento das luvas desatando a cabeleira.

Depois dele, a versão nem tão formosa. Ado, o ponta-esquerda fulminado por um chute imperdoável. O pênalti é a sentença em que o carrasco algumas vezes acaba vítima. Fiquei comovido, sério, ao ver um belo programa exibido pela ESPN Brasil sobre o Bangu, que foi de Castor de Andrade e hoje patina em decadência. O clímax da produção foi uma entrevista com Ado, um dos titulares do time vice-campeão brasileiro de 1985.

Quase trinta anos atrás, o Bangu sorvia a glória do lucro do Jogo do Bicho. Tinha um bom time e um craque trágico, Marinho, um sambista ponta-direita, mestre-sala dos dribles e da irreverência. Marinho ganhou fama em 85, conduzindo os companheiros a uma campanha consagradora.

Antes de contar o final do drama dos 11 que entraram em campo contra o Coritiba, é dever informar que Marinho foi convocado para a seleção brasileira, vendido caro ao Botafogo. Lá estava quando o filho pequeno, de 3 anos, morreu afogado na piscina da mansão onde morava. Abandonado pela mulher, foi morar dentro do carro importado que tinha, tomando banho de perfume.

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Tempos passados, transitando a pé, Marinho treinava o time juvenil do Bangu, com o rosto desgastado pela falta de razão de viver. Voltemos ao conto de fadas. O Bangu atropelou os grandes beneficiado pela forma esdrúxula do campeonato de 85. Figurou na Série B, de onde saiu na segunda fase para enfrentar o que restava da elite brasileira, cuja seleção era treinada por Evaristo de Macedo e era o sonho de consumo do atacante Jacozinho, do CSA, caricata figura criada pelo repórter alagoano Márcio Canuto.

O Bangu, que foi campeão carioca em 1933 e 1966, achava que não seria preciso aguardar 1999 (que terminou sem que nada também fosse ganho). Chegou à final superlotando o Maracanã. Mais de 120 mil flamenguistas, vascaínos, tricolores e botafoguenses se coligavam à milícia de Moça Bonita, torcendo pelo vermelho e branco do subúrbio.

Marinho, logo no início, fez de cabeça o 1×0 que prenunciava a festa. No segundo tempo, numa falta despretensiosa, Índio, um centroavante que depois andaria pelo ABC e pelo América, empatou o jogo. O drama, lento como as agonias que se prezam, foram os pênaltis. Um a um, os jogadores de cada time batiam e marcavam: 4×4.

Antes que Gomes do Coritiba cobrasse o último, o ponta Ado nem olhou para a massa assustadora que se comprimia no estádio. Bateu como sempre. De canhota e rasteiro. Um tapa do vento ou do destino, desenhou uma curva na bola que saiu pela linha de fundo. Gomes, fez o dele e o Coritiba ganhou a Taça.

Revendo o lance, 29 anos mais velho, sinto que a ruína do Bangu começou ali. Ado põe as mãos na cabeça, impotente como o banhista que vê, desesperado e sem coragem, o náufrago se debatendo até desaparecer no mar. Meses depois, o Bangu seria a corja da espécie futebolística, mutilando Zico num pontapé do lateral Márcio Rossini.

Na década seguinte, sem o guarda-chuva de Castor de Andrade, morto, virou uma imagem turva do passado. Hoje, se debate, cadáver implorando ajuda. O depoimento do ex-ponta-esquerda, que depois só perambulou em vários clubes, é de um humanismo arrepiante. “Tenho vergonha da minha mulher, dos meus filhos”. Ado fala chorando, câmera em close. Como se fosse um criminoso arrependido, refém de um pecado que nem o tempo conseguiu apagar.”

 

Emoção

Dois momentos foram emocionantes e deram um toque humano à surra aplicada pelo América no Atlético (PR). A imagem da massa em catarse, transformando uma casa insípida numa Arena Vermelha pulsando, coração batendo de alegria num carnaval antecipado.

Pimpão

O outro instante mágico veio primeiro. No golaço de Rodrigo Pimpão, toque macio, malicioso, fatal, sem força, com jeito, matando o goleiro do Atlético. Rodrigo Pimpão está jogando um futebol alucinante. Completou uma jogada que consagra a simplicidade boleira. O toque de pé em pé até o gol.

Pênalti

Pênalti duvidoso também abençoa os valentes ABC e América.

Jogar certo

O ABC empatou com o Vasco também porque jogou certo na ocasião apropriada. Soube esperar o adversário, mesmo recuando cedo, mas usou o contra-ataque e aproveitou o meio-campo aberto do adversário. O ABC poderia ser mais coerente e agir sempre assim.

O camisa 10

Nem que venha da Eslováquia, mas desde que seja bom, o camisa 10 é indispensável ao alvinegro.

Há 40 anos, clássico

O América conquistou seu primeiro título estadual no saudoso Castelão (Machadão) em 1974 e um dos momentos marcantes foi a vitória sobre o ABC, que hoje completa 40 anos. Placar de 3×1 com 18.209 pagantes no estádio. Gols: Santa Cruz e Jangada (2) para o América e Edson para o ABC.

Times

América: Otávio; Ivan Silva, Mário Braga, Djalma e Sousa; Edinho, Garcia e Hélcio Jacaré (Bagadão); Jangada, Santa Cruz (Reinaldo) e Gilson Porto. ABC: Renato 74; Sabará, Edson, Aldeci e Anchieta; Maranhão, Danilo Menezes e Alberi; Libânio (Valmir), Jorge Demolidor e Morais.

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