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Aeroclube reúne 250 voluntários para recolher lixo na praia de Ponta Negra

Data: 03 janeiro 2013 - Hora: 16:14 - Por: Conrado Carlos

Em meio a um cenário de guerra, médicos e engenheiros catam restos de comida e objetos abandonados. Foto: José Aldenir

Os braços abertos do Cristo na fachada do Rio Restaurante, à beira mar de Ponta Negra, abençoam uma cidade bonita por natureza, mas castigada em sua beleza pela gestão que a administrou nos últimos quatro anos. Como antítese dos valores cristãos de amor ao próximo, honestidade e atenção com os tijolos mais baixos da pirâmide social difundidos durante períodos eleitorais, lixo e destruição envergonham natalenses. Quase um grito de liberdade contra o poder estatal, cerca de 250 pessoas, sob a coordenação do Aeroclube do Rio Grande do Norte, saíram, na manhã desta quinta-feira (03), do Morro do Careca, em direção ao hotel Rifóles, com um objetivo: recolher dejetos e abordar praianos quanto a noções básicas de civilidade em uma área pública.

À frente da empreitada, intitulada Natal Como eu te amo!, o ginecologista e professor da UFRN, Fábio Macêdo. “Temos muita disposição de ajudar Natal. Resolvemos sair dos muros, mas não para substituir o poder público. Queremos estimular o amor à Natal”. Com apoio da Unimed Natal, os voluntários distribuíram mais de 5 mil panfletos com dicas para o verão, e tiveram à disposição uma tonelada de frutas e protetores solares para enfrentar o astro-rei inclemente que insiste em brilhar no cenário sombrio. Fábio levará a ideia para Pirangi e conta com parcerias da iniciativa privada para reconstruir praças e calçadas. “Quero juntar gente que queria trabalhar em prol da cidade”. A maré cheia apressava o trabalho dos integrantes do movimento, preocupados em recolher o lixo antes da completa invasão do oceano Atlântico.

Os irmãos João Batista e João Vitor, 20 e 18 anos respectivamente, participam da ONG Atitude Cooperação, do plano de saúde que apoia o movimento do Aeroclube. “Isso aqui é um início para cuidarmos da praia, para despertarmos na população a iniciativa de cuidar do que é nosso”, fala o mais velho. Posição ratificada pelo professor de xadrez e engenheiro, Máximo Igor Macedo. “A proposta aqui é o exercitar a cidadania, chamar a atenção da população para nossos deveres”. Cocos vazios, papelão, cascas de frutas apodrecidas, garrafas de cerveja, isopores quebrados, sacos plásticos. A lista de objetos espalhados pela areia é interminável. O enxadrista levou a filha de dois anos para ter as primeiras noções da vida em sociedade, além de 20 alunos. “A falta de educação das pessoas é terrível”.

Já no calçadão, o olhar perscrutador dos comerciantes informais recai sobre a ação dos 250 voluntários sob o viés econômico. O prejuízo é interminável. Depois do réveillon mais fraco das últimas décadas, a venda de suvenires e utensílios de verão tem despencado a cada semana. Para Flávio Teodoro, funcionário de um quiosque desde 2007, “os turistas que sentam em nossas barracas falam que não voltam mais, que vão procurar outra praia para freqüentar, porque aqui está sem condição”. Ele viu o número de mesas ser reduzido pela metade, de 40 para 20, nesse tempo em que serve bebidas e tira-gostos. “Mas o povo tem culpa também. De dez pessoas que sentam, só duas pedem sacos plásticos para guardar o lixo que vão fazer. Ano passado, antes do réveillon, já estávamos com as mesas todas vendidas. Sempre lotava, faltava cadeira. Esse ano, vendemos pela metade do preço e mesmo assim só sete mesas”.

Enquanto os voluntários retiravam uma grande caixa de isopor que exalava um cheiro indescritível, cheia de sacos rasgados e restos de comida, como cascas de abacaxi, copos descartáveis, latas de cachaça, caixas de iogurte, turistas se bronzeavam e olhavam para a cena constrangedora. “Tinha tudo para ser um verão massa, mas a cidade está destruída. Ninguém quer estar no meio da sujeira. Natal é maravilhosa, mas eu estou com vergonha de ser potiguar”, lamentava tatuador Jailson Alves.

Com 25 anos de desenhos corpóreos feitos na praia, ele viu dois terços da clientela ir embora. A seu lado, Vicente Dutra, vendedor de cangas e biquínis, perdeu mais da metade no faturamento. “Eu vendia de 30 a 40 cangas por dia. Agora, quando saem 10, eu vibro”. No retorno da reportagem à sede d’O Jornal de Hoje, a constatação de que o poste derrubado na noite da virada de ano, nas imediações do trevo de entrada da Via Costeira, ainda atrapalha o trânsito, três dias depois, é o retrato do colapso administrativo que parece não ter fim.

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