“Agora temos um cheque em branco”, diz apresentador em evento da BBom

O iG acompanha reunião da empresa, que teve atividades parcialmente liberadas pela Justiça após bloqueio por suspeita de ser pirâmide financeira

João Francisco de Paulo, dono da Embrasystem, responsável pela BBom, acusada de ser uma pirâmide financeira. Foto: Divulgação
João Francisco de Paulo, dono da Embrasystem, responsável pela BBom, acusada de ser uma pirâmide financeira. Foto: Divulgação

As portas do espaço – uma associação cultural da zona sul paulistana – estão abertas e, como num culto, a reunião começa com uma canção. Do palco, o apresentador pede que a plateia – umas 20 pessoas, entre idosos, jovens e uma mulher com criança de colo – acompanhem o refrão: “He, he, he, he, he, he, he, heô. BBom”

“Ele realmente é um sonhador. Muitas pessoas no lugar dele teriam desistido. Ele nos fez sonhar, sonhar com a possibilidade de dias melhores. Quem de nós não tem sonho?.”

O ele acima é João Francisco de Paulo, criador da BBom – o décimo termo mais buscado no Google em 2013 no Brasil, e um dos vários negócios acusados por promotores e procuradores da República de ser uma pirâmide financeira. Seus representantes sempre negaram irregularidades.

Lançada no início do ano como um braço da Embrasystem, que atua no mercado de rastreamento de veículos, a BBom atraiu cerca de 300 mil pessoas em menos de seis meses. A promessa era de lucrar – talvez ganhar uma Lamborghini – na comercialização de assinaturas do serviço da empresa via marketing multinível. Nesse modelo de varejo, os revendedores ganham bônus pelos negócios fechados por outros revendedores que trazem para a rede.

Para o Ministério Público Federal em Goiás (MPF-GO), o faturamento da BBom vinha das taxas de adesão, de R$ 600 a R$ 3 mil, pagas pelos associados, e não do serviço de rastreamento.

De R$ 300 mil em 2012, o faturamento da Embrasysbem bateu em R$ 100 milhões em março de 2013, um mês depois de a BBom ser lançada, segundo o órgão. Chamada a analisar o caso, a Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda (SEAE-MF) afirmou não ter conseguido “identificar motivo econômico justo e razoável capaz de explicar a explosão de rentabilidade”.

 

Cheque em branco

Bloqueado provisoriamente em julho, por decisão da 4ª Vara Federal de Goiás, o negócio foi liberado parcialmente – e também provisoriamente – em novembro, pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), com sede em Brasília.

“Agora, nós temos o cheque em branco”, disse o apresentador, durante a reunião, em referência à decisão. “Nós temos um plano maravilhoso. Liberado pela Justiça. Tem algum outro liberado pela Justiça, gente? Claro que tem. Aqueles negócios lá que você vende, trabalha feito louco e ganha R$ 1 mil. Nesse sistema que paga muito, tem algum? Aqui não tem.”

Embora a BBom ainda possa ser extinta – a decisão do TRF-1 não freou o pedido de fim dos negócios feito pelo MPF-GO – o risco é zero, garante o apresentador.

“Costuma-se falar que todo negócio tem risco. Mas se tem um que a gente acha que não tem risco é este”, diz o apresentador, prometendo lucros ainda maiores. “Se o negócio é bom, e nós vamos mostrar que o seu João vai pagar mais do que pagava antes [do bloqueio], que era bom, e a Justiça não vai se meter mais conosco, nós estamos com o ouro na mão“

A segurança, explica o apresentador, decorre do fato de que a BBom terá mais produtos para vender – o que afastaria a ideia de que o faturamento depende das taxas de adesão. Segundo a palestra, serão comercializados 75 itens. A lista inclui comésticos, energéticos, serviços de rastreamento pessoal e de veículos, telefonia móvel, pacotes de viagem, café premium, roupas. Está tudo “prontinho”, mas as vendas vão começar “paulatinamente”.

A joia da cora será um site de leilão de centavos, exclusivo para os associados da BBom, segundo o apresentador. Uma Lamborghini conversível começa a circular no telão, e o ronco é projetado nos altofalantes com uma música épica de fundo.

“Imagina essa máquina na sua garagem. R$ 1,5 milhão. E ela pode ser sua por apenas R$ 0,01”, promete o motorista do veículo no vídeo. “Imagine você ficar milionário ainda este ano?”, instiga. “É meu amigo, chegou a sua hora.”

A sugestão de que o público que acompanha a palestra pode se tornar rica em pouco tempo ganha um outro alicerce: é possível embolsar até R$ 50 mil por dia com apenas um dos bônus, uma Lamborghini se se chegar a “embaixador”. “Ou uma Ferrari, se ele quiser”, diz o apresentador.

A entrada do negócio continuará a ser feita por meio do pagamento de taxas que vão de R$ 600 a R$ 3 mil. Os valores são necessários para que o interessado se torne um microfranqueado BBom.

 

Outro lado

Uma nota publicada no site da BBom informa que “ficam expressamente proibidas promessas de ganho que não estejam condizentes com as regras comerciais estabelecidas pela BBom.”

Procurado, João Francisco de Paulo informou que “só agora, a empresa está sendo investigada – 5 meses depois dos bloqueios” e que “foram usados documentos de outras empresas e nenhum da BBom” nas investigações.

Sobre o relatório da SEAE-MF, o dono da BBom alega que ele informa não haver “sustentabilidade após cinco anos, sendo que nosso contrato é de 12 meses”.

“Adequamos às exigências do Judiciário e mudamos nosso contrato”, escreve João Francisco. “O nosso modelo de negócios é amplamente divulgado pelo governo federal”.

“Todos nossos microfranqueados vendem nossos produtos e seus ganhos estão baseados na lucratividade e de cada venda e o valor cobrado inicialmente é a taxa de microfranquia autorizado por lei específica.”

 

Fonte: iG

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