Ai que preguiça!

Sim, algumas vezes o caráter nos é incômodo e nos pesa como um fardo. Como naqueles anos de chumbo, quando…

Sim, algumas vezes o caráter nos é incômodo e nos pesa como um fardo. Como naqueles anos de chumbo, quando trocamos a resistência à ditadura por duas arenas, uma vermelha e a outra verde. Décadas depois, outra vez fraquejamos, e enfiamos os pés no pântano que reuniu interesses e ficou conhecido como paz pública. Logo mais tarde, um acordão uniu três governos e tentou impor a todos nós uma prefeita. Agora, um chapão é tão grande que os últimos ainda tentam abrir a porta do salão.

Talvez não sejamos maus, como querem uns. Nem belicosos, como nos acusam outros. Quem sabe sejamos como Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, e, nosso hino, andrajoso, aquele ‘Ai que preguiça!’ da rapsódia de maus costumes escrita por Mário de Andrade, de férias, no sítio do seu tio Pio Lourenço Correa, e publicado em 1928. Dedicado a Paulo Prado, justamente no mesmo ano do seu ‘Retrato do Brasil’ que nos desenhava como um povo triste, triste, vivendo numa terra radiosa.

Somos tristes, Senhor Redator? Não sei. Gostamos de samba e futebol, mas é que alguns dias o sol da melancolia, aquele das almas tristes, brilha ao meio-dia. Somos um povo sem um amor próprio, como se nada nos envaidecesse. Houve um tempo em que fomos o Trampolim da Vitória, mas os vitoriosos foram embora e nunca mais voltaram. Curamos nossas tristezas com outra vaidade, a de Capital Espacial do Brasil, e como na canção de Noel, hoje vivemos sem festa e sem foguetes.

Da Cidade do Sol, nem se fala. Os cearenses levaram o sol e ficamos às escuras no turismo, viciados nos slogans falsos de quando acreditávamos que aqui nascia o grande rio grande. No entanto somos tão pequenos que, em nós, nada se fez maior. Uns já querem ir; outros fazem suas contas; pensam outros mais, todos na mesma direção: aonde vamos com essa mediocridade que não acaba nunca, enquanto repetimos, como Macunaíma, o nosso herói sem caráter – Ai, que preguiça!?

Olhando a nossa história, talvez não tivesse sido menos vergonhoso o destino de ser a gloriosa Aldeia Velha de Felipe Camarão, afinal o herói acabou cooptado pelo título de Governador Geral dos Índios do Brasil e nunca mais lutou. A França Antártica? Ora, sem bons modos, no mínimo seríamos serviçais dos franceses. E a Nova Amsterdam, com a Fortaleza da Barra do Rio Grande com o nome de Castelo de Keulen, qual seria o jeito de nossa vaidade, se já somos vaidosamente empedernidos?

Há, em nós, uma alma de Macunaíma que teima em se fascinar como uma praga dos deuses. Somos de uma dedicação calma e prestante. Nosso orgulho é bem servir aos forasteiros que nos visitam. A mesa forrada com toalhados cheirando a naftalina. Os cristais, tinem em sonatas de louvor aos poderosos, e nossas porcelanas saem dos guardados de família com o brilho alegre de velhas luas renascidas de antigos torneios sociais. É como se todos repetissem a uma só voz: Ai que preguiça!

 

DESRESPEITO

Desde o dia seis a viúva Tamara Baroni e três filhos, todos advogados, aguardam liberação do corpo de Gianni, marido e pai dos seus filhos, para ser sepultado. Continua numa geladeira do Itep. Pode?

FORTE – I

Henrique Alves, afirma um parlamentar com trânsito em Brasília, ouviu do presidente do PMDB, Michel Temer, que é o melhor nome para garantir permanência do partido na presidência da Câmara.

ALIÁS – II

O mesmo parlamentar disse ainda que o nome de Henrique tem hoje o voto do grupo liderado pelo deputado Eduardo Cunha que vem se rebelando no conflito aberto e firme com o Palácio do Planalto.

TOQUE

O deputado Henrique Alves demonstrou uma requintada capacidade de dissimulação ao declarar que espera receber o apoio do prefeito Carlos Eduardo. Ele sabe que tem e já ouviu de Carlos que tem.

FRASE

De um petista dissidente na fila da Caixa, no Campus: ‘Se Robinson Faria aceitar ser vice na chapa de Henrique Alves ou desistir de ser o candidato a governador, deixa Fátima e todo o PT no pincel’.

OLHAR

Se o prefeito Carlos Eduardo Alves fizer uma visita, sem avisar, à rede de postos de saúde de Natal, sob sua administração, terminará a sua pequena jornada convencido de que precisa mudar a gestão.

RISCO

É impressionante a preocupação da área de segurança com sua eficiência durante os quatro jogos da Copa do Mundo em Natal. Se até os natalenses sobreviverem à escalada de violência em toda cidade.

REFORÇO

O pesquisador Fred Nicolau, hoje um dos maiores conhecedores da história da aviação militar e civil em Natal, aceitou atuar como consultor da Secretaria de Cultura na montagem do Museu da Rampa.

PARQUE

O prefeito Carlos Eduardo Alves estuda a idéia de transferir para o Parque da Cidade D. Nivaldo Monte, o encontro de escritores de Natal. Até lá estarão concluídas as obras de restauração do espaço.

RISO – I

Depois de uma fala firme, cada disparo no ritmo perfeito, a ex-governadora Wilma de Faria fechou com um riso sem sentido que poderia ter ficado ‘guardado’ no criado mudo. Faltou direção de tevê.

DETALHE – II

Nossos políticos, aliás, sempre cometem o mesmo erro quando com o detalhe de um riso tolo ferem o sentido de uma convocação para a luta e que não pode jamais ser vulgarizada por gracejos gratuitos.

JOGO – I

O passe-livre vem irritando os usuários de ônibus que demoram mais de uma hora e a segunda passagem perde a validade. O período das interdições no trânsito exigiria um intervalo de duas horas.

ALIÁS – II

Os empresários de ônibus não são apenas mais preparados e eficientes que a fiscalização da Semob. São muito mais ágeis. Até já caminham para dois anos sem a concorrência e nas barbas da Prefeitura.

RISCO – III

Se amanhã, durante a Copa, o transporte coletivo voltar a ser motivo de protesto, principalmente contra o passe livre, essa reação popular vai ser toda sobre os ombros do prefeito e não das empresas.

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