Alameda Casa Branca, 806

Sempre que desembarca no aeroporto de Salvador, o teólogo e druída espiritual de Luiz Inácio, Frei Betto, sente o desejo…

Sempre que desembarca no aeroporto de Salvador, o teólogo e druída espiritual de Luiz Inácio, Frei Betto, sente o desejo de mobilizar toda a Bahia para trocar o nome do local, Luiz Eduardo Magalhães, pelo nome do guerrilheiro Carlos Marighella, que era baiano.

Frei Betto jamais escondeu o trauma que carrega na alma católica, nascido no episódio da morte de Marighella, principal líder terrorista do Brasil nos anos 60, na noite de 4 de novembro de 1969. Hoje faz 102 anos do nascimento do fundador da ALN, em 1968.

O escritor de “Batismo de Sangue” e outros sucessos editoriais, não aceita a tese de que dois frades dominicanos, seus irmãos em Cristo, participaram da armadilha preparada pelo então delegado Sérgio Paranhos Fleury para executar Carlos Marighella.

Tudo começou quando a Polícia prendeu alguns militantes envolvidos no sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, aquele cuja libertação foi em troca de 15 jovens, citados em carta redigida pelo hoje petista e ex-ministro, Franklin Martins.

Durante o interrogatório do preso Paulo de Tarso Venceslau – que uma década depois fundaria o PT e seria expulso em 1998 e ainda denunciaria a existência de caixa 2 no partido de Lula – soube-se que Marighella tinha contatos com os dois frades.

Os frades dominicanos frei Ivo e frei Fernando foram dois grandes amigos de Frei Betto na juventude. Foram presos pelos agentes de Fleury no Rio de Janeiro e a partir de seus depoimentos toda a rede de apoio a Marighella começou a ser desmantelada.

Na tarde de 4 de novembro de 1969, frei Fernando atendeu o telefone da Livraria Duas Cidades, na Avenida Europa. Do outro lado da linha, alguém falou o que seria uma senha: “vou à tipografia hoje, às 20h30″. Era o líder comunista Carlos Marighella.

Numa unidade do DOPS – Departamento de Ordem Política e Social, o delegado Fleury esfregou as mãos com entusiasmo. Começava ali, no telefonema, a armadilha batizada de “Operação Bandeirantes”, para prender ou matar o cara mais procurado do Brasil.

Os frades abriram o jogo e revelaram que a “tipografia” era na verdade um Volkswagen azul de sua propriedade, placas SP-246928, que estaria estacionado na calçada do nº 800, na Alameda Casa Branca, no Jardim América. Marighella precisava do carro.

Fleury espalhou dezenas de agentes e sete automóveis nas imediações, além do cão chamado Átila, um pastor alemão. Ele e uma investigadora de 18 anos fingiam namorar encostados num Chevrolet Bel-Air vermelho e creme, em frente à casa 755.

Dentro do carro, também num sarro teatral, um delegado e uma agente de 22 anos, Estela Borges Morato. Por todo lado, delegados e policiais disfarçados completavam o cenário natural de uma rua, alguns até de pedreiros. E na calçada do 806, os dois frades.

Às 19h30, surge na alameda um negro alto. É Gaúcho, segurança pessoal de Marighella, que analisa o ambiente por 10 minutos e some. Meia hora após, aparece outro cara, também alto, forte, peruca escura escondendo os cabelos grisalhos, olhos verdes.

Veste um terno preto de nycron combinando com os sapatos e meias também pretos. De pasta na mão sobe a alameda em direção aos dois amigos que estão dentro do fusca azul. O terrorista mais cultuado e mais procurado do país caminha para a morte.

Em minutos, tiros e gritos quebram o silêncio da noite. Balas ricocheteiam em carros, muros e penetram vidraças de apartamentos. As famílias assistem à novela “Algemas de Ouro”, um sucesso da TV Record entre março de 1969 e março de 1970.

Alguém grita de uma janela que mataram uma moça no meio da rua. O corpo da jovem investigadora Estela está no chão. Sirenes de viaturas policiais disparam, as pessoas correm para conferir a algazarra, chegam carros e mais carros com jornalistas.

Somente às 21h30 é que todos podem entrar na Alameda Casa Branca, onde o Volkswagen azul está crivado de balas em frente ao nº 806. Caído no banco, o corpo de Marighella, coberto de sangue, o verde dos olhos tingido de vermelho, a peruca no ombro.

Morreu quando entrava no banco traseiro. No primeiro sinal de Fleury, os dominicanos pularam fora, Marighella quis pegar o revólver Taurus 32, recebeu voz de prisão e cinco tiros. No mesmo instante, na televisão, alguém atirou em alguém no capítulo da novela. Era o fim da guerrilha urbana no Brasil. (AM)

 

Caos e atentado
Quando não são as três dúzias de moleques se arvorando a representantes dos estudantes, ou a vagabundagem do MST, é a turma dos alternativos tomando de assalto a cidade e impedindo o ir e vir da população. Natal é uma versão de “Appaloosa”.

O candidato
Mais uma reportagem do JH em que o empresário Fernando Bezerra faz mistério quanto à sua candidatura ao governo do estado pelo PMDB. Não vai ser fácil escapar do convite dos primos Henrique Alves e Garibaldi Filho. Ele, Fernando, é o candidato.

Via Brasília
O vice-governador Robinson Faria (PSD) recebeu injeção de estímulo do presidente nacional da legenda, Gilberto Kassab. O ex-prefeito de São Paulo garantiu que seu nome é uma das prioridades na aliança que fez com o PT pela reeleição de Dilma.

FFF
O PMDB não desistirá de juntar o PSB de Wilma e o PSD de Robinson em torno de uma candidatura majoritária apadrinhada pelos Alves. Quer juntar os três F de Fernando e Faria ao quadrado, mas sempre temendo o fato de perder o quarto F de Fátima.

Em campanha
A governadora Rosalba Ciarlini (DEM) está aos poucos perdendo o medo de encarar multidões afetadas pelos índices de desaprovação do seu governo. E o marido, Carlos Augusto, está conversando in loco com lideranças da capital e do interior.

Deputados
PMDB, PSB, PSD, PDT, PR, PROS, PV, PSDB e DEM, além de outros menores. Todas essas siglas estão na mira das articulações de Henrique e Garibaldi para uma nominata de peso em coligação proporcional para deputado. A ideia é eleger até seis.

Plano A,B,C,D
Do deputado Agnelo Alves (PDT) para a vice-prefeita Wilma de Faria (PSB): “Você tá bem, com várias escolhas; prefeita, deputada, senadora ou governadora”. E ela: “Executivo? Quero não!” E Neco teria dito baixinho: “Tá vendo? Quer naaaada!”.

Ad eternum
Luiz Inácio sugerindo que o PT continuará no governo federal em 2022 remete a uma conjectura: quando esse dia chegar, o petralha eleito cria por medida provisória um Ministério do Crime e nomeia Zé Dirceu, que tocará a pasta direto da Papuda.

Trapalhadas
Incrível como Zé Dirceu só escolhe lugares ermos para realizar suas patacoadas político-criminosas. Em 1968, atraiu mil estudantes para um congresso da UNE em Ibiúna e se deu mal; agora se mete com esquema de laranjas nos cafundós do Panamá.

Irmã Dulce
Em 2014, quando se completam 100 anos de nascimento da beata baiana, a grande homenagem será o lançamento de um filme longa metragem sobre sua vida e obra humanista. A atriz Bianca Comparato é protagonista sob a direção de Cesar Rodrigues.

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