Alpendre eleitoral

Alpendres praianos em tempos sem assaltos e sobressaltos ou paredões de som de orangotangos exibicionistas serviam para deliciosos cochilos sossegados…

Alpendres praianos em tempos sem assaltos e sobressaltos ou paredões de som de orangotangos exibicionistas serviam para deliciosos cochilos sossegados e leituras sem incômodo algum.

Algumas vezes, deitado em rede sertaneja, me vi entrar nos livros de Georges Simenon assessorando o inspetor Jules Maigret pelas ruas soturnas de Paris. Me sentia  o invisível intrometido nas incursões do patusco detetive pelos bares, cafés e prostíbulos buscando rastros mínimos para decifrar enigmas que apenas a sua perspicácia alcançava.

Dos alpendres, víamos o mar em seu silêncio contemplativo na maré morna e mansa em balanço irônico e raivoso nas gargalhadas assustadoras de suas ondas que afastavam os mais afoitos dos mergulhos com medo da força das correntes e das cheias. O mar é sempre belo e variável em seu humor. Pode ser terno e arredio.

Nos alpendres de classe média, juras secretas das letras de Fanger, violões desafinados, batuques de samba de mesa, cerveja branca de tão gelada, cachaça de primeira cabeçada segundo entendidos de fígado estropiado ou hoje habitando cemitérios, farras de verdadeira algazarra sem risco de violência nem competição ambiciosa.

Bons, foram bons os meus tempos de alpendre. Minha geração os dispensou, menos por opção, mais por temor de ser acordada pela madrugada, bandidos  armados assombrando mulheres e crianças e levando de assalto objetos pessoais, carros e, quem sabe, provocando tragédias porque há homens capazes de resistir, de reagir no mesmo tom e é melhor, não. Foi-se a última casa, vendida em Graçandu,  por um primo.

São os alpendres comuns. Nos outros, os especiais, desenha-se o futuro dos milhões que ocupam a geografia praiana, urbana, rural e miserável do Rio Grande do Norte. Os alpendres estão se transformando em espaço de futurologia, de decisão de uma minoria sobre o destino de uma multidão que sequer é consultada e toma conhecimento pelo noticiário político dos jornais e das mídias sociais da internet.

>>>

É nos alpendres bem cercados que se definem as chapas ou a chapa eleitoral de suposto consenso para a campanha de 2014. É mais ou menos como a preleção do técnico Vicente Feola antes de Brasil x União Soviética em 1958, jogo decisivo para as pretensões de nosso escrete na Copa da Suécia.

O gordo Feola, sem esconder a tensão diante do temível “futebol-científico”, muito mais propaganda no auge da Guerra Fria, anunciava como ganharíamos a partida.

– Didi recebe no meio-campo e lança longo para Garrincha. Aí Mané dribla o lateral-esquerdo deles, arranca até a linha de fundo e cruza. Cruza certeiro e na medida para Vavá. Vavá mete a cabeça no fundo das redes de Yashin. Gol. Ganhamos a partida.

Silêncio geral na boleirada até que um dedinho pede permissão para fazer a pergunta lendária:

– Ué, seu Feola, e já combinaram com os russos? Era Garrincha que, em três minutos, destruiu os adversários sem precisar de instruções que jamais obedeceu. Fez o que estava escrito e era a solução natural.

>>>

Os russos, nas soluções eleitorais dos alpendres, são os eleitores.  Uma gente que está pouco preocupada com quem serão os candidatos. Uma gente que sofre com os efeitos da seca, dos roubos, da falta de estrutura nos hospitais, das estradas esburacadas, das greves pipocando, da humilhação do esquecimento.

Soluções eleitorais de alpendre não são novidade. Menino ainda, de caneta BIC e 40 e poucos quilos, vi , em 1990, o Governo sem opções tirar Lavoisier Maia de seu grupo político de várias  décadas para sair a governador e perder para o candidato favorito  José Agripino.

Quatro anos depois,  Agripino, sem nome  à sua sucessão, tirou Lavoisier da chapa do Senado, lhe fez candidato ao Governo, elegeu-se senador e viu Garibaldi Alves Filho ganhar de Lavoisier no primeiro turno, por 130 mil votos. Agripino agiu fora de alpendre. Agripino, tranquilo, conseguiu sua vaga de senador.

Em 1998, Garibaldi e Agripino disputaram um duelo de invictos que Garibaldi ganhou. Nos alpendres diziam que o adversário de Garibaldi seria Geraldo Melo. Em 2002, Wilma de Faria, pelas sentenças de alpendre, sequer renunciaria à Prefeitura de Natal. Renunciou. Nem chegaria ao segundo turno. Chegou. Ganhou. Contra Fernando Freire que nunca esteve cotado para sair candidato.

Em 2006, Wilma acabou com a invencibilidade de Garibaldi que devolveu em 2010 com uma vitória massacrante para senador, na chapa  fortíssima com  Agripino e de Rosalba Ciarlini, eleita governadora.

Fora o erro estratégico de não ter sido deputada federal, seria demais para Wilma, em dez alpendres,  carregar Wagner Araújo de vice  e Hugo Manso, ótima figura humana, mas sem voto, como seu parceiro contra Garibaldi e Agripino. O ex-governador Iberê Ferreira era experiente.
Os alpendres circunspectos voltam a decidir de forma sumária. São águas que mergulham em janeiro para abril afogar e o maremoto das convenções arrastar em junho. O que é distância agora pode ser aperto amanhã.

O Rio Grande do Norte nasceu para disputa.  De  dizeres de versículo. É uma terra onde se aposta até sobre público de velório para se medir prestígio do defunto. Aqui as urnas cantam  caladas e chamam a teoria para a contradança das vontades impostas.

 

Zé Wilson
Ainda ecoam, firmes, as palavras do vice-presidente José Wilson Gomes Neto, primeiro na linha sucessória do presidente Rubens Dantas e do vice, Sílvio Bezerra, licenciados do ABC. “Eu quem estou no comando, temporário, mas estou.”

Temperamentos
Os novos dirigentes do ABC podem contribuir e muito para o clube, mas é certo: Os três têm  temperamento difícil. Tanto José Wilson, quanto Paiva Torres e o novato Rogério Marinho convergem num ponto: não aceitam receber ordens.

Laboratório
A Copa RN será mesmo o laboratório do técnico Roberto Fernandes para a fase final do Estadual e a Série D. Nem que queira, há riscos. O nível é fraco.

América, o time
Para o amistoso contra o Botafogo de João Pessoa, domingo, no Nazarenão, deve ser este o time do América: Andrey, Norberto, Cléber, Edson Rocha e Raí; Márcio Passos, Tiago Dutra, Fabinho e Régis; Adriano Pardal e Max.

Ritmo
É praticamente o mesmo time da Série B, salvo Thiago Dutra, Raí, no lugar de Wanderson e Adriano Pardal, que substitui a Rodrigo Pimpão. Nada  que represente uma queda substancial de qualidade.

Compartilhar:
    Publicidade