Vitamina D passa a ser prescrita aos pacientes com esclerose múltipla em Natal

Tratamento ainda não é reconhecido pela Academia Brasileira de Neurologia nem custeado pelo SUS

Foto: José Aldenir
Foto: José Aldenir

Marcelo Lima

marcelolimanatal@yahoo.com.br

 

Cinco pacientes estão prestes a iniciar o tratamento de esclerose múltipla com altas taxas de vitamina D prescrita por um médico em Natal. Há menos de um mês, não havia médicos que indicassem esse tratamento na cidade. Muitos pacientes com a doença tinham que se deslocar para Recife ou Fortaleza para receber esse tratamento alternativo.

Jânio Soares Romão, de 31 anos, tem esclerose múltipla desde 2009. Sem resultados, ele suspendeu seu tratamento convencional – à base de intérferons – e começou a pesquisar alternativas. O jovem ficou com visão dupla, tinha dificuldades para andar e para falar. “Infelizmente os médicos dizem isso: “você vai ficar sem andar, perder a visão”. Eu fico triste em saber que alguém chegue e diga isso assim para outra pessoa sem prepará-lo, porque eu não fui preparado. Me disseram assim na hora. Mas diferente das outras pessoas, não me intimidei diante disso”, desabafou.

A esclerose múltipla é uma doença autoimune (gerada pelo próprio organismo) que atinge principalmente o sistema nervoso central e periférico. O tratamento convencional causava incontinência urinária, ansiedade, tendência depressiva e insônia.

Na sua busca, ele descobriu um tratamento a base de altas doses de vitamina D. Em maio do ano passado, Jânio começou por conta própria a ingestão da vitamina depois de ler o protocolo do tratamento desenvolvido pelo professor-pesquisador da Universidade de Campinas (Unicamp), Cícero Coimbra. Antes de três meses, ele já sentiu melhoras. “As dores que eu sentia na coluna melhoraram bastante, a visão dupla que era bem para o lado esquerdo, continua dupla, mas um pouco mais para o lado direito”, contou.

Só em março deste ano, ele começou a ter o tratamento monitorado pelo médico Carlos Paiva, que atua em Recife. Atualmente, ele toma 70 gostas da vitamina D depois do café da manhã diariamente. Ele ainda possui limitações nos movimentos, mas os efeitos colaterais causados pelo tratamento convencional não existem mais. “Se eu não voltar mais a correr, a jogar bola, eu já estou satisfeito, porque eu sei o que passei”, desabafou.

A progressão clara da doença, também conhecida como surto, não ocorreu mais segundo ele. Antes das doses de vitamina D, Jânio chegou a precisar da ajuda da mulher até para tomar banho em função dos problemas de visão e mobilidade. Ele também foi considerado incapaz para o trabalho e teve que interromper os estudos.

Uma ponte

Jânio Romão não se intimidou mesmo com sua condição. Além de procurar um tratamento alternativo, ele organizou uma palestra em março deste ano em Natal, auxiliado pela Associação Norte-rio-grandense de Esclerose Múltipla (Anorem), com o seu médico recifense Carlos Paiva. O paciente de esclerose divulgou as palestras nos meios médicos, como em clínicas e hospitais para tentar atrair os profissionais da medicina.

Um deles foi o oftalmologista José Dagoberto da Silva. No mês passado, ele realizou o curso com o professor Cícero Coimbra sobre o protocolo de tratamento da esclerose múltipla com altas doses de vitamina D. Antes da palestra que viabilizou o curso em São Paulo, José Dagoberto já havia lido estudos científicos sobre a relação de baixa presença de vitamina D no corpo e doenças autoimune. “A vitamina D tem a função de desligar a doença”, sintetizou o médico.

O tratamento também deve ser acompanhado de perto por um nefrologista para monitorar as funções renais. “É bom enfatizar que as altas doses de vitamina D não são tóxicas, é o excesso de cálcio no sangue que pode causar complicações”, disse. Para evitar que a concentração de cálcio prejudique os rins, os pacientes devem tomar entre 2,5 a 3 litros de água por dia, não podem ingerir leite e derivados e também devem evitar carnes vermelhas por causa da reconhecida ação inflamatória (a esclerose múltipla prejudica o sistema nervoso por meio de inflamações).

Segundo o primeiro médico a prescrever o tratamento em Natal, 95% dos pacientes apresentam melhoras com as altas doses de vitamina D. Por outro lado, a redução dos sintomas no tratamento convencional está entre 20 a 30% dos casos. Ainda segundo José Dagoberto, há 3 mil casos documentados desse tipo de tratamento em todo Brasil. O tratamento com Vitamina D dura dois anos. Conforme o médico natalense, depois desse período, os pacientes tem chances reais de cura. “A alta depois desses dois anos significa a estabilização da doença ou a cura”, afirmou.

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