Alunos de Direito da turma de 64 da UFRN discutem comunismo x capitalismo

Discussões acaloradas contrapunham propostas antagônicas desde o nascedouro

Conr2

Conrado Carlos

Editor de Cultura

Rússia, outubro de 1917. “Todo poder aos sovietes”, gritam operários e camponeses nas ruas da então Petrogrado (um dia Leningrado e, hoje, a bela São Petersburgo). Sob comando do próprio Vladimir Lênin e de Liev Tróstki, a horda celebra a chegada dos bolcheviques ao poder, após mais de três séculos de Dinastia Romanov (uma das monarquias mais brutais que a Europa conheceu) e poucos meses de um governo provisório, meio socialista, meio burguês. Era a alvorada da Revolução Russa, episódio eivado por uma ideologia que partiria o mundo ao meio, nas décadas seguintes, com graves consequências sociais, culturais e econômicas.

Quarenta anos depois, em Natal, um grupo de universitários acolheu a bipolaridade Capitalismo x Comunismo com fervor. Eram alunos da turma de direito da UFRN, egressos em 1959, ano da outra revolução que empolgou a juventude transviada: a cubana. Logo, guerrilheiros barbudos, como Che Guevara e Fidel Castro, e filósofos, como Jean-Paul Sartre viraram modelos éticos e estéticos para quem tinha menos de 30 anos. Por aqui, a cizânia ideológica se instalou nos 31 estudantes do curso na Ribeira, cujo corpo docente registrava um time para lá de revolucionário – Luís da Câmara Cascudo, Floriano Cavalcanti, Edgar Barbosa, dentre outros.

Discussões acaloradas contrapunham propostas antagônicas desde o nascedouro. O comunismo da União Soviética pregava uma série de ‘ismos’ (nacionalismo, populismo, estatismo, protecionismo, etc), traduzidos em anexação de terras pelo Estado; subsídios aos pobres; partido único, que gerava burocracia e intervenção estatal inclusive na cultura; baixo (ou nenhum) estímulo a setores competitivos e a padronização salarial por categoria. Já o capitalismo norte-americano dizia ter a solução para os problemas da humanidade com sua aposta no livre comércio; na iniciativa individual; na mínima participação do Estado na economia; e na liberdade de expressão. Os futuros advogados, juízes, ministros e desembargadores potiguares questionavam tudo isso.

Cinco verões adiante, precisamente no dia 07 de março de 1964, portanto, três semanas antes do Golpe Militar, eles colaram grau. Na lista, nomes que se tornaram conhecidos na sociedade norte-rio-grandense, como o advogado, professor, poeta e ex-reitor da mesma UFRN, Diógenes da Cunha Lima, o ministro do Supremo Tribunal de Justiça, José delgado, o presidente do Tribunal Regional do Trabalho, Francisco das Chagas Pereira e o também jornalista e colunista do Jornal de Hoje, Hemetério Gurgel. Dos 31 formados, 19 estão vivos e se encontrarão na noite desta sexta-feira (07), no Nick Buffet, às 20 horas, para o retorno da Turma da Paz – título apaziguador tomado emprestado pelos magistrados.

Um dos organizados do bate papo nostálgico é o juiz de direito aposentado, Carlos Maia. “Naquele tempo, muita gente foi presa, era algo muito combatido [o comunismo]. Eles tinham boas ideias, mas talvez fossem um pouco radicais”, diz Dr. Carlos Maia. Dos remanescentes, apenas dois confirmaram a ausência – um deles é a advogada e diretora de uma revista, Berenice Freitas, moradora de Manágua, na Nicarágua. A noite será oportuna para lembranças de episódios pitorescos, como o jantar oferecido por Dona Noilde Pessoa Ramalho, fundadora e proprietária da Escola Doméstica de Natal e do colégio Henrique Castriciano (morta em dezembro de 2010), para graduados e convidados. Gente importante esteve presente, com direito à contenda etílica das mais surreais.

Para aplacar a desavença político-filosófica, o grupo enviou convite para ninguém menos que John Kennedy e Nikita Kruschev, respectivamente, líderes dos Estados Unidos e da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Ambos ficaram em seus países, mas enviaram representantes significativos – este o embaixador no Brasil, Andrei Fromin. Aquele, o cônsul-geral. Apertos de mão para cá, olhares enviesados pela Guerra Fria para lá, chegou a hora do combustível socializante. A mesa tinha opções variadas. Os brasileiros, claro, empunhavam cachaça. Os americanos, como maiores compradores do mundo, sugeriam uísque escocês. E os russos, ah, os russos. Trouxeram vodka, a mania nacional.

Diógenes da Cunha Lima refaz a cena: “O russo Andrei, com aquele jeitão dele, falou que era para servir a vodka depois do jantar. Só que Noilde disse que aqui no Brasil o costume é servir bebida como aperitivo, antes da refeição. O russo insistiu. ‘Lá na Rússia é depois’. E Noilde rebateu: ‘O senhor disse bem, na Rússia”. Sem mísseis, espionagem ou conspiração, a Batalha do Álcool estava encerrada. “A divergência era pesada, mas ninguém se alterava, não”, confirma Carlos Maia, presente aos outros encontros articulados – o último em 2004. A utopia do homem novo, dotado de respostas pré-fabricadas pelo marxismo endêmico que assolou parte da intelectualidade brasileira no século XX, será posta à mesa da Turma da Paz de Direito de 1964.

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