Amaro Sales faz um raio X da indústria potiguar: “O RN é um pobre Estado rico”

A declaração é atribuída ao agropecuarista e ex-governador do Estado, Cortez Pereira

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Carolina Souza

acw.souza@gmail.com

Avaliando o momento político-econômico em que passa o Estado do Rio Grande do Norte, o presidente da Federação das Indústrias do RN (Fiern), Amaro Sales, concedeu entrevista a’O Jornal de Hoje e comentou o cenário da indústria potiguar, que, segundo ele, sofre reflexos do cenário nacional. Apesar da “capacidade de resistência e superação do empresário potiguar”, Amaro considera que o ambiente de negócios apresentou declínio nos primeiros meses deste ano.

De acordo com o constatado pelo Índice de Confiança do Empresário Industrial – ICEI, monitorado pela FIERN, o empresário se sente desestimulado no RN pela interferência de variáveis importantes que impactam na competitividade da atividade industrial, como a pressão inflacionária, alta dos juros, falta de investimento pelo poder público e o aumento de custos gerais na produção e logística.

Durante a entrevista, Amaro Sales diz que “o Rio Grande do Norte é um pobre Estado rico”, frase atribuída ao agropecuarista e ex-governador do RN Cortez Pereira, de modo a sintetizar que apesar de o Estado ser repleto de possibilidade de investimentos e de recursos naturais, a economia potiguar ainda é dependente do que vem de fora. Confira a entrevista abaixo.

O Jornal de Hoje: Qual a opinião do senhor com relação ao atual momento econômico do RN?

Amaro Sales: Avalio que o Rio Grande do Norte, em regra geral, vive um momento de estagnação, apesar de alguns focos de crescimento e das muitas potencialidades que se apresentam. Dentre os focos, destaco o polo cimenteiro de Baraúna, que impulsiona os segmentos de extração de minerais não-metálicos (calcário, particularmente) e o de fabricação de produtos minerais não-metálicos (cimento). Destaco, ainda, a nova indústria das energias renováveis que está mudando as regiões do Litoral Norte, Mato Grande e, em breve, terá maior presença no Seridó. O RN, por sua vez, não é uma ilha isolada dos problemas do Brasil. Os reflexos da economia nacional são, obviamente, sentidos por aqui. Ademais, enfrentamos dois anos de severa estiagem o que, inevitavelmente, inibe investimentos privados em diferentes áreas.

JH: Como está sendo analisada a atividade industrial em nosso estado?

AS: A atividade industrial no RN sente reflexos do cenário nacional, entretanto, a capacidade de resistência e superação do empresário potiguar é algo admirável. Considerando o primeiro trimestre do ano, e, pelo parâmetro do consumo industrial de energia elétrica, temos uma situação um pouco melhor do que no ano passado. Entre janeiro/março de 2014, a energia consumida pela indústria cresceu 5,6% diante de 0,7% em igual período de 2013. Os dados decorrem, basicamente, do desempenho das indústrias de alimentos/bebidas e de têxteis, que era negativo em 2013 e passou a positivo em 2014 (sempre pelo parâmetro do consumo de energia). Contribuiu para este resultado a desoneração da folha de pagamentos que substitui os 20% da contribuição para a Previdência por 2% do faturamento bruto das empresas. Por sua vez, a confiança do empresário industrial potiguar no ambiente de negócios (economia nacional, a local, setor em que atua e a própria empresa) vem declinando entre fevereiro e abril, segundo constatado pelo Índice de Confiança do Empresário Industrial – ICEI, monitorado pela FIERN em parceria com a CNI. O empresário, se sente desestimulado pela interferência de variáveis importantes, que impactam na competitividade, como pressão inflacionária, juros em alta, ausência de investimentos públicos em atividades estratégicas e aumento de custos gerais na produção e logística.

JH: É difícil investir no RN?

AS: Sou potiguar declaradamente entusiasmado com o Rio Grande do Norte. As dificuldades daqui não são tão diferentes de outros lugares. Devemos nos inquietar e resolver tais dificuldades para que os nossos diferenciais – e são vários – se destaquem e atraiam mais investimentos. Ademais, precisávamos que todos os órgãos públicos de fomento, controle e fiscalização se sentissem mais estimulados para criar no Rio Grande do Norte medidas de estímulo ao empreendedor.

JH: Por que o RN sofre tanto para conseguir crescer economicamente, gerar emprego e renda?

AS: Não é uma análise simplória. É atribuída a Cortez Pereira uma frase muito interessante: O Rio Grande do Norte é um pobre Estado rico! Território rico não chega a ser suficiente para se ter uma economia desenvolvida. Precisamos mais! Precisamos, de início, da consciência que todos podem ajudar. Ora, o investidor sabe das potencialidades, mas ele precisa ser bem recebido e estimulado com medidas que vão desde os incentivos fiscais até a celeridade nos procedimentos de licença. Por outro lado, estamos trabalhando para sistematizar oportunidades de negócios, através do Projeto Mais RN, o que servirá muito para destravarmos etapas. Vamos ter, portanto, um bom e denso diagnóstico para pesquisa e uso dos empresários e dos Governos. Com o diagnóstico podemos nos lançar para uma segunda etapa: a unidade em torno do empreendedorismo. Se Governos, Instituições de classe, empresários, Poderes Constituídos, Ministério Público e outros órgãos se unissem em torno do empreendedorismo o Rio Grande do Norte andaria com melhor velocidade na estrada do desenvolvimento econômico e, consequentemente, social.

JH: O período eleitoral que se aproxima será decisivo para a economia do país e do RN?

AS: Aproveito a pergunta para dizer, de início, que sou favorável a unificação das eleições. Acredito que não é bom para o Brasil que as eleições ocorram a cada dois anos. É importante a democracia; é fundamental que tenhamos eleições, mas a cada dois anos é um custo financeiro e econômico que o Brasil não vai suportar. Evidente que o processo eleitoral interfere em tudo e, em especial, na economia. Quando escolhemos um ou outro candidato estamos, consequentemente, escolhendo um modelo de gestão que pauta a economia nacional e interfere significativamente na economia estadual.

JH: Uma das metas do Pró-Sertão prevê instalar mais de 300 fábricas têxtis. O projeto já está gerando resultados para a economia do estado?

AS: Este é, atualmente, um dos mais importantes projetos do RN. Faço um apelo para que todos se dediquem a apoiar a iniciativa de grandes marcas em contratar, no Rio Grande do Norte, serviços de confecção. Em 2014 já estamos contabilizando, segundo dados da SEDEC e do SEBRAE, a abertura de 50 facções e, em consequência, novos empregos. Resultados, portanto, que já estão melhorando a vida das pessoas do interior potiguar. A perspectiva é que tenhamos abertura de novas indústrias até 2017. O diferencial do Pró-Sertão, além da garantia do fornecimento de serviços para a indústria do interior, é o arranjo institucional que foi formado: Governo do Estado/SEDEC, Sistema FIERN, SEBRAE e empresas. Desejamos novos parceiros. Não podemos recuar em um projeto que já está trazendo melhorias econômicas e sociais para o interior do Rio Grande do Norte.

JH: Outro programa em parceria com o governo é o Mais RN. Como esta iniciativa deverá mudar o atual cenário econômico?

AS: O Mais RN é um estudo detalhado das potencialidades do Rio Grande do Norte. Apontará cenários, perspectivas e ramos de negócios que podem ser feitos ou ampliados. Também indicará projetos de infraestrutura e outras iniciativas que o Poder Público deve patrocinar para efetivamente garantir o crescimento sustentável do Rio Grande do Norte. Espero lançar o Mais RN, com os parceiros e apoiadores, no próximo mês de julho e que, independentemente de quem seja eleito para o Governo do Estado, o estudo possa ser aproveitado para direcionar rumos e subsidiar projetos.

JH: Como o senhor acompanha a crise financeira-orçamentária do atual Governo do RN?

AS: Ainda somos muito dependentes do Governo do Estado e, evidentemente, qualquer crise ou turbulência também nos afeta. Não personalizo a crise. Creio que o modelo gerencial do Governo do Estado precisa ser revisto e muitos dos problemas atuais não nasceram no mandato vigente. Contudo, seja quem for o governante precisa contar com o apoio das instituições e da classe política para realizar uma cirurgia delicada: diminuir o tamanho – e custo – do aparelho estatal onde for possível, melhorar os serviços básicos de atendimento à população e encontrar meios para investir em obras de infraestrutura e logística. Não é uma tarefa fácil, mas não é uma missão impossível.

JH: O que a FIERN pode fazer nessa situação de crise?

AS: A FIERN é parceira do Governo do Estado em várias iniciativas e será em todas as ocasiões e iniciativas onde seja convocada a bem do Rio Grande do Norte. O nosso relacionamento institucional é de respeito e colaboração com o Governo do Estado e, especialmente, em temas comuns como qualificação profissional, projetos industriais ou de desenvolvimento econômico e ações sociais de cidadania, temos atuado em conjunto.

JH: Temos uma bancada federal bem representativa no país. O Estado está conseguindo resolver os gargalos da infraestrutura através dessa força?

AS: A bancada federal tem tido uma atuação presente e com excelentes resultados para o Rio Grande do Norte. É preciso, inclusive, um reconhecimento às lutas da bancada. O Rio Grande do Norte tem o privilégio de ter deputados e senadores de destacado prestígio no cenário nacional e muitas das obras e iniciativas do Governo Federal, sozinho ou em parceria com o Estado e Municípios, foram articuladas pela bancada federal. Faço o reconhecimento público, sem personalizar, apresentando o agradecimento dos empresários industriais à atenção dada aos justos pleitos do Rio Grande do Norte pela bancada federal.

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