Ansiedade de Copa – Rubens Lemos

Telefonou depois do Jornal Nacional. Greves, incêndios de ônibus, escândalos políticos, crimes pavorosos, especulação sobre campanha eleitoral. Ele não queria…

Telefonou depois do Jornal Nacional. Greves, incêndios de ônibus, escândalos políticos, crimes pavorosos, especulação sobre campanha eleitoral. Ele não queria saber de nada constante da pauta diária da vida comum. Estava desencantado.

Gosto quando alguém telefona e o papo é redondo, fluente e macio. E foi de celular para celular da mesma operadora. Não pagaríamos sequer um centavo, uma das raras vantagens que nós, escravos apelidados de clientes, temos direito. Ser lembrado é estar vivo.

Acima do intranquilo o amigo, bem mais velho, não que eu seja novo. Ele nasceu com duas décadas de antecedência. Está aflito com o artificialismo dos preparativos para a Copa do Mundo no Brasil, que começa daqui a pouco, dia 12 de junho, estreia contra a Croácia na Arena Lula, ops, Arena Corinthians.

Ele disposto a matraquear, eu a relaxar para encerrar a jornada de fadiga. Vislumbrei duas ou três figurinhas que desafiam qualquer invenção medicinal para o combate à azia ou ao ataque cardíaco fulminante.

Gente que gruda, não larga e aluga o ouvido alheio contando vantagens e dizendo bobagens que serviriam de gatilho para o pique direto à dianteira do ônibus superlotado. São os castigos do ossário cotidiano.

“Você só ouve e vê falar nos baderneiros que querem incendiar estádio, no superfaturamento desses estádios, nos políticos querendo faturar se aproveitando da Copa, só aparece imagem de musa de seleção tal e qual, propaganda de cueca usada pelo Hulk, da namoradinha do Brasil que é a namoradinha de Neymar”, protestou, firme.

Faz sentido, concordei em silêncio, percebendo que estava transformado em divã espigado e barrigudo. Criticou o estilo popstar da maioria dos jogadores, o futebol de menos e a falta daquelas polêmicas e tensões que agitavam as proximidades de cada Mundial.

Começou por 1970, ano que nasci e ele contava seus 25 anos. Lembrou a supersafra de craques brasileiros, o timaço que, em sua opinião rebelde, foi armado por João Saldanha nas Eliminatórias para Zagallo “apenas” ganhar o doce. Entre Saldanha e Zagallo, sou Saldanha até a morte, mas é uma verdade nem tanto assim.

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O escrete de João Saldanha era um timaço, até melhor que o de 1970 se a análise for feita em cima dos 22 convocados, dos titulares e dos reservas. Saldanha tinha um miolo de defesa absurdamente técnico – Djalma Dias e Joel Camargo – e reservas luxuosos: Dirceu Lopes, Rivelino, Paulo César Caju e Toninho Guerreiro, companheiro de ataque de Pelé no Santos.

Derrubaram João Saldanha, ele não foi ao México. Zagallo, depois avô de nossas retrancas e que tomara, fique bom da doença que ameaça impedi-lo de ver os jogos, obedeceu a Ditadura, convocou Dadá Maravilha, mas teve um mérito: enxergou que deveriam jogar todos os craques.

Recuou Piazza para a zaga e Clodoaldo assumiu a camisa 5. Fez um time só de quem jogava com a camisa 10 e botou Rivelino de titular. Rivelino na reserva nem em filme da Boca do Lixo. Meu amigo discordou, ficamos discutindo uns dez minutos. Praticamos exatamente aquilo que está faltando hoje: o debate de esquina, de repartição pública, de botequim, de cabaré, de palácio, de velório e de confessionário sobre a seleção.

Ninguém defende um craque diante do amigo que prefere outro. Claro, não há mais craque e a ilusão de que somos os melhores é mantida na pirotecnia tecnológica da televisão e da internet, que descobrem avós, amantes, preferências por perfumes, carrões e sapatos, mas não podem fazer a mágica de exibir o talento que a turma não trouxe ao nascer.

Dirceu Lopes (foto) dominou quase toda a conversa. Foi considerado o mais injustiçado pelo meu amigo, que queria incluir Ademir da Guia, do Palmeiras, no mesmo patamar e não seria exagero. Ademir, o Divino Mestre, jogou 45 minutos de uma decisão de terceiro lugar em 1974 aos 32 anos e acabou substituído. Passeou, não foi à Copa.

Parceiro de Tostão, Dirceu Lopes perdeu três Copas: a de 1966, quando explodiu no Cruzeiro campeão da Taça Brasil humilhando o Santos de Pelé, a de 1970, preterido por Dadá Maravilha e Roberto Miranda, dois trombadores e em 1974, quando ainda rendia, no Cruzeiro, o suficiente para jogar mais do que Mirandinha ou Valdomiro convocados e escalados.

Nos despedimos prometendo outras conversas. Quem vai provocar a próxima serei eu para tratar de 1978 e a ausência criminosa de Paulo Roberto Falcão. Foi minha primeira Copa.

Depois falaremos sobre 1982 e 1986. Meu amigo está certo: falta na Copa do Mundo que vem chegando, suntuosa e em efeitos especiais, o calor emocional do indispensável: polêmica sobre futebol.

Dênis Marques

Dênis Marques não joga – de novo – pelo ABC. Diante do Avaí, o alvinegro vai depender de Beto ou Lúcio Flávio. Há quem esteja preocupado com a sensibilidade física do DM9, que no último jogo, sem receber bolas ou tomar iniciativas, nada fez.

Abater

A derrota em Santa Cruz não significa abatimento. O ABC pode vencer em Santa Catarina. Afinal, o nivelamento é por baixo. Só precisa jogar futebol, um pouquinho. O mínimo que faltou contra o Oeste.

Matar em casa

Pela partida contra o Joinville, o americano pode confiar no time. Deve cobrar atenção e maior pontaria do ataque contra o Luverdense.

Título e despedida

No dia 29 de maio de 1983, o Flamengo conquistava o terceiro campeonato brasileiro ao vencer o Santos no ex- Maracanã por 3×0, diante do maior público em decisões nacionais da história: 155. 253 pagantes. Zico fez sua última partida, vendido para a Udinese da Itália e marcou o primeiro gol. Voltaria dois anos depois. Leandro e Adílio completaram.

Times

Flamengo: Raul; Leandro, Figueiredo, Marinho e Júnior; Vítor, Élder, Adílio e Zico; Baltazar (Robertinho) e Júlio César (Ademar). Técnico: Carlos Alberto Torres. Santos: Marolla; Toninho Oliveira, Joãozinho, Toninho Carlos e Gilberto; Toninho Silva (Serginho Dourado), Pita e Paulo Isidoro; Camargo (Batistote), Serginho Chulapa e João Paulo. Técnico: Formiga.

Amigo perdido

Em Natal, naquela noite, um acidente de moto matava um flamenguista de 15 anos de idade. Meu amigo José Henrique Brandão Ramalho ia comemorar o título na orla marítima quando sua RDZ bateu em animais parados em frente ao Estádio Juvenal Lamartine. Faz 31 anos e parece ontem.

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