Antibióticos podem ser um dos grandes responsáveis pela obesidade

Para cientistas como o americano Martin Blaser, o uso do medicamento é a chave que faltava para compreender por que a obesidade tornou-se uma epidemia em todo o mundo

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Uma em cada três pessoas do mundo é obesa ou está acima do peso, de acordo com o estudo Global Burden Disease, publicado na quinta-feira. Nas três últimas décadas, enquanto a população cresceu 160%, a obesidade aumentou 240%. Para os autores da pesquisa, a explicação para essa epidemia planetária de ritmo exponencial vai além dos motivos clássicos de aumento de consumo calórico, sedentarismo e alterações na dieta. Junto a eles, a equipe de cientistas incluiu alterações nas bactérias da flora intestinal humana como uma das razões do aumento dos dígitos na balança. E o consumo indiscriminado de antibióticos pode ser a principal causa por trás desse fenômeno.

Para cientistas como o americano Martin Blaser, diretor do Programa Microbiota Humana, na Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, o remédio que tomamos desde crianças para combater infecções e que estaria presente em pequenas doses em todos os alimentos que consumimos é um dos grandes responsáveis pela obesidade.

“Se antibióticos fazem os filhotes de animais em fazendas engordarem, então o processo pode ser análogo ao que acontece quando damos o remédio a nossas crianças”, diz Blaser, autor do livro Missing Microbes (Micróbios Desaparecidos, sem edição em português), lançado em abril. Combinada a uma dieta hipercalórica, o uso do medicamento talvez seja o elo que faltava para explicar por que estamos tão gordos.

Promotor de crescimento — Na metade dos anos 1940, a indústria farmacêutica descobriu que animais que recebiam pequenas doses de antibióticos ganhavam massa muscular rapidamente. Assim, na década seguinte, o medicamento passou a ser misturado à ração para promover o crescimento de aves, porcos e gado em todo o mundo.

Além de impedir que os animais adoeçam em lugares sujos e apertados, como é o caso das criações industriais de carne, o remédio faz com que eles aumentem de 5% a 15% acima do normal — embora os cientistas não soubessem exatamente o por quê. Nos Estados Unidos, estima-se que 70% a 80% de todos os antibióticos vendidos sejam destinados às fazendas.

Na última década, o aparecimento de bactérias resistentes começou a alertar os pesquisadores para o uso crescente de antibióticos. Micro-organismos como MRSA ou KPC, não só podem ser transmitidos entre seres humanos, mas também podem vir dos alimentos. É o caso da Salmonella, encontrada principalmente em ovos.

Assim, para tentar entender o funcionamento das bactérias que habitam nosso organismo — quais são nossas, quais são adquiridas pelo meio ambiente —, o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês) passou a desenvolver desde 2007 o Projeto Microbioma Humano. O objetivo é, até 2015, mapear todas as espécies do corpo humano e desvendar sua função — semelhante ao que foi feito com o Projeto Genoma.

Foi nesse momento que os cientistas começaram a perceber que milhares de bactérias que convivem conosco, ajudando em funções básicas como a alimentação, são profundamente desequilibradas pelo uso dos antibióticos. Intrigado pelo aparecimento dos organismos resistentes, o uso crescente do medicamento em humanos e animais e a epidemia de obesidade, Blaser iniciou em 2007 uma série de experimentos para verificar se os três eventos tinham alguma relação. E descobriu que sim.

As bactérias da obesidade — Em dos testes feitos em seu laboratório, o pesquisador deu a camundongos uma dieta rica em gordura com pequenas doses de antibióticos. Os efeitos foram surpreendentes, principalmente nas fêmeas. Elas chegaram a dobrar o volume de gordura corporal. E, quanto mais cedo o medicamento era recebido, maior o crescimento. “A união entre pequenas doses de antibióticos e dietas gordurosas é de perfeita sinergia: o aumento do peso é enorme. Esses resultados são coerentes com a ideia de que a alimentação altamente calórica, sozinha, não é suficiente para explicar a epidemia de obesidade. Os antibióticos estão, claramente, contribuindo”, diz Blaser.

Para descobrir se os efeitos em ratos poderiam ser semelhantes ao que acontece às crianças, Blaser e o cientista Leonardo Trasande, um dos autores do estudo Global Burden Disease, analisaram os dados de saúde de quase 12 000 crianças nascidas entre 1991 e 1992 na Inglaterra. Perceberam que quase um terço receberam antibióticos nos seis primeiros meses — e foram essas as crianças que mais engordaram. O número é surpreendentemente semelhante ao revelado pela pesquisa mundial da última semana.

“Em fazendas, em nossos experimentos com ratos e no estudo com crianças, há evidências consistentes de que a exposição a antibióticos na infância pode alterar o desenvolvimento, trazendo mais peso e gordura”, diz Blaser. “E é possível que isso não seja facilmente revertido. Estamos pesquisando mais detalhes de como isso acontece, para compreender o enredo e os personagens desse fenômeno.”

Mais energia, mais gordura — As bactérias intestinais são importantes para ajudar na quebra de substâncias, como fibras e lactose, e sintetizar aminoácidos ou vitaminas, como a K. Até 15% das calorias dos alimentos são extraídas pelas bactérias da flora intestinal e nos alimentam. Se o grupo de bactérias que faz esse trabalho cresce, ele é capaz de extrair melhor a energia dos alimentos. Ficaríamos mais bem nutridos — mais gordos.

É esse o processo que acontece quando os antibióticos são ingeridos. Eles acabam com algumas bactérias — as responsáveis pela infecção e também outras, atingidas pelo medicamento — selecionando algumas, que se reproduzem. Se tomados na infância, os antibióticos fazem com que as bactérias responsáveis pela absorção de nutrientes aumentem justamente na fase em que células e tecidos estão sendo formados. Por isso, os efeitos perduram até a idade adulta. “Temos evidências para saber que os antibióticos e o desequilíbrio da microbiota é uma das causas não só do aumento de gordura em todo o mundo, mas da gordura visceral, que é prejudicial à saúde”, afirma.

A maior exposição a antibióticos vem das doses que tomamos para combater infecções. Blaser lembra que o medicamento está presente não apenas em pílulas e injeções, mas também escondido em carne, ovos, leite e vegetais que consumimos. Além do uso como promotores de crescimento, bactericidas são usados em plantações para combater infecções vegetais. O remédio, misturado ao solo, excretado em fezes animais e humanas, vai ainda para o ambiente, contaminando a água.

Nos Estados Unidos, a agência de saúde federal estabelece limites máximos para a presença de micro-organismos e antibióticos nos alimentos — o que significa que pequenas doses podem chegar pela comida. “Quando consumimos alimentos, também estamos consumindo antibióticos. Eles agem da mesma forma que se estivéssemos tomando comprimidos, mas em doses menores. Milhares de pessoas estão sendo expostas e não sabemos com certeza quais podem ser as consequências disso”, afirma Blaser.

No Brasil, uma instrução normativa de 2009, do Ministério da Agricultura, regulamenta o uso de antibióticos em animais de acordo a legislação internacional. No entanto, a contaminação ambiental é um alerta já soado por infectologistas em todo o mundo. “Usamos antibióticos em animais de corte e no controle de pragas vegetais. Além disso, ele está presente no esgoto de clínicas e hospitais. O medicamento tem um período até que se torne inativo e, nesse tempo, ele está indo para a água, para o ambiente”, diz o biólogo Rodrigo Cayo, pesquisador do Laboratório Especial de Microbiologia Clínica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “A concentração pode ser pequena, mas seu impacto a longo prazo ainda é desconhecido. É como se estivéssemos sendo expostos a doses homeopáticas de antibióticos por toda a vida. E isso não é algo que pode ser descartado.”

Nova causa da obesidade — As alterações na microbiota humana, causadas tanto pela dieta — capaz de alterá-la em um único dia — quanto pelo uso de antibióticos, passou a ser uma razão considerada importante para explicar os porquês da epidemia de obesidade. Os pesquisadores, porém, acreditam que a explicação do fenômeno é uma combinação entre vários fatores, em que pesa a mudança alimentar e cultural dos últimos anos.

“Alimentos e antibióticos são fatores com alto impacto na microbiota humana. Eles transformam nossas bactérias, nos tornando mais eficazes na absorção de energia. Em muitos países as crianças tomam antibióticos pelo menos uma vez ao ano”, diz o médico Helbert Tilg, da Universidade Innsbruck, na Áustria, que pesquisa alterações no metabolismo humano e sua relação com a obesidade. “A questão que ainda temos que descobrir é: o que aconteceu nas últimas três décadas? Temos mais alimentos disponíveis, mais lanches e fast-food, mais stress e mais antibióticos. Provavelmente a obesidade é uma mistura de vários desses aspectos.”

Para tornar as bactérias do nosso organismo menos propensas a nos fazer engordar, os pesquisadores começaram a pesquisar algum tipo de probiótico (bactérias vivas consumidas na forma de iogurte, leite fermentado ou cápsulas) que possam ser eficazes no combate ao ganho de peso. Outro foco é diminuir a exposição aos remédios principalmente nos primeiros anos de vida. O medicamento ainda é usado para combater infecções provocadas por vírus, que ele não combate, promovendo não só o aumento de peso, mas também o aparecimento de bactérias resistentes.

“Os antibióticos são uma contribuição substancial para a obesidade e é urgente reduzir seu uso inapropriado em crianças”, diz o cientista Leonardo Trasande, que pesquisa as causas de obesidade infantil nos Estados Unidos desde os anos 2000. “A infância é o período humano em que nossas bactérias estão mais vulneráveis. Quando atingidas nesse período por antibióticos, alguns grupos de bactérias que possuímos podem ser repostas no futuro. No entanto, no que diz respeito à obesidade, seus efeitos parecem não ser tão facilmente revertidos.”

 

Fonte: Veja

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