Aos 60 anos, atriz gaúcha Aldine Müller é “Virgem aos 40.com”

“Acho que muita gente quer mesmo é ver se ainda dou um caldo”

Na cena final de O Bem Dotado – O Homem de Itu (1978), o macho alfa Nuno Leal Maia sentenciava: “ela também é de Itu!”. E disso ninguém mais teve dúvida. Aldine Müller se tornou ainda em meados dos 70 uma das musas da pornochanchada e, logo, do nosso cinema. Não precisa listar alguns dos mais de cinquenta filmes dos quais ela participou – até porque os títulos não traduzem muita coisa e, vez por outra, alegram as madrugadas do Canal Brasil. A atriz gaúcha já fez 60 anos e nem parece. “Estou cuidando muito bem do corpinho de 60 para ser ter um aspecto de 30”, diz ela, divertindo-se Até porque, no palco, Aldine precisa convencer de que tem 40.

Em idas e vindas, a comédia Virgem aos 40.com está por aí há mais de três anos. Na sexta (7), mais uma temporada se inicia, desta vez no Teatro Zanoni Ferrite, na Vila Formosa, com sessões nas sextas e sábados, às 20h, e aos domingos, às 19h. Os ingressos saem por R$ 20,00. Na trama, uma mulher contrata um acompanhante (interpretado por Rafael Fernandes) para a comemoração de seu aniversário e, na festa, claro… Ela quer perder a virgindade. Enfim, Aldine tem coisas bem interessantes para nos falar. Então vamos lá!

As pessoas vão ao teatro para ver uma peça com a estrela da pornochanchada ou seu nome vem em segundo plano?

Eu acredito que o público vai mesmo ao teatro para gargalhar com uma comédia, e essa hora de lazer a gente oferece. Mas para falar a verdade, acho que muita gente quer mesmo é ver se ainda dou um caldo (risos).

O seu público é basicamente masculino?

A plateia é bem heterogênea, tem gente de todas as idades. Já vi grupo de idosos, molecada de colégio e muitos casais. O retorno é bacana. Já estou no meu quarto perfil em redes sociais. Surgem lá espectadores antigos, que me viram em filmes e novelas, mas esse número cresceu muito com a peça. Tenho um público masculino grande entre 40 e 60 anos. O me deixa mais feliz ainda é que sou bem tratada pelas mulheres deles (risos). E isso não deve ser porque elas sentem ciúme.

E existe alguma cantada ou proposta indecente por parte dos fãs?

De vez em quando até rola um tipo de gracinha no camarim, alguma brincadeira mais indiscreta, mas acontece que meu namorado está sempre por perto. Brinco que ele é nosso segurança (risos). A maioria é muito gentil. Alguns falam: “ontem, eu vi um filme seu no Canal Brasil”. Eu só respondo: “opa!”. Às vezes, eu vejo alguns dos meus filmes e penso que eram umas porcarias, que poderiam ter sido muito melhores, mas eles eram assim e ponto.

 

Aldine Müller: reestreia de “Virgem aos 40.com” no Teatro Zanoni Ferrite (Fotos: Márcia Freitas e Erick Pellegrini)
Aldine Müller: reestreia de “Virgem aos 40.com” no Teatro Zanoni Ferrite (Fotos: Márcia Freitas e Erick Pellegrini)

Como você chegou até a Boca do Lixo?

Eu já era modelo em Caxias do Sul (RS) e mudei para São Paulo com o sonho de ser atriz. Fui trabalhar na TV Tupi e surgiu o convite para o cinema. Eu cheguei na Boca pensando que estava em Hollywood. Claro que levei um susto. Não tinha nada do glamour que imaginava na minha ingenuidade.

Muitas de suas colegas criticam a Boca do Lixo e, inclusive, renegam os filmes que fizeram. Existem arrependimentos?

Eu sempre fiz as coisas com muito cuidado, sempre fui metida a ser diretora. Nunca deixei uma câmera me filmar de frente se estava de perna aberta, por exemplo.  A câmera me pegava mais de costas. Sei que tem gente que fez coisas bem pesadas e entendo o arrependimento de algumas colegas. O meu filho cresceu nos sets da Boca. Quando fiz PLAYBOY, ele foi escolher as fotos comigo. Até meus netos já viram alguns dos meus filmes. Nunca fiz nada de errado.

Se pudesse voltar no tempo, aceitaria ser uma atriz da Boca?

Como diz a música do Gonzaguinha, “começaria tudo outra vez, se preciso fosse, meu amor, a chama no meu peito ainda queima, saiba, nada foi em vão”. Foi através do meu trabalho que construí a minha vida. Deu para comprar o meu apartamento, onde moro, na Avenida Paulista. Vivo de forma simples, mas bem. Tive uma formação que me fez entender que não preciso do vestido mais caro da loja mais sofisticada. Talvez não tenha conseguido dar mais atenção ao meu filho. Tenho dúvidas se o eduquei bem. Poderia ter sido uma mãe melhor, mais presente, mas tudo bem. Hoje, ele tem 42 anos, me deu três netos. Tenho um neto que está começando a jogar futebol. Imagina… Um dia, posso ser uma velha rica!

Tem contato com suas colegas daquele tempo?

Cada uma seguiu sua vida. Encontrei a Helena Ramos e a Zilda Mayo há uns dois anos em um evento no Museu da Imagem e do Som (MIS) e foi muito prazeroso. A Matilde Mastrangi eu não vejo há muito tempo.

No palco: Rafael Fernandes e Aldine Müller em “Virgem aos 40.com” (Foto: Moyses Pazianotto)
No palco: Rafael Fernandes e Aldine Müller em “Virgem aos 40.com” (Foto: Moyses Pazianotto)

 

Você foi símbolo sexual de um país mais libertário e com exigências diferentes. Como você enxerga esse culto em torno da beleza e as mulheres obcecadas em plásticas e exercícios para manter a forma? 

Convivo bastante com mulheres e percebo que existe uma competição entre elas em qualquer lugar. Eu sempre me pergunto: será que a mulher cuida tanto de si para elas mesmas ou para os outros? A mulher é um ser muito ególatra. Gosto de academia e faço ioga. Devemos nos cuidar e manter mente e corpo sãos, claro. Adoro receber elogios, mas, antes de qualquer coisa, eu preciso me sentir bem. O mais importante de tudo é cuidar da espiritualidade. Sou uma mulher rezadeira.

Entre as estrelas da pornochanchada, você é das poucas que continua em atividade como atriz. É persistência, vocação ou falta de escolha?

Eu já tive um restaurante natural no Itaim, há mais de 20 anos. O que me dá prazer de verdade é estar em cena e produzir. A produção é um trabalho mais burocrático, coisa para mulher-macho, mas eu gosto de ajudar a levantar uma peça. Monto os projetos, batalho patrocínio, escolho pauta nos teatro para meus amigos. Não me queixo com o sucesso que Virgem aos 40.com faz. Temos público e já viajamos pelo interior de São Paulo e algumas cidades do Norte e Nordeste. A peça continua em cartaz mais por amor que pelo dinheiro em si. Para a temporada de 2014, conseguimos um patrocínio. Tem que ser assim para eu continuar trabalhando. Eu não mudaria de profissão. Ainda mais agora, aos 60 anos. Mas tenho outros projetos.

Que tipo de projeto?

Pretendo voltar logo mais para o Rio Grande do Sul, colocar minhas pantufas e ficar diante de uma lareira, tomando um bom vinho. Vou morar em São José dos Ausentes, minha terra. Tenho uma casinha lá. Eu respeito muito a minha profissão, me sinto representada e acho que, além da vocação e persistência, eu tenho sorte. Trabalhei em todas as emissoras. Estive em ótimas novelas na Globo, comoSassaricando e Rainha da Sucata. Há dois anos, fiz uma participação que adorei no filme Dois Coelhos, dirigido por Afonso Poyart. Continuo tendo oportunidades. E isso também é sorte.

Você precisou enfrentar muitos testes do sofá?

Olha, vai parecer babaca falar isso, mas eu nunca precisei encarar o teste do sofá. Eu sempre tive uma cara de gaúcha desamparada, mas quando abria a boca deixava todo mundo com medo da minha faca na bota, como dizem no Rio Grande do Sul. Ouvia falar tanta coisa e até, confesso, pensava: “será que sou tão desinteressante?”. O povo da Boca virou um pouco meu pai, todo mundo me protegia. Eu carregava meu filho para lá e para cá. Eles deviam ter pena de mim. O Antônio Galante (produtor, considerado o Rei da Boca do Lixo) sempre me pagou direitinho. Um dia, ele falou que eu poderia ser a Sylvia Kristel brasileira e resolvi mirar nessa ideia. Eu tive sorte de rapidamente virar uma musa e me tornar conhecida. E quando fui fazer televisão já não era mais uma iniciante. Acho que isso me livrou de passar por esse tipo de teste.

Sua família, no interior do Rio Grande do Sul, aprovava seus filmes?

Na minha santa inocência, eu achava que os filmes nunca chegariam ao conhecimento da minha família. Um dia, meu pai me viu no cinema e disse que nunca mais falaria comigo. Fiquei muito triste. Depois, a Rede Globo me redimiu. Só reatamos de verdade quando meu pai me viu fazendo novelas.

Como é para um símbolo sexual chegar aos 60?

Seria absurdo eu dizer que é a melhor idade. Claro que eu gostaria muito mais de estar com 30 anos. Mas, enfim, esse tempo já passou. Então estou cuidando muito bem do corpinho de 60 para ser ter um aspecto de 30 (risos).

Aldine : “Sylvia Kristel brasileira”, segundo Antonio Galante. Foto: Divulgação
Aldine : “Sylvia Kristel brasileira”, segundo Antonio Galante. Foto: Divulgação

Fonte: Veja

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