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Aos 60 e sempre

Data: 02 março 2013 - Hora: 18:00 - Por: Rubens Lemos Filho

No trecho mais triste do filme sobre a fábula de Zico, ele está caminhando na praia com Geraldo Assoviador, seu companheiro de clube e primoroso meia-armador. Os dois, interpretados por figurantes de talento duvidoso, sentam na areia e refletem num diálogo premonitório:
Geraldo deita, cruza as mãos sob a cabeleira Black Power, olha ao infinito numa tristeza destoante do seu estilo de jogar liberto como pássaro, voando baixo, sambando entre adversários aos dribles. Geraldo diz a Zico, mais ou menos assim:
- Zico, estou com uns pensamentos estranhos, rapaz. Não consigo me imaginar velho, aposentado, com filhos, netos. É esquisito.
O Zico, que não era Zico pela qualidade ridícula do ator, respondeu na liguagem típica da época, 1976, o Galinho no esplendor dos 23 anos cronológicos:
- Pôxa(com circunflexo) Geraldo, que papo mais careta, rapá(carioca fala assim). Eu quero é viver, pensar no presente, vamos tomar um banho de mar!
A cena antecede à reconstituição da cirurgia de amígdalas de Geraldo, que o matou na mesa de operação por uma reação alérgica à anestesia.
O massagista Serginho, vivido por Romeu Evaristo, o Saci Pererê do Sítio do Picapau Amarelo, faz uma tentativa inútil de ressuscitação esmurrando o peito de Geraldo.

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O assoviador, o irmãozinho adotado pela Família Antunes, a Família de Zico, acertara no fatalismo prematuro como nos passes para o companheiro letrar sua biografia escrita pelos pés, cabeça, peito e, suprema, massa cinzenta.

Geraldo morreu no dia 26 de agosto do 1976. Zico beijou sua testa no velório. Geraldo não envelheceu. Fez o Flamengo usar seu uniforme de luto à época (calções pretos) uma semana depois contra o ABC.

Zico, chorando, correspondeu ao amigo como um irmão inconformado lutando por sua volta. Zico jogou por Zico e por Geraldo. Fez os dois gols da vitória de 2×0 no Maracanã silencioso e não comemorou, pela(talvez) única vez na vida.

Amanhã, Zico faz 60 anos de idade. É o que consta na sua certidão de nascimento. Homens normais envelhecem. Geraldo na morte provou sua perpetuação. Zico é o craque e cidadão de sempre, ungido à sagração das lendas e mitologias.

As seis décadas oficiais de Zico põem o futebol brasileiro em festa. Zico acende o bolo exatamente no domingo, que nunca foi o mesmo em suas tardes desde sua despedida. Um domingo de expectativa de Zico no gramado parava o Brasil de minha geração.

Zico foi o Pelé a que tivemos direito de amar, idolatrar, temer como adversário e gritar de peito lavado que havia, entre nós, um gênio capaz de eternizar o fugaz, transformar o efêmero em filme clássico e interminável de tão delicioso.

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Zico não envelhece. Nem Pelé, Carlos Drummond, Santos Dumont, Chico Buarque, Dom Hélder, Juscelino e Djalma Maranhão de Natal.
Zico não envelhece. Zico é o menino de 18 anos que classificou o Brasil para as Olimpíadas de 1972 autor do gol da vitória contra a Argentina. Excluído por pirraça da Ditadura, que perseguia Nando seu irmão, torturado na escuridão da tirania.

Zico não envelhece. Zico é o príncipe campeão carioca de 1974, seu primeiro título, espantando o Brasil. Driblador e artilheiro. Zico em dezembro de 1974, provou a Zagallo que merecia vaga na Copa do Mundo privilégio de toscos do nível de Mirandinha do São Paulo.

Zico não envelhece. Zico é o sofrido de 1978, machucado massacrado pela imprensa na Copa da Argentina. Zico é o visionário da decisão contra o Vasco, quando espantou Marco Antônio com sua presença lindamente assombrosa, fazendo o lateral ceder o escanteio infantil. Ele bateu em transversal, para a cabeçada de Rondinelli.

Zico não envelhece. É o craque da linha de passe de cabeça em 1979, tabelinha aérea na área do Vasco até o salto de atacante de vôlei e a testada para as redes de Leão, sua vítima predileta. Justa, por arrogância.

Zico não envelhece. É a antevisão agindo em namoro de amante com o instinto e lançando Nunes para marcar o primeiro gol contra o Atlético Mineiro na decisão de 1980. E depois, ele próprio, num sem-pulo, fazer o segundo alegrando 153 mil pessoas.

Zico não envelhece. É a maturidade felina e ferina destruindo em passes de carta de amor, os ingleses do Liverpool, na final da Taça Interclubes em 1981. Melhor em campo e ganhador de um carro Toyota, luxo. Ficou com o automóvel e dividiu o valor em dinheiro com os colegas.

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Zico não envelhece. É o semblante arrasado no desembarque no Rio de Janeiro em julho de 1982, após a derrota para a Itália no Estádio Sarriá, Copa que seria dele e da geração sem clonagem. Zico é o show contra a Argentina e o pênalti de Gentile sobre ele, rasgando a camisa 10 usada pela última vez com substância exigida.

Zico não envelhece. É o Zico atormentado, joelhos esfolados, tomando morfina, para jogar a Copa do Mundo de 1986. É o Zico dos minutos arrasadores contra a Polônia, do passe perfeito e da tragédia do pênalti jogado nas mãos de Bats, contra a França.

Zico não envelhece. É o Zico da resistência, comandando, com brilho vinícola, o Flamengo Campeão Brasileiro de 1987, marcando, contra o Santa Cruz do Recife, um gol de falta, curva tão bem desenhada e fatal como é uma das tantas da Estrada de Santos.

Zico não envelhece. É o Zico escultor, marcando, de falta em Juiz de Fora, o último gol sem imitações de sua carreira profissional e pondo, em anticlímax, o goleiro do Fluminense Ricardo Pinto, na história por chute enviesado.

Zico não envelhece. É o Zico recuado, é o Zico Gerson, visto pelos meus olhos em Natal num amistoso em que fez seu único gol por aqui, trivela venenosa batendo o goleiro César, da seleção do Rio Grande do Norte, em 1985.

Zico não envelhece. Eu, sim, vou passando . Posso não chegar aos 60 anos, mas enquanto resistir como no samba de Zeca ou Martinho, espero, na quimera e no refúgio, ver o Galinho(para sempre) com a camisa mais bonita, a do Vasco, ao lado de Geovani, regente e minha compensação nos clássicos. Se acabar por aí, a vida estará completa para mim.

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