Após 5 anos, tragédia do Planalto ainda espera justiça
Há cinco anos, uma tragédia envolvendo duas crianças, de um e dois anos de idade, causou comoção entre os moradores do bairro do Planalto, na zona Oeste da Capital. Em uma possível crise de esquizofrenia, um homem matou os filhos espancados e, depois de tentar assassinar a esposa, ateou fogo na residência onde a família morava, na Rua Santo Onofre. Até hoje, Luciene Rodrigues Freire, sobrevivente, espera uma resposta da Justiça potiguar.
Depressiva crônica desde a tragédia, a mulher apresenta um semblante abatido e descrente de que possa ter algum motivo para sorrir novamente. Com voz embargada e sofrida, ela relatou toda a história terrível que viveu na madrugada do dia 29 de janeiro de 2008, quando acordou com os gritos histéricos do marido, o servente de pedreiro Evânio Fernandes da Silva.
“Ele estava transtornado, gritando que estava sendo perseguido e que queriam matá-lo. De repente, ele começou a batê-las com muita força contra as paredes, foi terrível. Tentei salvá-las, mas também fui espancada, agredida. Ele estava fora de si. Depois, correu para a rua, mas foi espancado por pessoas que estavam do lado de fora e acabou morrendo dois dias depois, no hospital”, relatou, com os olhos marejados.
A recordação das imagens chocantes que presenciou naquela noite dói em Luciene, que acredita que toda a tragédia poderia ter sido evitada se o marido, com quem estava casada há cerca de quatro anos, tivesse sido atendido e internado no Hospital Psiquiátrico João Machado, onde foi medicado com uma injeção de Diazepan e liberado.
Neste dia, o servente de pedreiro havia demonstrado um comportamento totalmente estranho. Antes calmo e pacífico, ele estava transtornado, dizendo que estava sendo perseguido, que haviam instalado câmeras no interior da casa e que precisava salvar sua família. Assustada, ela relatou o fato aos familiares do marido, que decidiram levá-lo ao hospital.
“Ele não falava nada com nada, mesmo assim, o médico que o atendeu só mandou aplicar uma injeção e o liberou. Eu ainda perguntei ao médico se aquilo estava correto, mas ele disse que não tinha vaga para interná-lo. Fomos para casa, ele se deitou e dormiu até o meio da madrugada, quando acordou daquele jeito e fez tudo aquilo”, desabafou.
Passados cinco anos do fato, Luciene continua lutando na Justiça contra o Estado, que administra o hospital psiquiátrico. “Perdi tudo, família, filhos, saúde, casa, tudo. E até hoje, estou abandonada pelo Estado, que defende o médico que liberou meu marido sem ao menos tentar interná-lo, mesmo diante do quadro que ele apresentava. Até hoje, só teve uma audiência na Justiça, mesmo assim, só chamaram as testemunhas de defesa do médico, e as minhas não”, disse.
A mulher, que sofre de depressão crônica desde então, revelou que o desgosto e a descrença são tão fortes que ela abandonou o tratamento médico há cerca de cinco meses. E afirmou que só quer justiça. “Ficaram seqüelas terríveis, gravíssimas, mas, apesar disso, o Estado não está nem aí para o que eu passei e que poderia ter sido evitado. Só quero que seja feita justiça, pelo menos uma vez na vida”, afirmou Luciene.
Local de tragédia permanece intacto
Dentro da casa onde a família residia, restos de telhas e madeiras, misturados a objetos que pertenceram aos seus antigos moradores, outros acrescentados por curiosos e o mato que cresceu entre as frestas do cimento. As marcas do fogo estão visíveis nas paredes, estruturas de madeira e até na ferragem das grades da janela.
Luciene Rodrigues não consegue olhar direito para o local onde perdeu seus dois filhos menores e o marido. “Não gosto de vir aqui. A dor e a lembrança de tudo o que eu vivi naquela noite é muito forte e só pioram diante das marcas de destruição e sofrimento que este lugar carrega. Só queria conseguir vender esse terreno, mas ninguém quer morar em um local com essa história”, desabafou.
Hoje, ela vive com a filha mais velha, fruto de seu casamento anterior e que hoje tem 18 anos, em uma casa alugada a cerca de 500 metros do local da tragédia. Tímida, a jovem tenta levar uma vida normal, mas, assim como sua mãe, evita chegar perto da sua antiga residência.
“Não posso voltar a morar em um lugar onde perdi três pessoas tão importantes para mim e onde a minha vida acabou. Também não consigo vender o terreno, porque as pessoas têm medo de morar em um local que carrega uma história tão triste e pesada. Perdi tudo o que eu tinha e tudo o que eu quero é que a justiça seja feita. Só isso, justiça”, disse Luciene.
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