Após atrasar recall, GM leva multa histórica nos Estados Unidos

Problema foi identificado em 2001 mas correções começaram neste ano; empresa proibia palavra "defeito" em relatórios

Logotipo da General Motors na sede da empresa, em Detroit. Foto:  Divulgação
Logotipo da General Motors na sede da empresa, em Detroit. Foto: Divulgação

A General Motors foi multada por autoridades americanas em US$ 35 milhões – ou R$ 77 milhões – por demorar mais de uma década para revelar que há um defeito na ignição que afeta milhões de carros e está relacionado a ao menos 13 mortes. A penalidade, recorde, foi aplicada na sexta-feira (16).

Em acordo firmado com o Departamento de Transportes, a GM admitiu que demorou em avisar os reguladores, prometeu resolver os problemas mais rapidamente e se submeteu a um monitoramento mais profundo por parte do governo de suas operações de segurança.

A multa atinigiu o valor máximo que o Departamento poderia impor.

“Silêncio mata, literalmente”, disse o secretário de Transportes, Anthony Fox. “A GM não agiu e não nos alertou atempadamente. O que a GM fez foi ilegal.”

Ativistas de segurança dizem que a multa, que é menos do que a GM ganha em um dia, é muito pequena para dissuadir maus comportamentos por parte das montadoras de automóveis.

Clarence Ditlow, diretor-executivo da organização sem fins lucrativos Center for Auto Safety(Centro pela Segurança Automóvel, na sigla em inglês), disse que o Departamento de Justiça – que está conduzindo uma investigação criminal paralela – deveria multar a GM em US$ 1 bilhão (R$ 2,21 bilhões) ou mais e processar os engenheiros da GM e seus superiores.

“É a única forma de mudar o comportamento da GM”, disse.

O Congresso também está investigando a GM e a fabricante de automóveis enfrenta centenas de ações em razão de mortes e ferimentos atribuídos à falha no sistema de ignição.

Companhia levou mais de uma década para fazer recall

A companhia reconheceu que sabia dos problemas no sistema de ignição de seus carros compactos desde 2001, mas só deu início ao recall de 2,6 milhões de unidades em fevereiro deste ano, começando pelos modelos Chevrolet Cobalt e Saturn Ions.

Por lei, fabricantes de automóveis devem informar defeitos de segurança ao governo em até cinco dias depois de descobri-los.

Quando forçado, o sistema de ignição pode deixar a posição “run” e desligar o motor. Isso corta a alimentação da direção e dos freios, o que pode levar os motoristas a perderem o controle, além de desligar os air bags.

A GM informa que ao menos 13 pessoas morreram em acidentes ligados ao problema. Advogados que processam a empresa falam em 53 mortes.

A Administração de Segurança de Trânsito do Departamento de Transporte, que foi criticada por falhar em agir sobre o caso apesar de milhares de reclamações de donos de veículos, fez uma conferência de imprensa para virar a mesa contra a GM, detalhando algumas das mais graves evidências contra a fabricante.

“Há algo muito errado com os valores da companhia”

O administrador em exercício da agência, David Friedman, esclareceu que um memorando de 2009 de um fornecedor da GM dizia que o problema da ignição poderia desligar os airbags. Se o governo tivesse sido informado à época, teria exigido o recall, disse Friedman.

Friedman disse ter ficado claro que os empregados da GM sabiam dos problemas há anos, desde engenheiros até executivos. A agência, entretanto, não tem como provar que é falsa a alegação da presidente-executiva da GM, Marry Barra, de que só soube do problema recentemente.

Ele apresentou o escândalo como parte de um problema maior da cultura de segurança da GM, dizendo que os materiais de treinamento da empresa desencorajam os empregados de usarem palavras como “defeito” ou “perigoso” ao relatar problemas a seus superiores.

“O fato de que a GM levou tanto tempo para relatar esse defeito mostra que há algo muito errado com os valores da companhia”, disse Friedman.

A GM recebeu um resgate de US$ 49,5 bilhões (R$ 109,4 bilhões) do governo americano em 2009 quando entrou em concordata, e Washington chegou a ser o maior acionista da empresa, mas vendeu a última ação que detinha em dezembro.

Na sexta-feira (16), a ação da GM fechou com queda de 1%, a US$ 34 (R$ 75,15).

A GM já está fazendo mudança. A empresa nomeou um novo chefe de segurança e começou a checar os seus registros em busca de problemas que possam levar a recalls. Neste este ano, foram feitos 24, totalizando 11,2 milhões de veículos.

“Nós aprendemos bastante com esse recall. Nós vamos focar agora no objetivo de nos tornarmos líderes em segurança na indústria”, disse Barra.

Neste ano, após uma investigação que levou quatro anos, o Departamento de Justiça fez a Toyota pagar US$ 1,2 bilhão (R$ 2,65 milhões) por esconder um problema de aceleração não-intencional. Nenhum funcionário foi acusado pelo crime.

A pena máxima aplicada pelo Departamento de Transportes foi dobrada para US$ 35 milhões (R$ 77 milhões) neste ano, mas Foxx pediu que o Congresso a eleve para US$ 300 milhões (R$ 663 milhões).

Apesar de a concordata da GM protegê-la de responsabilidades passadas, a companhia contratou o advogado especialista em compensações Kenneth Feinberg para negociar os acordos.

Carl Tobia, professor de Direito na Universidade de Richmond, disse que a ação do governo na sexta-feira (16) “torna maior a exposição da GM às responsabilidades, ou maiores os danos pelos quais as famílias fecham acordos”.

Pelo acordo , a GM tem de dar à autoridade de segurança acesso completo aos resultados de uma investigação interna que está sendo feito para a companhia por um ex-procurador federal e que deve ser concluído em dois anos.

Fonte: IG

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