Sem repasses, Casa da Criança sobrevive de doações e pode ser fechada

Direção da unidade diz que ano letivo nem deveria ter sido iniciado

Sem verba, Escola Ambulatório Padre João Maria pode deixar de  atender a 200 crianças carentes. Professores estão com salários atrasados há cinco meses. Foto: Wellington Rocha
Sem verba, Escola Ambulatório Padre João Maria pode deixar de atender a 200 crianças carentes. Professores estão com salários atrasados há cinco meses. Foto: Wellington Rocha

Carolina Souza

acw.souza@gmail.com

Já são mais de cinco meses que os professores que trabalham na creche filantrópica da Escola Ambulatório Padre João Maria – Casa da Criança estão sem receber salário. A unidade, localizada no bairro de Morro Branco, pode vir a fechar nos próximos meses caso os professores resolvam cruzar os braços. A dificuldade administrativo-financeira relatada pela diretoria pode prejudicar cerca de 200 crianças de famílias carentes. Sem ajuda do poder público, a diretoria da creche faz um apelo ao ramo empresarial.

De acordo com a coordenação da creche, formada por Irmãs de caridade da Congregação São Vicente de Paulo, esse é um dos períodos mais difíceis em toda a história da instituição. A unidade não recebe mais os benefícios advindos da Prefeitura de Natal e do programa Cidadão Nota 10, do Governo do Estado, desde 2012 e vem sobrevivendo até então de doações.

“Não deveríamos nem ter iniciado o ano letivo, já que finalizamos o ano com débito com os professores. Mas a vontade de ajudar essas famílias carentes e a esperança de que o poder público iria ajudar nos fez acreditar que iria dar certo. Sinceramente, pelo o que estou sentindo, não conseguiremos chegar ao mês de maio”, disse Irmã Benedita, diretora da creche.

O programa Cidadão Nota 10, lançado em 2004, deixou de incluir as creches no quadro de instituições filantrópicas de assistência social e, desde 2011, as instituições passaram a compor o quadro da educação, sem ter mais direitos de receber os benefícios do programa. Conforme novas instruções, só podem participar do programa as instituições de assistência social, saúde, cultura e desporto.

Conforme explica a Irmã Benedita, com o fim dos benefícios do programa estadual restaram apenas os recursos do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica) e de um programa de incentivo do município de Natal, os quais, juntos, somam quase R$ 15 mil por mês.

“Atualmente não estamos recebendo nenhum desses recursos, pois precisamos garantir a renovação do Habite-se junto ao Corpo de Bombeiros. E para o Habite-se ser liberado, precisamos readequar parte da estrutura física da escola e de instalações elétrica e hidráulica. Porém, não temos recurso nenhum para realizar as adequações”, explica Benedita.

Diante do problema, a diretora faz um apelo. “Só nos resta pedir ajuda aos empresários. Se eles nos ajudarem com doações de material de obras e equipamentos para combater incêndio, por exemplo, já nos ajudará bastante para conseguirmos renovar o Habite-se. Só a quantidade de hidrantes solicitados pelo Corpo de Bombeiros custa R$ 14.480,00. De onde tiraremos esse dinheiro?”, desabafa.

O Governo do Estado ajuda o funcionamento da creche através do sistema de comodato, onde o Governo cede a estrutura física e banca contas de água e telefone. Porém, a diretoria também pede mais ajuda ao Executivo Estadual. “Vimos que o Governo tem alguns professores que ainda não foram encaixados nas escolas e estão sem trabalhar. Nesse caso, pedimos que eles possam nos ajudar cedendo apenas oito professores até que tudo fosse resolvido. Só assim não teríamos que custear seus salários e diminuiria nossa folha de pagamento”, afirmou Romeilka Rêgo, funcionária da casa.

O coordenador das Diretorias Regionais de Educação do Estado, Eduardo Collin, disse a O Jornal de Hoje que direcionaria a 1ª Dired para avaliar a solicitação da creche e saber se é possível uma parceria com o município de Natal. “Pedirei que a coordenadora vá até a Escola Padre João Maria na segunda-feira (10) e veja se é possível garantir esses professores para que as crianças não sejam prejudicadas”, destacou.

Professora há quatro anos da creche, Priscila Ramos disse que conta com o apoio da família para permanecer trabalhando sem receber salário. “O carinho que a gente tem pelas crianças e a solidariedade às famílias carentes, que precisam de um lugar onde deixar seus filhos, é o que nos mantém aqui diariamente. Eu só tenho esse emprego aqui e isso dificulta minha situação, mas posso contar com a ajuda de minha família. Porém, todo mundo tem seus limites. Uma hora posso cansar e, infelizmente, ter que abandonar a creche”, desabafou.

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