Apostar na beleza natural para atrair turistas é receita do subdesenvolvimento

É assim no Caribe, na África, em Bali e nas Polinésias da vida

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

Em todo lugar onde o turismo é focado apenas na beleza natural, impera o subdesenvolvimento. Sem atrativos culturais significativos, como bons museus, prédios antigos bem conservados, peças teatrais para contar a história local e música em esquinas estratégicas, cria-se uma orla, uma zona frequentada por forasteiros, com hotéis e restaurantes que oferecem um simulacro do Paraíso Perdido, longe da verdadeira imersão nos costumes do destino. O nativo se contenta em prestar serviços básicos, com baixa qualificação profissional, e meia dúzia de empresários consegue sucesso financeiro.

É assim no Caribe, na África, em Bali e nas Polinésias da vida. Nesses lugares, o branco europeu busca o mar cristalino, a areia fina e alva, a vegetação e a fauna exuberante, sem querer muita conversa com as tradições artísticas ou episódios ali ocorridos – como nada disso é apresentado de forma sistematizada, para lhe vender um pacote que misture lazer e enriquecimento intelectual, no máximo, ele, o europeu humanista, senta para ver um showzinho dançante, feito sob encomenda para a caipirinha e a cuba libre da noite render.

Enquanto isso, o autóctone é convocado para emprestar sua simpatia resignada (algumas moçoilas podem ampliar o empréstimo, caso o gringo se sinta carente nos trópicos), na composição do cenário radiante e multicolorido que todo turista quer ver. E assim a vida segue, na mesma toada, geração a geração. Conto toda essa ladainha ao pensar no que vamos oferecer aos milhares de estrangeiros (vamos acreditar na propaganda oficial) que chegarão a Natal, daqui a três meses. Praia, bunda e carnaval são os únicos itens na lista.

Depois não pode reclamar de uma camisa da Adidas com nossa marca nacional, ok? Há cerca de um ano, eu cobria um evento, pois tudo vira evento, alusivo ao início da construção do Museu da Rampa. Com a presença de representantes das três forças armadas e, claro, de cabeças do Governo, uma espécie de mutirão fora armado para limpar o terreno nas Rocas – e releases enviados para a caixa de entrada de todos os editores e repórteres possíveis: “Estamos trabalhando em prol da cultura!”.

Lá para tantas, já com a presença do pessoal do turismo do Estado, travei diálogo com um desses despreparados que pululam nas assessorias estatais. Notei sua inquietação com perguntas fora do script. Minha indignação era com a demora em levantar a estrutura relevante para a história da cidade. Aquilo não tinha como ficar pronto para a Copa, no ritmo que estava. E a cada fala do sujeito, minha bronca aumentava, pois era inacreditável que aquela era a voz do Governo sobre o tão solicitado museu.

Entenda, todas as suas frases eram de efeito, dessas prontinhas que lemos em panfletos propagandísticos – e que abundavam no release oficial. Ao ver uma entrevista da secretária de cultura estadual, Isaura Rosado, na semana passada, relembrei do ‘jornalista’. Queria perguntar agora: “E aí, major, você estava brabo naquele dia, categórico ao afirmar que o negocio sairia do papel, mas cadê o museu? Vocês dizem que vai chover americano por aqui e nem prepararam o quarto de visitas?”. Isaura disse que talvez seja inaugurada apenas uma etapa, durante a Copa.

“Talvez uma etapa”, entendeu? Frederico Nicolau lá da Rampa pediu tanto pelo museu, que entrou no modo automático da indignação, consciente que as coisas funcionam assim mesmo, do jeito que eles querem. A Arena das Dunas subiu ligeiro, em dois aninhos ficou pronta. Um milagre arquitetônico. Mas essa conversa de corredor histórico, museus, instituto geográfico é para os bestas que acreditam em patrimônio cultural, tradições, outros atrativos turísticos. Nós já temos praia e dunas, não é? Pra quê mais? Taca um passeio de bugre que está tudo resolvido.

Uma terra onde cargos de confiança são entregues a pessoas que mal sabem o que é um pronome ou a capital de Rondônia, merece passar vergonha. Pois, sinceramente, é isso que vai acontecer – algo como o que passamos diante de um agrado feito por alguém sujo, com odor e aspecto repulsivo, de fala errática. Olhamos com lástima, misericórdia, preconceito, benevolência, tolerância, aversão ou não? Apesar de tudo, sobra um sorriso piedoso. Na Copa será assim: sorrisos fartos na hora da esbórnia e indulgentes, no dia seguinte.

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