Arena e Natal

Ao chegar  ao trabalho, esbarro na euforia do amigo Paulo Cícero Pessoa, o Cancão, servidor público humilde e dos mais…

Ao chegar  ao trabalho, esbarro na euforia do amigo Paulo Cícero Pessoa, o Cancão, servidor público humilde e dos mais prestativos homens que conheci na vida. Cancão está contando as horas para entrar na Arena das Dunas.

Ele promete  aparecer cedo, uma da tarde, contemplar cada detalhe do ambiente  e,  se pudesse, levaria um piquenique para comemorar com os companheiros de cachacinha. A proibição etílica, aliás, revolta o meu dileto e predileto personagem.

Cancão só irá para  a Arena das Dunas quando houver jogo e possivelmente domingo, obtido o Habite-se, a licença da prefeitura, ele poderá ocupar um assento e ver América x Confiança e ABC x Alecrim.

Cancão está impressionado com as fotografias externas e internas do estádio da Copa e quer uma imagem do(seu) layout e guardar num quadro para o seu filho idolatrado,  ainda pequenino. Irá de Kombi, mais  8 amigos, saindo de Macaíba.

Por ordens do protocolo presidencial, Cancão e multidão não comparecem hoje à cerimônia oficial com a presença fulminante da presidenta Dilma Rousseff, em uma hora e meia, segundo cálculos precisos do seu serviço de segurança, bem mais casca-grossa que o do norte-americano Barack Obama, acostumado a receber 300 ameaças de morte por segundo, de grupos terroristas internacionais.

A segurança de Obama é mais eficiente e discreta. A de Dilma Rousseff, assim como foi o aparato do antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, é superior em arrogância. Os governos do PT  avançaram  nesse quesito e imitam fielmente os tempos dos generais   Geisel e Figueiredo quando vinham  a Natal com séquito armado até os dentes e proibido de esboçar um sorriso de espasmo. O PT faz  igualzinho  Foram e continuam sendo  treinados para a rabugice.

Devido à vaia monumental que tomou na abertura da Copa das Confederações, a presidenta aboliu a massa em inauguração de estádios. Será  aberta apenas para convidados e jornalistas credenciados de forma rigorosa, à  base da peneira. Estranho que uma candidata à reeleição favorita e líder nas pesquisas se constranja com reações ancestrais de torcida.

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Nos tempos do antigo Maracanã, Nelson Rodrigues profetizava: “Multidão vaia até minuto de silêncio.” Dilma Rousseff não deve dar bola aos textos fantásticos do Anjo Pornográfico, considerado de “direita” pelos seus colegas de ideologia, dinossauros que não sabem que  a dicotomia de um lado e de outro para demarcar posturas morreu sem ser avisada.

Teremos apenas um pontapé na bola. Da presidenta, ao receber um passe da governadora. O chute será endereçado aos fotógrafos postados em disciplina absoluta pelo cerimonial. Que já vetou o show da nossa cantora Khrystal, que iria emprestar alguma graça ao evento magnânimo.

Está pronta a Arena das Dunas, feita debaixo de  descrédito porque o natalense é, antes de tudo, um duvidoso  de autoestima. A Arena das Dunas é o nosso símbolo de poder das Mil e Uma Noites, palco da Copa do Mundo,  numa terra cheia de broncas  na saúde e na  segurança.  Mas,  afinal, vamos nos dar uma trégua de hora e meia, em imitação e respeito ao cronograma da presidenta Dilma Rousseff. Que daqui partirá para a Suíça.

Não adiantam críticas e esperneios agora. A Copa do Mundo vai trazer seus benefícios embora o custo não compense os males que persistirão. Soube que haverá manifestações. Sem sentido. Gritos e passeatas contra autoridades que nem chegarão a ouvir.  E se pudessem, bem ou mal, de forma alguma iriam alterar humores ou intenções.

Uma passada pelos recortes de 1972. A província oficialmente batizada de cidade se deslocava em procissão pacífica, milhares de carro, centenas a pé, pais segurando filhos em escadinha(medição informal do tamanho dos meninos feitos em série), a 4 de junho para uma festa popular à qual compareceram 40 mil felizardos sem um tumulto sequer.

Fora a truculência dos representantes locais da repressão que negaram convite ao idealizador e tocador da obra do Estádio de Lagoa Nova, o então ex-prefeito Agnelo Alves. Ele pagou ingresso para assistir ao primeiro gol, de William, do ABC contra o América(1×0).

Naquele tarde,  havia gente. É uma das diferenças – o calor humano, entre a  bela e sisuda Arena das Dunas e o monumental, emocional e cativante Castelão(Machadão) que ao pó voltou contra a vontade. Dele e dos seus inconsoláveis viúvos.

 

Convidados
Vão se acostumando com o modelo privado de atendimento. Gente reclamando por não ter recebido convite formal e personalizado para a inauguração da Arena das Dunas. É assim mesmo e hoje a agenda tem que passar ainda pelo crivo da segurança presidencial, daí as exigências.

Quem mesmo?
Com a Arena das Dunas, será  mais complicado aquele velho e cansado esquema da carteirada ou da boçalidade de porta de bilheteria: “Você sabe com quem está falando?”. Na iniciativa privada, a resposta  vem perguntando sem emoção: “O senho,  famoso quem?” E não entra sem convite ou sem pagar.

Divisão de torcidas
Também é outra bobagem a discussão sobre onde ficam torcedores de ABC e de América no novo estádio. Vão ficar no lugar em que o dono, no caso, a dona, a empreiteira, decidir. Pode ter choro e ranger de dentes que ninguém pestaneja.

Credenciados
Se é para reclamar da falta de convites  pomposos para as chamadas autoridades locais, é preciso exigir lugar para torcedores humildes e simbólicos como Dudé e Deuzinha, do ABC, e o americano Baé. As arenas igualam  por cima ou por baixo.

Globo de novo
O ABC faz uma espécie de Sessão da Tarde em Ceará-Mirim enfrentando outra vez o Globo, desta vez no Estádio Barretão.  Pede-se, piedosamente, um futebol um pouquinho melhor do que o exibido no empate de domingo em Natal por 1×1. Futebol não, pane geral foi o que viram algumas testemunhas.

Manter
Estranho seria o técnico Leandro Sena mudar o América depois da vitória por 3×0 sobre o Vitória em Salvador. Seria desconsagrar a competência. É o mesmo time amanhã contra o Sergipe(SE). Expectativas concentradas no camisa 10, Rafinha.

Marinhos
Quem saiu de casa para ver Marinho Chagas brilhar no São Paulo pelo Brasileiro de 1981,  viu o show de Marinho Apolônio, autor do gol de empate do América(1×1) no minuto final. Éverton marcou para o tricolor paulista. Público de 15.746 pagantes no Castelão (Machadão).

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