“Arte”, com Vladimir Brichta, neste fim de semana em Natal

Texto da francesa Yasmina Reza trata do universo masculino e é um dos mais montados no teatro atual

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

Vladimir Brichta estava em Buenos Aires e uma das peças de maior sucesso em cartaz era “Arte”, adaptação dos Hermanos para o texto da francesa Yasmina Reza. O impacto da narrativa que revela a inconstância da amizade de três homens, após um deles pagar caro por uma obra de arte e perguntar a opinião dos outros dois, foi imediato. Logo resolveu produzir uma versão brasileira ao convidar os atores Marcelo Flores e Claudio Gabriel na empreitada. Longe de investir no batido conflito de gêneros, surge discussões sobre regras e convenções inventadas pelo homem para reter impulsos – o que quase nunca acontece. É nessa aposta que “Arte” chega a Natal para uma curta temporada (hoje e amanhã no Teatro Alberto Maranhão). Sucesso por onde passou, ela foi considerada um dos dez melhores espetáculos de 2012, ano inicial da montagem.

Yasmina Reza é um dos principais nomes da dramaturgia contemporânea, com dezenas de montagens, em mais de 30 países. No Brasil, sob direção de Emílio de Mello, que também assina a tradução do texto, os atores Vladimir Brichta, Marcelo Flores e Claudio Gabriel usam a inteligência e o bom humor para falar da amizade, arte, comportamento, trabalho, relacionamento – turbilhão emocional que ataca, inclusive, o próprio relacionamento do trio. Tudo a partir de um simples quadro monocromático (branco) comprado pelo médico esnobe Sérgio (Cláudio Gabriel) por 200.000 reais. Seu amigo Marcos (Marcelo Flores) fica inconformado com a atitude e busca o apoio de Ivan (Vladimir Brichta) para criticá-lo. Sâo mais de 20 anos de amizade, e isso deve significar alguma coisa. A peça teve três montagens no Brasil (1994, 1998 e 2006).

“Homem discutir relacionamentos é mais um dos sintomas da mudança comportamental dos anos 2000. Hoje somos obrigados a prestar atenção em coisas que nunca valiam a pena no passado, como ceder espaço para mulher ter amizades, saber que ela também pode trair por puro prazer e que mesmo ganhando bem, gosta de ver o homem pagar a conta”, diz o professor de português Leôncio Nascimento, certamente um dos presentes ao Teatro Riachuelo na sessão de amanhã (31). Ele comprou ingresso para ir com a esposa e um casal amigo, após ler uma crítica elogiosa na internet. “O teatro sempre me deixa as melhores impressões. Mais que o cinema ou a literatura. E quando eu li que as experiências masculinas eram abordadas com a graça que os atores têm, resolvi comprar. Só que espero que minha mulher não ganhe mais munição”.

Leôncio sorri ao ser indagado sobre o tipo de munição. “Arte parece ser o tipo de peça que vou com ela e passo o tempo todo ouvindo ‘Tá vendo?’”. Escrito por uma filha de judeus iraniano e húngara, a peça rendeu, em 1995, o Prêmio Molière de melhor autor para Yasmina, que além de teatro, escreve romances e é atriz. A mudança de costumes, dita pelo professor, pode ser sentida no fato de o universo masculino ser retratado através da voz intima de uma mulher. “Apesar de pensarem nos relacionamentos de uma forma bem distinta de nós, elas nos entendem mais do que o contrário. Homem é quase sempre egoísta”.

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