A arte e o jogo

A política, Senhor Redator, dizem os que sabem o que dizem, é feita de uns tantos jogos quase sempre nascidos…

A política, Senhor Redator, dizem os que sabem o que dizem, é feita de uns tantos jogos quase sempre nascidos de uma aparente dissimulação que acaba sendo uma arte, mas sem retirar sua tintura de velha ciência. No seu jogo, sem regras fixas, tudo é permitido. Talvez tenha um pouco daquele poema de Drummond, da luta com a palavra, aquela de todas as manhãs, uma luta mais vã. No entanto os políticos lutam, avisa o grande poeta de Itabira. Mesmo quando a luta parece sequer ser de verdade.

Veja, por exemplo, o caso da vereadora Amanda Gurgel. A Constituição impede o seu sonho de ser candidata ao Senado por não ter 35 anos. É jovem demais, diz a lei, para sentar ao lado das vestais senatoriais. Mas, e ai vem a contradição do Brasil inzoneiro, com esses mesmos 35 anos pode sonhar ser governadora, daí sua candidatura que se anuncia nas folhas e telas das redes sociais. Uma pretensão natural sem exigir considerações, de tão óbvia, não fosse a política uma ciência feita de tantos desvãos.

Ai reside a ilação, coisa típica da estranhas da metafísica do poder. Para alguns, nada é mais estratégico, numa luta política, do que evitar heróis e justiceiros. Principalmente soprados pelos ventos da magia popular. Talvez por isso, e por incrível que pareça, alguns próceres pemedebistas prefiram o jogo tal com está armado no tabuleiro da sucessão, assim: Henrique Alves, Robinson Faria e Amanda Gurgel disputando o governo. Ora, qualquer mudança brusca pode desmoronar o castelo arquitetado.

É que os políticos costumam temer os heróis e justiceiros. Mesmo falsos. Eles sabem que em torno dessas velhas figuras míticas arde o fogo das paixões. Surgem do nada como se não tivessem a menor expressão popular. E vão crescendo, ocupando espaços, num intenso jogo de luzes e sombras. Pouco a pouco iniciam um lento processo, quase invisível, de mitificação: agradam, irritam, comovem, causam amor e ódio, afeição e desprezo entre corações e mentes, até que o mundo se divida em dois.

Neste instante, Senhor Redator, um desses mundos é deles. Como se o todo se repartisse meio a meio. Uma parte deles e a outra dos outros. O mito está formado. Diante deles não resta outra saída a não ser devorá-los. Como uma esfinge. Ou ser devorado. Sim, o mito devora. Daí o medo que faz a quem comete o perigo de cultivá-los. Por isso os políticos devoram heróis e justiceiros. Temem que se transformem em mitos levados nos braços do povo, os heróis do bem que vieram para salvar a todos.

Por isso Amanda não pode ser candidata única da oposição ao governo. Seria um polo a fixar o maniqueísmo. O bem e o mal. E se ela assumir o papel do bem e vestir o adversário como o inimigo do bem? Os políticos sabem manter a absoluta semelhança simbólica acima do processo da mitificação popular. O mito, por cuidado, deve ficar o mais longe da grande massa. Amanda, pois, não pode ser candidata sozinha na oposição. Pode ser que se transforme no falso mito do bem e se torne invencível.

COMO?

A chuva ensopou os torcedores de um dos lados da Arena das Dunas. Mas vai aparecer algum gênio para culpar a chuva, o vento, quem sabe Deus. O triunfalismo dos precários é uma forma do ridículo.

ESTRANHO

O argumento do prefeito quando justifica que aderiu ao chapão do PMDB sem nada pedir para o seu partido. Muito mais coerente teria sido negociar espaço claramente para não parecer adesismo familiar.

PAULADA

Duro o artigo de Adib Jatene publicado ontem, no Estadão. Critica o governo, médicos mal treinados e excesso de cursos de medicina no Brasil. Hoje já são 226 faculdades e muitas sem condições técnicas.

GARFO

O Governo do PT garfou R$ 35 bilhões do contribuinte ao impor a não correção do imposto retido na fonte no exercício de 2014. Além de tributar o cidadão trabalhador, o PT assalta até um direito justo.

VALSA

O professor Cláudio Galvão fala hoje, às 20h, na Academia de Medicina, sobre os cem anos da valsa Royal Cinema, de Tonheca Dantas. Cláudio não é só seu biógrafo, é o maior conhecedor de sua obra.

HUMOR

Também hoje, 19h, no Benditas Boteco, Marcos Sá de Paula lança seu livro com as melhores piadas que divulgou em sua coluna do Novo Jornal. Com a participação ao vivo de três humoristas de Natal.

CINE

Vem aí o Cine Natal 2014 com a publicação do novo edital. Do Cine Natal 2013 estão em finalização Janaína Colorida Feito o Céu, Três Vezes Maria e Alecrim Dourado que deverão ser lançados este ano.

PREÇO – I

A presidência da Câmara Federal confere ao deputado Henrique Alves a proeminência e o seu efeito: uma permanente exposição ao noticiário, quando nada desgastante, na sua nova trajetória de candidato.

ONTEM – II

Por exemplo, e mesmo num valor irrisório de R$ 10 milhões para o marketing da Câmara e que não é pessoal, foi notícia na Folha de S. Paulo. Não teria sido conveniente ter o cuidado de deixar para 2015?

CERTO – III

Por falar em cuidado, corretíssima a posição da jornalista Laurita Arruda ao suspender o blog durante o período da luta eleitoral, agora que seu marido Henrique Alves é candidato. O profissional faz assim.

ALIÁS – IV

Este colunista, mesmo não se considerando um formador de opinião, retirou-se da coluna quando foi participar da equipe de redatores na campanha de Iberê Ferreira. Por iniciativa rigorosamente pessoal.

RUIM – V

Realmente não há saída: ou o jornalista presta serviço, o que é legítimo, ou faz jornalismo. Fazer as duas coisas é sonegar informação. Não pode divulgar o que ouve em confiança. Por um dever de ética.

TEMPO

De Marion Strecker, na Folha, sobre a louca transversal tecnológica de sua geração: ‘Fiquei pensando que faço parte de uma geração de transição: nasci analógica, cresci elétrica e amadureci eletrônica’.

EM

Justíssima e esperta contraposição, o filósofo Luiz Felipe Pondé, também ontem, pergunta na última página da Ilustrada: ‘E se o livro do Eclesiastes estiver certo e não existir nada de novo sob o sol?’.

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