“Astral Weeks”, de Morrison, traz a dicotomia entre a dor e a alegria de viver

Ao ouvir esse clássico, nos perguntamos se o irlandês acabou de sair de uma profunda depressão e quer cores e sorrisos

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

Precisamente em novembro de 1968, “Astral Weeks”, de Van Morrison chegava às lojas. De forma acanhada (as vendas foram um fracasso), sem alarde na garotada que começava a acordar do sonho de amor e paz, ele recebeu nota máxima da crítica, que viu além da melancolia folk-irlandesa naquele que era seu segundo disco. Até então, ele era conhecido como o ex-vocalista do Them, banda com certo êxito durante a Invasão Britânica (“Glória” foi sua música mais famosa, gravada por The Doors, Patti Smith e U2) – e pensar que ele queria voltar para Belfast e desistir de tudo; mas um amigo o convenceu a ficar na América.

Talvez o impulso para escrever laudas elogiosas, em uma época de aniversário de clássicos, como “White Album”, “Beggars Banquet” e “Eletric Ladyland” (quer mais?), tenha surgido da riqueza sonora das flautas celtas, das cordas do Meio Oeste americano, dos violinos idílicos e de uma voz sofrida de imigrante que cruzou o Atlântico sem a passagem de volta. Mas depois que você o escuta duas ou três vezes, percebe que as oito faixas têm algo perturbador, como se Morrison quisesse nos confundir: Afinal, ele está sofrendo uma terrível dor física e mental ou acabou de sair de uma profunda depressão e quer cores e sorrisos? É por essa dicotomia que somos fisgados.

“Astral Weeks” é um disco difícil. Quando você entra num clima revigorante e feliz, surge uma nuvem carregada de raios e trovões assustadores. A faixa-título e “Beside You” abrem a sequência com letras que sugerem uma visão do paraíso perdido que só uma mãe acolhedora pode nos salvar. Em “Sweet Thing”, a terceira pedra em nosso telhado de vidro, Morrison quer ser jovem para sempre e promete não ‘voltar a ser velho’ novamente. Sua tristeza tinha aparecido, de leve, na estreia fonográfica “Blowin’Your Mind”, no ano anterior. Só que em 1968, ele sentia que estava prestes a desintegrar – como boa parte da juventude.

Na abertura do lado b tem minhas duas músicas preferidas: “The Way Young Lovers Do” e, sobretudo, “Madame George” – se você estiver em um momento sombrio, fuja dela. Madame George geme de dor. Sua situação vai piorar. Mas se estiver num daqueles períodos de entressafra, achando graça até em Zorra Total, escute-a várias vezes, ainda mais durante o Carnatal. Escondido atrás de uma melodia lamurienta, tem uma espécie de luz tranquilizante dizendo que vai dar tudo certo, basta ter calma e seguir até o final. São quase dez minutos de sofrimento (ou de libertação?).

Após “Astral Weeks”, Morrison virou místico, casou com a riponga Janet Planet e foi morar em Woodstock – depois na Califórnia. E seus discos minguaram. Perderam o ar maldito, fúnebre e esperançoso. Viraram cláusulas no contrato. Desde o começo ele queria um lar, mas não sabia onde nem com quem, e nem se a ideia era viável. Ao encontrar as respostas que ansiava, tomou um analgésico de efeito imediato. E foi viver sem feridas expostas. Não sem antes deixar essa obra-prima de encher os olhos d’água – tive experiências lavando louça, passando pano no chão, lendo a crítica de Lester Bangs (talvez a melhor sobre qualquer disco já escrita até hoje) e vagando pela internet.

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