Ativistas reivindicam liberdade para as gestantes na escolha do parto

Manifestação realizada na Cidade Alta atraiu pouca atenção da sociedade

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Grupos de ativistas relacionados à Saúde da Mulher e aos Direitos Sexuais e Reprodutivos Femininos realizam nesta sexta-feira (11) em todo país um ato em apoio a Adelir Carmen Lemos de Góes, mulher que foi forçada e coagida pela Justiça da cidade de Torres, no Rio Grande do Sul, a ser submetida a uma cirurgia cesariana. Em Natal, a mobilização acontece na Avenida Rio Branco, na Cidade Alta.

Adelir Carmem havia procurado o hospital no dia 31 de março e, na ocasião, a médica ordenou que ela se internasse para uma cirurgia cesariana imediatamente. No entanto, a gestante assinou um termo de responsabilidade e voltou para casa a fim de esperar o trabalho de parto, pois monitoramento fetal realizado apresentou bons resultados no quadro clínico da mãe e do bebê.

A escolha da gestante em esperar pelo parto natural fez com que a médica acionasse a Justiça, alegando risco iminente de morte, mas as justificativas que apontavam urgência estão sendo questionadas por boa parte da comunidade médica do país. Segundo estudos clínicos, os motivos alegados pela médica, como, duas cesarianas prévias e idade gestacional estimada em 42 semanas; não são indicações de cirurgia imediata, a menos que mãe ou bebê estivessem apresentando algum sinal de sofrimento, o que não foi diagnosticado pelos exames realizados pela própria instituição.

No caso Adelir também foi negado à presença de um acompanhante, porém há uma lei federal que diz ser obrigatório que os hospitais, maternidades e assemelhados permitam a presença de um acompanhante indicado pela gestante para acompanhá-la durante o trabalho de parto, durante o parto e pós-parto (período por mais 10 dias). Isso vale para todos os hospitais brasileiros, seja particular ou público.

O ato realizado em Natal contou com pouca participação popular, mas também ficou evidente a falta de conhecimento da população sobre o ocorrido. A dona de casa Francisca Maria da Silva passava pelo local no horário do acontecimento e sendo abordada para relatar sua opinião sobre o caso, ela mostrou pouco interesse e disse que “é bom para mulher”.

Gabriella Vinhas, criadora do Movimento pela Humanização do Parto e Nascimento em Natal, relata que a mobilização pretende debater o ocorrido com Adelir e evitar que outros episódios como este venham a se repetir. “A ocasião abre precedente para outros casos em que o estado se sinta no direito de apropriar se do corpo da mulher. Estamos lutando para que a autonomia do corpo seja respeitada, que a mulher possa ter escolha” afirma.

Ela conta ainda que o parto foi feito sem nenhuma comprovação dos fatos. “Achei que o saber médico foi imposto, sem levar em consideração evidências científicas. Por que na medicina, a gente jamais poderia fazer esse procedimento sem uma real necessidade. No caso dela, o bebê estava bem e o parto normal era possível, mesmo com a criança na posição podálica – quando encontra se na posição contrária, ou seja, em vez de surgir primeiro a cabeça, surge os pés, as nádegas e os ombros”.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é campeão mundial de cesarianas, sendo a média nacional desse tipo de intervenção cirúrgica no país de 52,2%, enquanto o recomendado pela entidade é 15%.

Segundo Gabriella, quando a mulher é sujeita a um parto cesariano, há um aumento de 2,5% no risco de hemorragias e complicações. “A opção pela via de nascimento deve ser da mulher, a partir do fornecimento das informações médicas sobre seu estado de saúde”, disse.

Anne Aline Lisboa é enfermeira, educadora perinatal e doula, profissional responsável pelo suporte físico e emocional das mulheres antes, durante e após o parto. Ela conta que a falta de conhecimento sobre os procedimentos do parto é uma realidade na atualidade. “Hoje em dias as pessoas não têm o costume em aprender sobre o seu próprio corpo, fora que no processo de gestação/nascimento não existe uma preocupação por parte da sociedade em conhecer e saber como funciona. É necessária a procura por profissionais da saúde indicados, como doulas e profissionais da saúde engajados na humanização” afirmou.

Ela ainda reafirma que o médico tem o papel de avaliar a circunstância, baseado em evidências científicas. “Ele deve mostrar qual procedimento é melhor, mas no final a escolha é da paciente” disse.

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