Atraso e masoquismo – Rubens Lemos

A vergonha na Copa do Mundo firmou nos dirigentes de futebol a alma vira-lata espantada pelo Brasil em jardins suecos…

A vergonha na Copa do Mundo firmou nos dirigentes de futebol a alma vira-lata espantada pelo Brasil em jardins suecos na Copa do Mundo de 1958, sonho de verdade que o tempo e a opção pelo feio tornam miragem guardada em livros e arquivos rebuscados de TV.

Uma potência goleada por 7×1 em casa, depois de preparar o bolo com ingredientes azedos vestidos de amarelo e triunfalismo de republiqueta, começaria a tomar tenência – como diziam nossos tataravós segundo os sucessores imediatos – a se olhar no espelho da decência, apenas quando reinventasse o jogo no qual se impôs pela natureza artística. E que perdeu pela identidade prostituída. Em caneladas dentro e fora de campo.

O trucidamento alemão completa hoje exatos 22 dias e as notícias em tempo real e surreal desenham a perspectiva de um novo massacre, desta vez por 14 gols de diferença, nas Eliminatórias, contra a Venezuela ou a Bolívia, novas ameaças superpoderosas.

O retrocesso é físico e de atitude. Imóvel e impenetrável feito dique holandês, barreira imensa de concreto capaz de enfrentar a fúria de um maremoto devastador. As águas não correm por aqui. Caem na vala triste do repeteco burro e cínico. Mais cínico do que precário cerebral.

José Maria Marin ainda é o presidente da CBF e o seu sucessor será a sua clonagem remoçada apenas em cartório. Marin merecia a intervenção sumária de um Governo Federal ocupado em questões internas de países ideologicamente familiares.

É Estilo Ofélia, fofoqueira das novelas das seis que abriam as seis em ponto, antes da sopinha de legumes. Ofélia palpitava e interferia na vizinhança inteira, enquanto sua casa apodrecia de descaso.

O estelionato técnico, tático e de cartolagem praticado desde a derrota do time de 1982 para a Itália, com a imposição da força bruta corruptora de talentos, merecia uma vingança inquisitória no fogo das providências vingativas. Uma vindita digna de um Salvatore Giuliano, o bandoleiro da Sicília que enfrentou governos e máfias até ser morto na delação do sicário de maior confiança.

Está ficando pior depois do chope com chucrute no Mineirão. Dunga voltou a ser técnico da seleção brasileira. Dunga está vazando informações contra o zagueiro David Luiz, o cabeludo que, junto ao esfolado Neymar, apresentou sinal de futebol nivelado ao choro e à mediocridade do timeco sem vaga nos antigos matutões sertanejos potiguares. David Luiz incomoda o bedel pelos comerciais que fez e a simpatia conquistada junto às crianças.

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Dunga é capaz de levar seu time para ficar concentrado em Guantánamo, a prisão militar norte-americana incrustada em solo cubano e lotada de psicopatas que explodem bombas matando inocentes pelo mundo. Dunga pode até fazer o Brasil vencer, mas não fará o Brasil encantar.

Ainda ontem, apressado, li que Dunga está, no bolso do jaleco, com uma lista contendo três nomes para cada posição das onze que ainda resistem pelas regras mutantes da Fifa. Não faltará o juízo final em que aumentarão para 22 contra 22 no mesmo espaço sem a bola a ser disputada. Todo mundo contra o vento e sob aplausos agasalhados por lindas roupas de grife.

Dunga é Aladim de lâmpada queimada. Consegue enxergar três para um no país devastado de qualidade, numa terra em que o principal campeonato ostenta a pífia média de público de 15 mil frequentadores de arenas.

Canso-me de Dunga, acesso outro site e vejo que a versão antiga voltou. Felipão está no Grêmio outra vez. Pobre tricolor gaúcho, de tantas tradições, campeão mundial e glória de um dos maiores compositores brasileiros, Lupicínio Rodrigues, do ritmo à bola correndo limpa e bem tratada.

A volta de Felipão ao Grêmio é um olhar em dois precipícios: a cegueira do clube ao premiar um ultrapassado e incompetente ditador de pranchetas e Murtosas na sacola. Ou a absoluta falta de gente para ocupar espaço.

Enquanto o Grêmio abafa o mofo do seu paletó “peço a palavra”, curto, mal riscado e reluzente em festas bregas, os argentinos cogitam o óbvio: repatriar o campeoníssimo Diego Simeone, comandante vencedor no Atlético de Madrid.

Devemos aprender um pouco com os hermanos, uns chatos, é verdade, mas invioláveis na preservação cultural do seu modelo. Argentinos jogam do jeito dos argentinos desde 1893, quando sua Associação foi fundada. Sem o falecido Júlio Grondona, de lamentável convivência com ditadores da década de 1970.

Fujo de Felipão, pauso as divagações portenhas e arremeto ao site do Rio de Janeiro. Lá, está, em manchete, a notícia de que o Flamengo, devendo R$ 368, 3 milhões e campeão do calote, trama escrever 900 mil reais na carteira de trabalho do aposentado ciscador Robinho. Vou torcer pelo nado sincronizado. É o futuro. Sem masoquismo.

Sem desculpa

O ABC foi eliminado com justiça. Menos mal que o jogo tenha sido transmitido ao vivo pelo Sportv. Os torcedores, ainda que não todos, esperaram pelo inexistente futebol alvinegro. O gol da eliminação aos 46 minutos pode ser considerado mero detalhe.

Esperando os pênaltis

Frustrante para a Frasqueira saber que o ABC jogou esperando os pênaltis quando levou o primeiro gol. Time acuado, medroso, sem ímpeto.

Meio-Campo

A crise criativa pode custar caro ao ABC. O meio-campo está triste. Dói. No molar.

Provável América

De olho no site Vermelho de Paixão, do Sérgio Fraiman, anoto que o América deverá ser contra o Santa Cruz, o mesmo que empatou com o Vasco em São Januário: Fernando Henrique, Cléber, Roberto Dias e Wanderson; Márcio Passos, Fabinho, Val e Jeferson; Isac e Pimpão. Foi o time que começou o treino.

Santa Cruz

Ex-goleiro razoável do Santos e da seleção brasileira na década de 1990, Sérgio Guedes é o técnico do Santa Cruz. Prepara um time prudente para enfrentar o América na Arena das Dunas. Espera a volta do atacante Léo Gamalho, ex-ABC e depois carrasco do ABC, em recuperação de virose.

Fim dos tempos

Recife está em pane e não é nada referente à saudade do mestre Ariano Suassuna. Rebeldes da torcida do Santa Cruz ameaçam manifestações de protesto se o atacante Flávio Caça-Rato for mesmo emprestado ao Fortaleza.

Retrato

Flávio Caça-Rato. É o retrato. Do país que leva 14 gols na Copa que recebeu.

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