Ausentes nas Copas

Assim que anunciar os 23 convocados para a Copa do Mundo, o técnico Felipão estará coroando a sorte como sua…

Assim que anunciar os 23 convocados para a Copa do Mundo, o técnico Felipão estará coroando a sorte como sua amante fiel. Caso não leve Hernanes, meia-armador da Inter de Milão, estará desagradando aos românticos remanescentes. Fora a do profeta, nenhuma ausência será sentida. Não pela excelência do time, pela escassez de craques.

A Felipão, sobrará a tranquilidade que faltou a quase todos os treinadores brasileiros em mundiais. A ausência de nomes intocáveis pela imprensa bairrista ou sincera, atrapalhou no paralelo a preparação do Brasil e os resultados, quando negativos, soaram como sentença capital pelo vazio dos ausentes.

Mentor do artesão Telê Santana, seu jogador nos tempos de Fluminense, o austero Zezé Moreira preteriu Zizinho, o homem considerado por Pelé o maior entre todos os futebolistas brasileiros. Zizinho, 33 anos em 1954, jogava o fino dos estilistas no Bangu, mas Zezé Moreira achou que era demais colocá-lo ao lado de outro soberbo, Didi.

Humberto Tozzi, do Palmeiras, vestiu a camisa 10 na Copa da Suiça e o Brasil tomou um vareio da Hungria sendo eliminada por 4×2. Zizinho voltaria à seleção brasileira três anos depois, jogando em forma adjetiva de gênio. Aos 37 anos, em 1958, sua presença foi cobrada pelo futebol elegante jogado pelo São Paulo.

Engana-se quem imagina 22 unanimidades em 1958. O técnico Vicente Feola foi cobrado por escalar Zagallo na ponta-esquerda quando o titular da posição seria Pepe ou Canhoteiro, também do São Paulo, versão canhota de Garrincha pela direita. Zagallo fechava espaços no meio, Canhoteiro abria clarões na retaguarda inimiga e ficou no Brasil.

Na mesma relação, o reserva de Didi, o Príncipe Etíope, foi o flamenguista Moacir, habilidoso. Os paulistas reclamam pelas cantinas da Bela Vista, até hoje, da exclusão de Luizinho, o Pequeno Polegar, tão ídolo do Corinthians quanto Rivelino ou Sócrates. Luizinho sentava na bola para humilhar seus marcadores. Feola não o quis e por pouco não perdeu Pelé.

Numa ideia impensável agora, os cartolas marcaram um amistoso na reta final dos preparativos contra o Corinthians, Estádio do Pacaembu lotado e sem lugar para uma mosca no antigo tobogã. Paulista vaia seleção brasileira desde aquele tempo. É praxe. Pior foi a pancada que o zagueiro Ari Clemente desferiu no menino Pelé, quase o tirando da Copa do Mundo.

A guerra entre Flamengo e Vasco gerou outra polêmica. O estupendo Dida, inspiração de Zico, disputava com o não menos formidável Almir Pernambuquinho, de talento tão explosivo quanto o temperamento. Dida viajou, começou de titular e perdeu a vaga de titular para o rapazola Pelé.

Aymoré Moreira, irmão de Zezé, conquistou o bicampeonato no Chile sem Pelé e merecia condecorações pelo tempo restante que viveu. Vozes estridentes protestaram. O ponta-direita reserva de Garrincha deveria ter sido o grande Julinho Botelho, injustiçado e barrado desde 1958. Levaram Jair da Costa, da Portuguesa de Desportos.

Quatro anos mais tarde, no fracasso retumbante de 1966 na Inglaterra, atribuíram a eliminação na primeira fase ao esquecimento de dois jogadores: o então jovem lateral-direito Carlos Alberto Torres, trocado pelo esforçado Fidélis, do Bangu e com passagem pelo ABC de Natal. E o centroavante Toninho Guerreiro, em plena forma fazendo dupla com Pelé, no Santos. Feola emitiu passaporte para Alcindo, o Bugre troncudo do Grêmio.

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Zagallo assumiu a seleção brasileira no lugar de João Saldanha, demitido em 1970 pela Ditadura. Convocou Dario e sacou o azarado Toninho Guerreiro. Levou o zagueiro Baldochi e deixou em casa o divino Ademir da Guia. Esqueceu o elétrico Dirceu Lopes, da dupla com Tostão no Cruzeiro. Deu tudo certo e ninguém lembra.

Em 1974, Zagallo desprezou Dirceu Lopes para levar Mirandinha, centroavante do São Paulo. Achou temerário levar um jovem de 21 anos titular e camisa 10 do Flamengo. Zico poderia ter ido à Copa da Alemanha, como Ronaldo passeou nos Estados Unidos em 1994.

A injustiça estrondosa aconteceu em 1978. Para a unanimidade impensável da imprensa, o jogador mais técnico do Brasil chamava-se Paulo Roberto Falcão: imagine um quarteto de meio-campo assim: Cerezo, Falcão, Zico e Rivelino.

Nenhuma seleção do mundo sonhava com tanta categoria junta. O técnico Cláudio Coutinho estragou o prazer coletivo e trocou Falcão pelo botinudo Chicão, do São Paulo, incapaz de um passe de cinco metros.

Em 1982, da orquestra afinada na Espanha, Raul e Leão estavam em melhor forma que o goleiro Valdir Peres e Jorge Mendonça, artilheiro do país, teria lugar substituindo Renato Pé-Murcho, trinta jogos e apenas dois gols pela seleção.

Todos reverenciam a sabedoria, poucos lembram a teimosia de Telê Santana que, por pirraça, escalou Alemão deixando o canhoto Pita, do São Paulo, visionário de lançamentos, dribles e chutes de curva à meia-distância. Em 1990, o erro principal foi Sebastião Lazaroni de técnico, obtuso o suficiente para escolher cinco zagueiros e deixar de fora o armador Geovani.

Rivaldo teria lugar certo em 1994, ao menos na fotografia onde está o limitado Paulo Sérgio, predileto de Parreira. Sobrou o abusado Djalminha em 2002. Em 2006, a patota mascarada foi posta no bolso de Zidane e em 2010, tietei Paulo Henrique Ganso até o final. Felipe Melo fez sua parte pela Holanda. Ganso afogou. Felipão sossega. Até a estreia.

Barca

A onda de chuva em Natal deve ter inspirado o presidente do América, Gustavo Carvalho, a montar um barquinho e nele colocar sete jogadores sem nada acrescentar ao clube. É assim: foi baranga, tem de ir embora pra não dar prejuízo.

 

Estádio

Encontrei casualmente com o presidente do Globo, Marconi Barreto na velha Ribeira de Woden Madruga. O cartola pretende, entre outros avanços no clube de Ceará-Mirim, dobrar a capacidade do Estádio Barretão, de 10 para 20 mil torcedores.

 

China

Artilheiro do campeonato, Ricardo Lopes, do Globo, pode ir ao futebol chinês. Orientais estão de olho na fome do goleador que é a boa nova nos campos locais.

 

Moisés

O garoto Moisés, com aceitável atuação contra a Desportiva, deve ser efetivado no ABC. O perigo de botar revelação num time em crise é jogar a responsabilidade exagerada.

 

Há 27 anos

Tomava posse, 15 de março de 1987, o governador Geraldo Melo. Com ele, bandido tremia.

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