Marcelo, vocação e esperança – Rubens Lemos

Do jeito que ninguém lembra do falecido Djalma Duarte, um loiro de cabelo crespo eterno reserva de Pelé na meia-esquerda do Santos, pouca gente suspira pelos barrados por Zico. Djalma Duarte até ganhava bicho. Suar a camisa, nunca. Zico ainda deixava Tita brincar de vez em quando.

Uma geração de talentos conformada com a Série B da história porque a camisa 10 até a Copa do Mundo de 1986 era vitalícia enquanto durou o cancioneiro do magrelo nascido no suburbano bairro de Quintino.

Foram inúmeros os nascidos para brigar pela reserva de Zico sem esperanças de assumir a titularidade absoluta. Houve, claro, a exceção do habilidoso e goleador Jorge Mendonça, do Palmeiras, Vasco e Guarani, que chegou a barrar Zico na Copa do Mundo de 1978.

Jorge Mendonça entrou para a vaga do Rei do ex-Maracanã muito mais por imposição do almirante Heleno Nunes, presidente da antiga Confederação Brasileira de Desportos(CBD), do que pela lógica ou desejo popular.

Jorge Mendonça substituiu Zico e Reinaldo deu seu lugar a Roberto Dinamite. Na Copa da força e dos gramados esburacados e do zagueiro Edinho na lateral-esquerda que era de Marinho Chagas, até se admitia e o Brasil venceu a Áustria na bacia das almas. Na técnica, Zico e Reinaldo não poderiam se submeter à comparação.

Foi o único caso. Vários craques maravilhavam o povo em seus clubes e endureciam a bunda no banco de reservas quando chamados à seleção brasileira. Depois de Pelé veio Rivelino, depois Zico e Rivaldo foi o último legítimo a vestir o manto determinante da superioridade criativa e da virtude inatingível.

No tempo de Zico, contava navio o colorado Jair Prates, refinado, abusado e chutador certeiro, tricampeão brasileiro pelo Internacional de Porto Alegre, uma sumidade de meia-atacante, campeão mundial de 1982 pelo Peñarol de Montevidéu.

Jair Prates eliminou, com um golaço de falta, o Flamengo de Zico da Libertadores e da possibilidade de ser bicampeão do mundo. Em Tóquio, Jair Prates brilhou como melhor da partida e saiu chamuscado do multicampeão uruguaio, por não dividir o valor do seu carro de luxo da Toyota com os companheiros. Veterano, enganou pelo ABC em 1986 e jogou boa parte do campeonato (perdido para o Alecrim) na humildade provinciana do Estádio Juvenal Lamartine.

Zico na ebulição dos 25, 26 anos, brecou o cruzeirense Palhinha, a cópia (um pouco) assemelhada do lendário Tostão. Palhinha formou dupla Campeã da América do Sul com Jairzinho até ser vendido para formar inesquecível parceria com Sócrates, no Corinthians.

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O sonolento Enéas, da Portuguesa de Desportos, surgiu tão bem que, aos 20 anos, fez parte da primeira lista de Zagallo para a Copa de 1974. Zico foi preterido pelo avô da retranca.

Enéas oscilava partidas antológicas com uma preguiça de alpendre, entregou-se ao conformismo e morreu muito moço, de acidente de carro, coincidência trágica com o que ocorreria a Denner, criado na Lusa e titular do Vasco. Denner também jogava na de Zico e parecido.

O enjoado técnico do São Paulo, Muricy Ramalho, foi outro raio dos anos Dancing Days. Cabeludo e impetuoso, batia na bola com veneno e partia para cima dos beques sem medo algum. Estava entre os cotados para a Copa de 1978, mas uma contusão no joelho eliminou seu desejo. Muricy, jogava demais, nunca vestiu a camisa da seleção. Willian e Hulk vivem sendo convocados.

O Atlético Mineiro representava uma escola de futebol ofensivo naqueles anos, Reinaldo puxando uma adorável gangue de artistas bailando pelos estádios de todo o Brasil. O Galo revelava meninos talentosos e meio-campistas suficientes para abastecer quatro gerações.

Um deles, de cabeleira vistosa, velocidade dosada à elegância e faro de gol nato, chamava-se Marcelo. Formou dupla com Reinaldo por longos anos, ganhando Campeonato Mineiro em 1976 e 1978. Marcelo sabia tabelar, enfiava a bola no meio das canetas do marcador, lançava longo e tripudiava de zagueiros.

Em 1977, o Capitão Cláudio Coutinho convocou Marcelo para a seleção brasileira e a solução foi deslocá-lo para a ponta-direita, território hostil. Embora veloz, Marcelo raciocinava e jogava em linha reta, mas havia um Zico por entre as pedras.

Marcelo é Marcelo Oliveira, técnico do Cruzeiro. Parei para ver seu time jogar e entendi que alguns homens jamais perdem a sua ideologia. Marcelo faz seu time jogar como se quisesse se rever, num Mineirão artificial e diferente daquele onde corria em direção à massa alvinegra das gerais e arquibancadas lotadas de humildes.

Marcelo Oliveira é o Marcelo que insiste no futebol que ele presenciou, exibiu e se deixou contagiar. O Cruzeiro, na aridez do volantismo e da retranca, ataca o tempo inteiro, asfixia o rival, busca o gol como se o mundo fosse explodir aos 90 minutos.

Zico, a caminho das Índias, deve gostar do time de Marcelo, o homem que nunca o alcançou, mas vem animando os saudosistas ao optar pela beleza, fundamental quando há 11 homens contra outros 11 cortejando a lasciva bola.

Menos euforia

Intervalo na euforia. A rodada da Série B é vital para ABC e América. Os dois iniciam o segundo turno em proximidade temerária com a Zona do Rebaixamento. Não podem continuar alegrando e frustrando, numa gangorra desagradável para seus torcedores.

Tamancos

O ABC pega o Santa Cruz num duelo de longa tradição. O clímax foi em 1972, no famoso Jogo dos Tamancos. Cinco mil tricolores invadiram Natal e fizeram barulho batendo tamancos até Sabará fazer 1×0 e Alberi jantar seu ex-clube e garantir o 2×0.

Cuidado

O América segue seu ciclo no Sul frio contra o Avaí em Santa Catarina. Cuidado com o camisa 10, Diego Jardel, um baixinho canhoto e habilidoso. Ele organizou e administrou a goleada de 5×0 no Vasco em São Januário. Então, folga para a glória de ABC e América na Copa do Brasil.

Pausa

Passe Livre dá um tempo e entra de férias. A mente precisa de revisão na concessionária dos neurônios e a saúde geral de calibre .44 pede providências. O retorno é dia 6 de outubro. Serão 30 dias com saudade de vocês. Saudade legítima. Por decisão editorial, não haverá interino. O espaço será ocupado por noticiário local. Até a volta.

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    Cláudio Santos e a salvação do JL – Rubens Lemos

    O homem e a mulher de classe média, muleta social criada para carimbar o pobre de grife, andam de alma a meio-pau. Desencanto na política, no cotidiano da violência do crime vomitando perversidade e espalhando sangue, na inflação certificada nas gôndolas dos supermercados. Faltam Estado (ente impessoal) e ordem, ouço em coro quase diário, por onde passo observando a cena.

    Uma decisão tomada em Natal pelo desembargador Cláudio Santos, jornalista e advogado, sopra a esperança e renasce a crença no departamento dos seres humanos diferenciados, daqueles imunes ao modernismo da destruição de um povo a partir do esfarelamento de suas referências.

    Numa peça brilhante, relatada com sensatez, equilíbrio e a firmeza do sertanejo forjado em Jardim do Seridó, Cláudio Santos reconheceu e a 3a Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte confirmou o Estádio Juvenal Lamartine como patrimônio histórico, cultural e arquitetônico de Natal.

    É benção até para um cético como o redator de Passe Livre. É milagre feito vida pelo gesto em benefício das raízes puras de uma terra, livrando o pequenino teatrinho de arena da bola, maltratado, mas localizado na área mais nobre da cidade, dos gulosos olhos de setores da especulação financeira e financista.

    Queriam – e eu sei há longos anos – transformar o JL num condomínio de luxo, num parque para a classe alta caminhar, quem sabe, numa casa de shows, enfim, queriam destruí-lo como fizeram com o Castelão (Machadão), seu sucessor morto mais cedo, desde que existisse uma licitação, uma obra, dinheiro circulando sem que a destinação fosse conhecida de forma cristalina.

    Sussurram até hoje sobre um pretenso estádio na Zona Norte. Destruir para construir e construir de novo. E haja dinheiro rolando por cima da história, que é indefesa e silenciosa, triste como o padrão comportamental das pessoas, pisoteada e humilhada no mercado persa da ganância.

    Passe Livre se orgulha de defender o Juvenal Lamartine em convicção ortodoxa. E Passe Livre abomina o radicalismo, o sectarismo, os dogmáticos e a mofada dicotomia Direita e Esquerda que morreu com seus intérpretes em alguma assembleia ou matinê da década de 1970.

    Nos anos 1970, torcedor do América e repórter da Tribuna do Norte, Cláudio Santos deixava de sofrer. Na Era Castelão (depois Machadão), o América bebia da fonte da autoestima e com Scala, Hélcio Jacaré, Humberto Ramos, Santa Cruz, Jangada, Pedrada, Ivanildo Arara e Marinho Apolônio, se equiparava e muitas vezes destronava o ABC imbatível desde o Tetra.

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    Nos idos de Roberto Carlos dizendo que era terrível e não podia parar, os Beatles encantavam de Londres aos vitrolões da rapaziada natalense e Cláudio Santos deixava sua casa, na vizinhança do saudoso (em Natal, o já teve é recorrente a cada esquina) Cinema Rio Grande, seguia a pé pela Rua Açu até desembocar nas tardes quentes do JL em clássicos apimentados.

    Cláudio Santos sofreu com Alberi batendo no América, Alberi que para ele só é superado na poesia lúdica pela entidade Pelé, encorpada pelo cidadão comum Edson Arantes do Nascimento e jamais copiada por ninguém.

    Há muito tempo não vejo Cláudio Santos, o desembargador. Foi meu colega de governo. Secretário de Segurança Pública inflexível, varreu do mapa dos sertões, quadrilhas aterrorizantes e tidas como imbatíveis. O perímetro do medo, quem desmontou foi Cláudio Santos, a história está no papel para provar. Hoje é diferente e pior.

    Chega o texto da Assessoria de Imprensa do Tribunal de Justiça com boa notícia, que também é notícia, embora a desgraça paute o instinto das novas gerações. O JL está protegido, guardado, um dia, quem sabe, reaberto, como aconteceu em João Pessoa, no Estádio da Graça, em Cuiabá, com o Presidente Dutra, em Fortaleza, com o Presidente Vargas.

    Em seu relato, Cláudio Santos escreve o que vou repetir, feliz e satisfeito do jeito que fiquei quando cruzei, menino, aquele portão de uma só catraca na avenida Hermes da Fonseca, apenas para dançar uma nota da valsa dos sonhos vividos pelo meu pai e seus amigos. Sonhos reais de Jorginho, de Cezimar Borges, Wallace, Pancinha, Pedrinho e Waldomiro, Marinho Chagas, Tonho Zeca, Debinha, Véscio e Assis, Bagadão e Burunga, o Deus Banto do Pina, Alberi.

    “Mostra-se fundamental a preservação de um patrimônio conhecido, da memória representativa para a população natalense, com identidade quase secular na consciência coletiva,” reforça o relator, certamente inspirado pela recordação do passe medido de Talvanes para Alemão chutar e marcar o gol que permitiu ao América disputar e vencer o inesperado campeonato de 1969.

    Segundo ainda Cláudio Santos, “as questões de preservação cultural não podem ser consideradas como algo supérfluo, mas, em contrário, devem ser contempladas como bens inestimáveis. A preservação do bem público condiz com a melhoria da qualidade de vida e resgate de valores, plenitude da cidadania, se afirmando como história em um país sempre voltado para o novo”.

    Sinto-me recompensado, em boa parte, da nostalgia apunhalada com o fim do Castelão (Machadão). Cláudio Santos e os seus colegas de 3a Câmara Cível provaram que o bem pode vencer. Em magazine, não existe espírito público. É produto da dignidade. Vamos cuidar do JL.

    Há 30 anos

    E por falar em Juvenal Lamartine, há exatos 30 anos, ABC e América empataram (0x0) na primeira das finais do 1o turno do Estadual/1984. Público de 2.594 pagantes. Eu era um deles. O Castelão estava interditado para reparos na marquise.

    Times

    ABC: Carioca; Joel, Jaílson, Arié e Vassil; Nicácio, Noé Macunaíma e Marinho Apolônio; Curió, Valença e Rômulo (Zezito). América: Eugênio; Jaílton, Saraiva, Edson e Júlio César; Baltasar, Didi Duarte e Valério; Sandoval, Sérgio Cabral (Mirabô) e Ramos (Soares).

    Cofres cheios

    ABC contra o Cruzeiro e América com Flamengo. Cofres cheios. De falta de grana, ninguém pode reclamar.

    Alecrim

    Vai sair de um pesadelo. Cuidado para não entrar noutro. Amélia, só na música.

    Série B

    Intervalo na euforia. A rodada da Série B é vital para ABC e América. Os dois iniciam o segundo turno em proximidade temerária com a Zona do Rebaixamento. Não podem continuar alegrando e frustrando, numa gangorra desagradável para seus torcedores.

    Goleada argentina

    Alemanha não estava nem aí. Di Maria, monstro. Jogou por ele e Messi nos 4×2 que mostraram: o caminho do Brasil a 2018 é penoso.

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      Andrey, androide – Rubens Lemos

      Andrey fez uma, fez duas, fez três, fez quatro defesas para se gravar e se debater durante os próximos dez anos. Andrey, o androide humano com seu capacete protetor, silenciou milhares de rubronegros paranaenses e segurou nas suas luvas a vaga do América na Copa do Brasil.

      Baé, o torcedor e símbolo vermelho, está liberado para se ajoelhar sobre caroços de milho até a próxima geração rubra. Tudo por Andrey, um goleiro elástico e incorporado à galeria dos ídolos americanos desde que saiu do ABC para vestir o blusão rival com a técnica indiscutível aliada ao equilíbrio emocional que muitas vezes lhe faltou.

      Uma defesa aos 48 minutos do segundo tempo, à queima-roupa como um tiro mortal e irremediável, consolidou os fortes do Rio Grande do Norte nas quartas, para ira inútil da mídia sulista. O América segurou seu 2×0 em dramaticidade de invejar suspense de telona. Graças a Andrey, androide.

      Depoimento de Agnelo

      Recebo, honrado, mensagem do jornalista Agnelo Alves, coragem solidária a abrigar o meu pai e a nós, seus familiares, durante a covardia da Ditadura. Agnelo agradece – ele não precisa -, o livro Poemas Guardados, lançado por minha irmã Yasmine Lemos com versos inéditos do nosso pai. Agnelo é padrinho do meu irmão Camilo Lemos. Grato digo eu. O livro marca o lançamento do selo 8 Editora, tocado por Yasmine.

      A mensagem: “Natal, 02 de setembro de 2014. Rubinho, Grato pelo livro do nosso inesquecível Rubão, de quem guardo teimosas lembranças de uma amizade que atravessou o tempo com suas circunstâncias. Rubão foi uma criatura humana que cuidou de tudo e de todos. Menos dele próprio. Sofrido, maltratado, perseguido, torturado. Uma vida que gerou outras vidas a quem ele dedicou a própria vida. Sou testemunha dos sacrifícios, das dedicações de toda uma vida. Grato, Rubinho.Com cordial abraço, Agnelo Alves.”

      O livro é uma edição limitada e gratuita e – por culpa minha – outros amigos fraternos e gratos não receberam (ainda) seu exemplar. Aqueles que já foram lembrados e não fizeram qualquer menção em seus espaços, também sabem que Rubão não se preocupava com lapsos de desdém. Ou de esquecimento mesmo. Ele foi um lírico, um fraternal cometa. E perdoava.

      Lateral-direito

      Enquanto traçava um sanduíche – light – com gosto de isopor, conversava com o torcedor alvinegro de gargalhada franca pela pancada no Vasco. Ele levantou assunto interessante e logo formou-se a patota. Há tempos o ABC não tem uma safra de laterais-direitos tão bons. Renato, Patrick e Madson, o Madson arrebatador na Copa do Brasil.

      Sem tradição

      Farto de craques em todas as posições, o ABC teve apenas um lateral-direito acima das médias: Alexandre Cearense, do título de 1983. Sabará, escolhido para a Seleção do Século passado, entrou mais pela presença no timaço do Tetra (1973) do que de brilho. Era raçudo. Do tempo do Juvenal Lamartine, cita-se Biró, Gaspar, Preta e Batista, pai do jornalista Alan Oliveira, hoje expert em marketing esportivo.

      Rogerinho

      No dia em que Rogerinho resolver jogar o que demonstrou nos parcos minutos em campo, o ABC não precisará mais de camisa 10. A questão é Rogerinho querer. É com notável raridade que ele demonstra vontade de mostrar futebol.

      Dunga é felipista

      O técnico Dunga aproveitará oito titulares da equipe que disputou (um fiasco) a última Copa do Mundo da FIFA para iniciar a sua segunda passagem pela Seleção Brasileira amanhã contra a Colômbia. No primeiro treinamento com bola comandado pelo sucessor (físico) de Felipão, desde que conta com o grupo nos Estados Unidos, apenas três jogadores que não estavam no Mundial foram utilizados como titulares.

      Titulares e reservas

      Em cerca de 50 minutos de atividade, a Seleção Brasileira foi a campo com Jefferson; Maicon, Miranda, David Luiz e Filipe Luís; Luiz Gustavo, Ramires, Willian e Oscar; Neymar e Diego Tardelli. Os reservas, com um atleta a menos, foram: Rafael Cabral; Danilo, Marquinhos, Gil e Marcelo; Elias, Philippe Coutinho e Éverton Ribeiro; Robinho e Ricardo Goulart.

      Ganso e Robinho

      Paulo Henrique Ganso, na forma atual e usando apenas a perna direita, a de pisar no acelerador do seu carro, é titular indiscutível do meio-campo. Cá pra nós – e só pra nós, nem o mascaradão Robinho pode ser reserva numa seleção com Ramires e Willian. Robinho, o ciscador, sabe ao menos conduzir e bater com respeito na bola.

      MST

      O seu direito termina quando começa o meu. A invasão do MST a uma agência bancária em Natal é o cúmulo da insensatez orquestrada. O que um velho aposentado ou um cliente desesperado para pagar conta têm com a sanha de radicais? Nada. Por isso que surgem, de vez em quando, cassandras aduladoras pregando Ditadura. Juntando os dois lados, dá material de sobra para exame de fezes.

      Jogão na memória

      O América venceu o Sport (2×1) numa quarta-feira e recebeu o Goiás no dia 4 de setembro de 1975, domingo de Castelão (Machadão) com 11.698 pagantes pelo Campeonato Brasileiro. Jogaço e empate em 3×3. Gols do América: Ivanildo Arara e Pedrada (2). Rinaldo e Píter (2), marcaram para o Goiás. Em 1979, Píter foi campeão paulista pelo Corinhians.

      Times

      O América jogou com Valdir Appel; Ivã Silva, Oscar, Odélio e Cosme; Zeca, Washington (Humberto Ramos) e Hélcio Jacaré; Sérgio Davi (Pedrada), Santa Cruz e Ivanildo Arara. Goiás: Vandeir; Triel, Macalé, Alexandre e Gílson; Matinha, Frasão (Zé Maria) e Lúcio; Píter (Tuíra), Lincoln e Rinaldo.

      Campeonato

      O Campeonato de 1975 teve 42 participantes. Era o auge da praticidade do slogan “Onde a Arena vai mal, um time no Nacional”. A Arena era a sigla oficial da Ditadura. O MDB, corajoso agrupamento de resistentes de todas as tendências contrárias ao arbítrio. De liberais a comunistas albaneses, espécie extinta faz tempo, menos para dinossauros remanescentes.

      Loteria

      O América foi o terceiro colocado em seu grupo na primeira fase, atrás de Flamengo e Grêmio e superando oito concorrentes. Na etapa seguinte, derrotou o Vasco em São Januário por 1×0, gol de Washington, resultado que fez ganhador único da Loteria Esportiva o goiano Miron Vieira.

      Colocação

      O América terminou o campeonato em 24o lugar, à frente do Santos, naquele período sofrendo na plenitude carpideira, a viuvez da despedida de Pelé. Totonho era seu substituto. Sem mais.

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        O despertar – Rubens Lemos

        Depois da trigésima cerveja em lata, incursionou pela cachaça com churrasco de gato num boteco cheio de pôsteres antigos de futebol. Traçou uma rabada de quatro dias de fabricação. Comeu cebola roxa, queijo de coalho, arriscou uma dobradinha feita no sábado. Gritava: “Becê, Becê!”.

        Sem grana para ver o jogo, achou a primeira placa de moquifo que encontrou pelas imediações de Nova Descoberta com TV por assinatura. Sentava-se num bar pelo mofar da cerveja, o tempero do tira-gosto, o perfume ativo e suado das mariposas, o bate-papo. Hoje, o importante é ter TV paga. Ingresso é impeditivo de pobre.

        Berrou como viúvo honesto no gol de Madson. Rolou por entre as mesas de metal, rezou 16 Pai Nossos, clamou por Souza Silva, o falecido repórter da Frasqueira dos idos da calça boca-sino e dos craques black power e swing no trato com a bola. “Bateu com o peito do pé, peito do pé! Foi gol de Jorge Demolidor!”.

        Ao invocar o velho e explosivo goleador do Tetra de 1973, temperava a emoção louca pela vitória das mais importantes do ABC desde 1915, passando por Padrinho Vicente Farache de mãos dadas com a dama Maria Lamas, grandeza matriarcal do Frasqueirão, Estádio que se impõe aos ventos sudoestes de Ponta Negra. Zona Sul. Jorge Demolidor chutava mesmo forte, sem medo, assassinando o inútil esforço dos goleiros.

        Trêmulo, pastoso na voz do bêbado crônico e sentenciado pela devastação do fígado, exaltou o lançamento parabólico e profético de Samuel, direto da defesa até o lateral que incorporou os maiores artilheiros alvinegros. “Um lançamento assim eu só vi Danilo Menezes fazendo em domingo de clássico. Eu só vi Alberi meter uma bola assim, tão linda”.

        O bêbado em transição ao torto status de palhaço translúcido chorava e urrava depois que Rogerinho triscou na bola e o zagueiro Marlon marcou o segundo gol, o gol que fez da Arena, por minutos, um espaço democrático, popular e festivo na catarse exclusiva dos times de massa.

        Rogerinho, em sua meteórica passagem pelo gramado, bateu na bola no charme de um Dedé de Dora na plenitude do 1983 incomparável. O doce, ébrio trôpego, chamou Marlon, que empurrou a bola para o gol de Diego Silva, mãos de mamulengo, de Alexandre Mineiro, o gigante quarto-zagueiro daquele esquadrão de 31 anos passados. Ele podia, os oito companheiros de alegria compreendiam.

        Prometeu nunca mais beber depois do susto de Maxi Rodriguez, diminuindo o placar, jurou arrumar emprego e ajudar a mulher no sustento dos netos Vanderlilda e Soluewersom (nomes rigorosamente escolhidos pelo avô). Deu cambalhota quando o árbitro encerrou a partida. Pendurou a conta num calhamaço da grossura de um pretérito (tanto quanto ele), catálogo telefônico.

        Saiu pela madrugada. Há santos para bêbados indefesos e guiados pela paixão de agonia, em plena capital, a quarta mais violenta do Brasil. Ele não quis nem saber mas saiu em procissão restabelecendo o ritual das epopeias dos anos dourados em preto e branco.

        Foi ao Alecrim, passou pelos extintos sítios boêmios Quitandinha e Café Nice, orou, desceu à Praia dos Artistas. Até às oito da manhã, dormia, vestido de ABC, na calçada do fantasmagórico Hotel dos Reis Magos. Putas, punguistas e baderneiros protegiam seu sono sagrado de glória.

        Imparcialidade

        Quando a Rede Globo repete como liquidificador sonoro as suas bobagens ufanistas, com Galvão Bueno de vocalista, o mundo cai, todo mundo desce a porrada. A Fox Sports, emissora tida como “cabeça” fez vergonha na transmissão de ontem à noite na Arena das Dunas.

        Narrador e comentarista

        O narrador que é anônimo e o ex-cracaço Mário Sérgio Pontes de Paiva, o Vesgo, transmitiram como se fossem conselheiros ou chefes de torcida organizada do Vasco. Mário Sérgio, que nunca errou um passe na vida, chegou a chamar o ABC de “time do Ceará”. E pagamos caro pela assinatura desse canal parcial.

        Cúmulo

        Mário Sérgio, cerebral no meio-campo ou na ponta-esquerda quando entortava marcadores, perdeu-se como um bobo de praça. Na ânsia de subverter a lógica, chegou a dizer que o segundo tempo foi “todo do Vasco”. Foi tanto que o Vasco desceu para o terceiro tempo. Tempo que nem acabou por jamais ter havido.

        Globo x Vasco

        O empresário Marcone Barreto, astuto, deve cobrar do seu time do Globo um esforço hercúleo para chegar à Série C. Barreto pode começar a fazer cálculos pois seria um rendão um Globo versus Vasco em Ceará-Mirim. O Vasco é time para a Série C, depois a D e depois, lembranças como um Bangu em preto, branco e saudades. Triste fim.

        Andrey, 50 jogos

        O goleiro Andrey estará completando 50 jogos com a camisa do América esta noite na decisão contra o Atlético (PR). O atleta chegou ao clube no ano passado para a disputa da Série B e jogou 30 partidas. É um ótimo goleiro, embora ainda for a de forma após longa contusão. Hoje, é comemorar pegando tudo.

        Obrigação, não

        O América vai jogar contra o Atlético (PR) para se classificar pela ampla vantagem obtida no primeiro jogo, não porque o ABC mandou o Vasco para o Rio de Janeiro a nado. O América segue seu destino e o ABC, o dele.

        Paz

        Time o América tem para ganhar de qualquer um. Quando está inspirado, é uma beleza do meio-campo para frente, tocando a bola, chegando ao gol no famoso “um, dois”. Sem falar no lateral-direito Wálber que está jogando como se homenageasse o eterno Ivan Silva, o melhor da história rubra na posição.

        Vida que segue

        O sorteio para a definição de mandos de campo das quartas de final da Copa do Brasil será nesta sexta-feira, às 14 horas, no auditório da sede da CBF.

        Grande público

        Atenção autoridades policiais: o jogo ABC x Santa Cruz é de risco de confronto entre baderneiros. É velha história de rivalidade. Famílias de Natal e as que vierem de Recife, precisam de garantias.

        O lado A

        ABC que jogue o seu futebol lado A na Série B. O futebol que parece surgir na Copa do Brasil, atraído pelo prêmio polpudo, tem de voltar no jogo contra o Santa Cruz para a torcida gritar que é feliz duas vezes por semana.

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          Minhas desculpas, amigo – Rubens Lemos

          Amigo Alex Medeiros, minhas desculpas, mas você dançou. O nosso Albimar Morais, o querido e irrequieto Bima, me entregou novas joias do arco da velha do futebol feito arte. Foi assim, de supetão, como de repente é sempre Bima.

          O lote de exemplares da Revista do Esporte é de fazer o colecionador fanático delirar. Numa delas, Alex, calcule, está escalada e identificada, uma por uma estrela, a seleção do Campeonato Carioca de 1962 conquistado pelo seu Botafogo.

          Veja se esse time daria para vencer a farandola que envergonhou o Brasil na Copa do Mundo das Arenas e das Alemanhas fulminantes: Manga (Botafogo); Jair Marinho(Fluminense), Mário Tito (Bangu), Nilton Santos (a Enciclopédia de quarto-zagueiro pelo Botafogo) e Altair (Fluminense);

          O meio-campo, Alex Medeiros, vem com Maranhão do Vasco, o Maranhão Bicudo depois ídolo da torcida do ABC e Damião do Cosme Danilo Menezes. Maranhão ganhou o mérito de revelação do ano. O saudoso Maranhão foi o volante de 1962, com Gerson, o Canhotinha de Ouro, ainda no Flamengo, na armação.

          O ataque arrasa com Mané Garrincha na ponta-direira, destruidor do Flamengo na decisão, Saulzinho, do Vasco, de centroavante, o espetacular Dida, do Flamengo, ídolo de Zico, na meia-esquerda, e Zagallo na ponta-esquerda, falsa. O técnico é o sisudo Flávio Costa e o melhor árbitro, o insuportável Armando Marques.

          Eis apenas um detalhe do incalculável prêmio que recebi pelo afeto ranzinza do grande Bima, remoçado e feliz. Fomos almoçar e ele me passou um raio-x das futricas e intrigas do soçaite natalense que tanto eu quanto ele, desprezamos. Agradecemos por não merecer atenção dos esnobes.

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          Agora mesmo, Alex Medeiros, passo a mão sobre uma entrevista com o ponta-direita Dorval, o camisa 7 da constelação da Praia do Zé-Menino, em Santos. Dorval enlouquecia laterais e cruzava para cabeçadas mortais de Pelé ou tocava leve para tabelinhas entre o Rei e o parceiro Coutinho.

          Incrível, a Revista do Esporte informa que Dorval não gostava de dormir depois do almoço e pescava. Em campo, fazia o Peixe virar lobo devorador de adversários do mundo inteiro.

          Pois é, Alex Medeiros. Convicto de que você não dará esporro ciumento em Bima, compartilho a notícia de que Garrincha ameaçava abandonar o futebol naquele 1962 (mas a revista é outra, para você não esquecer que a fartura me encantou).

          Garrincha reclamava dos baixos salários propostos pelo Botafogo na renovação do contrato. Elza Soares já estava cantando e governando o Pai do Drible, que, na prática, fez sua última temporada extraordinária naquele ano. E terminou aceitando a permanência no clube pelo dinheiro que o Botafogo lhe oferecia.

          Tem mais, há Djalma Santos e Julinho Botelho na Academia do Palmeiras, o perfil completo de José Mendonça dos Santos, nosso orgulho mossoroense chamado Dequinha, melhor volante do Flamengo e, na época, emprestado ao suburbano Campo Grande. Dequinha usava sabonetes Gessi, Alex e creme dental Colgate, só para seu governo.

          Vou parando por aqui, meu companheiro, sem esperar que reajas com impropérios. Reclame de Bima. A culpa não foi minha. Proteste sabendo que ele vai lhe compensar, porque é o tipo de amigo que ganha presente fazendo a alegria de quem quer bem. Viva Bima, Papai Noel fora de época.

          PS. Alex virá tal Jairzinho no contra-ataque. Aqui mesmo, no O Jornal de Hoje.

          Castigo e impunidade

          Aprendi, menino, a ser obediente e disciplinado no olhar firme de minha suave avó. Ou no pigarro sem cigarro do meu pai. Quando errava, o castigo era irrevogável: distância de futebol, fosse nas peladas de rua, na leitura da Revista Placar, na ida religiosa ao Castelão (Machadão).

          Perdão inaceitável

          Daí não aceitar o perdão do América a Max, campeão mundial de reincidência, depois de agredir o colega Rodrigo Pimpão. A foto dos dois apertando as mãos é um deboche.

          Comparando para entender

          Manterei meu ponto de vista mesmo que Max faça oito gols na decisão de amanhã contra o Atlético Paranaense. Hélcio Jacaré, Didi Duarte, Souza e Moura, grandes ídolos, nunca usurparam da condição de sumidades para dar mau exemplo. E Max, com todo respeito, está a milhas e milhas históricas dos quatro.

          Jogo tenso

          O Vasco, surrado, humilhado e destroçado pelo Avaí (5×0), chega a Natal no desespero. E aí mora o perigo. O ABC precisa apenas de um 0x0, mas não pode simplesmente se fechar assim que o árbitro ordenar o início da partida. Será um desafio fazer o time andar. Zé Teodoro é mais retranqueiro do que Leandro Campos, o Comendador do título da Série C em 2010.

          Recorde

          É quase unanimidade: ABC x Vasco decidindo a vaga na Copa do Brasil será o maior público da Arena das Dunas, jogo com padrão de assistência de Copa do Mundo. A torcida do ABC está eufórica, apesar da gangorra de resultados. Vascaínos virão de todo o Nordeste.

          Boa nova

          A Câmara dos Deputados analisa projeto que aumenta o tempo que torcedor envolvido em brigas em eventos esportivos poderá ficar preso ou proibido de frequentar estádios (PL 7063/14).

          Estatuto defasado

          Atualmente, o Estatuto de Defesa do Torcedor (Lei 10.671/03) já pune quem promover tumulto, praticar, incitar violência ou invadir local restrito com penas de reclusão de um a dois anos, com multa, e de banimento pelo prazo entre três meses e três anos.

          Seis anos de cadeia

          A proposta, do deputado Rogério Peninha Mendonça (PMDB-SC), prevê penas de reclusão de três a seis anos e multa e de banimento no prazo de três a dez anos, de acordo com a gravidade da conduta.

          Outras sanções

          O texto determina ainda que o torcedor condenado deverá entregar seu passaporte à autoridade competente, caso time brasileiro jogue no exterior, até cinco dias antes, podendo retirá-lo no dia útil seguinte. A determinação vale apenas para a modalidade esportiva na qual se deu a punição.

          Medida inadiável

          Segundo o deputado Mendonça, o agravamento das penas é necessário em função dos diversos incidentes de violência provocados por torcidas brasileiras nos estádios.O projeto será analisado pelas comissões de Esporte e Turismo; de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Depois, será votado pelo Plenário.

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            Doces nanicos – Rubens Lemos

            Cinquentões e coroas saradas da cidade ensolarada: como era bom ver nossos doces pequenos em suas guerrilhas inúteis e românticas nas preliminares da vida aldeota dos anos 1970. Fanático chegava ao estádio pouco depois da boia encontrar refúgio no estômago, sol impiedoso. Veteranos recorrentes e peladeiros boçais se misturavam em bailado pobre de estética e telúrico pela persistência.

            ABC e América brigavam na disputa invariável no topo, o Alecrim na conformação do terceiro da varanda e no subsolo, um quadrangular de Vuco-Vuco, antigo reduto de quinquilharias da cidade permitida a todos.

            Eram Riachuelo, o time da Marinha, o Ferroviário, da Refesa, o Força e Luz, da empresa estatal de energia elétrica e o Atlético, rubro-negro como um Flamengo do proletariado, mantido por um mecenas, Adelino Marques, e chamado de Moleque Travesso pelas bicadas ocasionais nos grandes.

            Depois de mais uma rodada tenebrosa com ABC e América frustrando suas torcidas na Série B, decido me recolher, me consolar no passado guardado no meu baú. Tesouro sem cadeado e acesso permitido apenas ao dono. Papel velho que não guarda pecado nunca gera cobiça. Ninguém se interessa pelo que tenho de mais precioso: meu tempo. O tempo que agora, depois dos 44 e o corpo cobrando a fatura, desejo de volta nem que seja em sonho.

            Ponho máscara de pano para evitar alergia, vou buscando folhas mortas. Parando a cada uma e lembrando seus personagens, aqueles que foram manchete, escreveram as notícias e estão mortos, me deixando no imenso barco obsoleto, barco sem mar para navegar.

            Encontro uma ficha técnica deliciosa de saudade. De história. De lembranças do meu pai, que vivia aquele dia 1o de setembro de 1974. Só três anos depois seria apresentado à atmosfera sedutora do futebol.

            Campeão com o Vasco em 1977, quando o Vasco honrava o nome e vice com o ABC, América de Marinho Apolônio destruindo o time do mito Danilo Menezes, menino segurando o choro para não fazer vergonha na frente de um bando de homens irreverentes numa cabine de rádio.

            Menino vendo um sururu campal, ABC querendo descontar no braço ou nos golpes de karatê do zagueirão Pradera, o futebol que lhe faltara para fazer a Frasqueira feliz. Uma briga tristemente memorável que pôs o Estado pela primeira vez no Fantástico.

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            Estou lendo a súmula de Força e Luz 2×1 Riachuelo, há 40 anos. Jogo isolado no gigante da Lagoa Nova, no Castelão (Machadão) que me foi arrancado à força dos olhos e do coração. Estádio com 110 testemunhas. O Castelão tinha capacidade oficial para 55 mil pessoas quando efervescia a geral ecumênica.

            Imagino o vazio de uma imensa basílica ocupada por apenas um homem de fé em oração penosa. Foram 110 fanáticos ou desenganados espalhados pelos compartimentos do templo, mais os 22 obstinados em campo, o trio de arbitragem, o delegado da partida, o árbitro reserva, dois ou três policiais, um vendedor de picolé, no máximo dois bares funcionando no prejuízo.

            O Força e Luz havia montado um bom time, dinheiro injetado pelo Governo do Estado numa ação de propaganda e de aproximação popular pelo futebol. A Ditadura rugia feroz naqueles tempos.

            O goleiro do “Time Elétrico”, segundo o padrão radiofônico do jornalismo, era Erivan, legenda do ABC. Vinham Gena, Oscar, Emídio e Olímpio, miolo de zaga e lateral-esquerdo contratados depois pelo América, para onde foi o aguerrido volante Zeca, autor do primeiro gol aos 26 minutos do primeiro tempo. Ademir e Modesto completavam o meio-campo;

            Almir era o ponta-direita e dois famosos fechavam o ataque: Edivaldo Araújo, que veio para o ABC em 1970 jogar com Alberi e Marinho Chagas e voltaria em 1975 para ser artilheiro e o ponta-esquerda Ivanildo Arara, falecido este ano em Recife, o melhor que vi jogar em Natal. Pelo América.

            O Força e Luz era mais time naquela quarta-feira sombria e com o povo em casa vendo a novela Fogo Sobre Terra, escrita por Janete Clair com Regina Duarte ainda namorando o Brasil inteiro.

            O Força e Luz fez 2×0 aos 30 minutos do segundo tempo com o meia Élson, que substituiu Ademir. Elson jogou no ABC e no Alecrim, campeão nos dois, no abandonado patrimônio cultural Juvenal Lamartine, teatrinho de arena da bola semiamadora. O Riachuelo, imitando os bravos guerreiros da batalha inspiradora, lutou, fez gol com Nilo, mas perdeu de 2×1.

            O time azul berrante mantido pela Marinha veio com Valcir; Preta, o simplório e batedor lateral do ABC do Tetra/1973, Manuel, Josemar (veterano alvinegro do timaço de 1970) e Santana, substituído pelo ex-americano Pimentel; Francisquinho, Gonzaga e Jaime, que saiu para Marreco, uma espécie de protótipo torto do padrão de jogador de preliminar. Elmer, Nilo e Juritinga fecharam o ataque.

            Saudade dos nosso quarteto brioso, que apanhava sem reclamar nem apelar para a violência. Um foi morrendo e puxando o outro, numa sequência triste e fluvial. Na política, nanico é perda de tempo e gambiarra democrática. No futebol, nanico é lembrança. Doce como um caldo de cana tomado no intervalo da pelada.

            Pimpão agredido

            Pimpão é o personagem da semana. Pimpão faz gols e é franzino. Foi agredido pelo companheiro de ataque, Max, uma Pedra Humana que caiu no conceito de Passe Livre. Max sofreu tanto na vida que ficou viciado em punição. Dupla atacante sempre foi sinônimo de parceria, de cumplicidade, de complemento um do outro.

            Punição exemplar

            Exemplar o América na punição ao atacante Max.

            Agonia

            Preocupados com a Copa do Brasil, onde o bicho é alto, jogadores de ABC e América vão torturar seus torcedores outra vez, para escapar do rebaixamento.

            Horrível

            Por pior que tenha sido, o Força e Luz 2×1 Riachuelo mencionado no texto de abertura terá sido muito melhor que Bragantino 1×0 ABC. Nada contra Somália. Mas a camisa 10 não combina com ele. Fica estranha a moganga.

            Quem vestiu

            A 10 do ABC vestiu Jorginho, Danilo Menezes, Alberi, Marinho Apolônio, Zezinho Pelé, Sérgio China, Sérgio Alves, Geovani, Geraldo, Nildo e Cascata. Dá pra comparar? Dez vezes, não.

            Não existe 10

            No ABC, nem Xuxa, nem Rogerinho ou Júnior Timbó, pelo que está jogando, merecem usar a camisa 10. O segundo turno vai impor tranquilizantes.

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              No meio de nós – Rubens Lemos Filho

              Ninguém endurece contra o racismo. Ninguém falará em mais 15 dias na humilhação do goleiro Aranha do Santos, chamado de “macaco” por uma pústula sentada na luxuosa arena gremista em Porto Alegre. O racismo dói na alma, não sangra na carne nem carece de esparadrapo.

              Aranha reagiu numa dignidade guerreira. Exigiu postura do árbitro. Berrou de revolta, bateu forte no peito, desnudou do razoável jogador o caráter extraordinário do macho verdadeiro, do homem sem medo na atitude, sem vestígio da brabeza de fancaria.

              Aranha, registre-se nos cartórios da verdade, é negro. Afrodescendente é invenção militante e tão preconceituosa quanto a víbora travestida de torcedora. Imploro que ela não seja mãe, pelos filhos, candidatos a segregadores, campeões da maldade em primeiro turno.

              A agressora exibe a fúria perniciosa de Hannibal Lecter, o personagem calculista e canibal do cinema, na expressão gratuita do ódio. A Ira é pecado legítimo quando usada na preservação da vida. Na covardia, é bastarda. Bastardos são inglórios, ensina outro filme.

              O caso vai sobreviver na mídia enquanto gerar audiência. O racismo é crônico igual alergia fascista. É um baile de máscaras hipócritas.Gritar com garçom, humilhar porteiro, dividir ser humano por elevador social e de serviço. Achincalhar o macaco, animal de travessura, de gargalhada.

              Racismo é o substantivo de tudo. Está, sorrateiro ou pútrido como na agressora do goleiro Aranha, todo dia, a cada hora, no meio de nós.

               

              Decadência italiana

              Rogério Tadeu Romano

              Procurador da República

               

              Foi justa a homenagem prestada a Altafini Mazzola, durante as comemorações dos 100 anos do clube esmeraldino.Altafini Mazzola foi craque, um excelente atacante. Vendido pelo Palmeiras ao Milan, já no final da década dos cinquenta.

              Mazzola, juntamente, com Dino Sani (que veio do Boca Junior, após jogar no São Paulo), Germano (que jogou no Flamengo e fez sucesso no ano de 1961 e início de 1962) e finalmente Amarildo, brilharam no futebol italiano, defendendo o Milan, que foi campeão da Europa, na temporada de 1962/1963, vencendo ao Benfica. A eles se somavam craques como Trapatoni, Maldini, Rivera, que era chamado o menino de ouro.

              Prosseguia o futebol brasileiro a revelar para o futebol italiano, no pós-guerra, craques, que se notabilizaram por sua técnica, como Dino da Costa, Vinícius, e tantos outros, já na década dos cinquenta e que se somavam aos craques uruguaios, da Celeste Olímpica, que fulminaram a seleção brasileira, na Copa de 1950, estrelas argentinas como Omar Sivori.

              Posteriormente, a Inter de Milan, à época de Sandro Mazola, e tantos outros, tinha, na ponta direita, Jair, reserva de Garrincha, na Copa de 1962. Com um time bem armado defensivamente, e com um técnico especialista em ganhar títulos, foi campeão italiano e ganhador da Copa de Clubes Campeões.

              Mazzola e tantos outros são exemplares do chamado período de ouro do futebol italiano.

              Com o fracasso da Itália, na Copa de 1966, ficaram suspensas as contratações, apenas reabertas, no final da década dos 70 e, principalmente, em 1980, quando Falcão (foto) foi contratado pela Roma ao Internazionale.

              Abria-se, na Itália, um verdadeiro Eldorado, que levou para lá, verdadeiros craques como: Zico, Júnior, Toninho Cerezo, além de Casagrande, Muller, e tantos outros. A eles se somavam estrelas holandesas de primeira grandeza (Gullit, Van Basten), que levaram o Milan ao patamar de melhor do mundo no final dos anos 1980, após a Juventus, com Platini, Boniek, pontificar no calcio e no Velho Continente.

              A Seleção Italiana tinha, por sua vez, Paolo Rossi, de triste memória para o nosso futebol, e a turma que ganhou aquela Copa de 1982, que tinha muitos jogadores integrando a equipe de Turim.

              Na década dos 90 e no inicio do século, eram emocionantes as partidas pelo campeonato local, com a participação de jogadores brasileiros que, na Roma (Cafu, Antônio Carlos, Aldair e outros), no Milan (Dida, Serginho, Leonardo, tantos outros), na Inter (Ronaldo Fenômeno) se somavam a alemães, ingleses, que levaram a Liga Italiana ao destaque no continente europeu.

              Tal década foi iniciada pelo sucesso da Napoli, um dos melhores elencos da época no continente europeu, que foi impulsionado pelo fenômeno Maradona, que levou o seu time, que ainda contava com Careca (um excelente ponta de lança, que jogou no Guarani, São Paulo e Seleção Brasileira, nas Copas de 1986 e 1990), ao titulo peninsular na temporada 1989/1990.

              A Inter de Milan, com José Mourinho, num time que tinha Lúcio, Júlio Cesar, Etto, foi o último time a conquistar vitória importante. De lá para cá, a Itália perdeu postos, na Europa, para a Alemanha e hoje para Portugal.

              Tem, hoje, a Itália, dois times classificados diretamente para a Champions League, ao invés de três, no passado.

              Após a conquista do Mundial em 2006, jogando um futebol de resultados, vê a Itália o Milan, não classificado para qualquer competição europeia, observa apenas a Juventus, que foi eliminada pelo Benfica, na semifinal da Liga Europa, como seu melhor time. Estrelas como o Super Mario estão tendo seus passes negociados para outros países, como é o caso da Inglaterra, que tem uma liga de futebol forte ao contrário de sua seleção.

              A decadência do futebol italiano parece espelhar a de sua economia, que vive, como todo o continente, seria crime econômica, que hoje a leva a deflação, com desemprego e outras consequências.

              Pelo menos lá, diante da fraca campanha apresentada na Copa do Mundo do Brasil, o técnico pediu para sair. A experiência de recuperação do futebol italiano, que deve ser pautada em soluções empresariais, pode ser um exemplo para o futebol brasileiro, que vive a maior crise de sua história.

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                Está explicado – Rubens Lemos Filho

                Nos últimos anos, o Palmeiras e o Vasco disputam um revezamento de falta de amor próprio. Caem um ano para a Série B, sobem no outro e padecem no seguinte. Dois clubes de torcidas apaixonadas e tradição internacional. O Palmeiras é o primeiro no ranking de títulos nacionais. Está fazendo 100 anos enquanto derrapa, a cada rodada, nas curvas da Zona do Rebaixamento.

                Na Série B está o Vasco, pela segunda vez em cinco anos, na tormentosa gestão de Roberto Dinamite, o maior ídolo do clube prestes a perder a honraria depois do desastre como administrador. Roberto Dinamite cumpre um mandato tão ruim que até eu chego a admitir a volta do assombroso Eurico Miranda ao poder do desmoralizado heroico português.

                Vasco da Gama, o original navegante, manda boletins diários do além ameaçando entrar com processo judicial surrealista para que seu nome seja afastado de tão fracassada agremiação nos tempos de hoje. O Vasco não tem mais menino torcendo por ele, salvo em casos de filhos de fanáticos, que obrigam e cortam mesada. Menino gosta de time vencedor.

                O centenário do Palmeiras coincide com a péssima campanha no Brasileirão que sequencia horroroso período sob o comando do ex-técnico Luiz Felipe Scolari, o Dunga Velho. O Dunga Velho levou o Palmeiras à Série B e, como prêmio, recebeu de volta o comando da seleção brasileira até conduzi-la à vergonhosa campanha na Copa do Mundo dos 7×1.

                Com muito bom gosto, primor editorial pode-se dizer, a Revista Placar lançou uma edição de colecionador sobre o momento que deveria ser festivo para o Palmeiras. É uma obra para se guardar. Bem escrita, caprichosa nas artes gráficas, detalhista nas estatísticas, ideal para apaixonados e saudosistas no requinte da escolha das fotografias de velhos ídolos e vitórias de epopeia.

                Belo trabalho, jornalismo de primeira qualidade lembrando os idos da Placar gigante e feita pelos craques das máquinas datilográficas dos anos 1970. Primor. Juca Kfoury, Carlos Maranhão, José Maria de Aquino, Celso Kinjô e Teixeira Heuzer assinariam o material com orgulho.

                Há uma longa entrevista com o presidente do Palmeiras, Paulo Nobre. É um fanático, um torcedor que coleciona porquinhos. O porco entrou na vida palmeirense pela contramão. Foi o apelido posto pelos rivais corintianos em 1969, quando morreram o lateral Lidu e o ponta-esquerda Eduardo, em acidente automobilístico às margens do Rio Tietê.

                O Corinthians liderava o Campeonato Paulista, contava com o esplendor de Rivelino jogando o tudo que encantava o pibe argentino Diego Maradona, a astúcia do ponta Paulo Borges e a euforia da massa esperançosa em quebrar o tabu, aquela altura no singular 15o ano.

                Sem Lidu e Eduardo, o Timão propôs inscrever dois novos jogadores e os adversários aceitaram. Menos o Palmeiras, transformado em suíno a cada confronto no Parque Antártica, Pacaembu, Morumbi ou vilarejo onde fosse jogar. Nos anos 1980, numa sacada de marketing, adotou o porco de mascote oficial e as provocações acabaram.

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                Paulo Nobre guarda porquinhos de brinquedo e desenhou um deles no fundo de sua piscina gigante. Na Placar comemorativa, há uma foto de Paulo Nobre à beira da piscina sorridente, orgulhoso como um Montgomery triunfal na Segunda Guerra abatendo nazistas.

                Perguntado sobre a crise, Paulo Nobre começa a apresentar suas credenciais e atributos, diretamente ligados ao futebol modesto do time. Aparenta forte depressão pela perda do atacante Alan Kardec para o São Paulo.

                Alan Kardec é um Jô vestido de tricolor. Jô, lembra? Aquele zagueiro disfarçado de centroavante que evitava gols do Brasil no Mundial do quarto lugar com pinta de quadragésimo.

                O endeusado Alan Kardec é o mesmo que começou no Vasco – olha outra coincidência – e cometia sistemáticos homicídios contra bolas a ele entregues no ex-Maracanã, em São Januário ou no Machadão, onde jogou contra o América pela Série A em 2007.

                O presidente Paulo Nobre sofre por Alan Kardec. Mas não é a primeira pista do crime. Qualquer detetive de subúrbio descobriria o porquê do sofrimento do Palmeiras. Na revista, elege-se o time dos 100 anos. Uma máquina: Marcos; Djalma Santos, Luís Pereira,Waldemar Fiúme e Roberto Carlos; Dudu e Ademir da Guia; Julinho Botelho, Rivaldo, Edmundo e Evair. Técnico: Osvaldo Brandão. Só artista.

                O colégio eleitoral, composto por torcedores ilustres, entre os quais o atual presidente, teve grandes dificuldades para formar o esquadrão. Dos 35 consultados, 34 apontaram o óbvio e votaram no gênio Ademir da Guia, reitor da Academia encantadora dos anos 1960 e do remake da década seguinte.

                Ademir da Guia representa para o Palmeiras a unanimidade de Garrincha no Botafogo, de Zico no Flamengo, de Rivelino no Fluminense, de Tostão no Cruzeiro, de Reinaldo no Atlético Mineiro, de Falcão no Internacional. Pelé no Santos nem precisa mencionar. Ademir da Guia flutuava em campo ao som de um invisível violino.

                Quem não votou em Ademir da Guia? O presidente Paulo Nobre. Está explicado o Palmeiras de hoje. Imagine um palestino chutando pôster de Yasser Arafat, judeu blasfemando Golda Meir ou inglês destronando o mito Winston Churchill. Paulo Nobre despreza um milagre em carne e osso e chora por Alan Kardec, perna de pau de luxo. Nem corintiano seria tão cruel.

                Zé Teodoro

                Tem tudo nas mãos para classificar o ABC. O jogo contra o Vasco pede o esquema que ele usa contra o Macapá do Mereto. Prudência total. É ser coerente.

                Oliveira Canindé

                Boa declaração quando compara o exemplo do América na Copa do Brasil ao do Fluminense, derrotado, humilhado e desclassificado pelo próprio América. Sem salto alto na volta.

                Diferença

                Algum cientista – que não seja boçal – precisa explicar o porquê de ABC e América jogando bem na Copa do Brasil e tão diferente na Série B. Prêmio, bicho, dinheiro. Não, de jeito nenhum passa o caso por cifrão.

                Paulo Baier

                Triste do futebol de um país em que Paulo Baier, 39 anos, usa a camisa 10 de um time de Primeira Divisão e faz um gol de calcanhar, ainda que anulado. O veterano do Criciúma um dia foi Paulo César, lateral-direito dispensado por Vasco, Flamengo, Fluminense e Botafogo.

                Segurança

                Treinos da seleção de Dunga terão mais seguranças. Certo. O povo merece proteção de futebol feio.

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                  Ado, o príncipe e o plebeu – Rubens Lemos Filho

                  O futebol brasileiro teve um Ado galã. Goleiro do Corinthians, chegou a colecionar sete namoradas. Ficava com uma a cada dia da semana. Loiro, madeixas sobre os ombros, protótipo masculino desejado pelo mulherio nos anos 1970.

                  Ado aparecia em revistas de moda, foi convidado a participar de telenovelas, um dia foi titular da seleção brasileira numa derrota por 2×0 para a Argentina, auge do complô que derrubou o jornalista João Saldanha do comando do time que seria tricampeão com Zagallo de técnico e Ado de reserva imediato de Félix, o mais humilhado pentacampeão de todos os tempos.

                  De recursos limitados, Félix, já falecido, chorava quando algum locutor dizia: “O Brasil foi tricampeão, apesar do Félix”. Félix falhou em alguns jogos, mas fez defesas cruciais contra a Inglaterra e na decisão contra a Itália, quando o placar marcava 0x0 até o triunfal 4×1. Ado estava na reserva de Félix.

                  O Ado goleiro, bonito como um príncipe de passarela de roupas extravagantes, virou sapo. Sucumbiu ao Corinthians amaldiçoado e sem títulos e perambulou por times pequenos, até encerrar a carreira mantendo nos velhos álbuns de figurinha e nas revistas mofadas o charme do movimento das luvas desatando a cabeleira.

                  Depois dele, a versão nem tão formosa. Ado, o ponta-esquerda fulminado por um chute imperdoável. O pênalti é a sentença em que o carrasco algumas vezes acaba vítima. Fiquei comovido, sério, ao ver um belo programa exibido pela ESPN Brasil sobre o Bangu, que foi de Castor de Andrade e hoje patina em decadência. O clímax da produção foi uma entrevista com Ado, um dos titulares do time vice-campeão brasileiro de 1985.

                  Quase trinta anos atrás, o Bangu sorvia a glória do lucro do Jogo do Bicho. Tinha um bom time e um craque trágico, Marinho, um sambista ponta-direita, mestre-sala dos dribles e da irreverência. Marinho ganhou fama em 85, conduzindo os companheiros a uma campanha consagradora.

                  Antes de contar o final do drama dos 11 que entraram em campo contra o Coritiba, é dever informar que Marinho foi convocado para a seleção brasileira, vendido caro ao Botafogo. Lá estava quando o filho pequeno, de 3 anos, morreu afogado na piscina da mansão onde morava. Abandonado pela mulher, foi morar dentro do carro importado que tinha, tomando banho de perfume.

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                  Tempos passados, transitando a pé, Marinho treinava o time juvenil do Bangu, com o rosto desgastado pela falta de razão de viver. Voltemos ao conto de fadas. O Bangu atropelou os grandes beneficiado pela forma esdrúxula do campeonato de 85. Figurou na Série B, de onde saiu na segunda fase para enfrentar o que restava da elite brasileira, cuja seleção era treinada por Evaristo de Macedo e era o sonho de consumo do atacante Jacozinho, do CSA, caricata figura criada pelo repórter alagoano Márcio Canuto.

                  O Bangu, que foi campeão carioca em 1933 e 1966, achava que não seria preciso aguardar 1999 (que terminou sem que nada também fosse ganho). Chegou à final superlotando o Maracanã. Mais de 120 mil flamenguistas, vascaínos, tricolores e botafoguenses se coligavam à milícia de Moça Bonita, torcendo pelo vermelho e branco do subúrbio.

                  Marinho, logo no início, fez de cabeça o 1×0 que prenunciava a festa. No segundo tempo, numa falta despretensiosa, Índio, um centroavante que depois andaria pelo ABC e pelo América, empatou o jogo. O drama, lento como as agonias que se prezam, foram os pênaltis. Um a um, os jogadores de cada time batiam e marcavam: 4×4.

                  Antes que Gomes do Coritiba cobrasse o último, o ponta Ado nem olhou para a massa assustadora que se comprimia no estádio. Bateu como sempre. De canhota e rasteiro. Um tapa do vento ou do destino, desenhou uma curva na bola que saiu pela linha de fundo. Gomes, fez o dele e o Coritiba ganhou a Taça.

                  Revendo o lance, 29 anos mais velho, sinto que a ruína do Bangu começou ali. Ado põe as mãos na cabeça, impotente como o banhista que vê, desesperado e sem coragem, o náufrago se debatendo até desaparecer no mar. Meses depois, o Bangu seria a corja da espécie futebolística, mutilando Zico num pontapé do lateral Márcio Rossini.

                  Na década seguinte, sem o guarda-chuva de Castor de Andrade, morto, virou uma imagem turva do passado. Hoje, se debate, cadáver implorando ajuda. O depoimento do ex-ponta-esquerda, que depois só perambulou em vários clubes, é de um humanismo arrepiante. “Tenho vergonha da minha mulher, dos meus filhos”. Ado fala chorando, câmera em close. Como se fosse um criminoso arrependido, refém de um pecado que nem o tempo conseguiu apagar.”

                   

                  Emoção

                  Dois momentos foram emocionantes e deram um toque humano à surra aplicada pelo América no Atlético (PR). A imagem da massa em catarse, transformando uma casa insípida numa Arena Vermelha pulsando, coração batendo de alegria num carnaval antecipado.

                  Pimpão

                  O outro instante mágico veio primeiro. No golaço de Rodrigo Pimpão, toque macio, malicioso, fatal, sem força, com jeito, matando o goleiro do Atlético. Rodrigo Pimpão está jogando um futebol alucinante. Completou uma jogada que consagra a simplicidade boleira. O toque de pé em pé até o gol.

                  Pênalti

                  Pênalti duvidoso também abençoa os valentes ABC e América.

                  Jogar certo

                  O ABC empatou com o Vasco também porque jogou certo na ocasião apropriada. Soube esperar o adversário, mesmo recuando cedo, mas usou o contra-ataque e aproveitou o meio-campo aberto do adversário. O ABC poderia ser mais coerente e agir sempre assim.

                  O camisa 10

                  Nem que venha da Eslováquia, mas desde que seja bom, o camisa 10 é indispensável ao alvinegro.

                  Há 40 anos, clássico

                  O América conquistou seu primeiro título estadual no saudoso Castelão (Machadão) em 1974 e um dos momentos marcantes foi a vitória sobre o ABC, que hoje completa 40 anos. Placar de 3×1 com 18.209 pagantes no estádio. Gols: Santa Cruz e Jangada (2) para o América e Edson para o ABC.

                  Times

                  América: Otávio; Ivan Silva, Mário Braga, Djalma e Sousa; Edinho, Garcia e Hélcio Jacaré (Bagadão); Jangada, Santa Cruz (Reinaldo) e Gilson Porto. ABC: Renato 74; Sabará, Edson, Aldeci e Anchieta; Maranhão, Danilo Menezes e Alberi; Libânio (Valmir), Jorge Demolidor e Morais.

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                    Ele sabia seu lugar – Rubens Lemos Filho

                    Neivaldo Pinto de Carvalho morreu em 2006, vítima de infarto depois de viver em paz. Neivaldo sempre foi um cidadão sereno, de bom astral e consciente dos seus limites. Neivaldo, mineiro de Venda Nova, jogava futebol e (sempre) estará longe das antologias reunidas sobre virtuosos.

                    Acontece que a maior das qualidades de Neivaldo era saber até onde podia chegar. Neivaldo significava reconhecer seus defeitos, não avançar o sinal, enxergar o óbvio, se contentar com o permitido, nunca exercitar a inveja.

                    Neivaldo está fora de um time cada vez mais lotado. Numa hipotética pelada entre seus integrantes vorazes, cada perna de pau teria direito a jogar apenas cinco minutos. Neivaldo nunca atuou no time dos invejosos.

                    Repare bem no invejoso ou no rancoroso. Ou no invejoso rancoroso. Ou melhor, observe e depois dê-lhe o melhor dos destinos: o lixo do desprezo. O paupérrimo de caráter e humanidade, de calor na personalidade, é insípido, arrogante, frio e torce menos por ele e mais pelo fracasso dos outros.

                    Acenda o seu perigômetro sempre que ouvir ou ler alguém desclassificando os outros de graça, sem razões que não a própria razão dele existir: nenhuma. O gosto da frustração é de vinagre, dizem alguns, mas não cometerei injustiças porque jamais provei dessa bebida de fórmula asquerosa.

                    É o que não consegue honestamente o objetivo e torce pelo insucesso de quem alcança algum reconhecimento. É aquele ou aquela que despreza e torce contra quando o alvo da sua peçonha segue sua vida lutando. Ele a se contaminar da própria saliva com sabor de Novalgina, remédio dos mais terríveis.

                    Um tipo de gente bem diferente do falecido Neivaldo. Um cara que só fez amigos, jamais foi ambicioso, presunçoso ou achou, algum minuto, que pudesse ser o que não era. Neivaldo foi reserva dez anos de Mané Garrincha. O primeiro que socorria o gênio quando algum marcador covarde atingia as pernas tortas simétricas ao seu destino.

                    Neivaldo, com boa vontade, jogava cinco minutos a cada seis meses, fazia parte das delegações que excursionavam pelo mundo inteiro apenas pelo bom caráter. Neivaldo aplaudia Mané Garrincha e sequer imitava seus dribles. Neivaldo sabia que era Neivaldo. E pronto.

                    Notícia ruim não é piada

                    O bizarro é grotesco, nunca engraçado. A notícia surrealista do assalto ao motorista do ônibus da Polícia Militar é o “Segura na Mão de Deus e Vai” da falência na segurança pública. Quando bandidos perdem o respeito a um policial fardado, invadem um veículo identificado e cometem o escárnio da inversão de valores, a sociedade está nua.

                    O fato que tomou redes sociais e deixou boquiabertos os cidadãos responsáveis, não é piada. É muito sério. É para que os homens da política reflitam. Especialmente legisladores. Há que se endurecer sem ternura alguma contra o crime que sentou na cadeira soberana da ordem, botou os pés sobre a mesa e debochou solenemente da indignação dos bons.

                    Os policiais são preparados, armados e treinados para agir. Mas são tolhidos por leis oportunistas e um Código Penal de Dinamarca. Somente as gerações daqui a quatro milênios verão um país igual, justo e com escola para todos. Hoje, é preciso curar o cancro criado pelos que nada fizeram ao longo do tempo, babando o discurso asqueroso da defesa hipócrita dos marginais.

                    Penas duras, cumprimento integral, a depender da gravidade do caso, redução da maioridade penal e o direito de o policial atirar quando se sentir ameaçado de morte para não morrer pensando em segundos se vale a pena viver ou ser execrado pelos sacripantas de entidades protetoras de facínoras, mas que não aceitam criá-los, ou levá-los para a casa dos seus dirigentes.

                    Tomara que de jeito nenhum, mas se um dia o Quartel do Comando-Geral da PM for invadido, alguém vai entender que o caos é vivo e venenoso. Por enquanto, a onda de protesto parte de quem é vítima, de quem conhece uma vítima ou de quem teme ser a próxima. Há os avestruzes. Que enterram a cabeça na areia da omissão covarde sem cuidados com a própria retaguarda.

                    Arthur Maia

                    Arthur Maia quase voltou, mas permanece fora do time do América hoje contra o Atlético (PR). Após longa contusão, o astro do Estadual teria o desafio de mostrar que é bom também contra times de qualidade muito maior.

                    Time

                    O América deve começar com Andrey, Marcelinho, Cléber, Lázaro e Arthur Henrique; Val, Márcio Passos, Fabinho e Morais; Pimpão e Max. Morais e Pimpão, as esperanças maiores. Fabinho não vem sendo Fabinho.

                    Resultado

                    O empate com gol fora de casa foi excepcional para o ABC contra o Vasco. Mais ainda como perspectiva de renda para o jogo da volta. O placar que Zé Teodoro gosta é 0x0 e basta o ABC fazer do jeito do chefe que elimina o Vice-Almirante.

                    O jogo

                    João Paulo finalizou certo e Somália quase fez 2×0 no primeiro tempo. O ABC teria incendiado São Januário. Recuou e Kléber empatou em falha defensiva. Times iguais, técnicos clonados.

                    Cancha

                    O Atlético (PR) vem a Natal com cancha de favorito. Para a imprensa paranaense. O América, pelo exemplo da eliminação do Fluminense, mostrou que todo mundo é brasileiro (não mais japonês) pelo país inteiro.

                    Notícia boa

                    Mas é nos Estados Unidos. Após enfrentar um bando de assaltantes e expulsá-los na porrada na loja onde trabalhava, o lutador de MMA Mayura Dissanayake voltou a treinar e a competir. E em sua primeira luta após o incidente, ele mostrou que tem qualidades esportivas e nocauteou seu adversário, Jaime Garcia, em apenas 18 segundos de combate, com um nocaute técnico no chão após aplicar um cruzado de esquerda de encontro.

                    Famoso e feliz

                    O evento amador, que misturava lutas de MMA e de muay thai, aconteceu no último sábado em Houston. Nascido no Sri Lanka e morando nos EUA há dois anos, Dissanayake iniciou-se nas lutas praticando Sanda, o boxe chinês, e depois passou a treinar MMA.

                    Surra

                    Mayura Dissanayake ficou famoso após reagir no dia 10 de julho deste ano a um assalto no posto de gasolina aonde trabalhava como atendente da loja de conveniência, espancando os ladrões e os fazendo fugir sem roubar nada.

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