Presentes e ausentes – Rubens Lemos Filho

Nada que me é desejo é matéria luxuosa. É humanismo puro. O que quero, completados desde meia-noite meus 44 anos de vida é um neto. Sonho e planejamento de passagem de bastão. Não quero dinheiro além da conta , nem status, nem ostentação, um neto que me venha saudável e amigo, porque neto é perpetuação. No caso do meu, que venha melhor.

Quero um neto homem que seja um pouco o neto que fui do avô que conheci aos 10 anos de idade e depois sumiu, voltou a São Paulo onde morreu e fiquei sabendo quando estava aos 20, prestes a me casar. Quero um neto que saiba amar do jeito que amei a minha avó, a figura que mais me ensinou, me enternece e entristece. Meus avós paternos estavam mortos quando nasci.

Amarei meu neto da forma que ele for, mas quero um neto homem para contar sobre minhas peladas de rua e ensinar a ele exatamente como não se deve tratar uma bola. O clichê da chegada será o kit com a camisa dos meus times de coração – ABC e Vasco e a esperança de que ele viva um mundo melhor do que o meu.

Desejo nesta curva para desvios arriscados na saúde, que meu neto me dê tempo para contá-lo a vida do bisavô, para que possa mostra-lo, ainda novinho, as revistas, filmes e velhos livros sobre futebol que é a arte compartilhada se o destino me for amigo e camarada.

Não tenho pressa. Os meus filhos, muito menos. Que vivam e amadureçam. Sejam livres e maduros, antes da maior missão humana.

Tenho é vontade de sentir uma sensação diferente, a renovação de um sentimento de afeto e a perspectiva de que um dia, alguém diga, lá do longe dos tempos, que teve um avô chato, rabugento e coruja. O tempo cuidará da missão para mim. Enquanto ainda há tempo.

 

Convocação de Dunga

A presença virtuosa do menino ex-vascaíno Philippe Coutinho dá uma ensolarada no marasmo sombrio da convocação feita pelo técnico da CBF, Dunga. O Dunga que desrespeitou um timaço de estrelas ao rosnar que craque é apenas quem foi campeão do mundo.

Dunga então é craque. Falcão, que jogou na dele, não. Cerezo também não. Andrade do Flamengo, necas. Dequinha de Mossoró e da Copa de 1954, nunca. Danilo Alvim, tão nobre que chamado Príncipe, nem se fala.

Então craques foram companheiros obtusos do tetracampeonato erguido por Dunga em 1994 e conquistado, de fato, por um craque, um supercraque. O beque Ronaldão, Padrão Rúgbi, o atacante Paulo Sérgio, reserva do reserva do reserva de João Galego do ABC nos idos do Juvenal Lamartine, um ano antes de eu nascer, eram craques como craque foi Viola na Filosofia Dunguista.

Os mencionados obtusos são, na caolha referência, superiores a Oscar e Luís Pereira, só para citar dois zagueiros modelares dos meus cada vez mais distantes anos 1970, que desejo, a cada amanhecer, ter ficado por lá mesmo. Oscar e Luís Pereira, sem citar o chato Edinho, jogavam por 500 Ronaldões de Dunga.

Ontem já falei de outros que a Copa menosprezou para próprio arrependimento: Zico,Messi, Zizinho, Alex, Platini, Riquelme, Cruijff, Di Stéfano,Falcão, Puskas, Ademir da Guia, Dirceu Lopes, Kopa, Piantoni.

Me inspiro e acrescento, em homenagem a Paulo Sérgio, Van Basten e Kluivert da Holanda, Just Fontaine da França e Careca, Careconi do Brasil em 1986. Para Viola eu deixo apenas o retrato autografado por Neeskens, do Carrossel Holandês de 1974.

A lista de Dunga mantém alguns vexatórios do Mineirão. David Luiz se aguenta. Neymar é, hoje, unanimidade em terra de cego. Faltou Ganso, que do jeito que está, sobra.

Faltou Pato, melhor do que o viking Hulk. Pato, o pálido. Robinho não pedalou, reclamou. Entre ele e William, sei não, é duelo de banguelos de chuteiras.

Pior é a insistência com o limitado volante Luiz Gustavo, com Fernandinho, diminutivo no nome e no futebolzinho, com Ramires, o maratonista e Oscar, o clone de Zinho, a Enceradeira que ajudava Dunga a combater habilidosos na Copa Romário 1994.

Dunga, na nominata, mesclou, mas, no conjunto da obra, Felipou. Eles não admitem, mas compõem a suave silhueta do rinoceronte desagradável e assombroso dividido por dois.

 

Renato

O ABC de jeito nenhum. Quem merece os aplausos pela vitória histórica sobre o Ceará é o monstruoso jogador Renato, seguramente, dos melhores laterais que já passaram pelo clube. Marcou os dois gols, ocupou espaços, descobriu clarões pela sua própria visão de lince. Renato é diferente de todos os outros. Já havia mostrado. Ontem, carimbou.

Sábado

A vitória sobre o outrora invencível Ceará motiva a torcida para sábado, no Frasqueirão. E aí? O ABC vai continuar dependendo do talento de Renato ou se encontrará como um time, com 11 e um esquema tático de confiança? A Frasqueira merece estar segura.

Na pequena área

Está o defeito do goleiro Gilvan. No gol de empate do Ceará, que foi contra, de Marlon, quem errou mesmo foi Gilvan, ao sair com mãos moles, mãos de abanador, deixando a bola escapar. Marlon completou a presepada e empurrou para dentro.

Papelão

Do América ao desencantar uma torcida maravilhada por duas belas vitórias fora de casa. Uma delas, épica, eliminando o Fluminense na Copa do Brasil em pleno Ex-Maracanã. Depois, passeio no Icasa. Então, a Ponte escureceu o sorriso rubro.

Morais

Há certas decisões de técnicos que merecem Julgamento pelo antigo Tribunal de Nuremberg. Oliveira Canindé deixar Morais por 15 segundos que sejam fora do time quando ele tem condições parece pirraça do amigável técnico do América. Morais entrou e o América mudou. Tarde.

Jogo duro

O América passa a ser o que o ABC era. Um time buscando recuperação. E pega o Náutico no calor climático e ainda emocional que toma conta de Recife desde a tragédia que matou seu maior líder popular.

Eduardo em paz

Emocionantes, dolorosas, verdadeiras. Foram as imagens de desmoronar de Eduardo Campos no início do horário eleitoral. Bela homenagem a ele e aos companheiros mortos. Agora é deixá-los em paz. Em repouso. A biografia de Eduardo não merece servir de mote eleitoral para ninguém. Quem fizer, é abutre.

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    Barrote em livro – Rubens Lemos Filho

    O mestre Ariano Suassuna teria adorado conhecer meu querido professor Nilson Pinto, o Barrote. O chato é que possivelmente Barrote, dos melhores goleiros de futebol de salão desta dobra de continente, chamasse Ariano de Adriano, Aureliano ou Aproniano. Barrote é um homem de admiráveis virtudes pessoais e um desligamento aéreo de um Pluto, de Walt Disney.

    Ariano Suassuna, gênio e prosador da simplicidade regionalista, gostaria de receber a surpresa que tive, ontem, segunda-feira modorrenta e prenunciando estresse, ao atender a um telefonema e depois conversar longo tempo com outro professor dos meus saudosos idos de Escola Técnica Federal, Fábio Fernandes Lisboa. A minha ETFRN é o atual IFRN.

    Fábio é filho de dona Déa Fernandes, mulher de fibra que soube criá-lo e aos seus irmãos Roberto, Flávio e o espetacular Dennis Lisboa, o Falcão de minhas alegrias no ginásio do Palácio dos Esportes, enfileirando dominós humanos desabando aos seus dribles encantados. Dennis, com a bola na canhota ilusionista tinha parte com Trancoso, assombrosa inspiração de fábulas e mistérios infantis.

    Além de supercraque e espirituoso, Dennis Lisboa anda como se somente ele ouvisse Zeca Pagodinho de Back Ground, de Fundo Musical. É rebolado comparável apenas ao do famoso Bossa do Pandeiro, personagem vitalício da boemia natalense, que é muito mais eficiente nas piruetas e evoluções do que no tratamento dispensado ao batucar. Dennis, não. É um Diogo Nogueira na pose e no gingado, mas jogava qualquer esporte bem. Muito bem, aliás.

    Fábio também era bom de bola, fez parte do time da Afurn campeão de 1982 no Palácio dos Esportes, final inesquecível contra o América. Tinha 12 anos e, um dia antes de fazer 44, aquele jogo repassa como youtube memorial. Dois belos quintetos que não refletiram o placar de 4×0 construído pelos irmãos Lisboa.

    Fábio Lisboa, violão de dedo estiloso e som ritmado, me fez ganhar o dia ao me entregar a biografia que escreveu sobre Nilson. Se Fosse Nilson, Histórias de Barrote é de doer a mandíbula de rir.

    É o desenho bem escrito, talhado na palavra elegante e ferina, do Nilson Barrote que o Rio Grande do Norte merece conhecer melhor. O improvisador de genuína graça e dono do seu próprio universo.

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    O livro deve ser lançado em setembro e já tenho o meu, autógrafado e traçado com a avidez nata do leitor e a admiração do amigo. De Nilson e de Fábio.

    Histórias hilárias de um cara desligadão. De alguém que troca nomes, inverte situações e protagoniza episódios com naturalidade antagônica ao felino que defendia corajoso e arremessava milimetricamente em quadra. Bom treinador. Compenetrado e compreensivo professor.

    Nilson Barrote não gosta de Olinda. É dos poucos. “O problema é que as ladeiras de lá são muito Ingrids”. Íngremes. Inclinadas demais. Voltando aos seus redutos, Nilson Barrote, sério e solícito, alpendres de Muriú, a comunicar aos amigos. Uma das mansões de veraneio cinematográficas do Litoral Norte fora “embarcada”. As obras de reforma tinham sido embargadas.

    Um dos comparsas de copo, Beto Cabral, fulminou: “Embarcaram a casona de navio né Nilson?”. Jogo tenso contra o América ginásio com gente pendurada no teto, é inspirado na preleção: “É só jogar no cadenceio que a parada tá ganha”. Cadência, mas deixa quieto.

    Em 1999, contou vantagem, apostando no ABC, de fato campeão potiguar, naquele gol contra de ré do zagueiro Marcelo Fernandes. “Só vai dar ABC. Trouxe esse tal de Robocop e não tem pra ninguém.”

    Era Robgol, estupendo centroavante, matador de confundir guarda britânico. Para o notório saber de Barrote, o timeco de Felipão derrotou a Espanha em 2013 e ganhou a Copa das Confraternizações.

    Quem quiser que leia o seu exemplar. Compre e mande reservar. Fábio deve marcar o lançamento, avisar à imprensa e manter intensa vigilância sobre o homenageado. Nilson Barrote é capaz de esquecer e faltar. Sem preço é o gesto de Fábio Lisboa e a dimensão pessoal de Nilson Barrote, homem tranquilo e agregador, desconcertante como um drible. De Dennis Lisboa.

     

    Bullying

    ABC pega o Vasco pela Copa do Brasil. Sinal de boa renda. Mas hoje tem o Ceará, em Fortaleza. O ABC sofre de bullying do Ceará. E faz tempo. Só teve um arrocho de macheza com Danilo Menezes em 1977 e com Sérgio Alves e Robgol, o Robocop do professor Nilson Barrote, personagem do texto acima.

    Somália

    Concordo. O veterano Somália é melhor na lateral-esquerda. Deixa Michel, que é bom volante, na posição. Não se mexe no pouco que vem dando certo e Michel está cumprindo sua missão profissional.

    Mais difícil

    O América pega um adversário mais difícil que o ABC na Copa do Brasil. O Atlético (PR) engatou na Série A e é organizado, estruturado. Jogo imprevisível.

    Estupidunga

    Dunga terá convocado hoje a seleção brasileira. Trabalho não de técnico, mas de detetive, de caçador, imensa a ausência de craques. Ou de mágico, pois o troglodita-mor disse ter três jogadores para cada posição. Pode ser posição de diarreia.

    Estupidunga dois

    Dunga se superou em estupidez ao dizer que craque, para ser carimbado, tem que ganhar Copa do Mundo. Se referia a Neymar, que deve ser perseguido por ele o tempo inteiro. Acertou em Di Stéfano, Puskas, Zico, Messi, Zizinho, Cruijff. Ele, nesse delírio arrogante, talvez se coloque acima de Danilo Alvim e Falcão, dois volantes que jogavam o fino e não ganharam Copa.

    Abordagem

    É pra Agamenon Mendes Pedreira analisar e louvar a ideia de a PM abordar passageiros de ônibus depois que mataram um motorista. É sempre assim o Efeito Defunto. Amanhã volta tudo ao pânico de sempre. Bom que anunciaram a operação. Só faltou por lista dos ônibus e roteiros. A vagabundagem vai aplaudir. Maurílio Pinto de Medeiros, quanta saudade, Xerife.

    ABC 76

    Nunca é tarde para lembrar que ontem fez 38 anos do título estadual do ABC no Castelão (Machadão), empate por 0×0 contra o América, público de 30.891 torcedores. O América não conseguiu o tri.

    Times

    ABC: Hélio Show; Fidélis, Pradera, Wagner e Vuca; Drailton, Danilo Menezes e Joel Maneca; Noé Silva, Zé Carlos Olímpico (Reinaldo) e Noé Macunaíma. América: Otávio; Olímpio, Joel Santana, Odélio e Cosme; Juca Show, Alberi e Hélcio Jacaré (Garcia); Ronaldinho, Pedrada (Santa Cruz) e Ivanildo.

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      Rede Globo e a salvação – Rubens Lemos Filho

      A Rede Globo está reunindo os clubes da Série A para saber as razões da decadência do futebol brasileiro. A audiência despencou e a preocupação da “poderosa” mandachuva de lares, gabinetes e estádios é comercial. A técnica, a derrocada na Copa do Mundo, o baixo nível dos jogos, que saiam pela linha de fundo.

      Ditando normas desde que a democracia foi jogada na masmorra durante 21 anos, a Rede Globo não perde a cancha e está dividindo os clubes em grupos de quatro para que os cartolas pra lá de comprometidos se submetam ao confessionário e apresentem alternativas para fazer o público acordar do sono letárgico.

      Os clubes dependem das cotas da Globo, especialmente os que fazem parte do Clube dos 13, criado sob a égide da imposição da qualidade no final dos anos 1980 e hoje mera reunião de insaciáveis administradores de massas falidas por eles próprios, ao lotear patrimônio com vigaristas travestidos de empresários e ao pagar salários nababescos a ex-jogadores em teimosa persistência.

      A Rede Globo poderia começar dando o exemplo em casa e livrando o povo brasileiro da nefasta figura do narrador Galvão Bueno, o seu boneco transmissor das fantasias que enganam e decepcionam a massa. Não há perigo de que eu assista uma partida transmitida por Galvão Bueno, reserva de Luciano do Valle nos áureos tempos e criador de ídolos fajutos.

      Galvão Bueno, devidamente chancelado pela Rede Globo, inventa ilusões alimentadas por pobres desiludidos da vida cotidiana, sem a grana da carne de charque, da farofa e o remédio para curar a dor na coluna da patroa gemendo a noite toda, ele, salário mínimo no contracheque, implorando a Mega Sena de um plano de saúde, hoje mero SUS com grife genérica.

      Quando se fala no caos do futebol, se liga o start da memória na derrota humilhante para a Alemanha na Copa do Mundo, o maior dentre todos os vexames do Brasil desde 1914, quando oficializado o 11 contra 11 com balão de couro.

      A tragédia começou bem antes e a Rede Globo, no ufanismo com que sempre exaltou governos, especialmente os militares e os seus subprodutos populistas, como José Sarney e Fernando Collor de Mello(embora Lula em nada seja diferente dos dois), empurrava em efeitos especiais, mentiras goela abaixo do crédulo de Oiapoques e Chuís.

      A Rede Globo nunca cobrou, por exemplo, espaço aos pobres nas escolinhas de futebol como forma de garantir a manutenção de uma espécie chamada craque de bola nato, forjada nos morros e periferias.

      Gente expulsa pelo dinheiro e pelo negócio em tom mafioso que ela, a Platinada, ajudou a construir, transformar e a consolidar, como o monstro que nasce Chucky e vira Predador, ambos assassinos de cinema em tela de verdade.

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      A Rede Globo em seu padrão inigualável de estética e impessoalidade, jamais criticou a Lei Pelé, uma fraude que esfaqueia e sangra os clubes. É inviável hoje em dia se apostar numa promessa, mesmo que seja de pele iugoslava e futebol croata, se um aventureiro o arrebatará sem deixar um centavo. Nunca houve um Criança Esperança dedicado ao futebol.

      Faltou a Rede Globo criar um Telecurso para ensinar ao seu telespectador fiel e alienado em sua maioria, que o Brasil deixou de ser o imbatível melhor escrete do mundo assim que apitaram o fim de Brasil 4×1 Itália em 1970. O Brasil foi melhor em tom jobiniano com Pelé e maior ainda quando com ele esteve Garrincha, menos a sua versão disforme da Copa de 66.

      A Rede Globo nunca criticou Zagallo em 1974 quando copiou a retranca de covardia mantendo no Brasil um gênio do nível de Dirceu Lopes, do Cruzeiro, para levar Mirandinha do São Paulo, reserva anos depois num dos piores times da história do ABC de Natal.

      Tampouco se viu ou ouviu nas reportagens da Globo, críticas ao esquema defensivo e medroso do capitão Cláudio Coutinho, eliminado invicto em 1978. Foi muito mais cômodo culpar o Peru pela goleada de 6×0 que nos eliminou.

      Mas sem menções à ditadura argentina tão cruel quanto a nossa, que passou a ser olhada com olhos jornalísticos quando até a Difusora de Cherimbombanga, cidade do território de São Saruê, passou a cobrir as Diretas Já em 1984.

      Também nunca vi a Rede Globo achar feia a horrorosa gambiarra tática de Sebastião Lazaroni em 1990, esquema de cinco zagueiros e dois volantes. Time que jogava até mais feio que o pavoroso time de Felipão. Lazaroni passou a ser satanizado depois da derrota para Maradona. A Globo exalta e elimina de acordo com os traços no Ibope.

      A Globo mima Neymar, vende cotas de propaganda milionárias e nem quer saber se o rapaz acaba sucumbindo de tanta cobrança. Em novela patética, insiste na maldade de compará-lo a Messi, muito melhor, quando Neymar ainda suará ciscando até o estágio do holandês Robben, do alemão Muller e do português CR7. A Globo Bueno exalta Thiago Silva e David Luiz, “melhor miolo de zaga do mundo” e cala no vazamento de 14 gols de nossa defesa, dez em dois jogos.

      Nenhum clube brasileiro tem o que discutir com a Rede Globo, até sádica ao marcar jogos para dez da noite, como se escravos de sofá de telenovela justificassem a vida de quem se arrisca a sair à noite a estádios sem futebol de vergonha, enfrentando a violência. Se a salvação for a Globo, o Brasil voltará a ganhar Copa do Mundo em 3002.

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        Bagadão e Maria do Carmo – Rubens Lemos Filho

        Bagadão foi o Cantinflas potiguar. Jogava e suava América. Ponta-direita de gols espíritas, deu o título de 1967 num arremate de parábola garantindo o empate (1×1) contra o Riachuelo no arqueológico e intocável Estádio Juvenal Lamartine.

        Bagadão é do tempo gostoso dos Caçotes, Burungas e Petinhas, simplicidades gêmeas aos torcedores. Bagadão coadjuvava Véscio, mágico meia, Assis e Pancinha, artilheiro tropical-lusitano e driblador de praia.

        É com alegria que Passe Livre abre espaço para Iury, filho de Bagadão, sambista de partido alto e homem correto saído ao pai. Conheci Iury nos alpendres de Jacumã, Litoral Norte.

        Depois da estonteante goleada de 5×2 do América no soberbo Fluminense, Iury decidiu lembrar um episódio de preconceito contra o seu pai e o Rio Grande do Norte. Iury conta como o destino uniu uma professora humilde, convicta e fã de Bagadão, o jogador humilhado e um então jovem tribuno. Deixa Iury contar com o coração.

        Alma lavada

        Iury Bagadão

        Há quem ache besteira e há quem entenda o que senti quarta-feira. Há quase 40 anos, em 1975, no Maracanã, contra o Fluminense, meu pai, Bagadão, foi humilhado pelo seu apelido e por ter pedido substituição, após declarar que sentia “dores lombares”.

        Preconceituoso, o locutor, Carlos Lima, da TV Tupi, disse que um jogador com tal apelido, vindo do Nordeste, jamais saberia o que era dores lombares.

        A avó de Rubens Lemos Filho, Maria do Carmo Carneiro de Melo, fã número 1 de Bagadão, recorreu ao então deputado Henrique Eduardo Alves , através de carta, exigindo retratação do locutor, em respeito a todo RN e ao povo nordestino.

        Henrique não hesitou e comprou a briga. O locutor, conhecido por “Bola”, teve que pedir desculpas no ar, em rede nacional, e enviou uma carta ao meu pai, pedindo perdão.

        Pois bem… quase 40 anos depois o Flu entra novamente no caminho americano. Repetidamente a maioria da imprensa esportiva, tenta humilhar o Mecão, dizendo que o jogo seria um treino e que o Flu havia deitado e rolado no jogo da Arena das Dunas.

        Júnior, comentarista da Globo, disse ao vivo que o Flu estava fazendo um coletivo para o clássico de domingo, contra o Botafogo. O resultado? Ninguém esperava, mas o Flu e a imprensa pagaram pela soberba e pela prepotência.

        Em uma vitória épica, o América de Natal surpreendeu uma nação inteira e mostrou, mais uma vez, que o RN e o Nordeste merecem respeito.

        Assisti a esse jogo ao lado daquele personagem de 75 e confesso: há algum tempo não o via tão feliz com o nosso América. Após o 5º gol ele parecia lavar a alma, exorcizar o preconceito sofrido e calar a boca daqueles que não acreditam no impossível.

        Obrigado, pai! Obrigado, João de Deus! Obrigado, Bagadão! Vi um pouco de você em Marcelinho, Oliveira Canindé, Max, Pimpão, Alfredo e em todos os jogadores americanos ontem. Assistir esse jogo ao seu lado foi um presente que jamais será esquecido.

        Parabéns, guerreiros alvirrubros. Vocês entraram pra história. Contaremos os detalhes desse 5×2 para os nossos netos.

        Obrigado Mecão!!!

        Iury Teodósio (Bagadão filho)

        Rebaixamento emperra lei

        Um dos temas que deve dominar a agenda da Câmara dos Deputados depois das eleições é a renegociação de pelo menos R$ 3 bilhões de dívidas tributárias dos clubes de futebol, com a adoção de regras mais rígidas para garantir que os times permaneçam com as contas em dia. Um dos pontos polêmicos do projeto em análise é o rebaixamento automático de clubes que ficarem inadimplentes após a renegociação.

        O projeto (PL 5201/13) cria a chamada Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte. Anteriormente conhecida como Proforte, a proposta voltou ao centro do debate esportivo em julho, quando o Brasil foi desclassificado da Copa do Mundo pela Alemanha e atletas, torcedores, clubes e governo engrossaram o coro por uma renovação no modelo de negócio do futebol brasileiro.

        A maioria concorda com a necessidade de renegociar as dívidas para não quebrar os clubes, mas há várias divergências pontuais quanto ao projeto. Jogadores de futebol integrantes do movimento Bom Senso F.C. estiveram reunidos com parlamentares e apresentaram emendas para mudar o projeto. Clubes de futebol e governo também participam do debate.

        Prazo de pagamento: O valor de R$ 3,7 bilhões das dívidas dos clubes é estimado com base nas ações judiciais e nas dívidas cobradas na esfera administrativa, mas o valor ainda pode ser maior. Pelo projeto, os clubes terão 25 anos para quitar a dívida com o governo, incluindo os valores questionados na Justiça.

        As parcelas deverão ser de, no mínimo, R$ 1 mil; e poderão ter o valor reduzido se o time cumprir determinadas condições. Poderão ser renegociadas as dívidas com a Receita Federal, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, o Banco Central e o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

        Contrapartidas: Em troca de ter a dívida renegociada, o clube se compromete a adotar mecanismos de transparência nas contas, pagar em dia os salários, e poderá ser rebaixado no campeonato caso não apresente certidões negativas de débitos. As entidades também terão de comprovar a situação fiscal até um mês antes do início de cada competição, sob pena de serem impedidas de participar do campeonato.

        Para o relator do projeto, deputado Otavio Leite (PSDB-SP), o rebaixamento é condição fundamental para o sucesso do novo parcelamento. “A renegociação está umbilicalmente associada ao novo ajuste administrativo e financeiro, sem o que eles não poderão participar dos campeonatos”, disse o relator.

        O deputado Guilherme Campos (PSD-SP), que é vice-presidente da Federação Paulista de Futebol, também defendeu esse ponto do projeto. “O clube de futebol que tiver a oportunidade de fazer esse parcelamento e não tiver a certidão negativa de débitos vai cair de divisão. É a possibilidade que teremos de moralizar o futebol”, disse.

        Punição escalonada: Já os jogadores do Bom Senso F.C. são contra o rebaixamento automático dos clubes em dívida. Eles propõem que, antes de perder o lugar no campeonato, o clube seja advertido, pague multa ou seja proibido de registrar novos atletas. “A sugestão cria punição escalonada, anterior ao rebaixamento da entidade, como forma de melhor estimular o cumprimento das obrigações fiscais”.

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          Fantasma e a goleada – Rubens Lemos Filho

          Sentou, invisível, na Tribuna de Honra do novo e luxuoso Maracanã. Estranhou. Faltavam crioulos na geral. Faltavam desdentados. Faltavam grã-finas de narinas cadavéricas. Faltava a alma pura do estádio emocional que ele descrevera e sacudira nos seus textos. Quase apoplético, berrou para ninguém ouvir: “Não tem mais geral e o público é de um luxo de hipódromo!”.

          O fantasma de Nelson Rodrigues decidiu assistir Fluminense x América, que os seus colegas de Cemitério São João Batista garantiram ser barbada. “Vai lá, profeta. O tricolor enfiou três na casa deles e aqui vai ser barbada”. Nelson Rodrigues estava entediado com o silêncio dos sepulcros e as balas traçantes cruzando favelas próximas ao seu endereço residencial desde 1980 e para sempre.

          Atravessou o muro feito raio, subiu num ônibus, “num lotação”, corrige rabugento e partiu para o Maracanã sem as rampas de miscigenação social. Entrou numa arena. “E estamos em Roma? São gladiadores nossos antigos astros em flor de futebol.”

          Sentou. A dois metros, namoradinhos bem vestidos trocavam carícias sem a obscenidade vital para suas crônicas. “Na penumbra do estádio, somem os pudores”, rosnou, quase cego e ofuscado pelas luzes cinematográficas do palco onde o Brasil não manda mais.

          O Maracanã é alemão, Mário Gotze, o menino autor do gol da Copa do Mundo é o Amoroso, o Almir, o Ademir, o Dida, o Vavá, o Carlyle e o Flávio campeão de 1969. Chamá-lo de Didi e Garrincha é matar de novo a alma penada.

          Lá vem o Fluminense. “Um Fluminense holandês é uma Holanda laranjeira”, poetizou , sem ninguém a aplaudir. Duas jovens comentavam a roupa de grife uma da outra e o penteado de 250 reais para ver o jogo.

          O América, de branco, humilha o Fluminense de 5×2. Nelson Rodrigues reluz nos olhos mortos ao brindar o atacante Rodrigo Pimpão: “Esse é predestinado, é um predestinado profissional. É um doce assassino de goleiros, que América mais valente! E que tricolor mais indecente. Mais que ele, só o estádio que parece uma catedral pintada por Michelângelo”.

          O fantasma levanta voo e retorna ao São João Batista, avisando aos vizinhos em sarau inspirado: “Não me importunem. Saí para ver um Fluminense vestido de Holanda que nem Olaria foi. Terminei vendo um América igual a um exército de cruzadas, derrotando inimigos arrogantes e sem garra”. Nelson Rodrigues lamenta não poder escrever uma crônica sobre o show alemão do América, segundo tempo dos tempos.

           

          Lição

          O ABC poderia ter gravado o segundo tempo do jogo do América. Foi a bela contradição ao que o alvinegro vem jogando nos últimos tempos. O ABC deve tomar-se de coragem nordestina e não temer ninguém. Até dentro de casa está jogando segundo o jargão do técnico Pedrinho Albuquerque, o primeiro campeão por um clube do interior. Segundo Pedrinho, time na retranca é time de “bundjinha” na parede.

          Exemplo

          O ABC tem um verdadeiro Complexo de Amélia contra o Ceará, seu próximo adversário pela Série B na terça-feira em Fortaleza. Perde, de medo, antes de o jogo começar. É chegada a hora de entender que o Ceará é bom, mas não é dois. É lembrar dos pegas nos anos 1970, época em que Danilo Menezes, Noé Macunaíma e Maranhão Barbudo não tinham medo deles.

          Rendas boas

          ABC – pelo tapetão – e América , pelo estilo alemão de matar o adversários, têm que sorrir. Vai entrar muito dinheiro na segunda fase da Copa do Brasil. Os clubes de Natal vão enfrentar Grêmio, Corinthians, Flamengo, Vasco, Cruzeiro, Atlético Paranaense, Botafogo ou Atlético Mineiro. Prefiro chamar de tradicionais do que de grandes. Agora, todo metido a grande no futebol brasileiro tem o gigantismo de um anão.

          Bolsa-Atleta e doping

          A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados aprovou proposta que fixa condições mais rigorosas para a concessão de Bolsa-Atleta – o atleta não poderá estar cumprindo suspensão nem ter sido condenado mais de uma vez por ter violado as regras antidoping.

          Delei

          A proposta aprovada é o substitutivo do Senado ao Projeto de Lei 1185/07, do ex-deputado Delei (PTB-RJ), meia-armador do Fluminense(RJ) nos anos 1980. O texto tem caráter conclusivo e seguirá para sanção da presidente da República, desde que não haja recurso para levá-lo ao Plenário.

          Suspensão

          Em caso de violação das regras antidoping, o texto do substitutivo suspende o pagamento da bolsa por período igual ao da suspensão do atleta determinada pela Justiça Desportiva.O texto também proíbe a concessão de novo benefício, por dois anos, ao atleta que tiver sido condenado mais de uma vez por violação às regras antidoping, em decisão transitada em julgado do Tribunal de Justiça Desportiva.

          Parecer favorável

          A proposta recebeu parecer favorável da relatora na CCJ, deputada Sandra Rosado (PSB-RN). O projeto havia sido aprovado anteriormente pelos deputados, em junho de 2012, e voltou para a Câmara para análise das mudanças feitas pelos senadores. Essas mudanças já foram analisadas pela Comissão do Esporte da Câmara.

          Cautela

          De acordo com o relator do projeto na Comissão do Esporte, deputado Dr. Jorge Silva (Pros-ES), o substitutivo do Senado Federal regula de forma mais precisa a condenação do atleta e a suspensão do pagamento do benefício.

          Mudança

          O texto aprovado pela Câmara em 2012 proibia a concessão de bolsa ao atleta que tivesse violado as regras antidoping nos dois anos anteriores, mesmo se não fosse reincidente. Para Silva, “ao condicionar a proibição de recebimento do benefício à reincidência na penalidade, o legislador age com maior cautela, porque proibir o atleta de candidatar-se à bolsa pode ser medida severa para aqueles que participam de grandes competições e necessitam do recurso”.

          Regras

          O deputado ressaltou que o texto aprovado reforça o cumprimento das regras antidoping da Convenção Internacional contra o Doping nos Esportes. Atualmente, a legislação que regulamenta a Bolsa-Atleta não prevê penalidades para o beneficiado que desrespeitar as normas antidoping.

          Concessão

          A bolsa-atleta é concedida a atletas praticantes de esporte de alto rendimento em modalidades olímpicas e paraolímpicas. A proposta altera a Lei 10.891/04, que instituiu o benefício. O valor mensal da bolsa varia de R$ 370, para atletas estudantes, a R$ 3.100, para esportistas olímpicos e paraolímpicos.

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            Tudo que é vivo, morre – Rubens Lemos Filho

            O ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos, amava Ariano Suassuna como a um tio. Compensava no mestre a ausência do avô, Miguel Arraes. Ficou verdadeiramente abalado pela morte de Ariano, um dos maiores entusiastas de sua campanha, da qual gostava de participar, mesmo com saúde debilitada. “Eduardo é o político mais brilhante do Brasil”, sentenciava, puxando palmas em simpósios e reuniões partidárias,

            Eduardo Campos nomeou Ariano Suassuna duas vezes Secretário de Cultura do Governo do Estado antes de se licenciar, em abril deste ano, para cruzar o país em saga nordestina pela Presidência da República. Eduardo Campos não ganharia em 2014. Muito difícil. Mas um dia seria Presidente da República.

            O meu voto estava garantido este ano. Não poderei votar nunca mais nele. Sem dúvidas nem pestanejos nem oportunismo. Conheci e convivi com Eduardo Campos e ele era um pouco personagem de Ariano. Duro e articulado chefe sem arrogância e agradável sedutor no bom papo.

            Participei de reuniões em Brasília com Eduardo Campos quando chefiava a Comunicação Social da então governadora Wilma de Faria. Nem quero imaginar o quanto ela está baqueada.

            Sempre contou com Eduardo em todas as horas incertas de sua ciranda. Tive o privilégio histórico de testemunhar reuniões políticas no Palácio do Campo das Princesas, sede do governo de Pernambuco, de onde foi arrastado preso o avô de Eduardo, quando houve o Golpe repressor de 1964.

            Cada passo de Eduardo Campos – a conjectura é somente minha – era uma busca incessante de agradar ao avô, de atende-lo trabalhando obstinado, percorrendo agrestes, sertões e recifes levando o carisma irradiante e a capacidade de trabalho.

            Ninguém é o governador mais popular do Brasil com 92% de aprovação à toa. E este governador, como um dia nos revelou num almoço no Palácio dos Esportes, comandava passeios dominicais de bicicleta com a primeira-dama, Dona Renata e os filhos, praticando a igualdade quase sempre oportunismo bastardo da retórica.

            Admiro as pessoas simples. De verdade, passei a ser tiete de Eduardo Campos pelas mãos do seu Secretário de Comunicação Social, Evaldo Costa, meu colega de função entre 2007 e 2010, joia de texto que trabalhou com meu pai no jornal alternativo O Povão, sempre invadido por censores e agentes da Ditadura agonizante em 1980. Um ano após a volta de Arraes do exílio na Argélia.

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            Evaldo Costa, torcedor do Santa Cruz, Santinha que simpatizo no Recife, foi assessor do avô e seguiu com o neto. Hoje é candidato a deputado federal na Paraíba, sua terra de berço. Com Evaldo me ensinando, observei como Eduardo Campos governava cativando os humildes. Sem ensaios de hipocrisia.

            O governador cobrava do funcionário do mesmo jeito que lhe era solidário nos apertos prosaicos dos quais a autoridade não tem a obrigação de se ocupar. Eu vi, ninguém me contou, sua preocupação com a saúde de velhos servidores do Campo das Princesas, onde morava, alguns que nem eleitores haviam sido dele e conquistados pela força genuína dos seus gestos.

            Ariano morre e Eduardo Campos demonstra tristeza legítima, do jeito que ficou quando o colega (também brilhante), Marcelo Déda, de Sergipe, sucumbiu ao câncer. Campos e Déda travaram brilhantes duelos e formaram uma dupla afinada, de botar Alckmins e cardeais sulistas no bolso, como se espetaculares repentistas fossem. E foram. Não voltam mais.

            Torci muito para a imprensa errar a notícia. Esperei que o governador Eduardo Campos sobrevivesse como toda tripulação e seus acompanhantes. Dera uma entrevista segura e às vezes irritada, prova de que não sabia esconder jogo, ao Jornal Nacional da Rede Globo, no dia anterior ao choque nacional.

            Em avião de autoridade sempre existe uma vaga para o assessor de imprensa. Evaldo Costa fazendo a própria campanha, só podia ser o jovem Carlos Percol, apaixonado torcedor do Sport, fã de idolatria de Eduardo Campos, a acompanhá-lo nas viagens.

            Assessor quando morre com autoridade é nome parco de lista. Carlos Percol não era. Tinha talento e gostava pra caramba de futebol, assunto dominante nos chás de cadeira que tomávamos em audiências ministeriais ou reuniões presidenciais quando atuamos na mesma época, voando mais do que andando. Toda semana estávamos em Brasília.

            Carlos Percol também morreu. Uma carreira destruída no fôlego do repórter incansável e assessor compenetrado. Havia casado quatro meses atrás. Tinha que morrer. Estava com Eduardo Campos, era sua sombra.

            Dois cidadãos nordestinos, de verdade. Que reverencio na prece de Ariano, o mestre, quando sentencia a crueza da morte: Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre.

             

            Camisa 10

            O ABC precisa fazer uma reunião urgente do Conselho Deliberativo e até conclamar as forças do além: vai precisar contratar um camisa 10, um homem decisivo, para resolver a parada e conduzir o clube à recuperação na Série B. Timbó, Xuxa e Rogerinho não resolvem, mesmo. Tudo nota 6, 6,5. O ABC está a perigo.

            Renato

            O lateral Renato é um jogador que destoa no ABC. Destoar, no caso dele, é positivo. Renato está bem acima da media dos seus companheiros limitados. Patrick de fora não se entende. No meio, até na armação, ele é melhor que os atuais. Daniel Amora, então, é santo forte protegendo. Só pode.

            Piauí no apito

            Um trio de piauienses comandará Icasa x América sábado pela Série B. Uma vitória que o América nem pode pensar em debater. É ganhar para não descer ladeira abaixo.

            Diá

            Técnico tem que andar de paletó, gravata, prancheta, computador. Quando é simples, sem frescura, popular e irrequieto igual ao nosso Diá, não serve. Diá acaba de perder o emprego mais uma vez. No ASA. Depois de oito dias de contratado. É desrespeito.

            Alemães repetem homens

            A seleção sub-20 de futebol feminino da Alemanha resolveu copiar os rapazes e detonou o time do Brasil. Enfiou 5×1 no Mundial e não fez mais porque teve humildade. Não pode ir adiante um time treinado por Doriva, lembra? Volante do São Paulo e XV de Piracicaba que pisava na bola como se calçasse botas.

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              Duas vezes mortos – Rubens Lemos Filho

              Dois filhos do ex-atacante Fernandão acompanharam a mãe ao clássico Internacional 2×0 Grêmio. Fernandão, ídolo do Inter, morreu em acidente de helicóptero no interior de Goiás no último dia 7 de junho. Ele tinha 36 anos de idade e consagrou-se líder do time campeão mundial derrotando o Barcelona da Espanha em 2006.

              Fernandão amava esportes radicais, era um centroavante típico trombador, sem pendões técnicos e de um carisma contagiante desde os tempos de Goiás. Fernandão praticava Kitesurf, modalidade em que são utilizadas uma prancha e uma pipa e vinha com frequência a (ainda) paradisíaca praia de Barra do Cunhaú, uma delícia de paisagem e sossego. Jogava bola com nativos pescadores.

              Os órfãos de Fernandão foram com a mãe, Fernanda Costa, ao maior clássico do Sul do país. E sofreram, junto com ela, a segunda morte do jovem ex-jogador prematuramente perdido. Sacripantas com camisa do Grêmio ensaiaram um coro de horror, assustando os meninos e indignando a viúva: “O Fernandão morreu, o Fernandão morreu!”.

              Gritavam com prazer e sadismo tripudiando dos colorados e, muito mais, da família tentando se recuperar e sobreviver. Brincar com a morte é deplorável em estádio de futebol. Quis partir para cima do coitado do aparelho de TV em 1994. Situação idêntica à do Gre-Nal.

              Jogavam Vasco x Flamengo seis dias depois da morte do gênio Denner Augusto dos Anjos, seu sobrenome poético criado por paixão e razão. Denner teria sido o melhor camisa 10 brasileiro depois de Zico . Denner jogava mais do que Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Neymar. Os três, somados.

              A lacrimosa torcida do Vasco gritava um refrão de homenagem e sofrimento. “É cafuné! É cafuné, Denner é a mistura do Garrincha com o Pelé”. Denner morreu de forma trágica, igual a Fernandão. Vinha no banco do carona do seu carro quando o motorista cochilou e o cinto de segurança o degolou.

              Cena triste, o corpo inerte de quem achava o drible mais belo que o gol à espera do IML na Lagoa Rodrigo de Freitas. Jogadores em prantos, o técnico Jair Pereira desesperado e alguns curiosos sorrindo, um cínico deboche triunfal.

              Certo seria o jogo ter sido adiado. Era fase decisiva e datas apertadas por conta da proximidade da Copa do Mundo. Pouco antes de o juiz apitar o início do clássico, que naquela época era clássico, com 100 mil pessoas no Ex-Maracanã, irrompe o berreiro marginal: “Ô Vascaíno por que estás tão triste, mas o que foi que te aconteceu, foi o Denner que bateu no carro, quebrou o pescoço e depois morreu”. Macabra paródia da marchinha da Jardineira.

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              Que eu lembre, jamais assisti a um gesto tão purulento, tão escroto, tão vil, sem caráter, tão réptil. Tão típico de facção criminosa, daquelas que trocam tiros com policiais em favelas.

              Lembro a figura gigantesca de caráter do volante Luisinho Guerreiro, camisa 5 vascaíno, lágrimas descendo no minuto de silêncio e o compromisso após o jogo, empate por 1×1: “Se já estávamos mordidos para ganhar o tricampeonato, agora ninguém toma mais. O diabo mexeu com a gente. Vamos ganhar para Denner e por Denner.”

              De fato, as bocas e mentes imundas que festejaram a morte do Saci-Pererê de fintas imarcáveis, engoliram, calados, o Vasco ser tricampeão pela primeira vez. Havia, ali, os pés de Denner incorporado pelo meia William, seu camisa 10 substituto e melhor em campo na decisão diante do Fluminense.

              Qual a diferença de quem festeja a morte de quem mata? Nenhuma. Qual a alegria que a dor da ausência pode gerar se nem mesmo Paulo, apóstolo sábio, conseguiu vencer suas dúvidas ao olhar ao infinito e questionar: “Morte, afinal, qual é a sua vitória”.

              Morte é desespero, é desencanto, é ausência, é devastação da alma, é saudade incurável, é choro, é o mal inesperado, é a certeza de nunca mais estar com quem se quer bem e é levado por ela, a das trevas. Quem festeja a morte em campo do futebol é a morte multiplicada no mal em cabeça(oca), tronco e membros invertebrados.

              Os filhos do atacante Fernandão e a mãe não mereciam o ataque traiçoeiro. O Inter, como fez o Vasco no dia de Denner, respondeu vencendo. Dona Fernanda Costa, a viúva indignada, pediu amparo na Bíblia: “Pai, perdoa-lhes. Eles não sabem o que fazem”.

              Sabem, sim, senhora, Saem de casa, em bandos, para espalhar o ódio que é negação da paz. Sabem, sim, ferir a dor dos outros. Sabem, sim, premeditar. Afinal, domingo, foi Dia dos Pais. Fernandão era pai.Estava morto, não podia se defender. Foi este tenebroso presente que seus filhos receberam, como os filhos de Denner, vinte anos atrás.

               

              Robbie Williams

              Oh, Captain! My Captain! Robbie Williams, o professor Keating, de Sociedade dos Poetas Mortos, cansou. Sua tristeza carismática, cedeu. Em todos os seus filmes, a expressão revelava o homem melancólico sem interpretação.

              Sociedade dos Poetas Mortos vai me levar para as reprises onde vou murmurar: Oh Captain, My Captain!, numa vã esperança do poema metafórico de Walt Whitman escrito depois do assassinato do presidente Abraham Lincoln, grito de desespero e clamor pelo que não voltará mais.

              Derrubado pela depressão que muitos consideram frescurinha e é doença de asfixia, sem trocadilhos macabros, estará sempre na minha coleção como o incompreendido professor de Sociedade dos Poetas Mortos e o rebelde locutor da rádio norte-americana na guerra sem sentido: Good Morning! Vietnam! Robbie Williams parecia adivinhar: nasceu para perder ao final. Na cena de cinema, na vida real.

               

              Irritante

              Sonolento jogo do ABC contra a Portuguesa. Remédio para insônia.

              Sofrimento

              Um ponto em seis disputados em casa. O ABC adora suspense.

              Dida

              Marcado desde o erro na decisão contra o Globo, em 2013, o goleiro reserva Dida deixa o América para o futebol português onde poderá encontrar o que jamais achou depois do lance casual: paz para mostrar sua capacidade. Já foi substituído: Pantera chegou.

              Levanta-te Lázaro

              O zagueiro Lázaro e o ala Arthur Henrique deverão ser as principais novidades do América para o jogo de hoje contra o Fluminense. Com a entrada de Lázaro na zaga ao lado de Cléber, o volante Márcio Passos não precisará ser deslocado para a defesa.

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                Lusa inspiradora – Rubens Lemos Filho

                Quem chega a São Paulo pelo Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, desafia a paciência em engarrafamentos de duas, três horas. Você segue olhando o Tietê represado e alguns prédios históricos.

                Paisagens agradáveis, outras nem tanto. Não é raro ver um assaltante correndo por entre os carros com dois PMs armados na caçada. Quando é pego, há buzinaço de comemoração.

                Uma das singelas homenagens que faço nas viagens ocasionais a trabalho ou para passear pelos bares onde reinava o sambista Adoniran Barbosa, é olhar para o Estádio do Canindé. Fica do lado esquerdo de quem está invadindo a Paulicéia.

                É uma arquitetura típica dos anos 1970, de estádios de curva concreta e firme em meio à decadência do futebol brasileiro. Ao lado, uma apetitosa churrascaria, daquelas em que o fanático vai festejar a vitória ou chorar o fracasso.

                Enquanto o táxi fica atolado em meio ao congestionamento e o motorista repete impropérios, agradeço a Portuguesa. É um dos poucos times de respeito do Sudeste que perde nos confrontos diretos com o ABC. O ABC ganhou quatro, a Portuguesa, apenas uma. A Lusinha, simpática, é freguesa de caderno do alvinegro desde 1972, primeira participação potiguar na Série A do Campeonato Brasileiro.

                Tinha pouco mais de dois anos de idade quando o ABC disputou seu primeiro Brasileiro e estava a milhas e milhas daqui, como sempre, contra a vontade, mesmo que fosse um bebê de colo que quase morre no exílio em terras chilenas.

                Uma infecção alimentar me levou ao desengano médico, me deram extrema-unção, mas um bom homem, chamado Otto Baker, sacerdote clínico, fugido como nós da Ditadura, me curou à base de soro caseiro.

                O ABC por aqui, levando multidões ao recém-inaugurado Castelão. Timaço de Tião Macaca (muito mal goleiro que vi no Bangu anos depois ); Sabará, Edson Capitão, Nilson Andrade e Rildo ou Anchieta; Maranhão, Danilo Menezes e Alberi; Libânio, Petinha e Soares com Célio de Souza de técnico.

                Jogavam ainda Quelé, Preta, William, Orlando, Baltasar de centroavante, Everaldo, imenso crioulo que circulava para cima e para baixo com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, o ponta Elias e o meia Marcílio.

                Ainda não havia – pelo menos para mim Alberi, mas a sua mais completa tradução tocou em 1972 em legítimos versos. Alberi foi Bola de Prata, o Oscar do Futebol, superando astros tipo Tostão, Jairzinho, Dirceu Lopes e Ivair, do Fluminense.

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                O ABC sofreu diante de máquinas que aqui passaram. O Santos de Pelé, Afonsinho e Edu, o Corinthians de Rivelino, o Palmeiras de Ademir da Guia e Leivinha (campeão), o São Paulo de Pedro Rocha. O Vasco de Tostão e Silva Batuta, o Fluminense de Toninho Baiano, Denílson e Marco Antônio. O Flamengo de Zanata, Zé Mário e Doval tomou baile e agradeceu aos céus o 0×0.

                O Botafogo perdeu em campo e ganhou no tapetão pelo erro primário do ABC ao escalar Nilson Andrade, Rildo e Marcílio suspensos. Línguas bífidas acusam Rildo, lateral da Copa/66 de ter dedurado a ilegalidade aos cartolas do seu ex-clube.

                Vieram muitos esquadrões. O Inter de Carpegiani, o Grêmio do zagueiro uruguaio Ancheta e do lateral-esquerdo titular do Tri no México, Everaldo, que Deus o tenha em boas nuvens, sujeito sortudo e apenas razoável de bola.

                Naquele tempo a Lusa revela ao Brasil um jovem craque sonolento: Enéias, convocado aos 20 anos para a seleção brasileira, esguio, imitação mal copiada de Ademir da Guia e também meia-atacante goleador. Jogava com um monstro de criação de meio-campo: Dicá, que fez fama pelos lançamentos e preciosas cobranças de falta.

                Com Dicá, Enéias e o predestinado Basílio, futuro autor do gol que livrou o Corinthians de 23 anos sem Campeonato Paulista, a Lusa viu o ABC tocar a bola na intermediária, Danilo Menezes compondo, Alberi interpretando, Elias e Libânio marcando os gols da vitória por 2×1. Dicá fez o de honra, de falta. Tião parado.

                Cinco anos depois, a Lusinha veio se vingar. Enéias ganhara o troféu de melhor meia do Paulistão. Nesse jogo, eu estava. Sem medos nem riscos de morrer. Assisti da cabine de rádio Danilo Menezes triangular com Moreno e Maranhão Barbudo até Noé Macunaíma, xodó da Frasqueira, antítese do boleiro padrão Maria-Chuteira, Grande Ótelo da massa, vencer o goleiro Moacir Cachorrão: ABC 1×0.

                Vieram outras vitórias, em 2009 e em 2011, numa aula-espetáculo do camisa 10 Cascata em pleno Canindé, vitória de 3×2, um do Casca e outro de Bombinha. A Lusa venceu uma. Só uma. Hoje, esse tabu está ameaçado. O ABC não pode repetir suas últimas partidas. Senão, perde a Lusa. A Lusa (ainda) inspiradora.

                 

                Bola sete

                Sinuca de bico na bola sete. É a situação do técnico Zé Teodoro, ameaçado até a medula de perder o emprego se o ABC acumular outra derrota e chegar perto do Z-4, que está distante apenas quatro pontos. Arrisca, Zé. Joga com o que tem de melhor ou ao menos, menos ruim.

                Ficar

                A Frasqueira quer uma vitória, mas não suporta a defesa inoperante, o meio-campo sem criatividade e apenas a luta estoica de João Paulo correndo e driblando sozinho. Dênis Marques tem que jogar.

                Cadeiras quebradas

                Não, não foram torcedores do ABC que quebraram cadeiras na Arena das Dunas. Torcedor é desportista, é agregador. Foram pessoas sem educação, vândalos. Gente que dá prejuízo ao clube não pode mais ter acesso aos jogos. Está na hora, mais do que na hora de separar gente de escória.

                Pontaria de Pimpão

                O atacante Rodrigo Pimpão está fazendo a sua parte. É o melhor finalizador da Série B. Acertou 16 chutes na baliza e marcou sete gols. Deve ser duro para ele tanto esforço ser desperdiçado pelas falhas absurdas de uma defesa insegura e paradona.

                Peninha sai

                Leio no blog Vermelho de Paixão, do Sérgio Fraiman, que o vice-presidente do América, Marcus Vinicius Meira Pires, está saindo, com carta de renúncia e etc. A hora é de união de todos os homens com serviços prestados ao América para que o time se acerte no Brasileiro.

                Canindé

                Mesmo com problemas de contusão no time, o técnico Oliveira Canindé sabe porque sabe que a paciência da diretoria topou. Falta padrão de jogo definido.

                 

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                  Rosita Sofia – Rubens Lemos Filho

                  Fundado no bairro de Cosmos, Rio de Janeiro, em 1941, o Sport Club Rosita Sofia exagerava no cumprimento fiel do preceito olímpico e idiota do chato Barão Pierre de Coubertin para quem o importante é competir e não vencer. Felipão 7×1 certamente é um “baronista juramentado”.

                  O Rosita Sofia superava a nobreza tosca e perdia todos os jogos. Parecia o Íbis, timeco pernambucano, em gramados cariocas. Se um grande andava em crise, cartolas de fraque sabiam iludir torcedores revoltados: “Chama o Rosita Sofia para um amistoso”. Padeiros, motorneiros, protéticos, carteiros, prestanistas, verdureiros formavam o “esquadrão” fuzilado com masoquismo exemplar.

                  Mané Garrincha, em sua simplicidade filosofal, levou a fama do simpático saco de pancadas para a Copa do Mundo de 1958. Observava com tédio colossal o temor dos companheiros antes do jogo decisivo da primeira fase contra os soviéticos e o seu afamado “futebol-científico”, programado por computadores do tamanho de um apartamento de dois quartos e pelas táticas espiãs da KGB na Guerra Fria.

                  Depois de destruir os “russos” como chamava, em apenas três minutos, Garrincha comentou, displicente, com o lateral-esquerdo enciclopédico Nilton Santos. “Ué, compadre, pra quê tanto medo? Até o Rosita Sofia engrossava com esses caras. Eles são muito ruins”, desdenhou Mané, sem levar em conta que o melhor goleiro do mundo, Yashin, estava do lado deles. “O careta joga de boné, tem que ser jóquei, o degas aqui acabou com ele”. Degas era sinônimo de safo, esperto, malandro.

                  Evoco o Rosita Sofia para encontrar parâmetro para a curva descendente de ABC e América. Os dois entraram na fase deprimente de perder e perder saindo de campo como se nada tivesse ocorrido.

                  Natal parece ter dois Rositas Sofias conformados e bem comportados. Enganosos, também. Começaram a Série B com ímpeto de touro premiado e depois de um fim de semana de novas derrotas, despencam e ameaçam transformar a permanência na segunda divisão no desespero anual e irrestrito.

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                  O ABC contra o Vasco foi quase subserviente no primeiro tempo. O primeiro gol do Vasco deixou a impressão de que diversos Costinhas (Costinha falecido comediante), se confundiam e davam permissão solene a Douglas para lançar e começar a jogada concluída pelo insuportável Kléber, que distribuía autógrafos como se estivesse com prisão de ventre, cara toda remoída.

                  O ABC tem uma defesa tenebrosa. Suélinton, que deve ser bom rapaz, pagador de impostos e respeitador de Jesus Cristo, tem sido sacrilégio de quarto-zagueiro. É torturante vê-lo na posição onde, um dia, a cada tempo, jogaram Alexandre Mineiro (o melhor de todos), Ivan Matos, Cláudio Oliveira, Romildo, Mário César, Sérgio Poti, Spadella e Vágner Chinoca. Tremenda covardia cometo ao comparar esses monstros com o inseguro Suélinton.

                  O América também conta com uma zaga pavorosa. O meia Clébson, citado por mim como um perigo, jogou muito pelo Boa Esporte, com ajuda providencial de marcadores que não lhe davam combate e zagueiros alucinados, enroscados uns nos outros.

                  Parece ter sido instituído um decreto no América com efeitos a cada escanteio: fica proibido, com objetivo claro de tripudiar da torcida, de beque subir com os atacantes. A zaga do América deveria ser administrada por uma imobiliária. É imóvel, cimentada, estática.

                  Mais de 50 mil pessoas (somadas) foram à Arena das Dunas na quarta, ver o América ser fulminado pelo Fluminense e no sábado, quando o Vasco venceu o ABC sem maiores sobressaltos, salvo defesas belíssimas do goleiro uruguaio Martin Silva.

                  Que se respeite os torcedores, ainda que grande parte deles seja mais apropriada a desfile de moda. Pobre não tem vez no meio dos arenautas. ABC e América têm que melhorar. Senão o Rosita Sofia original ressuscita só para dar nos dois.

                  Dênis Marques

                  Muito bonito o toque de cavadinha de Dênis Marques no gol do ABC contra o Vasco. Sempre serei a favor da improvisação, da arte. Mas o jogo pedia mais responsabilidade do atacante, que voltou num dia de casa cheia e televisão mostrando para o país inteiro.

                  Na macumba

                  Arruma uma macumbeira para proteger Dênis Marques e Rogerinho, senão é capaz de eles voltarem a ser hóspedes de Doutor Roberto Vital.

                  João Paulo

                  Aplausos justos para o potiguar João Paulo, que, quando recebeu a bola com alguma condição, infernizou a defesa do Vasco. Merecia dois golaços. O primeiro após receber passe de peito de Rodrigo Silva e o segundo na pancada que Martin Silva espalmou fechando a maravilha plástica do lance.

                  Desorganizado

                  O América deu a impressão de ter sido formado faltando cinco minutos para o jogo contra o Boa Esporte, um time comum, comunzinho, com Clébson, um bom camisa 10. O América não se achou em minuto nenhum. Não tem se achado há bom tempo.

                  Criatividade

                  Sem Morais e até mesmo Arthur Maia, muito mais jogador de campeonato estadual, o América perde a chama criativa que fazia a diferença a seu favor. Jéferson e Andrezinho estão no time dos razoáveis e Jean Cléber ficará marcado pela trombada que machucou o goleiro Fernando Henrique. Jogador corriqueiro.

                  Organizadas

                  Vândalos de uma “organizada” emboscaram integrantes de outra em São Paulo. O que falta para o Governo Federal editar um decreto-lei, bem salgado, simplesmente extinguindo as organizadas? Claro que há gente boa que será prejudicada, mas os marginais estão abusando. Eles, sim, levados ao presídio mais infecto possível.

                  Aluízio

                  Hoje Aluízio Alves teria 93 anos. Morreu em 2006. O político de maior dimensão nacional do Rio Grande do Norte. Jornalista talentoso. Aprendi muito com ele. Saudá-lo é meu dever. E raivosos guardem dentro do cofre do ódio qualquer protesto. Aluízio está morto. Não pode se defender.

                  Primeira prata

                  No dia 11 de agosto de 1984, o Brasil perdia para a França por 2×0 a decisão do futebol nas Olimpíadas de Los Angeles. O time treinado por Jair Picerni era o Internacional (RS) mais o habilidoso meia Gilmar Popoca, do Flamengo. Final com 101.799 pagantes no Rose Bowl em Pasadena, onde o Brasil ganharia o tetra em 1994.

                  Times

                  Brasil: Gilmar Rinaldi; Ronaldo, Pinga, Mauro Galvão e André Luís; Ademir, Dunga e Gilmar Popoca; Tonho (Chicão), Kita (Milton Cruz) e Silvinho. O técnico francês, Henri Michel, eliminaria o Brasil da Copa do Mundo de 1986, decisão por pênaltis.

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                    ABC x Vasco – Rubens Lemos Filho

                    Alegrias imortais na minha infância dividiam-se em duas inspirações: ABC e Vasco da Gama. Na véspera do confronto que os nivela na Série B, despenco no redemoinho das lembranças de onde volto com a certeza: sofri e fui muito feliz com os dois. Presentes herdados do meu velho pai, saudade de 15 anos.

                    ABC e Vasco eram mais que preferências. ABC e Vasco sempre foram símbolos de orgulho e refúgio na vida sem luxo compensada pela emoção democrática dos estádios e velhos jogos da TVE.

                    TVE e o reprise crepuscular de domingo dos embates sentimentais e explosivos no ex-Maracanã. Sou torcedor nascido no sofrimento. Perdia aqui e no Rio de Janeiro. Ganhava lá e cá. É a gangorra do futebol. Amava de solidariedade a cada fracasso e de berreiro alucinado nas vitórias de epopeia.

                    Além dos meus times preferidos, ABC e Vasco foram imexíveis, confidentes e silenciosos amigos de irrestrita confiança nos tenebrosos dias de incerteza na Ditadura. Chumbo ameaçando sonhos. Dúvidas assombrando impiedosas.

                    O meu pai atiçava minha adoração recitando escalações famosas de sua meninice. O Vasco Supersupercampeão de 1958, superando o Botafogo de Didi, Nilton Santos e Garrincha, e o Flamengo de Dequinha, Joel, Moacir e Dia em dois triangulares decisivos.

                    Papai recitava o time de 58, que ouvia nas ondas do rádio em andanças pelo Paraná (PR), aos 17 anos, idade em que nada é mais grave e superior que o futebol: Miguel (potiguar de Macaíba); Paulinho e Bellini; Écio, Orlando e Coronel; Sabará, Almir Pernambuquinho, Vavá, Roberto Pinto e Pinga.

                    O melhor Vasco de Rubão (1956) coincidia com um dos decantados times do ABC nas tardes do velho campinho do Juvenal Lamartine. Daqui mesmo, do Alecrim, ele ouvia as proezas de Carlos Alberto; Paulinho e Bellini; Laerte, Orlando e Coronel; Sabará, Walter Marciano, Vavá, Livinho e Pinga.

                    Walter Marciano foi o ídolo vascaíno do meu pai, que andava quilômetros para ver e vibrar com o ABC de Edson; Toré e Tatá; Badidiu, Gonzaga e Ney Andrade (para ele um dos divinos laterais do mundo); Mota, Cadinha, Macau, Jorginho Professor e Oliveira. Jorginho – eu cheguei a achar exagero – nunca deixou de estar entre os melhores para Rubens Pai.

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                    Nasci no ano em que ABC e Vasco ressurgiam. Em 1970, após quatro anos de sovas, o ABC iniciou a jornada do tetra, com Alberi, Marinho Chagas e o capitão Edson cintilando no acanhado JL. No Maracanã, o gigante malabarista Silva Batuta encerrava um tabu de 12 anos sem título carioca para o Almirante.

                    Quando criança, ao completar 8 anos, recebi dois lindos esquadrões acrílicos de futebol de botão. Tempo em que os titulares mantinham-se por três, quatro anos. Cultivava minha solidão jogando sozinho partidas de invariável empate.

                    O ABC de Hélio Show; Orlando, Pradera, Cláudio Oliveira e Vuca; Baltasar, Danilo Menezes e Noé Macunaíma; Tinho, Jonas e Berg. O Vasco: Leão; Orlando, Abel, Geraldo e Marco Antônio; Zé Mário, Zanata e Guina; Wilsinho, Roberto e Ramon.

                    Adolescente, vi pela primeira vez o confronto desafiar o coração. Amistoso em 1979, tricampeão Rivelino vestindo a camisa do ABC no Castelão cheio, empate por 1×1, Dinamite para o Vasco e o baixinho Noé Macunaíma empatando para o ABC. Assisti nas cadeiras numeradas, velhos bancos de igreja, tenso e calado, concentrado mesmo nas (raras) fintas elásticas de Rivelino.

                    No demolido estádio, testemunhei o último gol de um gênio. Denner Augusto, superior a Neymar e morto dias depois daquele fevereiro de 1994. Denner, vaiado pela torcida do ABC – onde eu estava -, vingou-se arrancando da intermediária, tabelando na canela dos zagueiros, ameaçando o chutão e tocando na sutileza diante do goleiro Marcelo: 2×0.

                    ABC e Vasco me deram prêmios impagáveis. Meu maior ídolo e amigo no futebol, Danilo Menezes (fotomontagem) vestiu a camisa 10 do Vasco por cinco anos, antes de assumir o comando cerebral do alvinegro de minha terra. Diamante polido no Vasco, o armador Geovani, compositor de dezenas de gols de Romário também na seleção brasileira, passou com brilho fugaz no ABC em 1996.

                    Amanhã, sou ABC de coração e Vasco licenciado. Que seja um belo jogo. Longe será do que já foi em talento. Espetáculo de coreografia humana. De festa de torcidas. Saudade imensa do meu pai, ele sim, sempre dividido, pelas razões passionais que amenizaram em gols e glórias, a dolorosa ciranda que foi sua vida.

                     

                    Voz do povo

                    Com a entrada de João Paulo no ataque, o técnico Zé Teodoro ouve a voz do povo. Tem sido bem mais efetivo e voluntarioso que todos os atacantes do time. João Paulo pela direita prende o Vasco atrás e parte para cima da defesa adversária, desfalcada do lateral-esquerdo Diego Renan. Criando chances para quem estiver no comando do ataque. Certamente Rodrigo Silva.

                    Milagre da TV

                    O meia Rogerinho volta ao ABC. É o milagre da imagem. ABC x Vasco é um jogo de casa cheia, de motivação, de torcedores de todo o Brasil na ansiedade. O Vasco, do jeito que está, é a terceira maior torcida do país. Rogerinho, plin, não sentiu dor e deve estar entre os titulares, na esperança de que o meio-campo recupere a criatividade.

                    Região inteira

                    A Arena das Dunas deve receber vascaínos de todo o Nordeste. Nas redes sociais, é intensa a movimentação de torcedores de Pernambuco, da Bahia, do Ceará e da Paraíba. O ABC não pode perder a guerra no grito e tem de ocupar o maior espaço. Em casa, quem manda é a Frasqueira.

                    Vida continua

                    Pausa no América para a Copa do Brasil. Cabeça livre para o jogo de amanhã contra o Boa Esporte às 21 horas em Varginha (MG), cidade onde dizem existir marcianos. Andrey está de volta para ser opção para goleiro e no meio-campo persistirá a falta de Morais e Arthur Maia. Entre Jéferson e Andrezinho, sou mais o primeiro.

                    Cuidado

                    É com o meia-armador Clébson, considerado o “garçom” do Boa Esporte que o América deve se cuidar. É eficiente nos passes, se movimenta bem e é frio. O Boa, antigo Ituiutaba, que perdeu a Série C para o ABC em 2010, quer vencer para descolar do grupo que ronda ou integra a Zona de Rebaixamento.

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