O tempo e o sonho – Rubens Lemos

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Confesso meu pecado envenenado de contradição. Havia abandonado meu rádio de pilha, modesto, companheiro e leal, peça colada à minha alma nostálgica do futebol de categoria e lirismo.

Abri a gaveta esquecida, lotada de cacarecos mais importantes para mim que uma resolução da ONU e lá estava ele, azul e mofado, a me observar como um filho decepcionado e jogado ao abandono por descarte impiedoso do pai deslumbrado.

Sou apaixonado por rádio. Daqueles de dormir ouvindo resenhas e canções do passado que me acompanha, no amparo e no combustível da sobrevivência. Frustra-me jamais ter sido locutor de futebol, um narrador, herói que incorporava sozinho, trancado em minha timidez no quarto fechado, as decisões renhidas e previsíveis de silencioso futebol de botão.

Ingrato e acometido dos males que critico nos outros, esqueci meu velho rádio, cheio de chiado, a exigir contorcionismos para garantir a sintonia mínima. É um modelo fora de fabricação. Comprado em camelô de sentimentos persas do saudoso Machadão.

Aderi e até sugeri a amigos chegados a um moderno e insípido programa de computador chamado Tunein, uma maravilha tecnológica, que localiza até repetidora de praça em qualquer sítio dos cafundós da imaginação.

O Tunein é uma espécie de grife de canais por assinatura de TV. Você pode passear de Natal a New Orleans, de Pau dos Ferros a Bucareste, de Parnamirim a Paramaribo, de Macaíba a Kiev, capital da Ucrânia. É tão perfeito, tão digital que torna-se uma boneca inflável sexual sonora e portátil. Despida de calor humano e sinal de gente.

Botei pilhas novas no rádio , um surrado NK5, sigla vezes nada. Testei e feito um Simca Chambord manual, respondeu após leves porradas.

Na nossa reconciliação, pedi que suas ondas apresentem em tensão verdadeira o sonho de um clássico América x ABC (o mando de campo é americano) com a dimensão emocional das tardes de casa cheia. De torcida, de paz e de futebol requintado.

Sonho, sim, na recompensa em lampejos de disputas arrasadoras de coronárias em idos de ídolos inesquecíveis nos pés e cabeças de hoje, que, se não empolgam, carregam no corpo, duas camisas traduzidas em paixão, história e patrimônio humano de uma cidade.

Glória a Deus, glória ao rádio, glória ao clássico de amanhã, glória a Alberi, Hélcio Jacaré, Souza, Danilo Menezes, Marinho Apolônio, Silva, Moura, Sérgio Alves, Jorginho e Véscio, artistas eternizados pelas multidões que transcendem vida e morte.

Dois ao ataque

O futebol foi escrito pelos craques. Sem eles, na lucidez intuitiva e na cerebral anarquia, a massa jamais teria sorrido numa arquibancada de cimento quente sem cobertura. Os clássicos se fizeram lenda na motivação de duelos acirrados de estilistas ou de rompedores, de solistas ou carregadores de piano.

Hoje, transpiração acima da inspiração, um jogo de futebol interessa pelo imprevisível. América e ABC entram em campo na Arena das Dunas no embate mais atraente dos últimos tempos. Pela teoria do equilíbrio a prevalecer como desde 1915.

Fora de campo, dois técnicos que valem o ingresso para quem pode pagar até 80 reais. O pobre até baba de desejo, mas a patroa faz cara feia na ameaça do desfalque do quilo de feijão ou de açúcar na suada feira do assalariado.

Roberto Fernandes e Josué Teixeira gostam do ataque. O ataque é a perspectiva do gol mais perto, do grito contido chegando no limiar da garganta sedenta de vitória.

O campeonato foi outro a partir da chegada de Josué ao ABC. Sua moderação convicta sacudiu um time inteiro e pôs no arquivo – até os últimos resultados -, a imagem de uma aglomeração de medrosos preocupados, primeiro, em não perder.

O América de Roberto Fernandes ganhou motivação e não está nada disposto a ver o adversário comemorar, domingo adentro, a conquista do segundo turno e o carimbo na decisão para valer.

Há motivos para esperar uma partida de coração acelerado. O ABC tem Saulo, tem Leandro Amaro, tem Lima, tem Erivélton, tem Chiclete e tem Kayke. O América tem Flávio Boaventura, Daniel Costa – como está jogando esse cara! -, tem Judson, tem Max. Mas, cá para nós, o monstro ainda se chama Cascata.

Del Nero e Del Bolso

Ao mesmo tempo em que viu sua arrecadação bater recorde e atingir R$ 519 milhões em 2014, a CBF aumentou suas despesas com salários de cartolas e funcionários. Balanço apresentado às federações e aos clubes na posse de Marco Polo Del Nero aponta que foram utilizados R$ 65,2 milhões em “despesas com pessoal”. O número é 30% superior ao registrado em 2013, quando os gastos foram de R$ 50 milhões.

Privilegiados

O crescimento dos gastos com pessoal na CBF é influenciado por uma norma criada no segundo semestre de 2013, na qual a entidade decidiu pagar salários aos seus vice-presidentes. Cada um dos cinco vices passou a receber R$ 10 mil mensais.Somente o presidente da CBF tem direito a um salário de cerca de R$ 200 mil mensais.

Desporto Escolar sofre

O presidente da Confederação Brasileira do Desporto Escolar (CBDE), Antônio Hora Filho, criticou o baixo percentual de recursos do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) revertido para a área. Ex- árbitro de futebol, o dirigente participou de audiência pública na Comissão do Esporte para discutir a realidade do desporto escolar no Brasil.

Percentual

Desde 2013, o comitê é obrigado a destinar apenas 10% de seu orçamento para competições e treinamentos esportivos nas escolas; enquanto 50% são gastos com a manutenção da entidade, conforme alterações feitas em 2013 à Lei Pelé (Lei 9.615/98).

Base esquecida

Antônio Hora observa que “se o Brasil todo admite e reconhece que a base do esporte é a escola, todas as autoridades esportivas reconhecem que a gente tem de massificar o investimento no desporto escolar, no meu entendimento, nós precisamos inverter essa prioridade de investimentos, pois para manter uma entidade precisa gastar menos recursos do que para democratizar o esporte em todas as escolas do Brasil”, sustentou.

Compare

Compare o dinheiro que a cartolagem recebe da CBF com o tratamento dado ao esporte na escola e tire suas próprias conclusões se há perspectiva visível de mudança para o futuro. Sem dinheiro para escola, pobre não joga bola. Não pode.

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    Um potiguar na Champions – Rubens Lemos

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    Sérgio Luiz Bezerra Trindade

    Professor

     

    Passei parte da tarde, toda a noite e o período de sono ouvindo insistentemente: 7 a 1, 7 a 1, 7 a 1… em alusão ao fiasco protagonizado pela seleção brasileira no mundial de 2014 e que apagou da nossa memória coletiva o que todos diziam ser nossa maior tragédia futebolística, a derrota para o Uruguai no último jogo da copa de 1950, também disputada no Brasil.

    Bons tempos eram aqueles em que brasileiro, confiante na genialidade de seus boleiros, tirava sarro da cara de gringo, fosse sul-americano ou europeu, de seleções fortes ou fracas.

    Os 7 a 1 do Mineirão não me doeram no dia do jogo. Até vibrei com a sova que os alemães nos aplicaram, mas quarta, enquanto me preparava para assistir, numa Arena de verdade que os portugueses chamam de Estádio do Dragão, casa do Porto, que recebeu o Bayer de Munique pela Champions League e venceu o desfalcado time alemão por 3 a 1, aquela pisa me doeu como cinturão no lombo de menino traquina.

    Após receber o ingresso, adquirido pela internet, num hotel localizado nas imediações do estádio, fui a um shopping também para comer e beber alguma coisa. Vestindo a camisa do ABC, comprei uma cerveja e bebia despreocupadamente numa mesa em frente a um grupo de torcedores do Bayer. Dois deles, que já passaram férias em Natal e assistiram a um jogo do Mais Querido no Frasqueirão, fizeram a maior algazarra e me convidaram para beber.

    Revelada ao grupo a minha nacionalidade, toda conversa girou em torno da surra que a seleção deles aplicou na nossa e de como o Brasil já não é mais o mesmo. A cada rodada de cerveja um brinde aos 7 a 1 e gritos de guerra e cantorias. Foi uma hora e meia de sarro, com direito a fotos em que eles mostravam uma mão inteiramente espalmada e a outra com apenas dois dedos apontando para mim. Ao final, pelo menos não me deixaram pagar a conta.

    A modernidade do futebol europeu está fora e dentro de campo.

    Em campo é indiscutível a supremacia europeia. Os seus clubes são os mais ricos, têm os melhores jogadores e jogam um futebol moderno, com toque de bola e velocidade impressionantes. O time do Bayer e do Barcelona, outro grande que já vi jogar in loco, quase não rifam a bola, como dizem os comentaristas. A bola corre quase sempre na grama, reforçando a máxima de Neném Prancha: “A bola vem do couro, o couro é da vaca e a vaca come capim. Bola no chão, menino!”.

    A torcida também contribui para a força do espetáculo. Estão ali para torcer, e não para vandalizar. Os anfitriões recebem com educação, confraternizam com os adversários e, claro, troçam, falam da vitória da vitória de sua equipe. Sem manifestação alguma de violência.

    O respeito pelo torcedor é total, é ele quem consome o show e os produtos envolvidos nele, inclusive as transmissões de TV.

    Por isso, o jogo começa exatamente no horário marcado. Porto e Bayer rolaram a bola quando o relógio do placar marcava 19:45 e a partida estava encerrada às 21:35, tempo mais do que suficiente para que torcedores do Porto que moram em cidades como Braga, onde estou, distante 65 quilômetros, possam si dirigir à estação de trem e, uma hora e meia depois, possam estar em suas casas.

    Além do horário do jogo ser conveniente para quem trabalha e estuda, o transporte público, rápido e seguro, ajuda no translado casa-estádio-casa. Para terminar, a segurança é total. Os baderneiros passam longe e ao menor sinal tumulto, a polícia aparece.

    Com torcedores torcendo e jogadores jogando, a bola não parou um minuto e rolou macia, suave a carinhosamente tratada pela maioria dos atletas, à exceção de um ou outro Casemiro.

    As Arenas foram aqui construídas como símbolos da modernidade do futebol brasileiro. Mantivemos com elas a mania de mimetizarmos o que se faz fora do país, olhando para o acessório e esquecendo o essencial. Portugal não é o Brasil, também não é, em sentido algum, uma potência europeia, mas tem estádios belíssimos e os chamam pelos nomes que têm.

    São estádios, e não arenas, que quase sempre estão cheios, mesmo em jogos não muito atraentes. E assim estão porque conseguem atrair o torcedor com bons espetáculos, protagonizados por bons jogadores, em horários que lhes são adequados, com boas possibilidades de condução em transporte público, entre outros.

    Quase tudo o que se faz em Portugal foi prometido para o Brasil pós-copa. Ficaram só as arenas sem torcedores e atulhadas de arenautas viciados em selfies, estrangeirismo ideal para retratar babaquice, e desconhecedores de bola.

    José Wilson

    Depois de merecidas férias fora de Natal, o ex-presidente e vice jurídico do ABC, José Wilson Gomes Neto, papeava com um grupo de amigos num shopping da cidade. Convicção de que seu trabalho (árduo) pelo clube fechou um ciclo.

    Marcos Lopes

    Com o narrador Marcos Lopes, da Rádio Globo, também após almoço em praça de alimentação, comentei o baixo nível dos últimos jogos do Estadual e a boa fase do ABC. Ambos na expectativa de clássico quente no domingo, mesmo com o segundo turno muito perto do ABC.

    Copa do Nordeste

    A garantia de participação na Copa do Nordeste de 2016 é uma glória para o ABC, ausente das últimas edições. Vai poder planejar o próximo ano certo de que, logo no início, disputará uma competição de bons lucros e casa sempre cheia.

    Criciúma

    Tanto ABC quanto América esquentaram os tamborins com suposto assédio do Criciúma (SC) a seus jogadores. O América não pode prescindir de Max, um homem que se tornou uma imagem de pedra eternizada em artilharia vermelha.

    Fabinho e Rafael

    O volante Rafael Miranda e o atacante Fabinho Alves, do ABC, são peças que estavam colaborando. No caso dos dois rivais, nada de leilão. É segurar na paz.

    Pastana

    O superintendente de futebol, Rodrigo Pastana, que conhece o futebol de Santa Catarina por ter atuado por lá, ajustou alça e massa de mira e disparou contra o Criciúma. Atirou na falta de ética.

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      Juca e o Nordeste – Rubens Lemos

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      O Jornalismo aplicou um drible debochado nas Ciências Sociais e presenteou o país com o talento de José Carlos Amaral Kfouri, corintiano lírico, fã do Doutor Sócrates, viúvo da derrota de 1982 e um texto sublime de tão sintético.

      Toda semana – quando o dinheiro dava –, a Revista Placar chegava às minhas mãos com a pena de Juca Kfouri, primeiro como chefe de reportagem e depois diretor de redação. Juca trocou de objetivo acadêmico e escolheu a paixão. São assim sem assado os emocionais.

      Ficava estabelecida a consciência crítica da minha geração de apaixonados por futebol. Juca foi seu intérprete com a legítima opção de escolher a notícia em primeiro lugar e, na injustiça flagrada, o lado mais fraco.

      Fiquei com raiva de Juca Kfouri na Copa do Mundo do ano passado, aquele festim tresloucado, quando ele se juntou a um grupo privilegiado escolhido pelo técnico Felipão, um mastodonte que jamais apreciou arte em campo e sempre manteve com profissionais de imprensa uma distância do fosso ao gramado.

      O fosso, meninada, era um imenso túnel a separar gerais do campo, não existe mais, como não existem gerais e o futebol agoniza. O fosso nos dava, torcedores mirins, a apreensão medrosa do abismo. Já passou. Juca é maior que o episódio.

      Testemunho a luta de Juca Kfouri pela organização do futebol brasileiro mesmo nos tempos em que a censura editava os textos brilhantes do primeiríssimo time do jornalismo esportivo. Sempre foi contra campeonato defasado e, da sua cabeça, surgiu a ideia da Copa União em 1987, a primeira experiência de um grito de independência dos clubes em relação aos cartolas caricatos.

      Juca assina o blog esportivo mais lido do Brasil na Folha de São Paulo e, no provincianismo sem subserviência, ele concorda comigo. É a favor dos campeonatos e ligas regionais e contra o fracasso dos Campeonatos Estaduais.

      A palavra de Juca não é verdade sumária. É, no mínimo, juízo de valor decente. Juca escreveu sobre a Copa do Nordeste, um sonho cortado pela ganância e renascido na perseverance de um dirigente potiguar, o advogado Eduardo Rocha. Eduardo brigou, acreditou e mobilizou. O mutirão transformou um mero certame, como diriam os antigos, num sucesso estrondoso, com Bahia e Ceará disputando as finais.

      Cansei de defender a Copa do Nordeste em Passe Livre. Continuo achando-a ideal, dividida em divisões. É resgate de rivalidade entre os Estados que acontecia nos velhos campeonatos nacionais e era amortecida pelo gigantisco demagogo de até 94 clubes se espremendo nas sardinhas da ditadura e o seu populismo de espinha.

      Escrevia e apostava na minha opção. Minha crença e convicção. O texto de Juca consagra uma luta que começou pelo Rio Grande do Norte, pela batalha de Eduardo Rocha:

      A Copa do Nordeste, a Lampions League, que já definiu o Bahia e o Ceará como finalistas, tem média de público na casa dos 6.500 torcedores por jogo, mais que os menos de 5 mil do Carioquinha deste ano a uma rodada de definir seus finalistas.

      No último domingo, a Fonte Nova, em Salvador, recebeu 40 mil torcedores para a segunda semifinal entre Bahia x Sport, enquanto apenas 24 mil pagaram para ver a primeira partida semifinal com Flamengo x Vasco, no Maracanã.

      O público em Salvador foi maior também que os dos estádios do Corinthians e do Palmeiras nas quartas de final do Paulistinha, 33 mil em Itaquera, 35 mil no Parque Antarctica.

      O que deixa no ar uma pergunta óbvia: quais seriam os públicos no eixo Rio-São Paulo se estivessem em disputa as finais do torneio regional entre os grandes dos dois estados, o antigo Rio-São Paulo, em vez dos jurássicos estaduais? (JK).

      1. Não dá para responder. É argumento, irmão da lucidez, amante da liberdade, desconstruindo fantasias carcomidas no tempo e na teimosia.

      Saulo e Leandro Amaro

      O goleiro fez defesas de um monsenhor de luvas. O zagueiro fez um gol de centroavante nato e salvou outro, como uma muralha defendida em batalha tribal.

      Mal

      O ABC jogou mal. O segundo tempo foi tétrico com a volta de tristes lembranças dos idos retranqueiros de Roberto Fonseca e o seu bando de volantes correndo sem direção. O meio-campo, sem Erivélton, não criou.

      Perto

      O ABC está bem perto do título do segundo turno com a campanha de vitórias consecutivos. O resultado do América contra o Santa Cruz, uma vitória rubra, de qualquer maneira esquentará o clássico de domingo.

      Reginaldo

      Outro que melhora a cada jogo no ABC é o lateral-direito Reginaldo, fôlego de gato no apoio ao ataque.

      A palavra do Casca

      Ao Portal Vermelho de Paixão, a palavra é do camisa 10 Cascata, último a pisar macio pelos gramados nordestinos lotados de jagunços calçando chuteiras mortais. O Casca tem sua convicção sobre o atual o momento do clube e, tocando fino, batendo de três dedos em ritmo baiano de praia, descarta preocupações.

      Aspas e Cascatas literais

      Diz o 10, que joga demais e um pouco a mais: A gente não está preocupado em se poupar, até porque existe a possibilidade da gente conquistar o título. Hoje, sem dúvida nenhuma, pelo fato de não dependermos de nós mesmos, as coisas se tornam um pouco mais difíceis”.

      Vencer duas

      Prossegue o Casca, afiando o verbo e preparando as inspirações: “mas se a gente conseguir fazer aquilo que nós não fizemos até agora, que é vencer duas partidas consecutivas nesse segundo turno, com certeza isso vai nos dar uma condição de brigar pelo título.” A lógica, quando é dita pelo sábio, ganha charme.

      Show de Joãozinho

      Dos melhores pontas pela esquerda revelados no Brasil, Joãozinho apanhava tanto ou mais do que Reinaldo, do Atlético (MG). Com Raul e Nelinho, era a parca constelação do Cruzeiro que venceu o ABC (2×1) dia 15 de abril de 1978, público de 12.306 pagantes no Castelão (Machadão). Roberto César e Eli Carlos abriram 2×0 e Danilo Menezes diminuiu.

      Times

      ABC: Hélio Show; Orlando, Pradera, Cláudio Oliveira e França; Baltasar, Danilo Menezes e Moreno (Zezinho); Noé Silva (Noé Macunaíma), Jorge Costa e Erasmo. Cruzeiro: Raul; Nelinho, Zezinho Figueroa, Marquinhos e Edilberto; Flamarion, Eli Carlos e Erivélton; Eli Mendes, Roberto César e Joãozinho.

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        Relógios da ética – Rubens Lemos

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        A orgia da Copa do Mundo no Brasil parece novela mexicana quando passava no SBT e sofríamos pela falta de TV por assinatura. Você pensava que iria terminar e lá pelo 876o capítulo, a Lolita de lábios carnudos, maquiagem brega e dublada pior ainda, anunciava a gravidez, fruto do chifre passado no milionário – e violento – marido com o galante jardineiro. Na época em que editava jornais pela madrugada, assistia as presepadas produzidas pela Televisa para rir e purificar o espírito tomado pelo estresse.

        Novelas, por mais demoradas, acabam e hoje estou livre delas. Todas. Sem exceção, porcarias que promovem o mau-caratismo, a criminalidade e torturam os bons costumes, que valorizo desde menino. Respeito e defendo qualquer opção sexual, mas não preciso sair na rua grudado aos beijos com minha mulher para ter assegurado o direito de ser heterosexual.

        A Copa no Brasil é uma tragicomédia sem os canastrões mexicanos que, alias, mandaram compatriotas. Eles estiveram por aqui e empataram com o Brasil em 0x0. Brasil x México virou clássico e nas últimas Olimpíadas, muchachos ficaram com o Ouro no prenúncio catastrófico do que aconteceria no Mineirão.

        Na verdade, o Brasil não jogou nada em nenhuma partida. Sua eliminação correta seria diante do Chile, a tarde do choro do nosso xerife, Thiago Silva, que se recusou a bater um pênalti. Líderes de verdade, Carlos Alberto Torres e Bellini teriam lhe dado um corretivo de munheca ali mesmo, à beira do gramado. Até Dunga aplicaria uns cocorotes no amarelão.

        As desgraças provocadas pela intervenção da Fifa na soberania de um país resultaram na demolição de patrimônio público e na construção de monumentos fadados ao fracasso, pela absoluta incompatibilidade com o espírito popular do futebol.

        Agora, surgiu uma nova. Semana que vem terá mais outra e até 2018, passando pelas Olimpíadas no meio de balas perdidas do Rio de Janeiro, a imprensa vai se fartar de notícia sobre vigarice de paletó.

        É o seguinte. Depois de uma batalha legal de quase 10 meses, o presidente da Associação de Futebol da Inglaterra (FA), Greg Dyke, devolveu um relógio de 23.814 dólares (aproximadamente R$ 62 mil na época do presente no ano passado) à Fifa e não enfrenta mais uma ação disciplinar por ter ficado com o objeto.

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        Dyke foi um dos 65 dirigentes internacionais que receberam os relógios Parmigiani de presente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) antes da Copa do Mundo do ano passado no Brasil.

        Ele alegou que não tinha noção de seu valor, que o guardou em uma sacola em casa e jamais o usou, mas quando foi informado que ficar com o mimo viola os regulamentos de ética da Fifa propôs doá-lo à instituição de caridade Breast Cancer Care, uma parceira da federação inglesa, como parte de uma iniciativa de arrecadação.

        Mas o dirigente acabou devolvendo o presidente à Fifa. “O senhor Greg Dyke devolveu o relógio Parmigiani da CBF”, informou a câmara adjudicatória do Comitê de Ética da Fifa em um comunicado.

        O Comitê de Ética (Ética, não se assuste) da Fifa determinou que os 65 relógios distribuídos pela CBF à dirigentes da entidade máxima do futebol deveriam ser devolvidos até o dia 24 de outubro do ano passado. O dinheiro gasto na compra dos ‘presentes’ irregulares – cerca de R$ 1,3 milhão, pelas contas da própria CBF – não voltará aos cofres brasileiros e terá que ser revertido em doações para instituições de caridade.

        Segundo a decisão da Fifa, todas as partes estavam erradas no caso. Em primeiro lugar, a CBF não poderia ter oferecido os presentes. Depois, nenhum dirigente poderia ter aceitado um “presente que tenham mais do que um valor simbólico”.

        Segundo a CBF, cada relógio da marca Parmigiani (não é o filé), teria custado 8.750 dólares (cerca de R$ 20.500,00). Pela Fifa, o relógio tem um valor de mercado de R$ 62.500. Há um conflito matemático.

        Segundo a Fifa, somados, os relógios valem de R$ 4,1 milhões.Isso é mais do que a Parmigiani, a fabricante do mimo oferecido aos dirigentes, pagou durante dois anos à CBF pelo contrato de patrocínio que tem com a entidade.

        O Comitê de Ética da Fifa considerou que o presente viola suas regras, e mandou os dirigentes devolverem os relógios, que serão vendidos, com o dinheiro indo para instituições de caridade.

        São os relógios da ética. Com o chapéu alheio. Mais um pouquinho de astúcia e os bons companheiros teriam sorteado apenas um presente, sem ligar para os métodos usados para arrematá-lo. O Big Ben, o gigantesco e lendário relógio londrino. Só ele, para contar direitinho em quanto tempo os probos senhores boleiros assassinam de uma vez uma cultura transformada em moeda podre.

        Rodada

        ABC x Baraúnas é motivado pelos resultados recentes alvinegros. O América pega o Santa Cruz fora de casa na tentativa de encostar no líder e aquecer mais a temperatura do clássico de domingo. O América tem um jogo a menos.

        No Alecrim

        Notícias desanimadoras de novo.

        Chateado

        O técnico Roberto Fernandes é um profissional acima dos padrões regionais. Tem personalidade, conhece o futebol e suas artimanhas, seu nome é respeitado no Nordeste. Nada a provar a ninguém. Mas anda muito aborrecido nas entrevistas. Repórteres e torcedores não merecem. Ele deve desabafar com seus jogadores.

        Há 30 anos

        O técnico Sebastião Leônidas perdia a paciência, entregava o cargo no ABC durante a péssima campanha no Campeonato Nacional de 1985. E no dia 14 de abril, era substituído pelo supervisor Antônio Galvão – eterno interino – que merece uma homenagem no Centenário do Clube.

        Empate

        O ABC foi a João Pessoa e, com vários nomes da casa, empatou com o vice-líder Botafogo (PB) em 2×2, público de 8.871 pagantes no Estádio Almeidão. Gols do ABC: Capanema e Arildo. Gols do Botafogo: João Carlos e Luís Fernando, que seria ídolo no Inter (RS) e encerraria a carreira no ABC em 1998, após contusão.

        Times

        ABC: País; Tiê, Luís Oliveira, Valdecir e Aluísio; Baltasar, Valério e Tião; Quinho, Arildo e Capanema (Jorge Demolidor). Técnico: Antônio Galvão. Botafogo: Jânio; Wagner Benazzi, Zito, Daio e Miro Oliveira; Vittor Hugo, Carioca e Luís Fernando; João Carlos (Escurinho), Miguel Amaral e Fernando Baiano (Mariano). Técnico: Chiquinho.

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          Sou grato, Roberto – Rubens Lemos

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          Roberto Dinamite, meu Quixote de infância, está fazendo hoje 61 anos de vida. Rejeitado e biografia rebuscada pela pífia passagem na presidência do Vasco. Tratam-no como Judas em Semana Santa e, de cartola, Roberto Dinamite está fora do meu time.

          Comigo, não à ingratidão, ao oportunismo e à humilhação pública ao jogador. O Vasco resistiu em anos de chumbo particulares, a Zico, pela garra e o instinto goleador de Roberto, enigmático no sorriso triste.

          Sozinho, cercado por cabeças de bagre, equilibrava os clássicos no Ex-Maracanã e construía vitórias inesquecíveis. Os 4×2 de 1979, com a arbitragem mandando Zico bater de novo um pênalti defendido por Leão, pênalti de carceragem. Adílio se jogou na área e o apito cantou para o Flamengo empatar. Depois, Roberto reparou o crime.

          Cito alguns exemplos que me tornariam um canalha juramentado se me associasse aos que arquivam Roberto Dinamite da história. Em primeiro lugar, é o maior artilheiro de todos os campeonatos brasileiros. Maior que os gênios exuberantes de sua geração.

          O Vasco passou conta de mentiroso, de 1970 a 1977 sem ganhar campeonato e Roberto Dinamite conduziu o timaço a uma campanha memorável, apenas uma derrota, para o America carioca. Antes, aos 20 anos, já oferecera ao Vasco um campeonato nacional, o de 1974, passando pelo Santos de Pelé, o Cruzeiro de Zé Carlos, Palhinha e Dirceu Lopes e o Internacional de Manga, Falcão e Carpeggiani.

          Na famigerada Copa da Argentina, a Copa do Peru de perna aberta, o Brasil não repetiu o fracasso da eliminação na primeira fase de 1966 graças ao gol de Roberto Dinamite contra os austríacos. Berrei feito um esqueleto de aula de anatomia.

          Em 1982, riscado por Telê Santana, Roberto Dinamite foi convocado no corte do jovem e brilhante Careca, ficou na reserva de Serginho Chulapa – lesa-pátria, Serginho Chulapa, grande zagueiro daquele Mundial e fez uma falta enorme ao time.

          Roberto Dinamite do gol mais repetido de todos os tempos na televisão brasileira. O lançamento do armador Zanata, a matada no peito, o chapéu no zagueiro Osmar Guarnelli e o voleio estufando as redes de Wendell no minuto final, virada de 2×1 sobre o Botafogo. Em 1976. Não me importa seguir a cronologia lógica, fundamental é soltar no computador as lembranças que solidificam Roberto Dinamite como ídolo eterno, distante do cartola.

          Poucos foram mal acompanhados quanto Roberto Dinamite. Obrigado a jogar com Ticão, Amauri, Zandonaide, Toninho Vanuza, Peribaldo, resistia, de lança nas chuteiras e nas cobranças de falta perfeitas, segundo a vítima mais nobre, o goleiro Raul, do Flamengo. Adiante, a companhia melhorou com Geovani, Arthurzinho, Tita, Elói, Jorge Mendonça, Cláudio Adão e o esplendor : Romário.

          Só o crápula de crachá esquece o gesto de Roberto Dinamite ao voltar do Barcelona praticamente contratado pelo Flamengo e preferir o Vasco, sua costela, retornando em goleada monumental contra o Corinthians por 5×2, os cinco, dele.

          Um título brasileiro e quatro cariocas, além de torneios internacionais famosos como o Tereza Herrera e o Ramon de Carranza, foram dados por Roberto Dinamite ao Vasco. Hoje, Roberto Dinamite não será homenageado pela inimizade com o atual presidente, Eurico Miranda.

          Cada um dos representantes do meu passado , solidários no martírio das decisões dominicais, que trate de agradecer a Roberto Dinamite pelo gol, pela razão de nascer, torcer e morrer Vasco. Roberto – em campo -, será(sempre) alegria e desabafo.

          O verbo

          Futebol sempre se conjuga no gerúndio. É dos ramos mais inseguros da vida. O paraíso vira calvário no resultado brusco. O ABC, depois do técnico Josué Teixeira, sem nenhum Messi ou Alberi, com simplicidade, demonstra ter encontrado o rumo da vitória aliada à autoestima. Outra convincente atuação. Tão ou mais importante que o resultado.

          Ordem correta

          Quem tem como objetivo sempre jogar bem, atinge o resultado. Quem só pensa no resultado abrindo mão dos conceitos corretos, mete a cara na retranca. O ABC de Josué é o que de melhor aconteceu nos últimos tempos. Embalou.

          Clássico

          O clássico de domingo América x ABC na Arena, medirá o pulso do campeonato. O jogo terá motivação distante há muito tempo.

          Emoções

          O ABC está bem, mas contra o América o beabá é outro. Ninguém é favorito.

          Arena

          Também informa a assessoria da Arena das Dunas em nota que 100% das ações pertencem a OAS Arenas S.A, uma derivada da empreiteira. E mesmo assim, qualquer proposta de compra e venda será submetida à avaliação do Governo do Estado, que empenhou o filé do nosso patrimônio por quatro jogos de Copa do Mundo.

          Noivas e forrós

          Para comprovar que a Arena está muito bem (obrigados fomos nós a engoli-la), a assessoria lista os eventos previstos até dezembro. Salão imobiliário, shows, apresentações circenses, corridas e exposições de carros, evento de forró das antigas (Gonzagão está satisfeitíssimo).

          Noivas

          Haverá até exposição para noivas. Brancas e radiantes. Tudo ótimo. A Arena é incompatível, mistura heterogênea apenas ao futebol. Pelo formato elitista. É megalópole do lucro erguida com dinheiro público.

          Torneio Início

          Chegava bem cedo, assim, 13 horas, sentava o traseiro na arquibancada e me deliciava com o Torneio Inicio, a festa de apresentação do Campeonato Estadual em jogos com 15 minutos em cada tempo e decididos nos pênaltis em caso de empate.

          Escanteios

          Quando começaram a dispensar os cartolas de calças de tergal e a substituí-los por boçais, até mesmo o Torneio Inicio foi perdendo o charme até acabar. Tiraram a disputa de pênaltis e incluíram a quantidade de escanteios como critério de desempate. Quem criou essa fórmula merece o Túmulo do Obtuso Desconhecido.

          Em 1973

          Comecei a frequentar futebol em 1976/77. Mas hoje é aniversário do Torneio Início de 1973, disputado a 13 de abril para 14.775 pagantes no Castelão (Machadão).

          Como foi

          Força e Luz 2×0 Ferroviário (gols de Elson e Rocha). Alecrim 0x0 Atlético (Alecrim nos pênaltis), América 2×0 Riachuelo (Gilson Porto e Gonçalves). O ABC eliminou o Força e Luz por 2×1, gols de Jailson (2) com o meia Elson descontando e na outra semifinal, deu América, eliminando o Atlético nos pênaltis após empate por 0x0. Na decisão, ABC 0x0 América. Gonçalves chutou para fora e o ABC ganhou o troféu por 5×4.

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            Matadouros – Rubens Lemos

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            Juro que faltou coragem para telefonar ao amigo Zeca Pantaleão, seridoense autêntico, ex-prefeito de Carnaúba dos Dantas e uma gargalhada de rajada de açude sangrando. Zeca é um daqueles caras que faz festa quando lhe reencontra, chama para sentar na mesa e oferece logo um saco de bolachas caseiras interioranas, deliciosas.

            Chorei sozinho, tenho andado muito reflexivo, por Zeca e sua mulher, Dona Tida. Os dois perderam um filho, João Henrique, num terrível acidente automobilístico na Semana Santa mais cruel dos últimos tempos. Até ultraleve caiu. O filho de Zeca estava no seu carro e bateu noutro. Com ele, morreram mais quatro pessoas. Todas as famílias merecem solidariedade.

            Acontece que Zeca cumpriu o revés do parto e anda postando imagens de infância do garoto num esforço inútil de saudade que abate os amigos. Eu iria dizer o quê a ele? Nem sei como será quando nos encontrarmos. Sei que Zeca Pantaleão nunca mais sorrirá como nos tempos em que recebia a mim e ao fotógrafo Ivanízio Ramos em nossas missões pela assessoria de imprensa do Governo do Estado.

            Nossas estradas são verdadeiros matadouros. E há gente perversa que fotografa corpos como o Abutre do recente filme sensacionalista. Ganhar com a desgraça é o destampar do odor pútrido de um caráter. Amanhã pode ser você, canalha que corre à beira da estrada mais preocupado com meio minuto trágico do que em prestar socorro aos agonizantes.

            Outro dia, foram trabalhadores do Governo do Estado indo a Mossoró. Se eu for exemplificar, escrevo três compêndios. Autoridade responsável por estrada anda de avião. Seja federal ou estadual. Há trechos tenebrosos, réplicas de vielas, atravessadas por mato crescido com as chuvas recentes.

            Especialistas debatem, engravatados, a falta de recursos para as estradas e a questão carcerária. Uma ação prática seria imitar norte-americano, nossa prática subalterna algumas vezes, outras necessária. Eles são os melhores mesmo.

            É botar preso de Caraúbas para ajeitar rodovias do Oeste, de Nova Cruz para cuidar do Agreste, de Mossoró para ser mão-de-obra naqueles lados, usar os “hóspedes” de Alcaçuz e Parnamirim para amenizar a situação no Grande Natal e imediações. Cada um com uma bolinha de chumbo na perna e escolta bem armada. Cada dia trabalhado, descontado da pena.

            Talvez assim, eles parassem de incendiar colchões, quebrar equipamentos públicos para que nós paguemos o conserto feito por empresas. Rebelião? O castigo deveria ser dormir no chão. Não sou um teórico ou técnico especializado nas questões penitenciárias. Sou prático. Da vida.

            Sou um pai de família aflito com a criminalidade e com o risco de morte cada vez maior que se tornou viajar pelas estradas do meu Estado. Tinha de ser solidário a Zeca Pantaleão em nome de todos os cadáveres cinicamente expostos pelos canteiros ensanguentados do Estado. O filho de Zeca Pantaleão não volta nunca . Palavras de conforto, são apenas confortáveis. Gestos e ações como banho de asfalto, duplicação e vias alternativas, seriam mais apropriadas.

            Glorioso de verdade

            Rogério Tadeu Romano

            Procurador da República

            Era um domingo frio e chuvoso, mas não se falava de outra coisa no Rio de Janeiro, que não a final entre Botafogo e Vasco da Gama. 119.482 torcedores foram ao estádio, algo hoje inimaginável.

            O Vasco da Gama investiu, contratando bons jogadores como Nado, Nei, dentre outros, e tinha no seu comando Paulinho de Almeida. No jogo do primeiro turno, venceu com justiça o Botafogo por 2×0. Era bom o time do Vasco, que contava com Brito (zagueirão tricampeão do mundo), Bougleux, Danilo Menezes (que foi ídolo, posteriormente, no ABC), Nado, Nei e Valfrido.

            Já o Botafogo tinha o melhor time da cidade e um dos melhores times do Brasil, que, na época, tinha no Santos de Pelé, no Cruzeiro de Tostão, suas melhores equipes.

            O Botafogo, no jogo final, usou bola tocada, alternância de bola profunda e incisiva.

            Roberto (um épico ponta de lança, que foi meu ídolo desde os tempos do juvenil e foi reserva de Tostão) abriu a contagem para o Botafogo aos 15 minutos e Rogério (um bom ponta direta que não jogou a Copa de 1970, por razões de contusão), aumentou para 2×0 aos 33 minutos do primeiro tempo. Aos 14 minutos do segundo tempo, Jairzinho marcou o terceiro e Gérson, o melhor em campo, fez o quarto gol, cobrando um tiro livre indireto de dentro da grande área, levando ao delírio a torcida, os jogadores em campo. No último gol, de rara beleza, Paulo Cesar fez o passe e Gérson a conclusão irrepreensível.

            Gérson, admirável como sempre, o craque do time desde 1963, com a contratação milionária que o Botafogo fez junto ao Flamengo, com a venda de Amarildo, era o organizador, distribuindo o jogo numa equipe de garotos em que pontificava a experiência de Leônidas, um dos melhores jogadores que vi jogar.

            Era uma equipe movida a talento e coração, com Carlos Roberto, Leônidas, Gérson, Jairzinho, Roberto, Rogério e Paulo César Lima (um craque). Dizia-se que, num comparativo, que o time do Botafogo era uma empresa moderna, bem administrada.

            Na direção, após a administração de Nei Cidade Palmeiro (que foi Desembargador do Tribunal de Justiça estadual e Professor de Sociologia da UEG), teve o Botafogo Altemar Dutra de Castilho, que ficou conhecido por negociar o passe de Gérson para o São Paulo, em 1969. Severino Xisto Toniato, na direção do futebol, dava continuidade aos trabalhos de Renato Estelita.

            Com o título, o Botafogo conquistava três torneios seguidos no antigo Estado da Guanabara, no período de 1967 e 1968 e ainda conquistaria a Taça Guanabara de 1968, pouco tempo depois. Depois titulo só em 1989. Mas isso é outra história.

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              ABC e América em novo astral – Rubens Lemos

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              Ninguém provocou ninguém nas redes sociais nas últimas horas. Só petista e tucano e tucano e petista, o que é um saco. Há muito tempo, ABC e América não brindam suas torcidas com vitórias de placar e futebol elásticos. Foram quatro gols americanos e apenas um do Baraúnas em Natal e um 4×0 alvinegro sobre o Palmeira de Goianinha.

              É sinal de bom astral. O ABC parece ter atingido a regularidade convincente. Não é o time covarde dos idos de Roberto Fonseca, que entrava para empatar, depois para não perder e, se fosse possível, numa jogada de sorte, marcar um gol ao acaso e vencer.

              O verdadeiro torcedor, sem intolerâncias e xenofobias, gosta de ganhar e de se deleitar com bom futebol. É o caso de quem vai assistir a um bom show musical. Zizi Possi, por exemplo, é garantia de voz e repertório de uma diva que parece desfilar de barco por Veneza. Linda cantando e levando o público a devaneios do passado.

              Quem vai a um rebolation de baile funk, quer mesmo é ver bunda de mulher se balançando e provar outras coisitas más. Más no sentido de prejudiciais e vetadas pela lei. Aquilo não é música, é ultraje ao bom senso e a cultura e apologia ao lixo produzido por gente sem talento zero à esquerda.

              O ABC está invicto em 2015. Passou a felicitar seu povo com a chegada do técnico Josué Teixeira. Ele contradiz o estereótipo do “professor” moderno e medíocre tantas vezes trazido a Natal para enganar clubes sob axilas gananciosas de empresários – pestes que devem ser banidas do esporte, com raríssimas exceções. Em tudo há exceções. Até em pavilhões prisionais. Muitas vezes, mata-se para se defender. É diferente de assassinar para roubar ou estuprar e depois mutilar a vítima.

              A chegada de Josué Teixeira não foi precedida de sirenes nem de holofotes. Ele é de pouco papo com o público externo e avesso a vaidades. Nesse comportamento entre o arredio e o observador meticuloso, deu um título brasileiro a um time do interior carioca, o Macaé, tão campeão da Série C quanto o ABC.

              O segredo de Josué Teixeira é não fazer mistérios. Lembra os velhos estrategistas que a rapaziada de Frasqueirão não acompanhou. Josué Teixeira é uma espécie de esfinge, do tipo de Elba de Pádua Lima, o Tim, uma raposa que virava jogos impossíveis, enxergava jogadores que os banais não viam e vencia campeonatos com times razoáveis.

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              Josué Teixeira simplesmente faz uso de suas convicções e escala quem acha melhor. E melhor: prestigia as categorias de base, humilhadas pelos pernósticos que traziam pencas de pernas de paus a tiracolo numa relação promíscua e duvidosa.

              Desde João Paulo, o ABC não se apresenta com tanta gente formada em seus times juvenis. Olho clínico, visão de lince, termos em desuso, cabem com propriedade no técnico do ABC que enxergou talento em Erivélton, um meia-esquerda sem autoestima e suplantado por precários como Jean Carioca (na segunda passagem), Tony e Erick Flores, para citar apenas três lamentáveis.

              O ABC está jogando um futebol simples, sem exageros esquemáticos, sem arrogâncias táticas. Parte para cima no toque de bola e vai superando seus adversários. Já foram três depois de Josué e nos três jogos, a Frasqueira saiu de campo satisfeita.

              O América vivia dias turbulentos depois da eliminação da Copa do Nordeste e do empate com o Palmeira em Goianinha. O América não teve sorte ao trazer dois jogadores que estavam mal no ABC: Júnior Timbó e Gilmar.

              Em compensação, viu a maravilha de partida do meia Daniel Costa, de novo barbudo, contra o Baraúnas. O segundo tempo do América pagou o ingresso do pequeno público presente na Arena das Dunas. Time avassalador, afinado e perfeito nos deslocamentos pelo ataque.

              O América é de Cascata, é de Max, é de Daniel Costa. E do zagueiro Flávio Boaventura. Perdeu Walber, quem sabe o melhor lateral-direito da região. O América retomou seu próprio controle, o mais importante. Novas batalhas virão e o desafio é a força do conjunto.

              União foi a marca que levou o América a feitos inesquecíveis, como os acessos para a Série A e a Copa do Nordeste de 1998. ABC e América vão bem e dizem obrigado. Precisam manter o ritmo e voltar a brigar no topo, que é o natural, é o nosso duelo secular.

              Amanhã

              O jogo de amanhã contra o Santa Cruz no Frasqueirão é um bom programa para abecedista sedento de boas novas. Sábado à tarde é convite para levar a família inteira, vizinhos e, para alguns, o prolongamento no barzinho. O domingo fica para o sono comatoso, cura da ressaca.

              Mesmo time

              Sem delongas, o ABC começa a partida com o mesmo time que iniciou quarta-feira. Josué falou, Josué já avisou.

              Bruno Luiz

              Mostrou personalidade de Clint Eastwood, o herói dos pistoleiros de grande área na estreia em Goianinha. Dois gols em minutos. Uma boa briga com Kayke. Um time com dois homens de área perde a leveza e a velocidade. Ou é um, ou é outro. Chiclete cuida de apavorar os zagueiros pelas laterais do campo.

              Sem Max

              Max, o Artilheiro do Brasil, trava uma disputa cabeça a cabeça com Robert, do Sampaio Corrêa (MA). Max com 15 e Robert com 14. Max, suspenso, desfalca o América diante do Globo, jogo importante para se aproximar da ponta da tabela do segundo turno.

              Olaria

              O Olaria hoje é lembrança, mas em 1974, montou um bom time para disputar o Campeonato Nacional. O líder era Roberto Pinto, meia-armador super campeão de 1958 pelo Vasco (RJ) e sobrinho do genial Jair Rosa Pinto, vice do mundo em 1950.

              América traça

              No dia 10 de abril de 1974, o América traçou o Olaria por 2×1. Washington abriu o placar, Antoninho empatou e o aguerrido Bagadão definiu o resultado aos 40 do segundo tempo. Apenas 429 testemunhas em São Januário.

              Times

              América: Ubirajara; Ivã Silva, Mário Braga, Djalma e Cosme; Paúra, Garcia e Washington; Almir (Ronaldinho), Bagadão e Mozart (Afonsinho). Olaria: Jorge Vitório; Moreira, Beto, Gilberto e Da Costa; Dirceu Alves(Carlos Antônio), Roberto Pinto e Mickey (Jair Pereira); Antoninho, Dejair e Jair.

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                Embaixador – Rubens Lemos

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                Esqueçam o que habló Dieguito. Maradona, no tempo presente, desfruta dos prazeres de Dubai, nos Emirados Árabes, meca do capitalismo que o contratou para embaixador de futebol.

                A fila andou na paixão de Maradona pelo seu ídolo Fidel Castro e as teses comunistas que o levaram a adotar a ilha aos pandarecos como sua segunda pátria e a discursar o ideário socialista no fervor surrado de um defensor da Baía dos Porcos.

                Uma dívida de 40 milhões de euros com o fisco italiano jogou a ideologia do gênio pela lateral, igual ao que ele fazia com os inúteis marcadores numa simples ginga de corpo ou no corte brusco de canhota freando uma arrancada mágica. Os árabes, bem comportados na comparação com fanáticos contestadores do Ocidente, adotaram Diego e ele está adorando.

                Há poucos dias, posou de quadriciclo, algo impensável nas ruas de Havana, superlotadas de sucatas soviéticas com as portas amarradas por cordas e mendigos pedindo esmolas a turistas na falência de um regime que começa a despertar para a realidade mínima ao flertar para namorar com o presidente norte-americano Barack Obama, o imperialista bonzinho.

                Maradona melhorou seu aspecto físico e anda falando menos bobagens. Seu ritmo era de uma asneira a cada meia hora e a inveja de Pelé ajudava a corroer sua alma afogada em química proibida. Suas últimas peripécias foram desaforos familiares.

                Primeiro, mandou embora, de Dubai para Buenos Aires, distância de 137 mil quilômetros, a última companheira, tão barraqueira quanto ele, Rocío Oliva. Sua acusação foi de uma gentileza do ator Richard Gere assediando Júlia Roberts no filme Uma Linda Mulher. Chamou Oliva de ladra e a despachou. Entre os passageiros, maldade de quem pensou que ela iria no compartimento de bagagens.

                Rocio Oliva implora pela reconciliação e quem também está louca para tirar uma casquinha dos luxos de Dubai é a anterior, Veronica Ojeda, que teria aproveitado uma quedinha do mito para levá-lo aos lençóis em Buenos Aires produzindo um novo filho e herdeiro. O sexto Maradoninha.

                O outro tiro, quem levou foi o ex-genro Kun Aguero, novamente chamado de “cagão” por ter trocado a filha de Diego por uma cantora. Basta alguém lembrar do assunto, que o antigo sogro furioso remete Aguero a necessidades fisiológicas e aumentativas. A uma diarreia Monumental de Nuñez.

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                Maradona, que nunca mais tratou dos “exemplos sociais” de Cuba, recebe 5 milhões de dólares ou 15 milhões de reais por ano. Mora numa mansão destinada a latinos, em condomínio fechado, participa, entediado, de programas esportivos de televisão e promove eventos diversos, de desfiles de moda a circuitos de tênis.

                Depois, volta para o refúgio de seis quartos, sala de cinema, garagem para dois “coches” (carros), dois motoristas, seis piscinas com hidromassagem além de uma suíte máster com sala de estar, varanda com vista para o mar e equipamentos tecnológicos de ponta assinados por Steve Jobs e pupilos.

                No documentário Amando a Maradona, aparece em casebres humildes, enaltecendo a democracia que permite senhoras negras servi-lo com chás milagrosos para a cura da dependência às drogas e a dançar o mambo apenas para ele, durante horas, sem reclamar de nada. Isso no filme gravado boa parte em Havana, a que perdeu de goleada para Dubai.

                Quando chegou aos Emirados Árabes pela primeira vez, Maradona foi o pior técnico do campeonato local, que, cá entre nós, teve no ex-atacante do América (RN),Ciel, o seu artilheiro. Demitido, atraiu o grupo de mecenas apaixonado pelo que ele fez em campo.

                Em campo. É onde devem estar o produto e o legado do jogador de futebol sem base intelectual. Sócrates tinha formação acadêmica, articulação política contraditória, mas a cabeça pensante da Democracia Corintiana, movimento libertário – e anárquico – dos anos 1980, chamava-se Vladimir, lateral-esquerdo.

                Romário, em sua verve finalizadora, afirmou, como ele próprio faz questão de dizer, que Edson Arantes do Nascimento – e não Pelé – “calado é um poeta”. Repetiu agora na edição especial de Placar, reforçando sua trégua com Edson a pedido de Zico.

                O próprio Romário, exemplar jogando e no Parlamento, já cometeu asneiras. Na célebre entrevista de quatro anos atrás ao jornalista Kennedy Alencar, disse que não poderia falar em Ditadura no Brasil, “por não ter vivido o período”.

                Maradona fora de campo ganha de qualquer um no quesito encrenca. Dentro, um tango à primeira paixão. Só ele, Garrincha e Romário empalmaram, cada um, sozinhos, uma Copa do Mundo. Maradona sem um Didi ou um Amarildo, um Bebeto ou um Taffarel para ajudar. Maradona em 1986 estava sozinho. Ao pó da letra. Ao pé, milongueiro, hipnótico e indomável.

                ChocoMax

                O artilheiro de pedra e alma vermelha, prolongou a páscoa até quarta-feira. Max comandou o chocolate contra o Baraúnas e está escrito em pergaminho: nasceu para o América.

                Golaço

                Zico, se viu a falta e o golaço de Daniel Costa, assinaria com a caneta dourada dos ungidos.

                Timbó

                Imagine que a surdez houvesse me atingido sem piedade. Somente no intervalo, quando a repórter da televisão anunciou que ele havia saído, soube que Júnior Timbó estivera no gramado da Arena das Dunas. Não adianta. É insistir no que não rende mais, no que foi uma chuva temporã dois anos atrás.

                Camarão alvinegro

                O ABC traçou o Palmeirinha ao alho, ao óleo no tempero do técnico Josué Teixeira. Ritmo avassalador no primeiro tempo e nova exibição primorosa de Erivélton, o camisa 10 que, nas mãos retranqueiras recentes, seria jogado aos confins de times de beira do Rio Solimões.

                Otimismo

                Uma onda inegável de otimismo toma conta do torcedor do ABC. É comparar. O ABC vem desfazendo cada trapalhada dos últimos tempos. Na bola. Futebol no toque e na simplicidade. Fácil.

                Taça de Prata

                Era o nome da Série B em 1980. No dia 9 de abril, o ABC venceu o Uberaba (MG) por 3×2, dois gols de Baltasar e um de Aldeir (contra). Gil e Edinho descontaram para os visitantes. Público de 4.699 pagantes no Castelão (Machadão).

                Times

                ABC: Carlos Augusto; Dão, Carlão, Cláudio Oliveira e Carpinelli; Baltasar, Danilo Menezes e Beto; Jorginho (Paulinho), Cid e Cabral. Técnico: Servílio. Uberaba: Diron; Carmelito, Gilvã, Tim e Aldeir; Vandinho, Enéias (Cabeça) e Caiada; Hilton, Gil e Baco (Edinho). Técnico: Aníbal Saraiva.

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                  Bruxa, luz e silêncio – Rubens Lemos

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                  Ele acendeu a luz de alegria em um palco de trevas. A seleção brasileira em preparativos para a Copa do Mundo de 1974, antecipava em seu conturbado ambiente a decadência indiscreta da geração tricampeã mundial extirpada pela natureza ou a teimosia do técnico Zagallo.

                  Marinho Chagas, menino de loiras madeixas, empolgado com uma geringonça eletrônica moderna para os anos boca-sino, um walkman, sucesso trazido dos Estados Unidos, sorria a plenitude dos seus 22 anos de sucesso fulminante e recebia do repórter do Jornal O Globo, a notícia lógica para o país inteiro e adiada pela tenebrosa comissão técnica da CBD.

                  Depois do vexatório empate contra os mexicanos na primeira partida de uma série de intermináveis amistosos que serviram para inexplicáveis mexidas no time, ele assumiria a camisa 6 de titular da lateral-esquerda do Brasil substituindo a Marco Antônio, do Fluminense, remanescente do Tri e em má fase. Marinho Chagas começaria a partida contra a Tchecoslováquia no Maracanã, o ex, o Maraca popular, dia 7 de abril de 1974.

                  E exultava, tão logo recebia a escalação confirmada por Zagallo, rendido ao seu futebol moderno e encantador, que preterira no Flamengo ao escolher o obscuro Mineiro para a vaga aberta em 1972. O Botafogo levou Marinho Chagas, um garoto vindo do Nordeste com personalidade e inocência misturadas no cálice dos gênios tortos inventados por Garrincha.

                  Quando soube que jogaria, Marinho Chagas declarou, sem a polidez à qual jamais foi apresentado em vida:

                  – A chance é ótima e ele (o técnico) não iria mudar por mudar. Vou entrar para tornar o time ofensivo e jogar o mesmo futebol de sempre, sem medo. Vou ser titular.

                  Sóbrio, Marco Antônio sentenciava a convicção de ótimo jogador de clube e nem tanto vestido com a camisa canarinho. Em 1970, titularíssimo, perdeu o lugar para o esforçado Everaldo, melhor marcador, mas sem vestígio de sua elegância. Seria assim em 1974, também. E Marinho Chagas era muito melhor que Everaldo.

                  A semana do jogo contra os tchecos seguia conturbada apesar da paz do Retiro dos Padres, onde a primeira leva de convocados estava concentrada. Zagallo cortava jogadores como um alfaiate do Panamá. Convocava como força militar em guerra e não definia 11 convincentes.

                  Rivelino, o craque do time, alegou dores na coxa e anunciou que não jogaria. Estava chateado com o revezamento pretendido por Zagallo com o admirável Ademir da Guia, nome, sobrenome, futebol de craque e temperamento de budista.

                  Rivelino não foi ao banco nem Paulo César Cajú, que perdeu a camisa 11 para Edu, do Santos. A imprensa estranhava a saída do impecável – e intragável goleiro Leão, substituído por Wendell, companheiro de Marinho no Botafogo. Leão acatou carrancudo a reserva. Carlos Alberto Torres dispensado, Gerson, vetado pelos cartolas e Clodoaldo ameaçado, sem contar com o não rotundo e insistente de Pelé, transformavam a constelação de 1970 numa miragem cada vez mais distante.

                  Os tchecos, ainda no gelo da Cortina de Ferro, trouxeram um goleiro impecável: Vencel, que fechou a trave no primeiro tempo. João Saldanha, sem disfarçar a satisfação com a agonia de Zagallo, que o substituíra pouco antes da Copa anterior, reclamava da falta de criatividade.

                  O Brasil tinha apenas dois tricampeões do mundo entre os titulares no segundo e tenso amistoso: O quarto-zagueiro improvisado Piazza e o atacante Jairzinho, sem o ímpeto que o fizera Furacão nos gramados cercados de sombreros reverentes.

                  A ala esquerda brasileira, formada por Marinho Chagas e Edu tornou-se a única opção agressiva de Zagallo e as tentativas de ataque por ali ficaram. Marinho, atrevido, incursionava pelo meio-campo e compensava a timidez de Ademir da Guia, que jamais fora titular nos anos dourados por perder na bola e no grito para o papagaio Gérson.

                  A vaia tomava conta do estádio com 80.552 pagantes aos 43 minutos do segundo tempo. O moleque suburbano de Natal deu um drible de calcanhar no volante Kuna, tocou a Carpeggiani, hábil armador do Internacional (RS) que lançou pelo alto a Jairzinho. O novato deu o passe e correu para receber.

                  A vasta cabeleira black power de Jair escorou a bola para o chute venenoso, de chapa, a parte interna do pé de Marinho Chagas, que superou o inexpugnável Vencel e estufou as redes do Maracanã, correndo de braços abertos até as gerais, onde se concentravam os humildes expulsos do futebol.

                  O Brasil ganhou de 1×0, faz 41 anos e Marinho Chagas berrou no grito impresso nas manchetes. Hoje é 7 de abril e silêncio. Marinho Chagas dorme para sempre o sono das crianças de anarquia quando voltam para a casa abatidas depois do sofrimento.

                  1. O Brasil jogou com Wendell; Zé Maria; Luís Pereira, Piazza e Marinho Chagas; Carbone, Carpeggiani e Ademir da Guia; Jairzinho, Mirandinha (Leivinha) e Edu.

                   

                  Rodada

                  A rodada de amanhã começa com América x Baraúnas, jogo importante pelo empate rubro em Goianinha. Hora de retomar o rumo e pontuar em casa.

                  Pressão

                  Pressionar o goleiro Busatto além da conta só vai prejudicar o América. Ele vem errando, mas não só ele.

                  Kayke

                  A vinda de Erick, do Bangu, não deve tirar a titularidade do atacante Kayke, acertando seu prumo no ABC.

                  Recado

                  “Currículo é no Departamento de Pessoal, comigo o que vale é rendimento”, recado mais direto impossível do técnico alvinegro Josué Teixeira, deixando claro que joga no seu time quem mostrar qualidade. É um bom caminho.

                  Goianinha

                  As duas últimas vitórias não devem fazer o ABC chegar eufórico a Goianinha. O empate com o América atiçou o Palmeira, embora tenha ocorrido menos pelos seus méritos e mais pela apatia do adversário.

                  Fuga

                  A segunda maior fuga de presos do Rio Grande do Norte reforçou o conhecimento e a firmeza do juiz de Execuções Penais, Henrique Baltasar dos Santos. E ainda houve quem tentasse menosprezá-lo. Alcaçuz (aí quem escreve sou eu), é um queijo nada suíço cheio de ratazanas para escapar.

                  Sistema

                  O “sistema”, como diria o Capitão Nascimento em Tropa de Elite, é perverso e não é de hoje. Os túneis cinematográficos de um presídio podem até ser construídos por acaso. Em filme de ficção científica. Sem falar nos celulares “invisíveis”.

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                    Sem-teto nem futebol – Rubens Lemos

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                    O Guarani de Campinas (SP) perdeu seu estádio, o Brinco de Ouro da Princesa, arrematado por empresários em leilão por 105 milhões de reais. Dirigentes incompetentes arruinaram o clube que acaba de completar 104 anos de fundação e foi batizado em homenagem à obra-prima “O Guarany”, do compositor e maestro Carlos Gomes.

                    O artista refinado e bigodudo se contorce de vergonha em sua tumba. O monumento deve ser demolido para virar shopping center. O fim de um estádio é a eternidade do luto no futebol.

                    Estive na porta do Brinco de Ouro da Princesa, nome poético e inspirador de craques e paixões em dezembro de 1978, pouco antes de um clássico contra a Ponte Preta, um “derby” de arrepiar, Guarani campeão brasileiro e a Ponte com três jogadores do sisudo escrete que fora à Copa da Argentina: o goleiro Carlos e os zagueiros Oscar e Polozi.

                    Ganhei camisetas dos dois times, vendidas por camelôs, mas fui proibido de ver a partida, pela rivalidade acirrada entre as torcidas, duas representações franciscanas, comparadas à barbárie atual.

                    A viagem, a bordo de uma Brasília, até hoje é a grande aventura de minha infância. Apoiando ativamente o candidato a senador do MDB, empresário e oito anos depois governador Radir Pereira- era o vice de José Agripino que renunciou para ser eleito pela primeira vez ao Senado – meu pai pôs a família no carro e saiu por aí, curtindo a ressaca da derrota eleitoral para Jessé Feire, da Arena, partido do Regime de Exceção.

                    O velho Maracanã, o das imagens de cinema do Canal 100, pude conhecer num Fla x Flu de Zico enfrentando Marinho Chagas, esplêndido (também) no tricolor carioca. Recordo as estradas do Brasil e minha vida passando, devagar, no ritmo pacato das cidades e vilarejos que percorremos.

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                    O Guarani assombrava o Brasil comandado por um magérrimo e visionário camisa 10, Zenon e apresentava o repertório de um dos seus mais hábeis e implacáveis artilheiros: Careca, que formaria com Diego Maradona, um luxo de dupla de ataque no Nápoli da Itália na década seguinte.

                    Mataram as duplas de ataque. O ponta-de-lança e o centroavante, Pelé e Coutinho, Dirceu Lopes e Tostão (improvisado), Zico e Nunes, Arthurzinho e Roberto Dinamite, Hélcio Jacaré e Santa Cruz, Marinho Apolônio e Aloísio no América, Alberi e Jorge Demolidor, Marinho Apolônio e Silva no ABC.

                    Um preparava, o outro concluía. Ambos finalizavam, porque o meia-atacante carregava no instinto e nos pés o faro do goleador recheado pela técnica na literatura do passe. Até em campeonato de botão, o ponta-de-lança ofuscava os outros.

                    O Guarani com Careca formou duas ótimas parcerias. A primeira, a do título brasileiro, com Renato Pé-Murcho, clássico, mas sem vocação para bater a gol. A segunda, com Jorge Mendonça, superlativo na articulação e no arremate, que substituiu Zico na Copa da Argentina por ordem expressa do Almirante Heleno Nunes, presidente da Condeferação Brasileira de Desportos(CBD). O almirante abusou da patente para escantear o técnico oficial, o Capitão Cláudio Coutinho.

                    Escalo, sem ressalvas, dois timaços do Guarani, exclusivos de quem vestiu a camisa amarela quando impunha respeito. Meus dois times venceriam o de Dunga e do solitário astro Neymar. Garanto. A importância histórica do Guarani nos primeiros onze: Wendell; Ricardo Rocha (começou na lateral-direita), Júlio César (Copa de 1986), Amaral e Cássio; Zé Carlos (o do Cruzeiro dos anos 1960), Zenon, Renato Pé-Murcho e Jorge Mendonça; Careca e Evair.

                    Os reservas não perderiam em qualidade: Martorano (no banco para Gylmar no Sul-Americano de 1959); Zé Teodoro, Wilson Gottardo, Andrey e Zé Mário; Mauro Silva, Neto e Djalminha; Amoroso, Luizão e João Paulo. Boiadeiro, meia campeão no Vasco e no Cruzeiro, craque, seria o 23o.

                    Até a década de 2000, quando começou a cair nos tentáculos dos empresários ou atravessadores e a acumular calotes na Justiça do Trabalho, o Guarani era grande. Sua biografia construída no amor, sacrificaram na ganância.

                    O Guarani, hoje na Série C do Brasileirão e na Segundona Paulista, é um sem-teto a caminho do cemitério da bola. Dinheiro mal aplicado, incompetência e pedantismo. O tripé composto de picareta, pancada e morte da tradição, artéria vital do futebol.

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