Chance e obrigação – Rubens Lemos

O ABC pretende dar uma chance ao atacante Dênis Marques, sua teórica principal estrela para o jogo decisivo contra o América Mineiro, sábado, no Frasqueirão.

Chance, uma conversa. Dênis Marques, se estiver bem, tem obrigação de justificar o salario que recebe sem fazer nada no ABC jogando e marcando gol, sem que para isso precise ser adulado como uma miss de belas ancas. Ancas ficaram para trás, lá para trás, como o respeito à camisa.

Dênis Marques, outro dia, apareceu, em preguiça de fim de tarde em plena beira de praia de Ponta Negra, bermudão, garrafa de cerveja na mesa, chinelão de borracha selando o comportamento diminutivo que vem tendo com o ABC.

Fora a partida contra o América quando marcou os dois gols no primeiro turno (2×0), Dênis Marques passou um tempão cozinhando o alvinegro e esperando propostas de outros times para jogar a Série A, uma ficção provada pela falta de interessados de verdade.

O ABC tem de chamar Dênis Marques aos carreteis, expressão dos meus avós que definia botar moral, impor respeito, botar ordem na casa e dizer a ele que está na hora de acabar com descanso e entrar em campo.

Com bola para entrar no clube seleto dos grandes artilheiros, de perícia e de comportamento, Dênis Marques parece engordar o subsolo dos enganadores que tanto mal fizeram ao alvinegro.

Do jurássico Zé Roberto, ex-Corinthians, nos anos 1970, a Mirandinha, que jogou Copa do Mundo em 1974, passando pelos mais recentes e tenebrosos Washington, o W9 e Lucio Curió. Dênis Marques tem futebol. Não basta. É preciso mostrá-lo. E a hora é agora.

Desafio do América

O Santa Cruz enfiou 5×1 no Vila Nova e está bem perto de voltar para a Série A. O Santinha é o adversário do América no sábado, um complicador a mais para o time rubro. O jogo é em Recife que estará vestida de coral, dançando frevo e decorando versos de Capiba a semana inteira até o embate decisivo, para os dois.

Incrível a recuperação do Santa Cruz. Humilhado na Série D, foi costurando a ressurreição e eliminando obstáculos, empurrado pela massa alucinada e empolgante, capaz de juntar mais gente em jogos de terceira do que nos duelos classificados como de primeira divisão.

O time do Santa Cruz não tem nada de espetacular. Seu goleiro é Tiago Cardoso, reserva do reserva no ABC no triste ano do rebaixamento em 2009. Não por culpa dele. Tiago Cardoso é melhor que os dois prediletos de então: Paulo Musse e Ranieri. O Santa Cruz tem um atacante esquecido nas intrigas paroquiais do ABC: Léo Gamalho, hoje um ídolo regional.

É na empolgação do rival que o América pode pregar sua peça e voltar com os pontos (mais do que) necessários. É jogar com frieza, suportar os minutos iniciais, aproveitar brechas, obedecer a um homem que conhece Recife, suas emoções, seus mistérios e seus clássicos como poucos: o técnico Roberto Fernandes.

Fabinho

O polivalente Fabinho do América sofre com a situação do clube que simboliza desde a grande temporada de 2012 e se mostra disposto a atuar o tempo inteiro contra o Santa Cruz, mesmo ainda machucado. Eis a diferença do jogador incorporado ao cidadão.

Oliveira Canindé

Agora no Santa Cruz, o técnico Oliveira Canindé tem dado declarações tolas e inoportunas sobre sua demissão do América. Quando era para falar, ele não falou. A hora faz o oportunismo associado ao ressentimento.

Acesso

O América Mineiro ainda sonha com o acesso e vem pra cima do ABC.

Lei do Esporte

O governo federal deve acrescentar novos itens ao projeto da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, em tramitação na Câmara, após acerto em reunião nesta quarta-feira (29) do Ministério do Esporte com o Bom Senso FC, grupo que defende mudanças no futebol brasileiro.

Mudanças

Dentre as alterações acordadas estão a criação de um comitê de acompanhamento da aplicação da lei dentro da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e um escalonamento de punições para regras descumpridas, como atraso de salários. Neste caso, o clube começa sendo notificado e pode até ser rebaixado, se houver atraso de salário por um ano.

Consenso

“Vamos encaminhar à Casa Civil as propostas em que tivemos consenso para, depois que o governo autorizar, acrescentar ao projeto de lei”, afirmou o secretário nacional do Futebol e Defesa dos Direitos do Torcedor, Toninho Nascimento.

Caloteiros rebaixados

O ponto principal do projeto, porém, é a renegociação de dívidas dos clubes, estimadas em um total de R$ 4 bilhões atualmente. O clube que descumprir as regras perde o direito de pagar a dívida com condições especiais e também não poderá receber dinheiro público ou se beneficiar de benefícios fiscais por dois anos, contados da rescisão do contrato.

Efeitos imediatos

A reunião que discutiu novos pontos do projeto não teve a presença de representantes dos clubes. Apesar de o projeto já estar em tramitação e pronto para votação no plenário, o Ministério do Esporte prevê que enviará as mudanças antes da aprovação do projeto, para que elas já sejam contempladas.

Massacre

No dia 30 de outubro de 1980, a seleção brasileira de Telê Santana acertava o pé, calava os críticos e partia confiante para o Mundialito do Uruguai e as Eliminatórias para a Copa da Espanha. O país, com o humorista Jô Soares à frente, cobrava a escalação de um ponta-direita. O Brasil não tinha um camisa 7 digno de ser titular da seleção naquela época. Renato Gaúcho, de quem Telê nunca foi simpatizante, viria três anos depois.

Zico e Zé Sérgio

O Brasil goleava o Paraguai por 6×0 – hoje é jogo imprevisível – no tapete mágico do então modelar Estádio Serra Dourada em Goiânia, que recebeu 59.050 pagantes. Zico fez dois gols, Sócrates, Luisinho, Tita e Zé Sérgio completaram a goleada. Zico e Zé Sérgio foram escolhidos os melhores em campo. Zico foi para a Copa, Zé Sérgio nem na reserva esteve.

Times

O Brasil jogou com Carlos (Marola); Edevaldo, Oscar, Luisinho e Júnior (Pedrinho); Batista (Pita), Cerezo e Zico (Renato Pé-Murcho); Tita, Sócrates (Reinaldo) e Zé Sérgio. Técnico: Telê Santana. Paraguai: Fernández; Solalinde (Escalante), Paredes, Torres e Torales; Osório, Miño (Florentin) e Saturnino; Arrua (Pedro Lopez), Michelagnoli e Bastos (Espínola). Técnico: Ranulfo Miranda.

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    Menino liberto – Rubens Lemos

    Quem suporta engarrafamento na Avenida Hermes da Fonseca nas imediações do Quartel do Exército merece quadro no salão da Academia Brasileira de Paciência. É sensação de elevador enguiçado em pleno asfalto. De estresse e falta de socorro.

    Há 10 dias, de passagem demorada pela loucura no trânsito – nunca diga a ninguém que chega em 10 minutos a qualquer lugar de Natal -, o sufoco de parecer dentro de uma lata de sardinha gigante, me obrigou a ver de longe uma partida de futebol soçaite dos Jogos Escolares do Estado.

    Sol já havia baixado e pelo padrão dos uniformes, se enfrentavam um colégio particular e outro de subúrbio, roupinha bem humilde, garotos franzinos contra verdadeiros mastodontes precoces de academia de ginástica. O carro em que estava, parou – ou teve que ficar imobilizado no lado esquerdo do campo que dá para a avenida.

    Escolhi um menino canhoto de meião arriado para observar. O cara que joga soçaite geralmente se dá bem se for razoável em futsal – ou futebol de salão, como se convencionava chamar nos idos de craques sobrando. O piso é duro e facilita o toque de bola.

    O cara mirrado era do time de azul, um azul mais para Uruguai do que para Cruzeiro (MG) de tanta lavagem do material surrado. O seu marcador, uma espécie de dinamarquês no forró, enorme e desengonçado, vestia Nike, abusava dos trancos e o moleque fugia, feito um saci vesperal.

    O camisa 11 da camisa azul desbotada deu vida aqueles 15 ou 20 minutos de espera. O grandão vinha como um caminhão pesado, ele balançava, abusava da doce trapaça da finta seca, do toque ligeiro, até tomar uma peitada e cair. Seu técnico protestou, pediu um amarelo e o árbitro, claro como sendo a treva do futebol de hoje, optou pela força. Mandou o lance seguir.

    O magrelo saiu do campo carregado pelos colegas. Me deu enorme vontade de xingar seu marcador ruim de bola. Queria aplaudi-lo, dizer a ele que continuasse a jogar daquele jeito, desafiando o perigo, o congestionamento físico desigual. Menino da liberdade. Abrindo caminhos.

    Desfalques

    Exceto o versatile Patrick, o lateral Michel Benhami e o zagueiro Samuel não podem ser considerados desfalques graves para o jogo do ABC contra o América de Minas Gerais no Frasqueirão.

    Numeração

    Hoje, quem sai e quem entra se diferencia tão somente pela numeração da camisa. Tanto que o meia Rogerinho, que faz o que quer com o clube, pode ser o Messias na reta final para a permanência na Série B.

    Preciso

    Preciso o técnico Roberto Fernandes quando calcula em 12 pontos a necessidade do América para não cair. Três vitórias em casa e mais três pontos fora. Na hora da decisão, o pulso firme e o histórico de chegada de Roberto Fernandes irão contar. Claro, se o time colaborar e resolver jogar um pouquinho de futebol.

    Nazarenão

    Se for para escolher entre o Nazarenão, em Goianinha, e o Barretão, em Ceará-Mirim, para o jogo contra o Icasa – decisivo- é certo que o torcedor vai preferir sua segunda casa, o Nazarenão. Que tem o vermelho do América em sua simples arquitetura agreste.

    Melhor do mundo

    A Fifa irá anunciar no próximo dia 1º de dezembro os três jogadores finalistas à Bola de Ouro, sendo que a decisão final sobre o vencedor a ser eleito está nas mãos de capitães e técnicos de seleções nacionais masculinas, assim como na de jornalistas escolhidos pela France Football, revista que organiza a premiação em conjunto com a entidade que controla o futebol mundial.

    Os candidatos

    Os 23 finalistas à Bola de Ouro da Fifa, divididos pelos seus respectivos países, são os seguintes: Toni Kroos, Philipp Lahm, Thomas Müller, Manuel Neuer, Mario Götze e Bastian Schweinsteiger (Alemanha); Gareth Bale (País de Gales); Karim Benzema e Paul Pogba (França); Diego Costa, Sergio Ramos e Andres Iniesta (Espanha); Thibaut Courtois e Eden Hazard (Bélgica); Cristiano Ronaldo (Portugal); Angel Di Maria, Javier Mascherano e Lionel Messi (Argentina); Zlatan Ibrahimovic (Suécia); Neymar (Brazil), Arjen Robben (Holanda), James Rodriguez (Colômbia) e Yaya Touré (Costa do Marfim).

    Técnico

    Já os nomes concorrentes ao prêmio de melhor treinador, divididos por sua nacionalidade/clube e/ou seleção, são os seguintes: Carlo Ancelotti (Itália/Real Madrid), Antonio Conte (Itália/Juventus/seleção italiana), Pep Guardiola (Espanha/Bayern de Munique), Jürgen Klinsmann (Alemanha/seleção dos Estados Unidos), Joachim Löw (Alemanha/seleção alemã), Manuel Pellegrini (Chile/Manchester City), José Mourinho (Portugal/Chelsea), Alejandro Sabella (Argentina/seleção argentina), Diego Simeone (Argentina/Atlético de Madrid) e Louis Van Gaal (Holanda/seleção holandesa/Manchester United). Faltou, certamente por lapso, Felipão dos 7×1.

    Palpite

    No Departamento de Palpite, Passe Livre torce por um alemão, se o critério for a Copa do Mundo: O goleiro Neuer, por exemplo, foi um monstro. Ou o meia Toni Kross. Pelo conjunto da obra, James Rodríguez, o colombiano fulgurante na Copa do Mundo e maravilhoso na condução do Real Madrid. Na falta de convicção plena, Messi que é uma senhora carta de seguro. Cristiano Ronaldo entra pela fama.

    Segundo turno

    Há 28 anos, o América vencia o Alecrim por 2×0 e levava o segundo turno do Campeonato Estadual de 1982, gols de Severinho e Curió no Castelão (Machadão). Público pagante: 8.020 torcedores. Arbitragem de Afrânio Messias que expulsou o meio-campista Edmo, hoje comentarista esportivo, à época no Alecrim.

    Times

    América: Rafael: Saraiva, Ivã Silva, Lúcio Sá e Vassil; Baltasar, Gilson Lopes e Júnior (Norival); Curió, Silva e Severinho (Didi Duarte). Técnico: Caiçara: Alecrim: Sérgio Maria; Ronaldo (Gonzaguinha), Elói, Cláudio Oliveira e Luís Antônio; Hélio, Badú (Alberto Leguelé) e Edmo; Haroldo, Odilon e Djalma. Técnico: Ivo Hoffmann.

    Ao esquecimento

    O resultado eleitoral fez um homem matar outro em São Francisco do Oeste, na Tromba do Elefante, quase 400 quilômetros de distância da capital. Os dois sentenciados ao esquecimento. Um, ao inexorável do túmulo. O outro, ao falido sistema carcerário onde vai ter aulas de criminalidade. Tudo porque um votou contra e o outro não gostou.

    Intolerância

    Nem mesmo na disputa de 1982, a nível estadual, tampouco na campanha de Collor contra Lula em 1989, os níveis de intolerância foram tão graves. Viscerais. Muito menos nas camadas pobres. Bem mais em quem “forma opinião”. Ou deforma. Quem ganhou, ganhou, quem perdeu, perdeu, a vida segue com relações pessoais dilaceradas.

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      Sotaque e ataque alemão – Rubens Lemos

      A Alemanha andou perdendo da Argentina no amistoso de setembro por 4×2 e os pelegos do contra saíram a vociferar: havia sido mesmo um acidente a goleada de 7×1 sobre o Brasil na Copa do Mundo. A Argentina botara os chucrutes no devido lugar e corrigira um lapso de superioridade temporária.

      Balela. Naquele amistoso, os alemães não tinham nada a ganhar, nada a disputar, não estavam competindo e bocejavam em HD Digital. Sem demérito para a atuação irrepreensível do narigudo meia Di Maria. Os alemães nasceram para a guerra, a disputa, a busca do topo.

      Desde que o Bayern de Munique arrasou o Barcelona pela Champions League, a nova ordem do futebol mundial estava sendo estabelecida, para ira de quem insiste no passionalismo ufanista e apalermado aos carrinhos de volantes de pé torto e passe cego.

      O jogo marcial, disciplinado, adquiria variações ousadas, buscava e alcançava o ataque em estocadas bem articuladas, em tramas envolventes que só víamos em campos da sudamérica em priscas eras.

      O futebol alemão voltava a mandar no mundo, preservando a tenacidade dos campeões de 1954, humilhados antes e demolidores do escrete húngaro de Puskas no Milagre de Berna (Suíça).

      Aquele time devolvia ao país a autoestima arrasada pela Segunda Guerra Mundial demonstrando que a fibra e a paz formam uma combinação de luz e glória. A Hungria contava com a fama e a musicalidade de um estilo ofensivo e sufocante. A Alemanha, a resistência e a valentia, componentes fundamentais na sua derrota nos campos de onde foram varridos Hitler e sua corja.

      A Alemanha dominou o mundo da bola, separada pelo Muro de Berlim e a Guerra Fria entre 1974 e 1978, comandada pela liderança a de Beckenbauer, o Homem Múltiplo, líbero, volante, meia-armador, gênio. Apoiado pelo criativo meia Wolfang Overath, uma mistura cadenciada e lúdica de Ademir da Guia e Rivelino, brasileiros reunidos num só corpo de classe.

      O título de 1990 premiou a seleção mais competente da pior Copa do Mundo de todos os tempos. Claro, existia Matthaus, o Lothar das arrancadas e dribles seriais, municiador de uma das principais duplas atacantes do fim do século passado: Klinsmann e Voller.

      Em 2014, a liberdade vestiu o corpo e a alma alemã na Copa do Mundo superfaturada e desenhada para o choroso Brasil eliminado na mais vergonhosa derrota desde Charles Miller. A Alemanha uniu a força à graça e soube mostrar arte sem jamais abrir mão da velocidade pragmática e da eficiência como meta.

      Venceu no Mineirão e superou o monstro Messi no Maracanã com sobras e méritos. É o melhor futebol do mundo. O Bayern de Munique, treinado pelo poeta Pep Guardiola, o reinventor do balé-bola no Barcelona, esnoba a prova da superioridade. Ganha de quem se atrever a enfrentá-lo.

      Pobre Roma de tantas tradições. Devastada Roma de gols como de fogo na tirania do imperador Nero da Antiguidade. Moderna Roma triturada por uma Divisão Panzer sem impor pavores e incendiando de gols o adversário tradicional e inerte. Foi há poucos dias, pela Liga dos Campeões. Placar de um hipotético e pretérito Brasil x Arranca Toco Futebol Clube. Brasil com metade do time de 1958 e a outra metade, a do Tri mais Romário.

      O Bayern de Munique enfiou 7×1 e a sensação da Roma deve ter sido a do Brasil ao terminar o primeiro tempo do tenebroso 9 de julho do massacre de Belo Horizonte. O Bayern transformou um placar arrasador numa normalidade assustadora, prova de domínio incontestável em sotaque e ataque alemão.

       

      Conta simples

      Separados por cinco pontos, ABC e América devem trabalhar com a calculadora impulsionando seus times. Respeito quem aprecia, mas não vou muito nesse negócio de percentual, de projeção de site sobre quem cai e quem fica.

      Tabela

      O importante é olhar a tabela e tratar de vencer. O ABC, para se garantir, joga – na sequência -, com o América de Minas Gerais (casa), Vasco e Portuguesa (fora), Ceará (casa), Vila Nova (fora) e encerra contra o Bragantino em Natal. Nove pontos inegociáveis no Frasqueirão. Sem contar que a Lusa está rebaixada e mesmo no Canindé, seria uma mangaba, caso o ABC fosse regular.

      América

      O América está com 33 pontos e sábado vai a Recife encarar o Santa Cruz, para quem perdeu no primeiro turno na Arena das Dunas. Depois, obrigação de fazer seis pontos em Natal contra Boa Esporte e Icasa. Depois, a provável campeã Ponte Preta em Campinas, depois o Náutico em Natal e o Paraná em Curitiba encerrando a campanha. O América precisa mais do que os nove pontos de mandante.

      O certo

      É que os dois representantes potiguares, caso escapem, devem mudar de postura no próximo ano ou desistir da Série B. Montar times no primeiro semestre, ainda que seja caro. Mas não é tanto. Basta trazer cinco que resolvam do que 30 barangas de empresários. Nem o torcedor do ABC nem o do América suportam tamanho sofrimento toda reta final.

      Alecrim

      Bom saber que o Alecrim está se movimentando para o Campeonato de 2015. Ainda baqueado pelo sofrimento causado pelo gestor inglês, deve se preservar de outras tentações porque talvez uma segunda pancada seja demolidora. O importante é o Alecrim, patrimônio da cidade, vivo e grande que sempre foi.

      Salário

      Gosto de Muricy Ramalho, mas o Brasil não pode pagar 500 mil reais a um treinador.

      Surgia um campeão

      Pelo Campeonato Brasileiro de 1977, o ABC empatava com o Guarani por 1×1. Castelão (Machadão) com 15.218 pagantes. O lateral-direito Mauro abriu o placar para os campineiros e o centroavante Santa Cruz, contratado ao América, fez o gol de empate do ABC.

      Destaques

      O Guarani trouxe a base do time que seria campeão, surpreendendo o Brasil no ano seguinte. Na quarta-zaga, Amaral, titular da seleção brasileira e um dos beques mais clássicos de todos os tempos. Formaria bela dupla com Oscar na Copa da Argentina.

      Times

      Naquela quarta-feira à noite, o ABC jogou com Hélio Show; Orlando, Pradera, Cláudio Oliveira e Vuca; Baltasar, Danilo Menezes e Maranhão Barbudo; Paulo César Cajá (Noé Silva), Anderson (Santa Cruz) e Noé Macunaíma. Guarani: Neneca; Mauro, Edson, Amaral e Cuca (Galvão); João Carlos, Zenon e Miranda; Cláudio, Juti e Davi (Renato Pé-Murcho).

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        Proscritos da ponta-direita – Rubens Lemos

        Varreram o ponta-direita da cena do futebol como um trambolho indesejável. O ponta-direita, perfeita tradução de irreverência nos pés de Garrincha Cantinflas, Garrincha Carlitos, Garrincha Mané enfileirador de Joões marcadores devastados.

        O cronista, jornalista e redundância de brilho, Carlos Heitor Cony, em recente documentário exibido pelo Canal HBO, exalta Garrincha com sua classe de domador de palavras. Na fala que transpõe aos textos definitivos. Suaves, medidos e cortantes como o seu maior ídolo, o Mestre Didi do meio-campo.

        “Garrincha não driblava o adversário. Garrincha fazia o adversário de palhaço sem intenção de humilhá-lo. Era a sua natureza. O povo respeita Pelé, que o fazia paralisar em jogadas absolutamente indescritíveis. O povo ama Garrincha pois ele o fazia sorrir, fazia do gramado, um doce circo popular”.

        O Brasil teve pontas de encantamento, todos eles responsáveis por aulas de drible, a superioridade verdadeira de um jogador sobre outro. Julinho Botelho, o segundo depois de Garrincha, tornou-se dono de metade e meia do bairro paulistano da Lapa com os dólares ganhos no futebol italiano. Um homem bom. Tão bom que abriu mão de duas Copas do Mundo para “não prejudicar os companheiros com atuação no Brasil”.

        Tesourinha do Internacional e do Expresso da Vitória do Vasco, Joel “fanho” do Flamengo, Sabará do Vasco, Canário do América do Rio de Janeiro e astro do Real Madrid de Puskas, Dorval do Santos, Jair da Costa, Jairzinho, Manoel Maria do Santos, Cafuringa, Nado, Rogério.

        Bailarinos colados à pobreza feliz da geral, aquele espaço destinado aos humildes, rente ao campo, onde a algazarra da finta gerava o pandemônio da torcida. Inesquecíveis tomadas em big close dos desdentados em transe nas lentes do Canal 100, os cinco minutos sobre futebol que assistíamos antes dos filmes e sempre foram mais importantes que os filmes, para quem escolheu o ludo com os pés para se apaixonar.

        Quando comecei a ver futebol, o ponta já não era tão primordial. O camisa 7 perdia a destreza e a improvisação e ganhava a força de um Gil, tão fulminante que chamavam-no de Búfalo. O último a defender o Brasil numa Copa do Mundo. Ainda vi Renato Gaúcho, Mauricinho do Vasco, Marinho do Bangu. Homens que faziam da linha de fundo a infantaria bailarina e de cruzamentos certeiros para a consagração artilheira dos centroavantes.

        É sobre outro esquecido, que o certeiro colaborador de Passe Livre, o Procurador da República, Rogério Tadeu Romano, dá mais um depoimento recheado de lirismo e nostalgia. Ele relembra Zequinha, ponta que chegou à seleção, mas, como tantos, sucumbiu ao impossível dever de ser Garrincha por minutos na vida.

        Vejam o texto:

        Numa tarde de sábado, em 9 de outubro de 1971, em que fazia um bom tempo, fui ao velho Maracanã, para assistir uma partida, em pleno campeonato nacional, um promissor Botafogo e Corinthians.

        Do lado do Botafogo, ia ver Osmar (um bom zagueiro que depois jogou no Atlético de Minas), Nei Conceição (o Nei Chiclete, um craque no trato da bola), Paulo César Caju (um dos maiores jogadores que vi jogar), Roberto Miranda (um grande centro-avante) e Zequinha. Pelo Corinthians, queria ver, na visita que Rivelino (um craque que sempre admirei) comandava, mais um show de bola.

        O Maracanã apresentava um bom público naquela tarde em que a torcida do alvinegro do Parque Jorge veio ao então maior estádio do mundo.

        Até que, em certo momento, Zequinha recebe uma bola, dribla um, dribla dois, dribla três, todos em fila, e, diante de Ado, não teve misericórdia, fazendo um golaço, para mim, um dos mais bonitos daquele que foi o primeiro campeonato brasileiro da história.

        Zequinha era um digno titular da posição que um dia fora de Garrincha.

        Até 1965, Garrincha era o dono da camisa 7 no Botafogo. Após ele, Jairzinho também jogava por ali, sendo convocado para a Copa de 1966 e, após, foi uma das feras do Saldanha, nas eliminatórias de 1969.

        A ponta direita não era problema para o Botafogo, que, mesmo com Jairzinho, se dera ao luxo, de, na era Zagallo, a partir de 1967, colocar o Furacão da Copa, no centro do ataque, recebendo bolas maravilhosas de Gérson (um dos maiores craques da história do Brasil) e escalar Rogério, naquela posição. Por sinal, ele fora convocado para a Copa de 1970 e só não jogou devido a uma contusão, que o afastara do time.

        Mas, Rogério, logo depois, fora substituído, na posição por Zequinha.

        Zequinha veio ao Botafogo de Futebol e Regatas numa troca com Zélio, Jogara no Flamengo, entre 1967 e 1968. Aliás, foi contra o Flamengo que Zequinha, onde jogara como juvenil, mostrara a sua arte, em 1969, na decisão da Taça Guanabara, quando o clube da estrela solitária, numa final, vencera por 4×1, sendo que o gol de Zequinha foi belíssimo, pela colocação e potência de seu chute, indefensável.

        Pelo Flamengo, onde começou, jogou com bons jogadores como Arilson (um bom ponta esquerda), Rodrigues Neto (que jogou no lugar de Marinho na Copa de 1978) e ainda Dionísio (um bom centro-avante que fez dupla com Doval, que era um craque).

        Em 1971, fora convocado para a Seleção Brasileira, jogando contra a Áustria, no Pacaembu, em jogo em que Pelé fizera seu último gol pela seleção verde e amarelo e cujo passe para o Rei foi dado por ele (Zequinha).

        Zequinha naquele ano de 1971 estava jogando o fino da bola, de forma que era natural, na ausência de Jairzinho, que estava contundido, jogar ao lado de Tostão, Gérson, Pelé e Rivelino.

        Zequinha, ou José Márcio Pereira da Silva, brilhou no Botafogo e depois no Grêmio e, por fim, no São Paulo (esteve de 1977 a 1979). Em 1986, vi Zequinha, na seleção gaúcha de master, dar show da ponta direita.

        No time como o Botafogo, de 1971, que não ganhou o campeonato carioca de 1971, onde se tinha Paulo Cesar Caju, Carlos Alberto, Brito, Nei Conceição, Carlos Roberto, Jairzinho, Zequinha, foi alguém que fez valer o futebol-arte. (RTR)

        1. Zequinha, que depois do Botafogo foi para o Grêmio e também jogou no São Paulo, sagrando-se campeão brasileiro de 1977, foi embora para Dallas, no Texas (EUA), onde vive até hoje, aos 69 anos de idade. Treinando garotos.

         

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          Saber vencer – Rubens Lemos

          Os minutos sequenciais e os primeiros dias seguintes à apuração dos votos sempre foram terríveis para os perdedores. Para os que sofrem por convicção e paixão cega e os que esperavam uma boquinha de quem fracassou nas urnas.

          Em Natal, sem qualquer compostura moderna e escroque das redes (antissociais). Nas veredas do interior, o couro come igual a confrontos tribais entre Rocas x Cidade da Esperança pelos antigos campeonatos de bairro. Do gogó para baixo, pancada, a honra é a canela chutada de acordo com a saliva digital do acólito. Do sabujo.

          Na era do voto contado em cédulas, suspense caboclo, o pau cantava Bezerra da Silva no areal e o prolongamento do sururu era entre as facções idiotizadas. Muitas vezes, cinco ou seis Rádio-Patrulhas da PM desciam cassetetes para estabelecer a ordem e os bons costumes.

          Os valentões mais afoitos recebiam outros afagos na Delegacia de Plantão. Clima de eleição é axila de jogo de várzea ou do antigo Matutão, campeonato interiorano inesquecível promovido pelo decano jornalista Everaldo Lopes.

          Guerra do começo ao fim. Pior: Depois do fim. Nos rincões chiques e esturricados pela estiagem, da Tromba do Elefante, o Alto Oeste ao Litoral, do Seridó ao Mato Grande, no mapa disforme e sublimado no formato geográfico e paquiderme do mundi do Rio Grande do Norte.

          São triviais, de dois em dois anos, provocações baratas, tapas trocados entre irmãos e primos, juras de ódio eterno que acabam na primeira cachaçada com galinha de tira-gosto. Ou duram a eternidade da reconciliação de conveniência. Inimigo eterno é amigo de infância desde que o interesse seja igual. O filho da puta de sempre é sacristão quando o poder está na mão ou contramão.

          Ocorre que o humilhado geralmente humilhou antes e o vingativo também. É a hora da desforra do campeonato ou jogo de porrinha como embate eleitoral é tratado nos descampados mais distantes da capital. Não que a capital seja um esplendor de etiqueta e belezura de opinião. De jeito nenhum.

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          O espelho do eleitor de Natal está trincado nos assassinatos, estelionatos e atentados bombásticos cometidos contra a ortografia e à dignidade alheia nos tatibitates idiotas de faces, twitters e instagrams da egolatria nossa e deles também. Inventaram uma tal de selfie, a fotografia do eu mesmo que é a confissão explícita do deletério. O tablete é o tabefe virtual desnudando corroídas e disformes excentricidades, para ser politicamente cínico.

          O ditado antigo do esporte, aquele que diz que é importante saber perder, alfinetada inútil nos despeitados de todas as atividades cotidianas, é uma balela. Saber perder se sabe no gosto imposto. Empurrado pela goela e a alma. Amargo que só Buscopan Composto. Líquido.

          O que não se aprende é saber vencer, é ter a consciência segura de que mais do que a comemoração, é sumária a limitação da glória. A vitória deveria ser irmã da humildade, sem franciscanismos, mas com grandeza de conduta. Todo poder começa com peito de pombo e termina com tórax de tísico. Todo poder termina. Todo poder tem fim, não importam os fins a que se proponha.

          Sobram os espíritos de porco. Aqueles que pisoteiam no que resta do vencido arrasado na autoestima. Pior do que a arrogância dos maus ganhadores, é a baba dos asseclas e bajuladores, restos de lixo degradado pela própria pequenez. São os sabujos, os puxa-sacos, os chalaças, a escória que instiga o objeto de adulação, a perspectiva do contracheque, dane-se o preparo e o futuro do anônimo do cafundó.

          É essa malta, versátil ao mudar de lado de acordo com suas conveniências, a erva daninha e imune em cada fanfarra. Saber vencer, como envelhecer, é uma arte. É saber ouvir e ler o que repetia Liedholm, mostro sagrado do time sueco, vice-campeão mundial em 1958, surrado em casa pelo Brasil por 5×2.

          Antes de morrer, cansava-se de responder que nenhum gol ou drible havia sido o seu grande momento no futebol. Liedholm respondia a cada jornalista ou pesquisador: “Nada foi mais inesquecível de que o abraço do gênio Didi após a partida. Ele me disse: Vocês honraram nossa vitória. Didi foi perfeito como craque e como homem.” Didi sabia vencer. A vitória e o fracasso estão nas extremidades do bastão da história. Que gira. No cronômetro calado e lento de ironia e de castigo. Segunda-feira, se estiver errado, me corrija.

          Edson

          Causa espanto a surpresa de alguns pelo sucesso do volante Edson, revelado no ABC, hoje no Fluminense. Edson sempre jogou bola demais e a visão caolha de técnicos de panelinha quase acabou com sua carreira. Por dever de Justiça, foi o veterano Givanildo Oliveira quem impediu sua dispensa e o transformou em titular absoluto.

          Seleção

          Edson, sem bairrismo – que abomino tanto quanto a subserviência ao forasteiro -, é muito melhor do que volantes do nível de Luiz Gustavo, Fernandinho, Ramires e Elias, legítimos representantes do famigerado dunguismo, a síndrome do cão pastor de zagueiros.

          Técnico de futebol

          A Câmara dos Deputados analisa o Projeto de Lei 7113/14, do deputado Arthur Oliveira Maia (SD-BA), que explicita que qualquer pessoa pode exercer a profissão de treinador ou monitor de futebol.

          Reserva de mercado

          O deputado conta que os conselhos regionais de educação física têm exigido o registro dos treinadores de futebol junto às instituições, para que possam exercer a profissão. “Essa exigência tem causado grandes prejuízos a profissionais que, embora com grande experiência no esporte, não possuem diploma de curso superior de Educação Física, como é o caso dos ex-atletas”, disse Maia.

          América na primeira vez

          Em sua primeira participação no Campeonato Brasileiro da Série A, o América conquistou a Taça Almir, o correspondente ao melhor desempenho entre os clubes do Norte/Nordeste. Foi em 1973 e há exatos 41 anos, empatava com o Vitória em 1×1 no Castelão (Machadão), que recebeu 7.297 pagantes. João Daniel fez 1×0 para o América e André Catimba empatou para o Leão da Barra.

          Times

          América: Ubirajara; Ivã Silva, Mário Braga, Djalma (Nunes) e Cosme; Paúra, Careca e João Daniel; Almir (Bagadão), Hélcio Jacaré e Gilson Porto. Vitória: Aguinaldo; Valença, Dutra, Válter e França; Deco, Davi e Didi Duarte (Luciano); Osni, André Catimba e Mário Sérgio Pontes de Paiva.

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            Sérgio Alves – Rubens Lemos

            Faltava-lhe somente a trilha sonora primorosa do mais antigo, o tifosi, Leone. Ele era o matador infalível da Frasqueira. Sua pistola, o oportunismo, seu faro, a primazia sobre os mortais, seu rosto, a dureza mordaz dos matadores. Sérgio Alves incorporava aos espetáculos ensolarados, a figura impiedosa e mítica do herói sem gracejos de Clint Eastwood na trilogia do faroeste espaguete do diretor Sérgio Leone.

            Ao invadir a grande área, partindo em passadas de tigre no rumo da vítima em recuo de medo instintivo, Sérgio Alves carregava a autoconfiança dos vencedores de duelo de curral de cinema. Da chuteira, sacava o tiro mais rápido e fulminava o goleiro em queda de decepção conformada.

            Ídolo preferido da torcida do Ceará, Sérgio Alves abrigou em seu coldre a munição alvinegra também no Rio Grande do Norte. Nasceu em Pernambuco, seu coração é alencarino, mas há lugar para o povo humilde que sacudiu em catarse coletiva nas reviravoltas dos clássicos vencidos ao minuto final do sem pulo, da cabeçada ou do corte seco para o chute no ângulo superior do pobre zelador de traves.

            Não, não, jamais foi uma simpatia pessoal o artilheiro maior dos últimos 20 anos do ABC. Sérgio Alves chegou em 1998, antes, durante ou depois da passagem gloriosa de outros atacantes respeitáveis: Cláudio José, Claudinho, Robgol, Júnior Amorim, Reinaldo Aleluia, Leonardo, Joãozinho Tarugo, Barata, o menino Wallyson do show nos 5×2 sobre o América em 2007, marcando sua escalada nacional e o gigante Leandrão do título da Série C.

            A todos, sobrou competência, cada um a seu estilo, cada qual a seu tempo, ao seu modo de destruir o oponente. Sérgio Alves escreveu a superioridade da onipresença. Nas derrotas, o seu nome gritado esgotando de desespero os pulmões castigados por derrotas consumadas pela limitação dos eventuais em seu lugar. No Fluminense, na Suíça, no CRB, no Ceará, Sérgio Alves jamais deixou de estar na ordem do dia do ABC.

            Sua figura impunha a diferença emocional e imperativa dos jogos mais importantes e decisivos. O corriqueiro nasceu para a pelada, o diferenciado cresce quanto maior o desafio. O covarde se esconde diante do gigantimo do clássico, o guerreiro pinta alma com a tinta do sangue pátrio e clubístico para sobressair.

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            Assim era Sérgio Alves. Fosse como um hábil meia-atacante, camisa 10 trazendo a bola a partir da intermediária e jogando-a no meio das pernas do marcador, ou na plenitude do sumário comandante de área ao finalizar na surpresa dos imprevisíveis.

            No espaço esquecido do Machadão que um dia foi, o alucinado de arquibancada encontrará em sua busca saudosista e apaixonada, a gota do suor de Sérgio Alves ao saltar, elástico e desafiando leis físicas, para aplicar uma bicicleta de antologia empatando um jogo perdido contra o América em 2001.

            Na retina cansada dos devotos dominicais, ressurge, cristalina, a imagem de Sérgio Alves matando no peito e batendo forte, à meia-altura e com violência, para marcar um dos seus primeiros gols pelo alvinegro contra o América, fortíssimo time de Série A e Campeão da Copa do Nordeste de 1998, ano de sua chegada à velha Vila Olímpica.

            Sérgio Alves chegou como esperança derradeira para a conquista do bicampeonato liderando um time mediano e guerreiro contra a elegância clássica de Moura, o mouro, de camisa vermelha.

            Compôs com Robgol, uma dupla impiedosa no tricampeonato de 1999, tabelas e tiros certeiros à marca do pênalti, a forca retratada nos filmes de Clint Eastwood fumando e hipnotizando o inimigo com seu olhar glacial de sentença.

            Sérgio Alves ia e voltava. Deus no Ceará. Mas sempre acabava vestido de ABC. Aos 35 anos, lá estava atalhando caminhos, armando emboscadas, subindo ao ataque como se penetrasse desfiladeiros. Outros gols, decisivos, sutis e serpentários, novo título.

            Sérgio Alves encarava um jogo com a paixão dos que partem para a guerra, para a batalha onde a vida está na ponta da chuteira ou no duelo de cabeça. Um chapéu de cowboy comporia bem o seu figurino real, jamais de personagem, porque brincar de futebol nunca fez parte do seu vocabulário.

            Com Sérgio Alves, a explosão da massa em transe, era a síntese cinematográfica dos faroestes imortais na primeira pessoa do título da película: Matar ou Morrer, Matar o Facínora, Ser o Homem Só e o Destino (do gol). Sem delírios de simpatia, ele era bom, letal e artilheiro. O Clint Eastwood fatal que a Frasqueira revê a cada lembrança do velho estádio emocional e insubstituível.

            Alex Fabiano

            É este o homem que manda no ABC. É ele quem domina as redes sociais em comentários irônicos e desesperados de torcedores aflitos com a possibilidade de queda para a Série B. Alex Fabiano, antes figura de bastidores, agora ganhou status de manda-chuva de uma instituição popular.

            Sentimento zero

            Alex Fabiano tem todo o direito de ser empresário de futebol. Nada contra a pessoa. Alex Fabiano, empresário, não deve nem pode ter sentimento ou coração de torcedor. Ele visa o lucro. O ABC virou o seu laboratório. Está pagando caro. Passe Livre oferece a Alex Fabiano o espaço que ele quiser dentro dos limites da coluna para se apresentar. A Frasqueira precisa saber quem ele é. E porque ele é.

            Rogerinho

            Sacanagens à parte, é menos ridículo ter Rogerinho, que quando quer, produz algo palatável, do que manter o ex-jogador Gil no ABC. Rogerinho desmoralizou o clube, hoje engessado pela escassez de talento e joga até de costas onde Mendes e Xuxa trombam.

            Fernando Henrique

            Foi bom para o América e para Fernando Henrique o fim da relação. O goleiro não estava em condições de jogo por causa de uma contusão e não manteve regularidade. Andrey é bem superior. Fernando Henrique merece ser feliz. Longe do América.

            Vermelho de Paixão

            Está cada vez melhor o site Vermelho de Paixão, do grande Sérgio Fraiman. É, de longe, o mais informativo canal de comunicação do América. Leve, bem interativo, sereno nos comentários, aceso o tempo inteiro. Um exemplo de que o amor não cega. Aproxima.

            Roberto Firmino

            Quando ouvi o nome, pensei em um médico, advogado ou jornalista. É o novo atacante do Brasil. Oremos todos. É o que resta fazer.

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              Cigano e milagreiro – Rubens Lemos

              Rodar o sertão fazendo reportagem sempre é uma delícia. O contato direto com o povo, a simplicidade do boteco, a cerveja gelada ao fim da missão, o pastel banhado em óleo e a certeza de que somente se chama de profissional aquele apresentado à vida do jeito que ela é, sem maquiagem.

              No interior, cansei de encontrar com cigano em beira de estrada. Tenho o hábito de comprar bugiganga e arte interiorana, talha, imagem de santo para presentear carolas familiares, frutas, feijão verde, queijo, ah! O queijo de manteiga derretendo ao sol inclemente das secas que transportei para velhas páginas dormidas em arquivos.

              Cigano é assim. Você tem que respeitar sem temer. Se ele sentir qualquer sinal de medo, monta em cima da moral alheia. Toma o dinheiro do otário. Começava a abordagem quando saía do bar para olhar a movimentação na praça, a circulação dos vendedores ambulantes, dos sacoleiros, dos personagens simbólicos de cada lugar.

              “Filho de Deus já sofreu muito por causa de uma mulher”, dizia o sujeito de olhos revirados e sacolejos ensaiados para assustar. Ora, quem não ficou triste na vida por um namoro acabado na adolescência, um fora levado no colégio da menina desejada?

              Nunca desembolsei mais do que moeda de cinco centavos, mas vi motorista de equipe de reportagem ajoelhado e chorando, como se o sabido vestisse hábito de santo. “Filho de Deus tenha cuidado, que tem gente de olho gordo na vizinhança. Gente querendo o mal de Filho de Deus, invejando o carro novo que ele comprou!” E lá se foi o babaca tomar satisfação com o vizinho inocente ao chegar a Natal. “Desde que eu troquei meu Corcel pela Belina Dois você não olha direito para mim!”. Crê quem quer.

              Roberto Fonseca, o novo técnico de um ABC cada vez mais caduco de futebol, é um senhor cigano. Rodou por vários times, circulou pelas paragens diversas do país e até em Natal trabalhou sem maiores consequências no América.

              Fosse o treinador Roberto Fonseca o Cigano Belisário, famoso apostador de campanha política dos anos 1960 no Rio Grande do Norte, nenhuma diferença faria. Feitiço de cigano virar verdade somente quando Aluizio Alves (que reverteu ofensa em marketing pessoal), revolucionou o Estado no seu Governo transformador.

              O ABC está longe de ser um time. E é a falta de um time o problema que Roberto Fonseca resolverá se for capaz de fazer milagre. Pela biografia, parece que não faz. Cigano não ensina Xuxa a bater pênalti, nem corrige malandragem de Dênis Marques.

              Roberto Fonseca, Belisário ou Telê Santana redivivo, não poderiam mudar, na hora decisiva, um amontoado em que não se distingue o que é defesa, meio-campo e ataque. Setores que sequer existem. É impossível ler e decifrar a mão do ABC. Os pés são previsíveis. Pífios. De futuro complicado.

               

              Série A

              Alguém lembra quem prometia colocar o ABC na Série A? Com que cara estará este otimista numa hora dessas? Foram as primeiras rodadas ilusórias.

              Pimpão e Roberto Fernandes

              Eis a seleção da última rodada da Série B de acordo com o Portal Futebol do Interior, um dos mais acessados do país: A excelente atuação de Rodrigo Pimpão na vitória sobre o Vasco, rendeu ao atacante a convocação para a seleção da rodada, que tem no comando técnico Roberto Fernandes.

              Os escolhidos

              A seleção ficou assim: Murilo (Paraná), Rodnei (Ponte Preta), Tiago Carvalho (Boa Esporte), Vitor Hugo (América-MG) e Bryan (Ponte Preta); Mauri (Icasa); Edgar Junior (Joinville), Pimentinha (Sampaio Corrêa), Rodrigo Pimpão (América), Cafu (Ponte Preta) e Kayke (Atlético-GO).

              Para Washington do Alecrim

              Washington Fernandes, presidente do Alecrim: estou solidário a você e a seu filho, barrados de forma estúpida, grosseira, inexplicável, do suntuoso templo do futebol pobre do Rio Grande do Norte antes de América 2×0 Vasco. Pai e filho que vestiam a camisa do Alecrim foram impedidos de entrar. Agora, além da subserviência, burrice.

              Topeiras

              Os novos donos do futebol do Rio Grande do Norte entram no rol das idiotices históricas. Jogavam América x Vasco e duas pessoas com a camisa do Alecrim não entram por regras de segurança. É o desconhecimento da própria essência de paz e alegria do Verdão, tão sofrido.

              Imagine

              Mal comparando, o torcedor do Bonsucesso, uniformizado, não será o causador de qualquer tumulto que vier a acontecer num jogo entre Flamengo e Fluminense ou num Vasco x Flamengo. É por aí. É preciso, urgentemente, instituir o Troféu Cangalha. Com Padrão Fifa.

              Livro de Barrote

              Hoje a penumbra da boca da noite se irmana à tentação madrugadora. É o lançamento do livro E se Fosse Nilson…, com histórias deliciosas do ex-atleta e professor Nilson Barrote. Casos verídicos de um personagem com potencial para o escrete do mestre Ariano Suassuna. Nilson é o improviso desconcertante no humor autêntico. Um desligado sensacional.

              Fábio e a iniciativa

              Coube ao professor Fábio Lisboa, da velha ETFRN, contemporâneo de Nilson, reunir durante anos, episódios de puro nonsense, que o desconhecido não pode desacreditar pela legitimidade de quem conta, com detalhes e qualidade de escrita. Fábio Lisboa é bom de Educação Física e bom de escrita.

              O lançamento

              O lançamento começa às 18h30 na AABB, convidativa a cerveja gelada, ao tira-gosto, ao papo e ao reencontro de gerações de alunos e fãs do Nilson Barrote professor e magistral goleiro de futebol de salão. Li o livro e ri muito. Pelas histórias incríveis e a alegria que a homenagem proporciona ao meu professor de sorriso gigante do tamanho do coração.

              Longe dos longes

              Nilson Barrote nem lembra, mas foi ele quem primeiro fascinou o redator de Passe Livre, menino de 11 anos, com suas defesas impossíveis e arremessos perfeitos para o pivô, artilheiro estiloso e implacável Clóvis em 1981, ano do tricampeonato do ABC.

              O primeiro time

              Palácio dos Esportes lotado para ver: Nilson Barrote; Beto Coronado, Leonel, Clóvis e Cabral. O versátil Juca iniciando a carreira brilhante. Técnico: Jucivaldo Félix. E eu, emocionado, inscrito para sempre no mundo de um esporte maravilhoso, que me encantaria ainda mais ma magia canhota do driblador Dennis Lisboa, irmão de Fábio, autor do livro. Todos na AABB às 18h30 que Barrote merece.

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                Corre, Pimpão – Rubens Lemos

                Lá vai Pimpão cortando caminhos, alargando horizontes, criando alamedas, desenhando avenidas, cruzando faixas, atravessando o trânsito, ultrapassando os zagueiros, cruzando a reta de chegada e matando o goleiro Martin Silva, do Vasco e da seleção uruguaia.

                Lá vai Pimpão, puxando em sua corrida liberta, as angústias acumuladas da torcida rubra, arrastando esperanças vermelhas pelo campo da reconstrução na Série B.

                Lá vai Pimpão em arrancada moleque e inalcançável, caçado e incansável, indomável artilheiro fulminando o Vasco e reacendendo a chama rubra na Arena das Dunas sem tempero popular mas pulsando pelo coração americano multiplicado em cada um dos presentes e alucinados pela vitória.

                Lá vai Pimpão, o goleador que parte para a desforra e agride sem bola o zagueiro do Vasco. É Pimpão em forma de fúria, de briga e de gana, de suor, de lama e de grama. É Pimpão marcando um gol sonhado pela irmandade geral do torcedor, do potentado ao remediado, ambos socorrendo o pobre com o naco de cédula para completar o ingresso: o gol que estufa a rede, que explode o coração, que lava a alma, que consagra o ídolo.

                Roberto Fernandes

                De forma alguma é coincidência a participação de Roberto Fernandes na vitória do América sobre o Vasco, fundamental para a permanência na briga para fugir do rebaixamento. O jogo de ontem teve a cara dos desafios de Roberto Fernandes: aparentemente desiguais e estimulantes. Jogos para quem é bom de beira de campo e guerreiro de vestiário.

                Andrey

                Com seu indefectível capacete, o goleiro Andrey não teve maiores dificuldades para conter o ataque do Vasco. Quando foi chamado a intervir, Andrey esteve seguro, mostrando que é um dos melhores goleiros do Nordeste. Basta estar com a cabeça tranquila.

                Recreio

                Nos anos 1960, de tanto o Santos ganhar dos quatro grandes do Rio de Janeiro, o Maracanã passou a ser chamado de Recreio dos Bandeirantes. O Recreio do Terror do Vasco é a Arena das Dunas. Nela, apanhou do ABC e foi eliminado da Copa do Brasil. Tomou vareio do América e saiu de perto da liderança da Série B.

                Desespero

                O ABC perdeu com justiça do Joinville, entra na faixa do desespero na aproximação da degola e desespera sua torcida pelo péssimo futebol. O Joinville não aplicou uma goleada histórica quem sabe por piedade. O ABC não tem defesa, meio-campo nem ataque. O ABC só tem as camisas, os calções, os meiões e as chuteiras. As luvas do goleiro, tem às vezes.

                Empate técnico

                Baseado nos institutos de pesquisa, ABC e América estão empatados tecnicamente na Série B. O ABC tem 35 pontos e o América soma 33. Pela margem de erro de 3 pontos, pode até ser empate rigoroso.

                Rodada

                Cruzar dedos e orações na sexta-feira. América fora contra o América (MG). ABC contra o Paraná em Natal.

                Dênis Marques

                Duvido que Dênis Marques continuasse embromando o ABC com Bira Rocha de diretor de futebol. Sairia do Frasqueirão puxado pelas orelhas. Ou à base de chinelada. Dênis Marques fez dois gols contra o América e desde então, é visto apenas em visitas ao Google.

                Zé Wilson

                Ser lembrado é muito melhor do que oferecer presentes. Grato ao dirigente alvinegro José Wilson Gomes Netto, leitor de Passe Livre, que me trouxe duas preciosidades de sua mais recente viagem ao exterior: um manual completo sobre futebol editado em espanhol pela Fifa e o Guia da Liga dos Campeões 2014. Devidamente agendados para leitura.

                Lusa

                Clube que revelou Djalma Santos, Julinho Botelho, Leivinha, Enéas e Denner, a Portuguesa de Desportos caminha para a Série C e a extinção. Seus jogadores estão em greve branca, ou seja, sem salários, fazem corpo mole e a queda de divisão, extinguirá mais uma legenda do passado. O Vasco está a caminho.

                Boa iniciativa

                A Câmara analisa o Projeto de Lei 7526/14, da deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF), que obriga a União a conceder passagens aéreas ou terrestres para atletas brasileiros de modalidades olímpicas e paralímpicas de alto rendimento, para participação em competições regionais, nacionais e internacionais.

                Investir nos atletas

                Para a deputada, o Brasil vem perseguindo o objetivo de se tornar uma potência olímpica, e a melhor forma de alcançar esse objetivo é investir nos atletas. “São eles que mobilizam as paixões e a torcida dos brasileiros, cuja autoestima se fortalece a cada vitória, nos campos, nas quadras, nas pistas, nos tatames”, disse.

                Acompanhante

                A proposta inclui passagem para o atleta e seu técnico, e pode incluir o responsável legal caso o atleta seja menor de idade. No caso de atletas paraolímpicos, o apoio poderá ser estendido a um acompanhante responsável por seus cuidados especiais, caso ele necessite. Os pedidos devem ser acompanhados do convite ou convocação da entidade representativa da modalidade.

                Hospedagem

                Apenas em caso em que as competições tragam benefícios diretos ou indiretos ao esporte brasileiro, poderá ser concedido o benefício a atletas que moram fora do Brasil. E a proposta também abre a possibilidade de a União conceder hospedagem, alimentação e translado aos atletas e respectiva comissão técnica.

                Regulamentação

                Pela proposta, a solicitação do benefício, sua análise e prestação de contas devem ser regulamentadas pelo Ministério do Esporte. E a União poderá transferir recursos para estados e municípios que adotarem leis ou programas de incentivo semelhantes.

                Na moedinha

                A primeira e breve passagem de Carlos Alberto Parreira na seleção brasileira durou pouco e foi lamentável. Em 1983, comandou um time que, para se classificar à final da Copa América, decidiu no cara ou coroa a vaga contra o Paraguai, após dois empates. Ganhou na moedinha. Faz 31 anos agora. O Brasil perderia a Copa América para o Uruguai e Parreira, o emprego.

                O jogo

                Brasil e Paraguai (0x0) jogaram para 75 mil pessoas no Estádio Parque do Sabiá em Uberlândia (MG). O país estava de ressaca moral pela venda do seu maior ídolo, Zico, que saiu do Flamengo para a Udinese da Itália em junho.

                Times

                O Brasil de Parreira: Leão; Leandro, Márcio Rossini, Mozer e Júnior; Andrade, Jorginho e Renato Pé-Murcho (Tita); Renato Gaúcho (Careca), Roberto Dinamite e Éder. Paraguai: Roberto Gato Fernandez; Torales; Surián; Delgado e Jacquet; Benítez, Olmedo e Florentin; Romerito, Cabañas e Milciades Morel. Técnico: Ramón Gonzalez.

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                  Antônio Maria – Rubens Lemos

                  Antônio Maria, cronista, consagrou o cansaço e o diferenciou da preguiça ao prever a velhice chegando e ele, ao fim. O maior cronista brasileiro, fulminado por um ataque cardíaco há 50 anos numa esquina carioca, reduto sentimental de sua propriedade, escrevia o que a princípio se desenhava tristeza.

                  Antônio Maria jamais aceitou a banalidade. Humilhava a mediocridade com ironias demolidoras. Irritações de lâmina. Nos seus textos, o cotidiano se eternizava em preciosidades efêmeras.

                  Antônio Maria nunca tolerou a hipocrisia, tampouco economizou em sentimentos. Amou demais, sofreu ainda mais. Um gênio trágico. Pintou de preto seu apartamento ao perder o amor de Danuza Leão, a musa da Belle Époque, para o jornalista Samuel Wainer, brilhante bessarabiano e praticante da reportagem e do nacionalismo.

                  Naquele tempo, Antônio Maria já estava cansado. Da burrice, da intromissão, dos imbecis incontroláveis. De virar a noite, depressivo, fechar o Beco das Garrafas, multiplicar-se em porres e produzir poesia amarga de dor e magistral de sentimento. Dormia duas horas por dia, redigia peças de estilo, textos para teatro, programas de radio e televisão, compunha canções belas sintetizando a esperança como profissão brasileira.

                  Antônio Maria é para ser lembrado. É quando dormem, ele dizia, que as pessoas boas menos se parecem com os mortos. É no cansaço que é preciso procurar Antônio Maria. Às vezes, tem dias que a gente se sente. Simplesmente esgotado. E não pode ficar calado à idiotice perversa que se modernizou e institucionalizou décadas depois do cronista da melancolia carioca. É melhor esbravejar exausto. Do que acabar fulminado numa esquina sem dono.

                  América x Vasco

                  O América pode vencer o Vasco se resolver voltar a jogar futebol criativo. No domingo à tarde, observei de longe a figura imperativa de Moura, grande camisa 10 da Era Machadão. Moura não temia ninguém em suas passadas e gazela e seus dribles de minifúndio. Deu saudade das tardes de festa. Moura pode ser a inspiração para aqueles que não jogam 0,05%do seu futebol.

                  Jogos históricos

                  O América fez um milionário da Loteria, o goiano Miron Vieira, em 1975, vencendo o Vasco em São Januário com gol do meia Washington. Foi um feito histórico. O América de hoje não chega nem perto do América de Washington. O Vasco de hoje também nada é diante do time derrotado há 39 anos.

                  Criatividade

                  O mínimo de criatividade será vital para o América. O Vasco é um time sem imaginação no meio-campo, joga com três cabeçotes de área chefiados pelo veterano argentino Guinazu. Os três não tratam bem a bola, prerrogativa exclusiva do ótimo meia Douglas, ele, sim, um senhor armador. O Vasco melhora apenas quando o uruguaio Maxi Rodriguez. Kléber volta ao ataque.

                  Torcer

                  Xenófobos devem ser desprezados. Essa história de quem é potiguar deve torcer somente por clube potiguar é uma tese que se respeita. Mas não se caia no campo perigoso da segregação e da intimidação.

                  Cultura

                  É da cultura de nossa terra torcer por um time de Natal e outro do Rio de Janeiro sem que se perca o amor pelo clube local. Eu sou ABC sou Vasco, gosto do Santa Cruz no Recife e ninguém, ninguém mesmo, vai me impedir de ser assim. Nem tem o direito de contestar o direito constitucional da liberdade de expressão.

                  ABC e medo

                  O ABC divulgou a relação de jogadores para enfrentar o Joinville, vice-líder da Série B. O que vem mal, pode piorar. O ataque titular não joga e o torcedor terá Zambi e Beto ou Zambi e Alvinho. De todos os convocados pelo técnico, dois ou três têm futebol de padrão razoável. Com extrema boa vontade.

                  Time fraco

                  O ABC da reta final do ano passado é muito superior ao atual. Tinha Edson explodindo, tinha Giovanni Augusto, um refinado armador, tinha Júnior Timbó em forma e querendo jogo, Rodrigo Silva em fase encantada e Gilmar sem calçar chinelinho, correndo e desbravando defesas. Hoje, é fraco o time. Na raça, conseguirá se manter na Série B.

                  Pé de página

                  O atentado a um posto policial militar na Zona Norte de Natal não é notícia de pé de página. É grave pela metodologia dos criminosos, semelhante à usada pelas facções purulentas de São Paulo e Rio de Janeiro.

                  A arma

                  O soldado estava sozinho na base da PM e não foi atingido pelo disparo de pistola .40, que perfurou a parede do lugar. Eram dois motoqueiros de capacete. Dois motoqueiros de capacete e uma arma de uso restrito da polícia. É inadmissível uma arma – a de maior poder de parada existente -, estar nas mãos de um marginal. Se ele conseguiu, roubou de quem pode portar ou usou do seu meio próprio: a burla a lei.

                  Ramificações

                  É urgente uma resposta enérgica da PM. Com a prisão dos bandidos a descoberta de suas ramificações. Quem atira num posto policial não é um ladravaz de galinha ou um punguista de ponto de ônibus. É do tipo agressivo, organizado e tutelado por gente ardilosa na retaguarda.

                  Resposta

                  Episódios como ataques sistemáticos a agentes de segurança em São Paulo e no Rio de Janeiro, começam de forma tímida e atingem a agressividade da onda sangrenta de 2006. Basta o crime perceber timidez ou fragilidade na reação dos encarregados de combatê-los com vigor extremo.

                  Redução da maioridade penal

                  Uma das minhas razões mais fortes para votar em Aécio Neves é a sua decisão de apoiar a redução da maioridade penal. Serei cabo eleitoral juramentado se ele conseguir aprovar prisão perpétua para matador de policial. Mas, voltando a Natal, o tiro na base da Zona Norte exige resposta. A sociedade amedrontada quer troco.

                  Quem te viu

                  O volante Bileu, que foi do ABC, está jogando pelo Santa Cruz certamente pela falta de opções para ocupar seu lugar. Bileu está cansado, desmotivado, sem marcar nem dar um passe de 10 metros. Chutando mal. Ainda assim, com o time atual do ABC, seria titular.

                  Velhinho malvado

                  Aos 38 anos e 17 gols na Série B pelo Ceará, o dinossauro magricela Magno Alves humilha meninos sem pontaria. Magno Alves deveria animar Sérgio Alves, que tem 44 anos, minha idade. Com duas semanas de treino físico, seria titular do ABC.

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                    Caridade do esquecimento – Rubens Lemos

                    Saía no tapa raras vezes quando o chato flamenguista xingava Roberto Dinamite na escola. Brigas bestas, de menino em intervalo discutindo a rodada de domingo na irritação de uma segunda-feira. Flamenguista não fica satisfeito apenas em torcer pelo seu time. Gosta de tripudiar, humilhar, debochar do derrotado e nos anos 1980, o Vasco apanhava muito mais do que batia.

                    O Vasco era Roberto Dinamite, meu ídolo, o cara que ilustrava meu caderno socando o ar em vitórias sofridas. Quando o conheci, no antigo Hotel Ducal, onde ficou hospedada a seleção brasileira na única vez em que jogou em Natal, 26 de janeiro de 1982 (3×1 na Alemanha Oriental), tremi da cabeça ao dedão do pé ao receber seu autógrafo e um sorriso comovente pelo cinzento de uma tristeza cativante.

                    Fiquei abalado quando o(maior) técnico Telê Santana excluiu Roberto Dinamite da lista dos 22 convocados para a Copa do Mundo de 1982. Uma tremenda perseguição. Roberto Dinamite fez gol e jogou muito bem, afinado com Zico ao ser convocado pela primeira vez por Telê para um amistoso contra os búlgaros em Porto Alegre:3×0. Zico e Roberto Dinamite, juntos, nunca perderam um jogo pela seleção.

                    Na partida de Natal, isolado, o artilheiro do Vasco pouco rendeu. Ninguém jogou absolutamente nada, mesmo com a vitória. Sócrates fez falta, Falcão também não veio e não fosse pela ruindade dos alemães do caduco lado comunista, o Brasil, no máximo teria empatado. Como empatou contra a Tchecoslováquia em 1×1 no Morumbi.

                    Vaias no Morumbi provocaram ranhuras em gloriosas reputações. Roberto Dinamite não teve paz, como não tiveram, várias vezes, Paulo César Caju, Zico, Bebeto. Tocava na bola e era xingado pela multidão pedindo Serginho Chulapa.

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                    Barrado pelo pavoroso grandalhão Chulapa, à época no São Paulo, perdeu a vaga de reserva para o jovem Careca, do Guarani, habilidoso, ágil e adequado ao estilo de toque de bola da constelação que brincava com a bola.

                    Careca se machucou já nos primeiros treinos em Cascais, Portugal, onde o Brasil se preparava, e Telê foi obrigado a convocar Roberto Dinamite sem sequer colocá-lo no banco de reservas em nenhuma das cinco partidas.

                    Enquanto Zico, Sócrates, Falcão, Cerezo, Leandro, Júnior e Éder encantavam o planeta bailando em variação de ritmos, do samba ao jazz, Chulapa, destoando da sinfônica, ganhava uma reputação infame: o melhor zagueiro-central da Copa perdida para a Itália. Telê Santana conseguia ser maravilhoso e teimoso.

                    Roberto Dinamite segurou o Vasco sozinho no tempo de cartolas avarentos. De timecos. Aos 20 anos, comandou o improvável título brasileiro de 1974 superando o Santos de Pelé, o Cruzeiro de Dirceu Lopes e o Internacional de Figueroa e Falcão.

                    Três anos depois, massacrou Flamengo, Botafogo e Fluminense na épica jornada do primeiro título que assisti pela TV. O Carioca de 1977 com Mazarópi; Orlando, Abel, Geraldo e Marco Antônio; Zé Mário, Zanata e Dirceu; Wilsinho, Roberto Dinamite e Ramon. Ele batendo o pênalti final jogando o goleiro Cantarelli para um lado e a bola entrando rasteira no canto direito.

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                    Bem mais do que admiração, em Roberto Dinamite brotava ternura, uma singeleza quixotesca. Formou duplas sensacionais com Ramon, Jorge Mendonça, César, Cláudio Adão, Elói, Arthurzinho e Romário, seu sucessor rebelde e melhor atacante de todos os tempos.

                    Na transição do adolescente para adulto, quando se assume o mundo sem que se combine com quem quer que seja, passei a ver o Vasco na classe superior do maestro Geovani, companheiro de Roberto Dinamite nos títulos de 1982, 1987, 1988 e 1992.

                    Geovani representava a beleza estonteante que sobrava no Flamengo arrasador de Andrade, Adílio, Zico e Júlio César Uri Geller, ponta-esquerda entortador de laterais. Roberto Dinamite permanecia em mim como entidade. A coroa de ídolo já luzia imaginária na cabeça enorme do capixaba Geovani.

                    Agora, sem paciência nem saco para idolatrar ninguém, me compadeço do menino alucinado pelo Roberto Dinamite destruidor implacável da própria biografia. Péssimo presidente do Vasco.

                    Imagem e semelhança da lerdeza desastrada que rebaixou uma instituição duas vezes para a Série B, nivelou-se aos piores dos péssimos cartolas, praticando nepotismo e impondo o caos administrativo nefasto e devastador de uma história belíssima de vanguardismo, vitórias e avanços sociais no esporte.

                    Roberto Dinamite é a caricatura do herói que já foi. Banido da vida política, já não será deputado estadual no próximo ano, contados os pífios 9 mil votos de sua vigésima suplência.

                    Roberto Dinamite borrou com seu inesgotável estoque de incompetência, desenhos memoriais de uma geração inteira que chorava e lutava por ele. Hoje, Roberto Dinamite merece – com extrema boa vontade -, a caridade do esquecimento.

                    No meio do caminho, o Oeste

                    No meio do triste torto e esburacado caminho de ABC e América na Série B está apenas o Oeste de Itápolis (SP). Cinco pontos separam os dois maiores rivais potiguares na reta de chegada. ABC tem 35 e América, 30. Campeonato de instabilidade e incompetência.

                    América x Vasco

                    O América recebe o ex-grande Vasco na Arena das Dunas. Vasco em terceiro lugar graças à mencionada incompetência de Roberto Dinamite e buscando voltar à Série A ao menos entre os quatro primeiros. Vasco hoje saudoso do agradável e singelo Eurico Miranda. O América tem que vencer o Vasco e pronto.

                    Maquiavelismo

                    O ABC anda tendo aulas de maquiavelismo. Enche a torcida de orgulho ao vencer o Cruzeiro com golaço de Alvinho, mesmo Alvinho que faz partida desesperadora na derrota para o Luverdense, com todo respeito, time criado há poucos anos e que botou o alvinegro na roda.

                    Parada federal

                    O ABC vai a Joinville. Parada federal. Enfrentar o vice-líder. O ABC, com a derrota para um time que não vencia há nove jogos, precisa arrancar pontos fora de casa. E agora lembro o cara que me tentou convencer que o tal do Mendes da camisa 10 joga bola. Camisa 10 de Danilo, Alberi, Marinho, Geraldo, Sérgio Alves, Sérgio China, Cascata. Posso aceitar gracinha envolvendo Míster Mendes?

                    Agonia

                    ABC e América, ano após ano, massacram suas torcidas em jornadas de agonia. Sempre na angústia, sempre no sofrimento, sempre no abuso do mau futebol e no torpe jogo sujo da chantagem pelo dinheiro na hora decisiva.

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