Considerações finais – Rubens Lemos

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É, acabou. Poderia tamborilar sobre o primeiro jogo da final do campeonato, mas que sentido haveria, se não terá coluna quando o campeão espocar suas garrafas de champanhe, abrir suas cachaças, lavar peritônios com cerveja? Não teria razão de ser e o mundo hoje é impiedoso para quem desafia a crueza das verdades dolorosas. Não haverá mais o aqui.

O papel é um valoroso confidente. No presente do tempo e pelas memórias sagradas de uma vida. A caligrafia torta das imitações de edição de jornal de verdade foram guardadas por uma grande amiga da família, Amariles Furtado, ex-chefe do setor financeiro da Tribuna do Norte.

Sozinho, desenhava manchetes, criava fotografias e falava, baixinho, feito gazeteiro-mirim, as notícias que rascunhava em caneta Bic numa casa simples da Cidade Alta, onde morei nos idos de 1976.

Tinha seis anos e, antes de ir à escola, gostava de ler, de tocar nas folhas em impressão de chumbo e de me ver – curioso e maravilhado, na redação, máquinas de escrever metralhando, junto ao meu pai e seu dedilhar acompanhando a genialidade do raciocínio.

É insuportável qualquer despedida. Há quem finja frieza. Outros são autênticos insensíveis. Eu detesto. Sou humano e convencional, de especial nada tenho. Ir para voltar se admite. Partir para nunca mais é lembrança que sangra.

Tantas vezes tive de sair para longe de Natal por razões que não compreendia, criança, largando amigos, meu time de coração, minha avó e protestava desabafando ao silencioso companheiro de papel, ouvinte, compreensivo e sem nada a fazer.

Nos exílios forçados e traumáticos, escrevia compulsivamente. Cartas, bilhetes, postais sem atração alguma eram enviados e a esperança de cada tarde monótona e triste era o carteiro com alguma esperança de retorno, de alguém com notícias da terra, da rua, da escola, do futebol. E a esperança vinha em papel lido, relido e colecionado.

Sem nada a fazer. O Jornal de Hoje tomou um gesto de profunda coragem rasgando sua própria carne ao encerrar suas atividades impressas. Evitou o mal maior de apelar ao devaneio, de se iludir e atingir seus trabalhadores.

Liguei para Marcos Aurélio há dois dias e agradeci profundamente sua compreensão e o espaço que ele me abriu em 2010, logo após um longo período fora de jornal. Me ofereceu uma coluna. Uma causa, uma razão. Pouco antes da Copa do Mundo. Ele e o seu filho, Marcelo.

Pai e filho demonstraram entusiasmo e confiança na minha capacidade profissional, sacrificada por quase uma década de assessoria de imprensa em Governo do Estado, algo que desgasta, consome e não traz a recompensa espontânea da gratidão. Expõe o sujeito, consome o seu suco existencial e o transforma em mero objeto. Descartável.

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Na manhã do convite, me senti valorizado outra vez e me dediquei a Passe Livre com paixão, o que faço em qualquer desafio a que sou convocado. Fui tirando a poeira do peito e recomeçando, pegando ritmo, interagindo, buscando melhorar, conversando com as pessoas, tentando consolidar um estilo que é a natureza do profissional.

Quase cinco anos e tantas histórias. Contar histórias. Colar palavras, captar sentimentos, esquecer o banal, fazem parte do meu mantra na missão em que a necessidade de saber o básico do idioma está sendo jogada no lixo.

O jornalismo impresso foi atacado em emboscada pela internet. Enquanto a geração do meu pai e até mesmo a minha mantiverem seu último representante, ele estará sobrevivendo, desde que reinventado, mais analítico, opinativo, investigativo, desdobrando, com profundidade, aquilo que o mercado persa das redes sociais joga ao consumidor não poucas vezes sem a obrigação da responsabilidade. A honra alheia não justifica audiência alguma.

Mantenho 99% do que escrevi no O Jornal de Hoje, em lugar seguro. Preservado. Agora, como tesouro ainda mais inviolável e inegociável. Vou lembrar de cada tema, de cada história, do pano de fundo do futebol e do olhar de um velho de espírito sobre o cotidiano mutante e injusto.

ABC, América, Alberi, Danilo Menezes, Marinho Apolônio, Souza, Moura, Sérgio Alves, Dedé de Dora, Odilon, Didi Duarte, tantos craques locais, Marinho Chagas, o maior deles todos e sua morte rodriguiana, o batimento cardíaco do torcedor, seu gemido na dor, seu berro alucinado na glória, ficam para o tempo administrar. Zico, Geovani, Romário, Sócrates, Falcão, Rivelino, Ademir da Guia. Pelé, Messi. Pude reverenciá-los porque o papel foi impresso e alguém leu.

Aqui, pude defender – sem censuras ou interferências – meu querido Castelão (Machadão), saudade eterna violentada pela força da grana que destrói coisas belas. A Copa do Mundo em Natal foi um tento. Sem o Castelão (Machadão),um lamento disfarçado de epopeia bancada com dinheiro público.

Agradeço a todos os companheiros. Que sempre me trataram com imenso e intenso respeito. Com Marcos Aurélio abrindo o time, agradeço a Sylvinha, a Marcelo, a Dona Carminha (a eletricidade exemplar), a Alex, a Roberto Canuto e a Fabinho, a Túlio Lemos jamais ausente.

Um jornal, ao chegar ao fim, é a dor de cada um dos seus operários. Do pensador ao operador. Do formulador ao executivo, do editor ao fotógrafo, do motorista ao repórter. Aguda e maior é a saudado do leitor. O certo é que posso dizer com orgulho a meus filhos e ao primeiro neto, na hora em que chegar Deus sabe quando: um dia, escrevi no O Jornal de Hoje. E é vida que segue.

  1. Passe Livre será levada para meu blog pessoal em fase de reativação, mas que estará disponível, aos trancos, barrancos e garranchos digitais no endereço eletrônico: www.rubenslemos.com.br Abraço a cada um. Que me tenha dado a honra da leitura de Passe Livre.
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    Taça de presente – Rubens Lemos

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    Antes de me dedicar ao coração do texto, apenas reforço que ontem publiquei a primeira de duas colunas com histórias pessoais sobre ABC x América. É desta maneira que estou agradecendo a quem me lê desde 2010 em Passe Livre e a’O Jornal de Hoje, que deixa de circular em versão impressa a partir de sexta-feira.

    Ontem, deu América, num campeonato, o de 1979, todo desenhado para o ABC. Futebol em desenho só charge e o América levou a melhor vencendo nos pênaltis. Uma derrota amarga e uma lição de convivência esportiva dada pelo saudoso presidente rubro, Dilermando Machado, que me consolou, garoto de 9 anos e em pranto, ele dando lição de dignidade.

    Nesta quarta-feira, na qual os tambores da primeira batalha da final de 2015 irão tocar, aponto meus clarins para 1994. O Brasil perdera o ídolo Ayrton Senna da Fórmula-1, o presidente Itamar Franco – sempre esquecido – criava o Plano Real e impulsionava seu ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso à vitória expressiva sobre Lula. No primeiro turno.

    O manda-chuva do Brasil era um baixinho genial, nascido e criado na Vila da Penha, subúrbio do Rio de Janeiro. A dribles curtos e gols decisivos, levando nos ombros um time metódico, Romário ganhou a Copa do Mundo dos Estados Unidos igualando-se a Garrincha, em 1962 e Maradona, em 1986, como protagonistas solitários.

    No Rio Grande do Norte, avançava a campanha eleitoral para o Governo do Estado. Dois senadores na disputa. Garibaldi Filho, do PMDB, venceria Lavoisier Maia, do PDT por ampla maioria de 130 mil votos considerado o eleitorado da época, dispensado o segundo turno. Para o Senado, seriam eleitos os ex-governadores Geraldo Melo e José Agripino.

    O campeonato estadual indicava o América, franco favorito. Disparado. Um time bem montado, com um meio-campo organizado e um ataque atrevido. O América trouxera do Rio de Janeiro um centroavante esguio, negro e inteligente: Alcino, canhoto e um dos principais responsáveis pelas sete vitórias rubras sobre o maior rival antes da decisão.

    O América formara um meio-campo criativo. O volante havia sido campeão em 1993 pelo ABC. O pernambucano Rágner era o marcador, enquanto Carioca e os meias Josué e Baíca se encarregavam da distribuição e aproximação com Alcino e Bebeto. Josué foi revelado pelo Ceará e gastava habilidade.

    O ABC do presidente Leonardo Arruda Câmara era sombra do timaço anterior, que quebrara tabu de três anos e evitara o tricampeonato vermelho. Gente desconhecida como o goleiro Capelane, o lateral-esquerdo Emerson e o meia Quirino não empolgava a Frasqueira.

    O time empatou com adversários de nível baixo, escalou juvenis inexperientes e Leonardo foi buscar, na Fenat, hoje Secretaria de Esportes de Natal, o ídolo Danilo Menezes para ser técnico. Danilo, um camisa 10, armador nato, cerebral por vocação, transformou feijão e arroz em cardápio de restaurante de luxo.

    Trouxe os jogadores para perto, usou seu vasto repertório de histórias em portunhol incorrigível e tonalidade baixa. O ABC tinha fuzileiros de respeito: o capitão Romildo, o volante Zelito – primor de categoria –, o meia-atacante Barata, o cracaço Odilon e Renílson, centroavante rompedor, vindo da Bahia, sem muita fama e que temperou a jornada no acarajé e no baticum axé music. Comemorava seus gols dançando Chiclete com Banana.

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    A torcida começou a frequentar o Machadão a partir de um empate empolgante:4×4. O ABC trouxera para alguns jogos seu atacante Joãozinho, emprestado ao Santa Cruz e cedido na desclassificação tricolor de uma fase do Campeonato Pernambucano.

    Joãozinho , azougue ,brilhou no empate que devolveu respeito ao time e ficou para marcar, de cabeça, o gol da vitória por 1×0 num duelo em que o goleiro Capelane, baixinho e gordinho, defendeu o inimaginável. Capelane compensava a baixa estatura pela agilidade de um goleiro de futsal.

    O América relaxou, cada time ganhou um turno. A série decisiva previa duas partidas com o América jogando pelo empate pela campanha superior. No primeira desafio, num domingo, empate por 1×1.

    A turma que assistia junta aos jogos no antigo Frasqueirão, setor alvinegro no demolido estádio, estava firme. Todos no mesmo lugar, cervejas sendo liquidadas. Saí da redação do jornal, tomei o ônibus e sentei numa indiferença assombrosa. Fui preparado para a derrota. Eles eram melhores. E eu nunca me enganei à base de fanatismo.

    O ABC entrou de camisa listrada e calção branco. O América, em seu uniforme tradicional. O repórter Levi Araújo, da Rádio Cabugi, anunciava: o presidente Leonardo Arruda não viria ao estádio. Estava sendo operado, na hora do jogo, quando uma crise de vesícula derrubou seu corpanzil de pivô de basquete. Naquela fase.

    Lá de cima, copo plástico cheio de Skol, observava Danilo Menezes no banco de reservas do ABC. Até a bandeirinha de escanteio do lado da arquibancada onde estava, aparentava nervosismo. Danilo estava parado, como se esperasse um táxi lunar ou refletisse sobre Física Nuclear. Uma calma gelada.

    O ABC tocava a bola e o América respondia em estocadas arrepiantes. Josué chuta, Capelane espalma. Confusão na área, Renilson chuta, Pedrinho não segura e a roda gira ao contrário: ABC 1×0. Renilson contorce o corpo, dança aos sons imaginários. Olho para Danilo Menezes no banco e ele apenas pede calma aos jogadores.

    A bola sobra para Odilon na ponta-esquerda, adiante alguns metros da linha divisória. Atordoado, Pedrinho, num acesso de fúria, sai de sua trave, atravessa o campo e dá uma tesoura no veterano extraordinário armador, driblador e artilheiro. Pedrinho é expulso e, ali, estava escrita a sentença antecipada do jogo. Depois da bobagem que fez, Pedrinho jamais jogou no América.

    O América faz pressão. Baíca se multiplica em fintas secas. Romildo se desdobra como centauro na área alvinegra. Vem o segundo golpe. Oliveira gira sobre a defesa e chuta por baixo do goleiro Eugênio, que entrara substituindo o atacante Bebeto e matara a estratégia ofensiva do técnico Baltasar Germano. ABC 2×0 e a torcida parece acreditar que o “timinho” modesto e valente abocanharia o bicampeonato.

    O América dispara à frente. Tenta e Capelane salva. Barata marca 3×0. Baíca desconta tarde demais. ABC 3×1. Dia 18 de agosto de 1994. Eu faria aniversário dois dias depois. Festejei o improvável.

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      Clássico e algo mais – Rubens Lemos

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      A última decisão ABC x América que assisti dentro de estádio faz 10 anos. No Machadão, sitio arqueológico onde estão enterradas as melhores lembranças de minha infância e adolescência de menino tímido e encantado pelo clássico.

      Em 2005, eram duas partidas e havia um jogador acima da média em campo. Ele decidiu a parada para o ABC: o matador Sérgio Alves, formando uma dupla esplêndida com Barata, hoje trabalhando na comissão técnica do América.

      O ABC venceu o primeiro jogo de 3×0 e liquidou o campeonato, que não conquistava desde o tetra em 2000. Sérgio Alves se fez elástico e senhor das operações no quadrilátero, exibindo o porte monarca e a voracidade canibalesca para fazer gols. Ele estava com 35 anos e jogava mais do que todos os garotos, de então.

      O futebol ensaiava sua transmutação para a prioridade aos cifrões, mas a magia do estádio e seus labirintos que percorri feito o grego Teseu na luta contra o Minotauro da mitologia, me puxava do sossego de casa. A primeira partida me foi suficiente e a segunda vitória do ABC, por 2×1, acompanhei pela TV União de Manoel Ramalho, em casa.

      Esta é uma semana quente para o futebol e sofrida para nós que estamos encerrando nossas atividades no O Jornal de Hoje. Foi um baque a notícia e espero poder escrever sobre esses cinco anos com vocês sem que a emoção me apunhale.

      O fim de um jornal é uma solidão coletiva. Justamente na decisão do campeonato, não poderei estar aqui para comentar sobre o campeão. Somente dificuldades intransponíveis fariam Marcos Aurélio de Sá – a quem devo atitudes de solidariedade e grandeza, mandar parar de vez suas rotativas.

      Amanhã é ABC x América e decidi dedicar duas colunas, a de hoje e a próxima, a penúltima, a jogos históricos que acompanhei, uma glória para cada lado a dividir o coração da cidade. Lágrimas que derramei por derrotas e porres homéricos por vitórias impossíveis.

      Busco na resistência – marca do O Jornal de Hoje -, a força para me manter firme enquanto o relógio impiedoso vai contando o tempo e o fim vai mostrando seu semblante de contendor irredutível. Vamos lá, faz sol e o sol é a luz que precisa acender o interruptor do espírito.

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      Tinha 9 anos de idade quando fui amparado pelos meus pais e um dirigente do América no estacionamento do ainda Castelão após a final do Campeonato de 1979. Paramentado até os pés de ABC, entrara em campo com o time para a segunda partida da decisão. A primeira, terminou em 0x0 com os goleiros Carlos Augusto do ABC (falecido) e Zé Luiz (América), incorporando acrobatas de circo.

      Um título que se antevia alvinegro, ganhador do primeiro turno e jogando pelo empate para vencer o segundo e arrebatar a taça de bicampeão. Soberba é a morte no esporte. O América estava arrasado emocionalmente pela prisão do centroavante Oliveira Piauí, o Homem da Sacola de Gols, fulminado por ataque cardíaco dois anos depois.

      Quatro anos antes, Oliveira e um grupo de jogadores do Tiradentes (PI) bebiam num prostíbulo e defenderam uma prostituta agredida pelo companheiro, armado de revólver. O homem disparou as seis balas e errou todas. Apanhou até morrer.

      O processo correu à revelia, os acusados não se preocuparam mas houve julgamento com rigorosa sentença. Em Mossoró, Oliveira Piauí saiu do vestiário do Estádio Nogueirão, onde aquecia para enfrentar o Potiguar para uma cela. O América mobilizou seu departamento jurídico e Oliveira Piauí, livre, recebeu condições de jogo.

      Ao ser anunciado pelas rádios, a massa alvinegra, que compunha um formigueiro humano de 30 mil pessoas, brindou-o em coro de provocação inaceitável a quem tem dignidade: “Assassino!, Assassino!, Assassino”.

      Lembro de Oliveira Piauí acenar para a Frasqueira, balançar a cabeça e anunciar revanche. O ABC estava sem Carlos Augusto, suspenso e o seu reserva era inexperiente e nervoso, o jovem Sousa, dos juvenis.

      Danilo Menezes cadenciando o jogo, prendendo a bola e lançando longo para os pontas Tinho e Berg, gerenciava a partida que mudou no segundo tempo quando Pedrada abriu o placar para o América e Oliveira Piauí, aclamado, cabeceou para um trêmulo e impotente Souza apenas contemplar a rede balançando.

      O ofendido correu até a torcida adversária e bateu palmas, para si próprio. Ergueu o punho direito e olhou para os céus enegrecidos. Quando o atacante Berg descontou para o ABC, a torcida, revoltada, queimava papel picado e até bandeiras.

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      O torcedor tem relações com a paranormalidade. Percebe pelo instinto o perigo ou o caso perdido. A derrota fulminara o ABC e injetara litros de sangue de autoestima no América. Renascido e forte, com um supercraque no meio-campo ocupando o vice-reinado de Alberi: Marinho Apolônio na plenitude da categoria, dos dribles bantos e da obsessão sacra pelo gol.

      Na finalíssima, o tiroteio dos foguetões – espetáculo de ululante inutilidade e o túnel abrindo o cenário de compressão humana sob o cimento de linda arquitetura me trouxeram a sensação de desamparo. Era um mosquito coadjuvante na apoteose louca de um derby.

      Jogo amarrado, o ABC com o troncudo centroavante Dentinho dominado pela categoria praiana do quarto-zagueiro Sérgio Poti, um Marinho Chagas sem sair de casa.

      Oliveira Piauí enfrentava o miolo de zaga formado pelos jovens Joel Celestino e Arié e não se mexia. O volante Baltasar anulava Marinho Apolônio e o gaúcho Roberto impedia Danilo Menezes de raciocinar.

      É o que lembro, agora, como se lá estivesse, tenso, nas cadeiras numeradas, que se assemelhavam a bancos de igreja. O jogo foi até a prorrogação e o ferrolho de marcação recíproco prevaleceu. Novo 0x0 e cobranças de pênaltis.

      O América deu quatro chutes, acertou. Xinguei Carlos Augusto, ótimo goleiro. Dois jogadores da Portuguesa de Desportos, o tanque Dentinho e o brilhante lateral-esquerdo Carpinelli, bateram nas nuvens e o carnaval do América começou.

      O mar de camisas vermelhas, os abraços e a fúnebre descida da rampa até o estacionamento de imprensa destamparam o sofrimento recolhido. Chorei até um senhor afetuoso me dizer: “Calma, meu filho, você ainda vencerá. É assim”. Era o presidente do América, Dilermando Machado. Gesto dos nobres de caráter. Dos vencedores. Legítimos.

       

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        Grosso calibre – Rubens Lemos

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        O ambiente, pútrido. Cheiro acre, de cimento e cela. E ele, antiquado igual ao prédio, atual como o noticiário. A delegacia entupida de presos, malas e cuias. Conheci Adrieldo Dantas e suas opiniões sobre a humanidade. “Não vacile, nem confie. Só na mãe e na família. Se não tiver nenhuma das duas, vá pelo instinto.”

        Sua fama não me agradava. Verbalizava pela força bruta. Adrieldo espancava bandido com ódio, desabafando pelas vítimas. Calejado de experiência e cicatrizes de verdade nas mãos.

        Era seletivo com estelionatários. Baixava o sarrafo naqueles que enganavam velhinhas. Marido que esmurrava mulher apanhava quatro vezes mais. A Constituição era particular. Lei do bofete. Do porrete. Do jogo sem regra.

        Investigador de polícia, puta velha, me pegou de repórter iniciante. Alto, forte e barbudo, tinha trocado a Polícia Militar pela Civil. “Tenho instinto investigativo.” Era sua frase padronizada e distante da prática.

        Repórter começando. Fui com ele a uma varredura pelas madrugadas de Natal. O idealista enxergando fascínio nas bodegas e labirintos da cidade suburbana que os jornais não mostravam.

        O tira brutamontes, portando uma escopeta calibre 12 com nove munições disponíveis, arma predileta, capaz de fazer de uma cabeça, farinha. Algumas pistolas de calibre 7.65, hoje consideradas brinquedo se comparadas ao arsenal de guerra civil exibido ostensivamente nos confrontos entre polícia e gangues.

        Na Kombi, veio o primeiro cutucão malicioso: “Esse menino defende bandido, vamos mostrar a ele como é que é, como é que bandido trata gente”, debochava o Bezerra da Silva de distintivo. Os colegas, todos com vasto currículo nas entranhas do submundo, apenas riam. De mim e da banalidade. Descemos num bairro da Zona Oeste de Natal. Polícia de Kombi é cômica.

        Anos 1990. Início. Fernando Collor, eleito presidente, nem posse havia tomado. Adrieldo pede silêncio à equipe. Seu homem de confiança era o agente Luma. Gelado, submetralhadora INA à mão. Tenso estava, pior fiquei. Aos 19 anos de idade, desconhecia a cidade escondida nos subúrbios, armadilhas e emboscadas.

        Da viela, de onde eu só enxergava botecos, ganchos de uma matéria chamada humana, poética, surgiram os primeiros tiros. Da Kombi, dispararam uma rajada. Silenciosos, eu e minha companhia de reportagem fotográfica. Pouco antes, recebemos a ordem para deitar no chão e nos abrigar, se fosse o caso, embaixo do carro. “Aqui, é com a gente”, gritou um dos policiais civis. Estava lá um corpo estendido no chão. Com um revólver que segurava firme.

        A delegacia onde Adrieldo trabalhava, funcionava nos fundos do ITEP, o infecto IML potiguar, naqueles tempos com vaga sobrando em suas derradeiras e indesejáveis hospedarias. Ele, sem constrangimento, me convidou até lá. Devorou antes um hambúrguer.

        “Tá vendo repórter, tá vendo?” Ele me mostrava o corpo do homem, cabeleira rastafári, que surgira do nada e, atirando seis vezes, quase atingira a todos nós. Todos nós da Kombi. O bandido havia tomado, democraticamente, nosso lugar na gaveta. Na pedra. O legista chegou depois.

        Adrieldo percebeu minha inquietação. Brusco, perguntou o que só fui saber responder quase três décadas depois: “E se fosse eu aí nessa pedra, quem iria publicar alguma coisa a meu favor e sustentar minha família e os meus filhos? Responda, cara, responda!” Soltou uma gargalhada de revanche.

        Depois me levou a um boteco com prostitutas de batons reluzentes e maquiagem borrada, remanescentes da noite fracassada como a estampa da vida que levavam. Pediu e tomou em três goles, uma cerveja, morna. Não aceitei, ainda pensando no cadáver que poderia ter me transformado em outro, enquanto meus familiares dormiam, sem saber de nada.

        O tempo aposentou Adrieldo, típico policial sem bons modos e inaceitável pelos cortejadores de facínoras nos tempos de hoje. Matou, matou, sim. Em combate. Nunca fez parte de grupo de extermínio. Imagino que, se ainda fosse da ativa, estivesse preso ou morto.

        Tinha seu conceito de bem e de mal. Quando agia, os bons que ele enxergava nas pessoas comuns, não sofriam. O mal pagava numa lei de Talião adaptada ao homem rude, de olhos frios e sorrisos invisíveis. Sempre alerta e à espreita. Dedo no gatilho e escopeta com a boca gigante e devoradora.

        1. A história é verdadeira (identidades preservadas) e remonta aos meus tempos de repórter e Editor de Polícia.

        Depois de amanhã

        Agora é quarta-feira. Tudo é quarta-feira na ressurreição de ABC e América no domínio da ribalta da bola. É a primeira partida da decisão na Arena das Dunas. Zera tudo. Recomeça igual. Mando de campo é importante, claro, mas o América venceu em 2012 justamente no Frasqueirão. O ABC não é bobo e tem memória.

        Revolução

        A chegada de Josué Teixeira ao ABC demarca uma revolução. Sem batalhas, dores nem prantos. Consagra o renascimento moral de um clube. Josué está na história seja qual for o destino do campeonato.

        Cresce

        No América, o técnico Roberto Fernandes cresce justamente em decisões. É o chamado “homem de vestiário”. Na guerra, seria um atirador de elite, um infante.

        Há 40 anos

        O América conquistava o primeiro turno do Campeonato Potiguar na arrancada para o bicampeonato. Venceu o ABC no dia 26 de abril por 3×2 em clássico eletrizante, um jogo proibitivo para cardiopatas. O público no Castelão (Machadão) fala no silêncio do seu vazio: 32.575 pagantes. Arbitragem do paulista Oscar Scolfaro.

        Jogão

        Eram dois times primorosos, especialmente no quesito criação. O ABC saiu na frente aos 20 minutos do primeiro tempo com o ponta-direita Noé Silva. O América empatou aos 30 com o centroavante Pedrada e virou aos 40 com um gol de pênalti do cracaço Hélcio Jacaré. Reinaldo faria 3×1 para os rubros e Noé Silva marcaria outra vez.

        Times

        América: Ubirajara; Ivã Silva, Ademir, Odélio e Cosme; Edinho, Humberto Ramos (Washington) e Hélcio Jacaré (Santa Cruz); Reinaldo, Pedrada e Ivanildo Arara. Técnico: Sebastião Leônidas. ABC: Hélio Show; Sabará, Édson, Robertão (Joel Copacabana) e Anchieta; Maranhão (Luciano), Danilo Menezes e Alberi; Noé Silva, Edvaldo Araújo e Noé Macunaíma. Técnico: Clóvis Queiróz.

        Norton

        É uma pétala de lirismo nostálgico a crônica do redator Norton Ferreira, publicada pelo amigo Alex Medeiros no último sábado. Norton, um magro típico, escreve ao estilo dos regentes de meio-campo. Sim, ele sabe tudo de futebol. Também.

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          Quando a alma chora – Rubens Lemos

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          Aos 42 anos, o volante Amaral, o primeiro Amaral da saga de brucutus, chorou o desabafo dos perseguidos ao ajudar o seu Capivariano a permanecer na primeira divisão do Campeonato Paulista. A notícia, nem tão nova, a emoção, eterna e o personagem, de um carisma torto.

          Amaral, ao longo da carreira de operário da bola, se matava, suava e cumpria a humilde função de desarmar o oponente para servir ao craque, quando craque havia no Brasil.

          Amaral, sem apelar à violência, corria atrás de sofisticados do naipe de Alex, Djalminha e Rivaldo do Palmeiras, Souza (o Souza do América), quando no São Paulo, Juninho Pernambucano, Juninho Paulista (Vasco) e Petcovic (Flamengo).

          Com um defeito no olho, o “farol baixo” de adágio nordestino, foi logo chamado de Cabeça de Área de Notre Dame pela turma do Casseta & Planeta. A feiura jamais tirou a ternura de Amaral, gozador e sofredor. Penou na vida, no sentido literal. Começou coveiro e por muito pouco não teve que voltar a trabalhar em cemitério quando ruiu o castelo de futilidades do mundo boleiro.

          O Amaral da seleção brasileira, do Corinthians, Palmeiras e dos carros importados, da conta corrente recheada, amarela nas imagens antigas e no temperamento brincalhão do espírito limpo. Em Amaral, há sentimento sem ressentimento. O Cantinflas de formas sem formosura encantou-se pela voracidade animal das marias-chuteiras que o esqueceram.

          Amaral passou pelo Vasco, ganhou um bom dinheiro, gasto em desempenho driblador garrinchiano pela companheira que o abandonou e o deixou sem nada. Amaral, como todo palhaço, que faz rir para arejar a alma triste, contou em entrevista a Jô Soares que estava fazendo o caminho de renascimento ao inferno boleiro, que é o começar pela volta impossível. A idade era o pretexto para clubes mequetrefes baterem-lhe com a porta na cara.

          Jogador de brio, Amaral não será lembrado por nenhum gol. Nenhuma jogada de gênio ou astúcia de improviso. Quase todo domingo, Milton Neves exibe o descadeirante drible que ele tomou de Romário no Pacaembu num Flamengo 3×1 Corinthians. Romário, sozinho, implacável, resolveu ser Rivellino e deu um elástico em Amaral, lindo e desmoralizante, batendo de biquinho no ângulo do goleiro Nei.

          – Você não é o Amaral?

          – Sou!, você é “curíntia?”

          – Não, sou Flamengo e se aquele drible de Romário fosse em mim, abandonaria o futebol.

          Amaral anotou em caderno espiral e guardou na memória as centenas de provocações de torcedores que o encontravam na rua e debochavam. Respondia com a tristeza do arcabouço de risada.

          O futebol brasileiro não revela mais ninguém de talento. O tal do Lucas Silva, ungido príncipe volante, é desprezado no Real Madrid e será emprestado a alguma república de guerra do Leste Europeu.

          As categorias de base estão infestadas de vampiros levando os que demonstram alguma habilidade para berçários nos confins do mundo respaldados por procurações dadas pelos pais em condições miseráveis e esperançosos pelos contratos milionários.

          Romário, verdugo de Amaral e de meio milhão de teimosos a encará-lo, jogou até os 41 anos e justificou: “Joguei até essa idade por uma simples razão: nego no Brasil não joga mais p…. nenhuma e só sabe correr. Eu ponho a bola para andar, fico parado, driblo, um, dois, três, dou um toquinho e pronto.”

          Amaral precisou refazer o itinerário de Proust por necessidade e contou com a solidariedade quase inédita do Capivariano. Participou de boa parte do campeonato e, na partida decisiva, jogou 90 minutos. Menos cinco anos, poria no bolso os atuais botinudos de Dunga.

          O fato é que Amaral chorou, transbordando melancolia e verdade. Nem sabe ele, mas seu pranto – desprezado pela mídia – soa tambor de desagravo aos homens e mulheres longevos e produtivos, tratados como proscritos no mercado profissional a cada dia mais fechado e arrogante de um país de nova geração priorizando competição desleal e tecnologia ao bem maior: o ser humano.

          O tira e a teima

          Único motivador da rodada final do segundo turno, o desfecho sobre mando de campo nas finais entre ABC e América está por uma combinação nem tão complicada.

          O ABC

          Tem 37 pontos e jogará a finalíssima no Frasqueirão com um empate diante do Globo neste sábado. Chegaria aos 38 e não poderia ser alcançado pelo time rubro. O empate, além de garantir a vantagem territorial do ABC, classifica o Globo para a Série D.

          O América

          Precisa vencer o Alecrim e torcer por uma derrota do ABC. Ficariam empatados em 37 pontos e em quase todos os outros critérios. O América venceria pelo saldo de gols e decidiria na Arena das Dunas.

          Globo

          O Globo é favorito à vaga na Série D na disputa com o Alecrim por uma série de circunstâncias, entre as quais o empate que não deve ser encarado como jogo de comadres. Não é perfil dos técnicos Josué Teixeira, do ABC, e Pedrinho Albuquerque, do Globo. Pedrinho, principalmente, recomeça e a classificação ao Brasileiro lhe dará moral extra.

          Evaristo

          “Bora eu, seu Avaristo”. O apelo humorístico do ponta-direita Jacozinho, do CSA (AL) dimensionava o escrete peripatético montado por Evaristo de Macedo, um supercraque nos anos 1950/60 e guindado a número 1 do futebol brasileiro há 30 anos, tempo de preparativos para as Eliminatórias para a Copa do Mundo.

          Estreia

          A estreia de Evaristo de Macedo aconteceu em 25 de abril de 1985, vitória de 2×1 sobre a Colômbia no Mineirão com vaias de 65 mil espectadores. Alemão e Casagrande fizeram os gols do Brasil. Prince marcou para a Colômbia.

          Times

          O (sofrível) Brasil: Paulo Vítor; Edson Boaro (Luis Carlos Winck), Oscar, Mozer e Branco; Dema, Alemão e Casagrande (segundo o jornalista João Saldanha, o pior meio-campo desde Pedro Álvares Cabral); Jorginho, Reinaldo e Éder. Colômbia: Zape; Luna, Prince, Escobar e Porras; Sarmiento, Quiñonez e Didi Valderrama (Cuadrado); Morales (Soto), Herrera (Lugo) e Ortiz. Técnico: Gabriel Ochoa.

          Caiu

          Depois de derrotas para o Peru, a própria Colômbia e o Chile, Evaristo de Macedo foi demitido e substituído por Telê Santana, que classificou o Brasil sem problemas. Carlos, Leandro, Oscar, Edinho e Júnior; Cerezo, Sócrates e Zico, Renato Gaúcho, Casagrande e Éder era o time. Na Copa, dançamos.

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            Segredos de Estrago – Rubens Lemos

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            A paixão acasala côncavos e convexos e arrasa convenções, manuais, reputações, regras, normas e erudições. Cega e guiada pelo instinto desbravado, abre crateras sentimentais quase sempre incuráveis e desvela mistérios insolúveis. Quanto mais clandestina, mais perigosa, afoita e travessa na aceleração dos batimentos cardíacos.

            Escrevo – e tratem de acreditar – baseado na leitura de livros policiais de estilo noir e de filmes repetitivos de triangulações arrebatadoras. Sou um homem bem casado, sossegado, deveras resolvido e espectador das loucuras do mundo na sua subdivisão de proibições e pecadilhos adoráveis.

            Agora mesmo, caiu a casa, corrijo, a cama, do ex-diretor da CIA, a Central de Inteligência Americana, general David Petraeus, arreado os quarto pneus e o coração pela biógrafa, Paula Broadwell. Tudo começou no prólogo, passou pelo prefácio e os capítulos caíram no roteiro impensável da entrega. O epílogo transformou depoente e escritora em personagens principais e calientes.

            Responsável por segredos suficientes para derrubar governos, detonar guerras, fritar terrotistas e treinar gênios recrutados para agentes secretos superdotados, o general sucumbiu ao fruto bendito, mulher. Aquela maravilha que induz ao redemoinho de delirio e fascinação.

            A literatura e o cinema – repito – a literatura e o cinema – me ensinaram que, quanto mais apaixonado, mais vaidoso e abobalhado fica o bicho-homem transformado em menino de berço pela fêmea dominadora e senhora dos casos paralelos.

            Enquanto gravavam depoimentos para a obra literária, o general e a princesa esqueceram instruções básicas de equidistância entre entrevistado e fonte para não comprometer a história e revisavam as páginas nuzinhos.

            O que o general não lembrou (o apaixonado, ainda segundo o cinema e a literatura), é um cego profissional de bom senso, um quixotesco apanhador de flores em canteiros de rua, um gastador perdulário, um vaidoso nem que Narciso lhe tenha negado até o mísero direito ao espelho. Um seresteiro desafinado, e incorporado em Nelson Gonçalves.

            O general esqueceu que era da CIA e, uma vez na CIA, sempre na CIA, sem a necessidade de se entoar a frase no ritmo choroso da ladainha do Flamengo depois do pênalti claríssimo, incontestável, que colocou o Vasco, o escrete do franciscano Doutor Eurico Miranda na final do Campeonato Carioca. Logo o Flamengo, exemplar na conquista de títulos sem tungar adversários em anos próximos. Passados.

            O homem pode sair da CIA, mas a CIA não sai do homem. E se existe algo que não existe para seus vocacionados integrantes de costela, soturnos, dissimulados e impiedosos é sentimento.

            Assista ao filme (classico) O Bom Pastor, com Robert de Niro e o implacável Matt Damon, cujo personagem mata a noiva do filho no dia do casamento por conta de uma informação vazada para os soviéticos.

            O filho – um apaixonado agravante por ser novato, entrega códigos fatais à belíssima espiã domadora do seu coração desprotegido feito Kennedy em Dallas, 22 de novembro de 1963. Mal comparando, Damon, apelidado de “Mãe”, é um Bayern de Munique e General Petraeus parece o Brasil de Felipão na Copa de 2014.

            A CIA começou a fechar a cara ao general de guarda aberta assim que ele decidiu lançar o livro. Nem minha falecida – e santa avó, duvidaria que ele foi grampeado, filmado, fotografado e decifrado por dentro e por fora durante as, digamos, entrevistas.

            A CIA convocou-o para depoimento e ele negou que tivesse feito qualquer relação comprometedora à amante – ele admitiu o romance alucinante como a redundância da adjetivação e que jamais compartilhara seu cofre particular com a adorada, uma oficial. Petraeus, condecorado pelas participações em batalhas no Iraque e Afeganistão, tem 62 anos de idade e abriu o jogo. Dissera tudo o que sabia, pelo verbo querer. Demais.

            Condenado a dois anos com liberdade condicional, pagará uma multa de 100 mil dólares aplicada pelo juiz para refletir sobre os “males que causou ao país pondo-o em risco”. Punir a paixão é insensatez. Ninguém a tipifica. É bem mais plausível o humilhado general ter exagerado para crescer no conceito de herói nas contendas de alcova. A biógrafa arquivou o projeto do livro e voltou para a família. Mãe de dois filhos, é casada com um solícito e conformado rapaz. Até preparou o jantar. De avental. Quem sabe, agente da CIA.

            Os 11 descansados

            O técnico Josué Teixeira escalará o seguinte time contra o Globo: Gilvan; Jardel, Rafael, Mael e Marcílio; Marcel, Neto Coruja, Wellington Bruno e Chiclete; João Paulo e Júlio César. Somente Chiclete de titular.

            Ritmo

            Decisão certa. Não há motivo para arriscar contusão com as principais peças e os outros precisam ganhar o mínimo ritmo de jogo para uma eventualidade. Do time acima, Gilvan, Neto Coruja, Wellington Bruno e João Paulo são experientes.

            Absurdo

            Juntos, América e ABC vão pagar 25 mil reais pelo fato de um cara de pau ter jogado uma lata no gramado no ultimo clássico. Os clubes devem recorrer. Assim é complicado.

            Gols

            Números calam bocas insatisfeitas em vão. Com Roberto Fernandes, o América marcou 202 gols em 121 jogos. É media que o grande Telê Santana aplaudiria.

            Max

            O América precisa de Max. E Max precisa muito mais do América, que lhe deu solidariedade e acolhida quando ele passou mais de um ano punido por conta de doping. Quando gestos não são reconhecidos, não podem ser reclamados depois.

            Recorde do Bahia

            O Bahia conseguiu quebrar o seu próprio recorde na nova Fonte Nova. No jogo contra o Ceará (Ceará 1×0), o tricolor colocou 40.982 pagantes, superando as últimas exibições da equipe na própria Copa do Nordeste 2015. A renda total chegou a R$ 1.070.457,00.

            Lampions

            Vencer a Lampions League honra.

            Sem pênalti

            No dia 24 de abril de 1977, Vasco x Flamengo muito diferente do último. No palco, na mistura de massa e de raças, no nível dos craques. Naquela tarde, assombrem-se, 134.787 pessoas pagaram ingresso no (Ex) Maracanã para a vitória cruzmaltina por 3×0, gols de Roberto (2) e Zanata.

            Times

            Vasco: Mazarópi; Orlando, Abel, Geraldo e Marco Antônio; Zé Mário, Zanata (Helinho) e Dirceu; Luis Fumanchu (João Paulo), Roberto Dinamite e Ramón. Técnico: Orlando Fantoni. Flamengo: Cantarele; Paulo Roberto, Rondinelli, Carlos Alberto Torres e Vanderlei Luxemburgo; Merica, Carpeggiani e Zico; Osni, Luisinho e Luís Paulo. Técnico: Jouber Meira.

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              Bravo, bávaro – Rubens Lemos

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              Complicado discutir futebol com fanático. A ele, o óbvio é invisível. É capaz de confundir uma mulata de escola de samba em trajes sumários com o rabugento e falecido Pedro de Lara, jurado do programa Sílvio Santos nos tempos de camisa Volta ao Mundo e Sapatos Motinha. Pedro de Lara, sua barba nazarena e imbatível exterminador de calouros.

              O camarada liga, você atende, escuta meia hora de argumentação fajuta e quando vai rebater, o valente de celular quer partir para a briga. Ao telefone, um faquir briga com campeão de MMA. É enorme a distância e a conveniente rota de fuga.

              O Figura é de longas datas. É boa gente, um pouco inconveniente, mas de atitudes bem cristãs. Ajuda criancinhas no Natal, faz papel de palhaço em confraternizações de adulto – aí eu já acho intolerável -, e costuma chupar maçã de parque de diversão, doce de fazer o caixa de qualquer dentista, dada a produção industrial de cáries.

              “O Bayern de Munique não é essas coisas todas não. Os adversários é que estão com medo. Viu o segundo tempo contra o Porto? Viu? Quase os portugueses complicam.

              É patológico o ufanismo do Figura.

              O Bayern venceu o jogo de 6×1 e provou que, hoje, é um triturador de concorrentes sequenciando sua extensão, que é a Alemanha campeã do mundo. Fez 5×0 no primeiro tempo, o Porto diminuiu e tomou o sexto, de falta.

              Meteu sete (a zero) em time ucraniano lotado de brasileiros e forçou a barra no primeiro tempo para dizer ao Porto que nunca mais se atrevesse a derrotá-lo, como fizera na semana anterior. O Bayern engole o adversário num cinturão de asfixia e de toque de bola. Seu jogo é mortal.

              São jogadores extraordinários e um visionário de técnico. Quando se vê Guardiola, vislumbra-se a felicidade do objetivo conquistado, do sonho consumado, da arte aliada à eficiência sem perder seus traços nobres.

              O Figura não se convenceu e manteve sua tese de que as goleadas homéricas não passam de acidentes. “Goleadas, de seis, sete, não são acidentes, são catástrofes. Ou melhor, são espetáculos, recitais de futebol jogado com virtude”.

              Para irritar – e me livrar do Figura, enalteci a categoria de Thiago Alcântara, o meia-armador que o Brasil perdeu para a Espanha e será o sucessor de Iniesta na Fúria. Um solista. “Não é o filho de Mazinho (tetracampeão)?”, ele perguntou. “Agora, Mazinho é pai dele”, devolvi. Bravo, bávaro.

              Mando de campo

              Os últimos jogos do segundo turno de ABC e América deveriam ser cancelados não fosse a disputa pelo mando de campo na partida finalíssima das duas decisivas. Fora esse desafio, serão desimportantes.

              Série B

              Modificaram datas dos primeiros jogos do ABC. Esmagaram o tempo do time para a estreia, logo após a decisão do estadual, que passou de 9 para 8 de maio contra o Oeste. A TV, que manda no campeonato mudou dia e hora das partidas contra o Criciúma – fora de casa – de 12 para 15 agora às 21 h50 e diante do Luverdense/MT, no Frasqueirão, transferida de 22 para 23 de maio às 21 horas.

              Ronaldo Mendes

              Jogando o que mostrou ao fim do ano passado, somará ao grupo de Josué Teixeira na Copa do Brasil e na Série B. É meia de boa visão de jogo.

              Clébson

              É bom jogador o meia Clébson, contratado pelo América para a disputa da Série C. Arisco, bate bem à média e a curta distância. Bom no toque de bola. Tem uma cabeleira parecida com a do ex-goleiro colombiano Higuita, mas o negócio dele é com os pés.

              Série D

              Globo e Alecrim brigam pela Série D, um campeonato onde somente os valentes sobrevivem e é uma oportunidade para alguns jogadores sobreviverem ao árido segundo semestre sem competições e mercado de trabalho escasso. Por eles, os sem dinheiro e muito sofrimento, ninguém luta ou defende.

              Formação de atletas

              O deputado Afonso Hamm (PP-RS), presidente da nova Subcomissão Permanente do Futebol, ligada à Comissão do Esporte da Câmara, disse que o objetivo do grupo é identificar os problemas do setor desde a formação dos atletas ao estímulo à presença dos torcedores nos estádios e até o desenvolvimento do futebol feminino.

              Eixos

              De acordo com Hamm, o trabalho da subcomissão vai atuar inicialmente com três eixos. As questões legislativas, trabalhistas e tributárias do futebol serão relatadas pelo deputado Andres Sanchez (PT-SP); o debate sobre segurança e violência nos estádios ficará no comando do deputado Roberto Góes (PDT-AP); e sobre a formação dos atletas, com o deputado José Rocha (PR-BA).

              Os 7×1

              Afonso Hamm afirmou que a derrota do Brasil na Copa do Mundo do ano passado por 7 a 1 tem uma explicação que deve ser buscada desde o início, na condição dos centros de treinamento de atletas. Outra discussão que deve ser retomada, segundo ele, é o uso dos estádios da Copa.

              TV

              O deputado também citou novas propostas, como a de participação das redes de televisão em um fundo para desenvolver o futebol. “Por que não pode ficar 2% das arrecadações do estádio, do direito de imagem para investir no futebol?”, questionou.

              Qualidade

              O deputado Evandro Rogerio Roman (PSD-PR) acredita que a subcomissão tem a capacidade de melhorar a qualidade do futebol. Segundo ele, a ideia é oferecer ações para desenvolver o futebol para os próximos 10, 20 e 30 anos. Afonso Hamm ressaltou que a subcomissão tem ex-atletas e ex-dirigentes na sua composição.

              Jogo quente

              Em tempos de espera de decisão com classico-rei, vale a pena relembrar um jogo quente, disputado em 23 de abril de 1978 pelo Campeonato Brasileiro. ABC e América empataram em 1×1 no Castelão (Machadão), gols de Ronaldinho para o América e Da Costa para o alvinegro aos 44 minutos do segundo tempo, quando a Frasqueira ia embora, conformada com a derrota. Público pagante de 21.295 pessoas no Castelão (Machadão).

              Os times

              ABC: Hélio Show; Moreno (Domício), Pradera, Cláudio Oliveira e Orlando; Baltasar, Danilo Menezes e Zezinho; Noé Silva (Gilvã), Jorge Costa e Noé Macunaíma. Técnico: Waldemar Carabina. América: Valdir; Ivã Silva, Joel Santana, Argeu e Moura; Ronaldo Alves, Humberto (Ubirani) e Gilmar (Jangada); Ronaldinho, Aluisio e Soares. Técnico: Laerte Dória.

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                Pelé, camisa 13 – Rubens Lemos

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                São demais os estragos da injustiça. A bem aparelhada máquina de propaganda da Ditadura contava com dóceis colaboradores na imprensa. Não que fosse um manjar ser corajoso naquela época.

                Um olhar (considerado) contestador pelos “sensíveis” olhos da tirania e o sujeito, em poucas horas, até em alguns minutos, estava pendurado, nu, levando choque elétrico e porretadas por “contrariar interesses patrióticos”. E a Pátria, calada, só ouvindo para demorar a devolver democracia com 30 anos ontem.

                João Saldanha, jornalista destemido e talentoso, melhor comentarista brasileiro da eternidade, adversário assumido e provocador do Regime de Exceção, assumiu a seleção brasileira por amor ao futebol e contradição, um dos seus traços. Aceitou o convite da CBD, entidade meramente decorativa e obediente aos ditadores.

                Depois de montar um timaço, que ganhou todos os jogos das Eliminatórias em 1969, transformar lesmas em feras autênticas e devolver ao povo a confiança no futebol, Saldanha foi sendo boicotado até cair.

                Uma das versões era a suposta briga com Pelé, a quem teria chamado de míope. Deposto e rei posto, Saldanha foi para o seu lugar de verdade, a cabine de rádio, e viu Zagallo assumir o cobiçado comando.

                Zagallo não criou problemas com a visão de Pelé, que enxergava além dos fantasmas. Simplesmente o colocou no banco, durante amistoso contra a seleção reserva da Bulgária no Morumbi.

                Pelé usou, pela primeira e última vez, a camisa 13 da seleção. Ficou na reserva para que o obediente técnico pudesse testar Tostão recuado, em seu trono, com Roberto Miranda, do Botafogo, de centroavante.

                A multidão, perigosa e indomável, vaiou os 90 minutos e não havia aparato de delação e pancadaria que a fizesse parar. Pelé entrou, enrolou – de propósito – e Zagallo nem precisou dar explicações. O jogo terminou 0x0 e, com Saldanha, haveria inquérito e prisão.

                Zagallo, o supersticioso, fazia tudo o que a Repressão queria. Especialmente convocar Dario, o centroavante reserva de Roberto Miranda nas suas primeiras escalações e preferido do déspota Garrastazu, de olhar gelado como o Hannibal Lécter do cinema transposto ao pesadelo da vida. No próximo dia 26, a aberração, quem sabe a maior da história das pelejas, completa 45 anos. É bom lembrar, sempre. Para que não se repita.

                 

                Alberi no banco

                No dia 22 de abril de 1973, quem estava no banco era a versão provinciana de Pelé, o craque Alberi, do ABC, em quinto ano de papado. Só que Alberi se recuperava de um acidente de carro e entrava no segundo tempo contra o Força e Luz. Empate em 0x0 com 6.435 pagantes no Castelão (Machadão).

                Times

                ABC: Erivan; Sabará, Edson, Quelé e Anchieta; Maranhão, Danilo Menezes e Jailson; Libânio, Baltasar (Alberi) e Morais. Força e Luz: Bastos; Nilton, Tito, Babau e Jerônimo; Edmundo, Valdeci Santana e Gonzaga; Izulamar, Élson (Vanildo) e Chiquinho.

                Sorte

                Para o ABC, a sorte é que, na preliminar, o América também zebrou empatando em 0x0 com o Ferroviário. Uma rodada atípica com os pequenos complicando. América: Ubirajara; Pimentel, Cláudio, Djalma e Chico; Afonsinho (Washington), Nunes e Olavo (Romualdo); Almir, Bagadão e Gilson Porto.

                Ferrim

                Ferroviário com Aurílio; Biu, Edvaldo, Jácio e Célio; Jorginho, Erivã e Valfredo; Zé Maria, Tião Medonho (Zé Ireno) e Abel. Jogos pela terceira rodada do primeiro turno. ABC seria tetra.

                Campeonato

                Nem o ABC pode continuar comemorando o segundo turno nem o América lamentando a derrota. Zerar o jogo fará bem para os dois. É decisão e tudo recomeça.

                Sucesso

                Nada de propaganda. Apenas números que atestam a força de um modelo vencedor. Segundo a assessoria de imprensa do canal Esporte Interativo, somados os públicos da partida entre Vitória x Ceará no dia 11 e de Bahia x Ceará no dia 12 foram cerca de 7,2 milhões de pessoas que sintonizaram o canal esportivo da Turner para acompanhar a principal competição regional do Brasil. A decisão entre Bahia x Ceará começa hoje em Salvador e os 41 mil ingressos esgotaram no feriado de ontem.

                O release

                O Esporte Interativo em seu próprio release – o ego transposto às palavras – tem obtido um grande sucesso com a Copa do Nordeste. Segundo divulgado pela emissora, em 2015 há 14 marcas patrocinando o evento, um aumento de 20% em relação a edição de 2014 em faturamento. Itaipava, Caixa, Rede, Gillette, Germed, Pitu, Subway, Midea, HapVida, Fisk, Maratá, Lupo, Penalty e Elsys são as marcas que apoiam a edição atual do campeonato.

                Diferencial

                Como diferencial, segundo ainda o entusiasmado assessor, as empresas têm apostado em ações. A Midea, por exemplo, presenteou os revendedores da marca com um Dia de Craque. A iniciativa permitiu que os convidados vivessem a experiência de ser um jogador. A Copa do Nordeste é transmitida para todo Brasil exclusivamente pelo E+I. A Rede Globo também tem direitos para transmitir a competição, mas somente na região Nordeste.

                Tradição na Liga

                A Liga dos Campeões vai mesmo dar vantagem aos autênticos campeões a partir da próxima temporada. Em comunicado oficial, a Uefa confirmou que os vencedores dos sete campeonatos de países com melhor classificação no ranking continental vão ser designados cabeças de chave no sorteio da fase de grupos a partir de 2015/16, além do defensor do título europeu.

                Potes

                Ficarão no pote 1 os ganhadores na Espanha, Inglaterra, Alemanha, Itália, Portugal, França e Rússia. Caso o clube que conquiste o torneio continental também tenha levado o troféu no seu país, abre-se uma vaga para o PSV Eidhoven, dono do troféu holandês antecipadamente.

                Abrir vagas

                Isso significa que, se não ganharem a Champions, Barcelona ou Real Madrid podem ficar no pote 2 e caírem num “grupo da morte”, com o campeão alemão ou inglês, por exemplo. Situação bem diferente dos últimos sorteios, quando o coeficiente no ranking da Uefa abria vagas adicionais para determinados países terem mais de um clube como cabeça de chave.

                Espanhóis

                Assim, os dois rivais espanhóis e o Atlético de Madrid, campeão nacional, foram beneficiados. A situação se repetiu também com os portugueses Benfica e Porto, além dos dos britânicos Chelsea e Arsenal.A mudança significa também que, se confirmarem a liderança atual em seus campeonatos nacionais até o fim da temporada, Zenit e Lyon serão cabeças de chave em 2015/16.

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                  Saulo – Rubens Lemos

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                  Saulo beatificou na noite de domingo o apostolado da segurança na história moderna do derby da Nova Holanda. Saulo, observador de bote, tigre por adição, goleiro desde o ventre, seguro em lógica e contradição, matou o clássico e deixou quando todas as luzes foram apagadas e o último bêbado recolheu-se à calçada nua escapando o bilhete: “Quem terá sido melhor que ele?”

                  Ocorre que a Saulo, monsenhor de calça elástica, pernas plásticas, mãos de pais a segurar filhos, mãos de amor, indispensável é a vaidade, a comparação, a fileira, a obsessão. Principal é o gesto e terceirizada é a vaidade de escolher quem na baliza é o o maioral, se a estatura ele dispensa.

                  Quando Saulo pegou o pênalti, pensei em Hélio Show, maior que me havia assombrado, sinônimo de cadeado. Saulo pegou outra pior, mais difícil. Hélio Show, Ribamar, Lulinha, Shumacher, Sadi e Jorge Pinheiro respeitarão Saulo na dimensão de alguém que chega ao clube dos insuperáveis.

                  O clássico? Sim, o clássico. Os comentários estão feitos e a manhã terá varrido lembranças efêmeras, passageiras. O torcedor, professoral, dos ensinamentos emocionais, vibrou com Fabinho Alves, atacante do ABC, com Kaike e sabe que Wellington Bruno bateu seco, jogou uma folha morta de escolha no Busatto, redivivo após a derrota.

                  O ABC está numa final de campeonato e o campeonato começa agora. O ABC de Josué Teixeira, a percepção suave do sol renascendo .O ABC que começa com Saulo, versículo de trave. Goleiro de arco e flor.

                  O bem

                  Ser bem criado não significa relação obrigatória com bolso cheio ou família rica. Há potentados de imenso coração e lisos piores que víboras. A vida escala o contrário, idem. Tudo é do sangue e da formação familiar, da índole e do caráter. Sou de origem simples e minhas lições, de um velho tio-avô, de minha avó-mãe e dos meus pais, me ensinaram que: aquele a desejar primeiro o mal alheio é um condenado a penar na vida, arrastando correntes enferrujadas pela inveja.

                  Sucesso dos outros

                  Vibro quando alguém que conheço e sei da integridade – ou não necessariamente é meu chegado – atinge o sucesso, avança na profissão, melhora de vida, consegue superar dificuldades e prevalecer pelo talento exaltado.

                  Alan

                  O jornalista Alan Oliveira, também sem berço dourado, ocupou este exato lugar em que escrevo na década de 2000. Sempre atencioso e vendo além do lugar-comum, do trivial, do dente-a-menos. Inovou no marketing esportivo, estudou, projetou-se, levou sua empresa para fora das divisas potiguares e colhe os frutos.

                  Brasília

                  Alan – também – é valorizado em Brasília. Cuida da imagem do Gama, aquele time de verde que durante anos foi o calo de sangue do ABC em campeonatos nacionais. Alan chegou lá pelo brilho que o Gama conheceu, aprovou e adotou.

                  Renascimento

                  Resultado. No fim de semana, após 11 anos sem títulos candangos, o Gama classificou-se para a decisão do Campeonato Brasiliense. Após intenso trabalho de reaproximação do torcedor, fruto da inteligência discreta de Alan Oliveira.

                  Benção

                  O Gama está na final e Alan colaborou e muito, embora jure que não. Só digo a ele, o mínimo: Benza-te, a cada hora em que puser os pés numa calçada fora de sua casa em Natal. Aos olhos ruins, a fé.

                  Gesto

                  Ao presidente da Federação de Futebol, José Vanildo, meu reconhecimento pelo gesto de homenagear o decano do jornalismo esportivo potiguar, o professor Everaldo Lopes, com o nome do troféu do segundo turno. Atitude fora de moda nos tempos impessoais. Everaldo merece. Passou de homem a lenda. Decidiu parar, repousar, se recolher.

                  Orgulho

                  Um dos meus orgulhos na vida profissional foi ter começado no jornalismo no mesmo dia em que Everaldo Lopes estreava na Tribuna do Norte junto com o inesquecível cartunista Edmar Viana. A 6 de abril de 1988, entrávamos, os três, na mesma redação.

                  Os craques e o aprendiz

                  Eles, consagrados e contratados ao Diário de Natal. Eu, pedindo uma oportunidade e uma máquina para escrever a Antônio Melo e Woden Madruga. Me deram. Parece que não se arrependeram.

                  Epidemia do absurdo

                  A Arena Grêmio está dando prejuízo. Isso significa, de início, que o clube não está ganhando a parcela fixa a que teria direito, R$ 8 milhões/ano, todas as rendas são retidas, e o clube tem que pagar parte do buraco. Fora isso, há o custo do financiamento que se acumula.

                  Impagável

                  Do final de 2013 para 2014, o valor do débito gremista subiu cerca de R$ 63 milhões, pois era de R$ 11 milhões em 2013. Com isso, a Arena Porta-Alegrense já é o segundo maior credor do Grêmio. A dívida líquida está em R$ 383 milhões, segundo levantamento do blog “Balanço da Bola”. O maior débito é com o governo federal.

                  Sonho meu

                  “Em 31 de dezembro de 2014, a expectativa é de que a liquidação da dívida 2013 possa ser quitada com as parcelas a receber do preço fixo”, afirma o balanço gremista. Essas parcelas só devem ser pagas ao Grêmio mesmo a partir de 2021, já que o estádio está dando prejuízo no momento. O débito, então, seria quitado até 2028.

                  Negociação

                  Só que no meio do caminho há uma negociação da diretoria do Grêmio para tentar comprar em definitivo o estádio da OAS. Para isso, foi feita uma proposta de cerca de R$ 400 milhões a serem pagos em 20 anos. Se esse negócio for fechado, toda a dívida atual registrada será incluída na transação.

                  Moleque da Javari

                  O ABC jogou dia 20 de abril de 1980 pela Taça de Prata (segunda divisão) do Campeonato Brasileiro contra o Juventus (SP), o Moleque Travesso da Rua Javari na Mooca. Estava lá no Castelão (Machadão) entre os 14.669 pagantes daquela tarde dominical. Foi 2×2. Zezinho e Cabral para o ABC. Carlão (contra) e Vicente fizeram os gols do Juventus.

                  Times

                  ABC: Carlos Augusto; Dão, Carlão, Cláudio Oliveira e Carpinelli; Baltasar, Danilo Menezes e Noé Macunaíma; Tinho(Cid), Zezinho e Cabral. Técnico: Servílio, o Servílio da Primeira Academia do Palmeiras. Juventus: Sérgio; Deodoro, Fagundes, Nelsinho e Cardoso; Cedenir, Cuca(Tatá) e Toninho Vanuza;Orciano(Ataliba), Trajano e Vicente. Técnico: Roberto Brida. Ataliba, que estava na reserva, seria bicampeão paulista titular do Corinthians da Democracia em 1982/83.

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                    O tempo e o sonho – Rubens Lemos

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                    Confesso meu pecado envenenado de contradição. Havia abandonado meu rádio de pilha, modesto, companheiro e leal, peça colada à minha alma nostálgica do futebol de categoria e lirismo.

                    Abri a gaveta esquecida, lotada de cacarecos mais importantes para mim que uma resolução da ONU e lá estava ele, azul e mofado, a me observar como um filho decepcionado e jogado ao abandono por descarte impiedoso do pai deslumbrado.

                    Sou apaixonado por rádio. Daqueles de dormir ouvindo resenhas e canções do passado que me acompanha, no amparo e no combustível da sobrevivência. Frustra-me jamais ter sido locutor de futebol, um narrador, herói que incorporava sozinho, trancado em minha timidez no quarto fechado, as decisões renhidas e previsíveis de silencioso futebol de botão.

                    Ingrato e acometido dos males que critico nos outros, esqueci meu velho rádio, cheio de chiado, a exigir contorcionismos para garantir a sintonia mínima. É um modelo fora de fabricação. Comprado em camelô de sentimentos persas do saudoso Machadão.

                    Aderi e até sugeri a amigos chegados a um moderno e insípido programa de computador chamado Tunein, uma maravilha tecnológica, que localiza até repetidora de praça em qualquer sítio dos cafundós da imaginação.

                    O Tunein é uma espécie de grife de canais por assinatura de TV. Você pode passear de Natal a New Orleans, de Pau dos Ferros a Bucareste, de Parnamirim a Paramaribo, de Macaíba a Kiev, capital da Ucrânia. É tão perfeito, tão digital que torna-se uma boneca inflável sexual sonora e portátil. Despida de calor humano e sinal de gente.

                    Botei pilhas novas no rádio , um surrado NK5, sigla vezes nada. Testei e feito um Simca Chambord manual, respondeu após leves porradas.

                    Na nossa reconciliação, pedi que suas ondas apresentem em tensão verdadeira o sonho de um clássico América x ABC (o mando de campo é americano) com a dimensão emocional das tardes de casa cheia. De torcida, de paz e de futebol requintado.

                    Sonho, sim, na recompensa em lampejos de disputas arrasadoras de coronárias em idos de ídolos inesquecíveis nos pés e cabeças de hoje, que, se não empolgam, carregam no corpo, duas camisas traduzidas em paixão, história e patrimônio humano de uma cidade.

                    Glória a Deus, glória ao rádio, glória ao clássico de amanhã, glória a Alberi, Hélcio Jacaré, Souza, Danilo Menezes, Marinho Apolônio, Silva, Moura, Sérgio Alves, Jorginho e Véscio, artistas eternizados pelas multidões que transcendem vida e morte.

                    Dois ao ataque

                    O futebol foi escrito pelos craques. Sem eles, na lucidez intuitiva e na cerebral anarquia, a massa jamais teria sorrido numa arquibancada de cimento quente sem cobertura. Os clássicos se fizeram lenda na motivação de duelos acirrados de estilistas ou de rompedores, de solistas ou carregadores de piano.

                    Hoje, transpiração acima da inspiração, um jogo de futebol interessa pelo imprevisível. América e ABC entram em campo na Arena das Dunas no embate mais atraente dos últimos tempos. Pela teoria do equilíbrio a prevalecer como desde 1915.

                    Fora de campo, dois técnicos que valem o ingresso para quem pode pagar até 80 reais. O pobre até baba de desejo, mas a patroa faz cara feia na ameaça do desfalque do quilo de feijão ou de açúcar na suada feira do assalariado.

                    Roberto Fernandes e Josué Teixeira gostam do ataque. O ataque é a perspectiva do gol mais perto, do grito contido chegando no limiar da garganta sedenta de vitória.

                    O campeonato foi outro a partir da chegada de Josué ao ABC. Sua moderação convicta sacudiu um time inteiro e pôs no arquivo – até os últimos resultados -, a imagem de uma aglomeração de medrosos preocupados, primeiro, em não perder.

                    O América de Roberto Fernandes ganhou motivação e não está nada disposto a ver o adversário comemorar, domingo adentro, a conquista do segundo turno e o carimbo na decisão para valer.

                    Há motivos para esperar uma partida de coração acelerado. O ABC tem Saulo, tem Leandro Amaro, tem Lima, tem Erivélton, tem Chiclete e tem Kayke. O América tem Flávio Boaventura, Daniel Costa – como está jogando esse cara! -, tem Judson, tem Max. Mas, cá para nós, o monstro ainda se chama Cascata.

                    Del Nero e Del Bolso

                    Ao mesmo tempo em que viu sua arrecadação bater recorde e atingir R$ 519 milhões em 2014, a CBF aumentou suas despesas com salários de cartolas e funcionários. Balanço apresentado às federações e aos clubes na posse de Marco Polo Del Nero aponta que foram utilizados R$ 65,2 milhões em “despesas com pessoal”. O número é 30% superior ao registrado em 2013, quando os gastos foram de R$ 50 milhões.

                    Privilegiados

                    O crescimento dos gastos com pessoal na CBF é influenciado por uma norma criada no segundo semestre de 2013, na qual a entidade decidiu pagar salários aos seus vice-presidentes. Cada um dos cinco vices passou a receber R$ 10 mil mensais.Somente o presidente da CBF tem direito a um salário de cerca de R$ 200 mil mensais.

                    Desporto Escolar sofre

                    O presidente da Confederação Brasileira do Desporto Escolar (CBDE), Antônio Hora Filho, criticou o baixo percentual de recursos do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) revertido para a área. Ex- árbitro de futebol, o dirigente participou de audiência pública na Comissão do Esporte para discutir a realidade do desporto escolar no Brasil.

                    Percentual

                    Desde 2013, o comitê é obrigado a destinar apenas 10% de seu orçamento para competições e treinamentos esportivos nas escolas; enquanto 50% são gastos com a manutenção da entidade, conforme alterações feitas em 2013 à Lei Pelé (Lei 9.615/98).

                    Base esquecida

                    Antônio Hora observa que “se o Brasil todo admite e reconhece que a base do esporte é a escola, todas as autoridades esportivas reconhecem que a gente tem de massificar o investimento no desporto escolar, no meu entendimento, nós precisamos inverter essa prioridade de investimentos, pois para manter uma entidade precisa gastar menos recursos do que para democratizar o esporte em todas as escolas do Brasil”, sustentou.

                    Compare

                    Compare o dinheiro que a cartolagem recebe da CBF com o tratamento dado ao esporte na escola e tire suas próprias conclusões se há perspectiva visível de mudança para o futuro. Sem dinheiro para escola, pobre não joga bola. Não pode.

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