Sonho e motivação – Rubens Lemos

Wallyson fascinou a torcida do ABC pela valentia franzina. O último ídolo da Frasqueira, virou nome de setor de arquibancada e construiu dois momentos eternos na história do clube. Foi 2007 o ano que nunca terminará para a massa em reencontro com sua autoestima.

O rapaz sem medo de zagueiro grosso, com idade juvenil, captou o sentimento que explodia aos ventos de Ponta Negra e conduziu o ABC ao improvável título estadual na goleada de 5×2 sobre o superfavorito América, time de Série A e com direito ao craque Souza de camisa 10 e fator de desequilíbrio criativo.

O título estava pintado de vermelho no Frasqueirão e Wallyson resolveu reviver os ídolos antecessores. Marcou quatro gols autorais, sacudiu a estrutura da casa própria do clube marcado pelos fracassos da época e garantiu o campeonato que marcou uma lua de mel breve e inesquecível com a glória.

Wallyson demoliu o América em piruetas veteranas e impetuosas, rebeldes, devastadoras. Naquela tarde quente de domingo de julho, incorporou artilheiros e estilos famosos como os de Alberi, de Silva, Jorge Demolidor, Reinaldo, Marinho Apolônio, Sérgio Alves e Robgol, finalizadores letais das estatísticas do clássico.

Os quatro gols de Wallyson destrambelharam o América a ponto de o técnico Estevam Soares ser demitido no vestiário, o elenco ser refeito e o time desandar na primeira divisão a ponto de fazer a pior campanha desde que o Brasileirão foi restrito a 20 clubes por série. Wallyson desafiou engenharias e cardiopatias como furacão de pernas finas e indomáveis.

>>>>>>

Depois do improvável título, tratou de mostrar na Série C que não era uma criação temporã. Nos seus pés de toques rápidos e chutes certeiros, tratou de recolocar o ABC na Segunda Divisão, não sem antes acertar o ângulo do goleiro do Bragantino em perícia de malandro de costados quentes.

Dominou a bola quando estava 1×1 (resultado que não servia), balançou o corpo, desequilibrou o beque e bateu de chapa, veneno puro. ABC 2×1 e Wallyson transformado de prodígio em produto.

Suas boas atuações no Atlético Paranaense o levaram ao Cruzeiro, onde viveu a melhor fase, assumindo cetro de ídolo, status de pop star na Toca da Raposa e goleador da Taça Libertadores da América. Estava na agulha da convocação para a seleção brasileira de Mano Menezes, para a reserva de Neymar. Uma fratura de tornozelo mudou o roteiro da vida de Wallyson.

Voltou sem tesão. Do Cruzeiro ao São Paulo, do tricolor a outro, o Bahia, do Bahia ao Botafogo de onde acaba de ser dispensado numa barca de 19 náufragos. Wallyson passou a viver de espasmos, de cenas rápidas do filme épico que seria.

Na estreia pelo Botafogo, arrasou, para depois ser boicotado e se deixar levar, uma versão melosa do samba animado de Zeca Pagodinho, que se deixa embalar pela vida, levado para o porto que ela quiser. Wallyson hoje é um homem rico, diferente do menino tímido e de sorriso genuíno dos bons tempos de Frasqueirão.

Cordões dourados, ar de máscara, mudou e está pagando caro com o ostracismo no cenário nacional paupérrimo de talento. Se quisesse e demonstrasse fibra, Wallyson jogaria mais do que qualquer atacante escolhido por Dunga – exceto Neymar. Parece acomodado. É natural para quem é muito novo e não pensa em novos desafios, conta bancária em azul piscina.

Especulações ou devaneios apontam para uma suposta contratação de Wallyson pelo ABC para o ano do Centenário. Ele ganha muito, um excesso que o clube sozinho não pode pagar. Wallyson – em caso de retorno a Natal, não poderia se perder no caminho da volta. Seria preciso motivação para refazer 2007, o recomeço da história a terminar com final feliz. Desde que ele estivesse com o espírito do menino voador de sete anos passados.

Contratações

ABC e América parecem fazer um jogo de espera, um aguardando o outro para medir a temperatura das contratações. Sem patrocínios fortes e com campeonatos sem rentabilidade, o alvinegro não poderá fazer contratações caras. Por isso, acho Wallyson um sonho distante que ainda depende dos bons fluídos do jogador.

Times

Nos últimos anos, cometeu-se um erro fatal. Contratar dezenas de inexpressivos, de inúteis, que vieram pelas mãos de empresários. Equívocos que alguns ainda interpretam como bondade de empresários que usavam clubes como laboratório de material de vigésima categoria.

Interior

Pelo nível de contratação de outros clubes, tem-se a ideia do padrão a ser apresentado ao torcedor.

Cotas de TV

Pelo Projeto de Lei 7681/14, em análise na Câmara dos Deputados, 50% da receita serão divididos igualmente entre as entidades participantes do torneio ou campeonato transmitido; 25% serão distribuídos conforme a classificação da equipe na última temporada do mesmo torneio ou campeonato; e 25% de forma proporcional à média do número de jogos transmitidos no ano anterior. A proposta altera a Lei Pelé (9.615/98).

Justiça

Segundo o autor, deputado Raul Henry (PMDB-PE), o objetivo é tornar a distribuição dos recursos mais justa. Conforme explica, desde 2012 os contratos para transmissão de jogos do Campeonato Brasileiro de Futebol são negociados livremente entre os clubes e os veículos de comunicação.

Dinâmica perversa

De acordo com Henry, esse sistema cria uma “dinâmica perversa”. O deputado ressalta que clubes com maiores orçamentos contratam melhores jogadores, têm maior probabilidade de conquistar maior número de títulos, e, com isso, de ter maior crescimento das torcidas. “Torcidas maiores, por sua vez, representam audiência mais elevadas nas TVs, o que significa contratos de transmissão financeiramente mais vantajosos, e o ciclo vicioso se repete”, afirma.

Espanha

Ele cita o exemplo do campeonato espanhol, em que as negociações são individuais e privilegiam Barcelona e Real Madrid, detentores de 11 dos últimos 15 títulos nacionais na Espanha.

Itália

Já na Itália, o deputado ressalta que, ao final da temporada 2010/11, o Ministério do Esporte determinou que as cotas de televisão do futebol voltassem a ser negociadas coletivamente para acabar com o desequilíbrio orçamentário.

Percentuais

Lá, 40% do valor são divididos igualitariamente, 30% são repassados conforme o desempenho no campeonato anterior e 30%, de acordo com o tamanho das torcidas. Na Inglaterra, o modelo adotado é exatamente o mesmo que Henry propõe para o Brasil.

Compartilhar:

    Talisca, esperança – Rubens Lemos

    O jeito traiçoeiro e displicente de bater na bola, a falsa preguiça e a esguia malícia. O magriço Talisca, do Benfica, é uma esperança no deserto brasileiro de criatividade. Por acaso, o controle remoto beatificado parou no clássico português. O Benfica venceu o Porto de 2×0 e o meia-atacante revelado pelo Bahia reacendeu a chama do futebol bonito e cadenciado.

    Há tempos não via o Campeonato Português. Sou alvinegro de coração e simpatizo com o vermelho do Benfica por causa de Eusébio, a pantera que irrompia defesas aos dribles e arrancadas fulminantes, um colonizado feito rei pelo brilho reluzente em suas chuteiras.

    Aprecio o Benfica pelas imagens de arquivo que me proporcionou em seu mitológico Estádio da Luz, o preto e o branco contrastando com o baile de Pelé nos patrícios, dia 11 de outubro de 1962, primeiro título mundial da constelação praiana.

    Pecado lusitano de achar que Eusébio , genial, poderia superar Pelé, o imbatível, mesmo diante de uma multidão que terminaria assombrada pela eternidade afora. O Benfica foi valente e patético ao tomar uma aula, Pelé enfiando duas canetas consecutivas no seu marcador e partindo para marcar um dos seus gols no massacre do século passado.

    O grande Benfica, sim, foi vítima da maior chacina ludopédica dos anos de ouro em que a bola era tratada como rainha. Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe arrasaram os homens e os seguidores do clube mais famoso de Portugal.

    Quatro anos depois, à base de pancadas desleais que retiraram Pelé da batalha, Portugal construiu sua vingança. O Benfica era a quase unanimidade da seleção que mandou o Brasil de volta para casa na Copa de 1966.

    Os 3×1 comandados por Eusébio em felina inspiração na Inglaterra eliminaram a salada azeda do técnico Vicente Feola e foram superados em vergonha apenas para a surra do Mineirão em 2014. O massacre de 7×1 da Alemanha que poderia ter feito 10 no horroroso timeco de Felipão.

    Aquela farandola não tinha um meio-campo de miragem. Ninguém driblava, lançava ou gingava ao ritmo da escola que encantava o mundo. Oscar é um burocrata e Willian é uma piada de salão. Ambos, continuam titulares com Dunga, embora joguem no padrão de meiúca de um Olaria ou São Cristóvão dos bons tempos do futebol carioca.

    >>>>>>

    No país que tenta juntar os cacos para conseguir vaga na Copa de 2018, resta o ótimo Paulo Henrique Ganso, do São Paulo, tão técnico quanto imprevisível.

    Ganso, o esquecido por Dunga, costela do carrinho e da dividida, pode fazer uma partida perfeita na mesma intensidade com que some do gramado sem descer aos vestiários. Simplesmente se esconde do jogo igual a menino medroso ouvindo histórias de terror para dormir à força.

    Aparece o esquálido Talisca, que, recordo, deu sinais de inteligência cobrando faltas com efeito na Bahia. Talisca é filho da pobreza, personagem comum da velha escola peladeira e inventiva. É dele o tédio sem máscara do verdadeiro bom de bola, a lentidão enganosa, a passada larga e de aparência inofensiva.

    Consta que Talisca chegou a treinar no Vasco, menino ainda, mirrado, movido a vento, faz cinco anos, uma caveira anatômica a driblar coleguinhas sem traquejo e foi dispensado porque o clube não se dispôs a pagar sua alimentação nem lhe arranjar um colchão duro de alojamento. Triste Vasco que perde uma joia negra ainda por ser lapidada.

    Talisca foi para o Benfica e conquistou os gajos. Ocupa a meia-esquerda com a classe de compatriotas antigos e privilegiados no raciocínio. Os raros que hoje correm menos que a bola e criam pela própria natureza. Os poucos resumidos a um só, Ganso, e a Talisca de esperança.

    No clássico contra o Porto, Talisca apenas entrou em campo no primeiro tempo e resolveu pagar o ingresso do público nos 45 minutos finais mais os acréscimos. Assumiu sem decreto o comando da partida e acionou a tecla do pensamento, colada à do raciocínio automático.

    O Benfica botou o Porto na roda, nem parecia o clube anêmico e distante da tradição dos tempos recentes. Talisca deixou o atacante Lima – autor dos dois gols – com chance de fazer outros quatro. Imponente, movimentou os companheiros e asfixiou o rival tocando sempre para a frente, buscando o gol.

    Foi bom ver Talisca, negro, magro, banto, meio mestre-sala, meio baterista, um samba na terra do fado. Talisca foi convocado por Dunga para um desses amistosos recentes, sem entrar na partida. Se o chefão deixá-lo jogar, o Brasil reviverá, em pequena escala e sem exagero, a remontagem do espetáculo que um dia se chamou Rivaldo, o dono do pentacampeonato de 2002.

    Copa do Brasil

    ABC contra o Boavista (RJ) e América e Globo se enfrentando pela Copa do Brasil. O ABC, por jogar a segunda em casa, leva alguma vantagem, mas o Boavista é cascudo contra os ex-grandes cariocas.

    América

    O América, pela tradição, é favorito, mesmo com o presidente do Globo achando o contrário. Até de forma jocosa.

    Sócio

    Eleição direta é saudável, mostrou Allan Oliveira. Mas não é o mais urgente nos clubes de Natal, especialmente no ABC, que já decidiu sobre o assunto

    Fabiano

    Idade nunca foi problema para goleiro. O Alecrim anunciou Fabiano Paredão, que fez sucesso no América, especialmente no acesso para a Série B, em 2005. Mas na última passagem pelo time rubro, Fabiano já não era o mesmo. O Alecrim pega o Tupi de Minas Gerais pela Copa do Brasil.

    Celular em Alcaçuz

    Somente uma lei pode impor bloqueador de celular nas imediações do queijo suiço apelidado de Presídio de Alcaçuz. Há poucos dias, acharam um túnel mais moderno que cenário de filme de Spielberg. Se for instalada uma trava de telefone, não será impossível alguém corromper a trava. Em grana, viva.

    Quem manda

    O Sistema Carcerário é uma prova da inversão de valores vigente no Brasil. O Rio Grande do Norte é privilegiado por ter um juiz de Execuções Penais do calibre moral de Henrique Baltazar Vilar dos Santos que, sozinho, é uma ilha no oceano de crocodilos. Celulares na mão de detentos e túneis quase rodoviários só são possíveis com permissão ou, no para ser brando, omissão.

    Compartilhar:

      Sócio para decidir – Rubens Lemos

      Eleição direta para presidente de clube de futebol é rotina em camisas tradicionais. Os sócios estão votando e dividindo com os conselheiros a responsabilidade de escolher o presidente. O assunto em Natal gera polêmica e Passe Livre recebe a opinião do jornalista Alan Oliveira, que é especialista no assunto.

       

      Alan Oliveira

      Jornalista e especialista em marketing esportivo

      A ‘bolha’ dos patrocínios de clubes começa a estourar. A Unimed deixou o Fluminense, só ratificando como é difícil encontrar um master hoje nas camisas dos times brasileiros. O impacto está chegando em quem mais investe no futebol: os bancos. Em Minas Gerais, o BMG já anunciou que não renovará com Atlético e Cruzeiro, campeões este ano da Copa do Brasil e Brasileiro, respectivamente.

      A Caixa Econômica Federal, que não é patrocínio, mas decisiva parceira nos clubes com as garantias que recebem, também vive expectativa sobre novas operações no futebol, pois é aguardada a nomeação do novo ministro da Fazenda para saber se a estatal vai continuar na indústria da paixão do brasileiro.

      Há uma solução para gestão dos clubes para não depender só de patrocínio: valorizar o torcedor oficial, o Sócio Torcedor. É mostrar o quanto ele é importante, deixar claro os benefícios e buscar a renovação dos planos com as novas vantagens e uma delas está sendo implantada em vários clubes: a eleição direta, o direito de o associado votar e eleger até o presidente da Diretoria Executiva.

      Em 2013, tive a oportunidade de trabalhar no Náutico-PE. Na temporada passada, o Timbu conheceu seu presidente com voto direto do sócio, Glauber Vasconcelos, com 73,22% dos votos válidos, desbancando a chapa da situação e uma outra forte com grupo do futebol e de ex-presidentes.

      E nesse fim de semana, destaco três eleições de voto direto. Em Porto Alegre, o maior case de sócio torcedor do Brasil, com faturameno superior a R$ 40 milhões/ano, maior que a cota de televisão, o Internacional elegeu seu novo presidente, Vitório Piffero, representante da oposição, com 15.051 votos ao derrotar Marcelo Medeiros, da chapa da situação, que teve 5.927 do total de 21.292 votos. Quatro das cinco chapas conseguiram eleger conselheiros para a renovação de metade de CD do Inter.

      Para obter cadeiras no Conselho era preciso conquistar pelo menos 15% do total de votos. O Inter tem como patrocinador master o Banrisul, que está na contramão dos bancos, vai continuar patrocinando a dupla Grenal, uma notícia animadora.

      O mesmo voto direto elegeu mais candidatos de oposição no Santos-SP, Modesto Roma Júnior, e o jornalista Marcelo Sant’Ana no Bahia, este terá no conselho deliberativo com 44 das 100 cadeiras no conselho. A oposição terá 56.

      O sócio torcedor está decidindo o futuro dos clubes, se estiver ativo com suas contribuições e plano com direito ao voto, um benefício que tira o sono de muitas gestões de clubes. É um caminho sem volta, um ato democrático e, ao mesmo tempo, restritivo ao associado de um plano com seu tempo de associação, de adimplência, que garanta esta vantagem, baseado em cada estatuto.

      O associado precisa viver o dia a dia de sua paixão. Além de cobrar time forte, ele gosta de participar mais, de ter desconto na rede credenciada, na loja, ter acesso com ou sem desconto aos jogos, estacionamento, acesso aos treinos, eventos, de ter experiências únicas com seus ídolos, privilégios que só ele oficial tem, fazer valer sua vantagem em relação ao simples torcedor que compra apenas o ingresso. Medidas com o programa que sejam de ações polulares, como preço promocional de ingresso, são contra o futuro da maior arrecadação do clube: o sócio torcedor.

      Até quando, o futebol brasileiro terá a Caixa? Na Série A, são sete os clubes parceiros. Corinthians, R$ 30 milhões; Flamengo, R$ 25 milhões, Atlético Paranaense, Coritiba e Vitória ganham R$ 6 milhões. Figueirense embolsa R$ 4,5 milhões. E a Chapecoense, R$ 4 milhões. Na Série B, o Vasco era o privilegiado, R$ 15 milhões. O Atlético Goianiense recebe R$ 2,5 milhões. O Paraná Clube, o América-RN e o ABC, R$ 2 milhões. Na Série C, CRB e ASA de Arapiraca, R$ 500 mil, cada um.

      O futebol é um grande negócio no mundo, patrocinadores associam suas marcas e conquistam a visibilidade esperada, como teve o BMG, embora decidiu sair por já ter alcançado o resultado esperado. O setor tem tudo para ser impulsionado no Brasil com o conceito das novas arenas, eventos, campeonatos ganham força nessa nova fase, mas o sócio pode ser decisivo no atual momento. Sócio precisa ter vez e voz e tirar os clubes do buraco. Chegou a hora!

      Compartilhar:

        Um time jogado fora – Rubens Lemos

        Ao luto nacional depois da derrota do Brasil para a Itália em 1982, seguiu-se a esperança colada em nossa alma como chiclete mastigado: quatro anos depois, haveria a vindita da geração brilhante, encantadora e eliminada em campos espanhóis.

        Zico, Sócrates, Falcão, Cerezo, Júnior, Leandro, Oscar e Éder teriam quatro anos a mais, menos preparo físico e a sabedoria vinícola aliada à virtude incomparável. Em 1986, acertaríamos as contas com a história, passando um borrão na injustiça cravada como ferrão de gado na fé de gerações inteiras.

        O Brasil contava com o sonho – o combustível abstrato e utópico de combater a crueza de suas dores diárias -, e desprezava o tempo, silencioso e implacável, sonolento a envelhecer homens e a criar circunstâncias e armadilhas fatais para o desabafo programado para o México.

        As Eliminatórias de 1985, contra Bolívia e Paraguai, mostraram um leve sinal de que não seria tão fácil assim. Telê Santana remontou o time de três anos antes. Fez até melhor. Tornou-o mais ofensivo escalando o melhor ponta-direita das quatro últimas décadas e derradeiro da espécie eternizada por Garrincha e extinta pelos teóricos: Renato Gaúcho. Era um mascarado, mas destruía defesas com dribles mastigados, desmontando esquemas teóricos.

        O Brasil que derrotou Bolívia e Paraguai fora de casa, por 2×0, sem Falcão, conseguia (teoricamente), escalado, dar mais segurança e menos temores defensivos, sem perder o ímpeto agressivo: Carlos; Leandro, Oscar, Edinho (que deveria ter sido o camisa 4 ainda em 1982) e Júnior (aquela altura muito mais meia-armador do que lateral); Cerezo, Sócrates e Zico; Renato Gaúcho, Casagrande (Careca) e Éder. Timaço. Casagrande, mesmo marcando gols importantes, destoava pela incapacidade de uma tabelinha, uma triangulação. Não chutava, canelava.

        Classificado nas altitudes cochabambas e na guerrilha de Assunção, o Brasil de Telê fracassou em dois empates sonolentos. Foi 1×1 com o Paraguai no Maracanã e 1×1 contra a Bolívia no Morumbi debaixo de vaias, o que não é relevante porque paulista vaiar seleção é o mesmo que palestino odiar judeu e o contrário, idem.

        A Velha Guarda implorava que músculos acompanhassem o cérebro. Zico, aos 32 anos, estava no auge, na flor dos 23. Voltava ao Flamengo motivado e destroçava adversários, marcando gols de pintura revivendo tabelinhas com Adílio e ensinando truques malandros ao novato Bebeto.

        Ainda em 1985, o castelo quimérico desabou quando o zagueiro Márcio Nunes, do Bangu, numa entrada criminosa, esfacelou o joelho sagrado do Galo, que foi operado, tomou morfina para resistir às dores, quase deixa de andar e jogou a Copa do Mundo como um combatente ferido e resistente, crucificado ao perder o pênalti contra a França, marcado graças a um passe perfeito que ele deu para o lateral-esquerdo Branco ser derrubado.

        >>>>>>

        O Brasil de 1982 disputou 1986 com dois titulares originais: Júnior e Sócrates no meio-campo. Leandro nem viajou, recusando-se a embarcar em solidariedade a Renato Gaúcho, cortado por atrasar no toque de recolher de Telê Santana. Cerezo, saiu, devastado por uma distensão e deu lugar a Elzo. Falcão perdeu a vaga para a Alemão. Oscar, sem os reflexos naturais de 1982, caiu para o vigoroso Júlio César.

        Após a eliminação em 1986, o país viveu um hiato de ídolos. A geração de 1982 encerrara o ciclo e as perspectivas para 1990 estavam nos pés do atacante Careca. Seria mais ou menos o Brasil de 1958, confiar apenas no matador Vavá por não ter um Didi, um Pelé.

        Em 1990, com um técnico abominável, o Brasil fez vergonhosa campanha, caindo para a Argentina e jogando com cinco zagueiros e dois cães de guarda no meio-campo, Dunga e Alemão. Não havia um criativo, um lançador na criação. Não havia mesmo era criação.

        Dois anos antes, a semente do que poderia dar certo foi cortada pela mefistofélica figura de João Havelange, presidente da Fifa, que fez do então genro, Ricardo Teixeira, presidente da CBF. Era 1988 e poucos lembram do time olímpico do técnico Carlos Alberto Silva, um tímido caipira de inspirações ofensivas, campeão brasileiro inesperado pelo Guarani em 1978.

        Aquela seleção, mantida, com o técnico, faria muito melhor que a de Lazaroni. Esnobava um regente em fase inspirada. Geovani do Vasco era o meia-armador sobrevivente, capitão e líder, humilhado depois por Lazaroni que preferiu levar, entre outros, o semi-aposentado Tita e cinco zagueiros. Bastava cortar um.

        Time-base: Taffarel; Luis Carlos Winck, Aloísio (campeão mundial pelo Porto), André Cruz e Jorginho; Ademir, Andrade e Geovani; Bebeto, Romário e João Paulo. Bebeto e Romário recebendo lançamentos perfeitos de Geovani, o melhor da Olimpíada e ausente da final pelo cartão amarelo tomado contra a Alemanha de Klinsmann na eliminatória.

        Carlos Alberto Silva ainda dispunha de Mazinho, Milton, espigado e elegante meia do Coritiba, de Edmar, centroavante habilidoso do Corinthians e de Neto, lento e apagado ao substituir Geovani na decisão contra os soviéticos.Claro, havia baranga: Careca, o falsificado trombador do Cruzeiro.

        Geovani, Bebeto e Romário. Os três, em 1990, juntos e entrosados, tocariam samba no jogo bruto e caquético do Lazaronês, vocabulário extraído da mediocridade. Hoje, se busca um Messias. Há pouco menos de três décadas, desperdiçaram uma geração por burrice e injustiça.

         

        Compartilhar:

          O tenente e a guerra particular – Rubens Lemos

          No distante 1997, quando Romário ainda garantia ao Brasil a nobreza de gigante no futebol, um documentário despretensioso sacudia o país. Notícias de Uma Guerra Particular foi o embrião para a sequência estrondosa de ficção realista do Capitão depois Coronel Nascimento em Tropa de Elite no cinema.

          Pela primeira vez, com câmeras na mão, coragem no peito e ideias controversas na cabeça, um grupo de cineastas, liderado por João Moreira Salles e Kátia Lund, resolveu mostrar a violência do Rio de Janeiro por dentro. Quanto mais velho fica, o DVD se moderniza.

          A estrela, para críticos e a mídia, é o jovem capitão Rodrigo Rodrigues Pimentel, então integrante do Bope, a tropa de elite da PM carioca e para muitos, especialmente para ele, inspirador do Capitão e Coronel Nascimento. Pimentel destrava a matraca e revela as angústias de um policial na rotina das subidas e descidas sangrentas dos morros do Rio de Janeiro.

          O capitão – que fala autorizado pelo comando -, conta detalhes de operações e mostra que mocinho também sofre. Relembra companheiros mortos, como “o sargento Renato, que levou um tiro no crânio”, e se diz cansado de lutar para nada. “É uma guerra sem fim. A polícia mata um bandido, os bandidos ficam com mais ódio da polícia, o bandido mata um policial, a polícia fica com mais ódio do bandido”. Pimentel flerta com a ribalta.

          Depois do depoimento, que desagradou Governo do Estado, superiores e companheiros de batalhão, Pimentel foi transferido, sofreu perseguições e deixou a farda alvejado por insinuações de baixo nível. Uma delas, a de que teria urinado de medo durante um tiroteio do Bope com criminosos. Hoje, é amado e odiado na tropa e bem-sucedido consultor de segurança pública da Rede Globo, produtor de cinema e escritor.

          Notícias de Uma Guerra Particular também traz desconcertantes revelações de facínoras felizes pela contabilidade de PMs abatidos no currículo. Contam quanto custa a morte de um oficial, de um sargento, de um cabo, de um soldado e gargalham detalhando os churrascos feitos para comemorar a eliminação de um agente da lei. Todo humanista papagaio deveria ter uma cópia desse filme, que se encontra em sebos virtuais.

          O ator principal, de verdade, é o delegado Hélio Luz, que depois seria deputado estadual. Leninista de barba e conceitos, acerta a testa da impostura nossa de cada dia ao contar suas experiências atuando no interior, quando desagradava a classe alta, e ao traçar o perfil radiográfico da incoerência brasileira.

          >>>>>>

          Hélio Luz, sarcástico e botafoguense – para ser botafoguense é fundamental ser sarcástico –, ironiza a massificação do combate nas favelas, já naquela época, 17 anos atrás. Sacaneia a política de patrulhamento de fronteiras, que existe tanto quanto nariz de porco serve de tomada elétrica.

          Fronteira aberta é cancela para a entrada das armas pesadas usadas pelo crime. Hélio Luz afirma, como o profeta que parece ser no biótipo magro filosófico, que não adianta a polícia apreender um fuzil se chegam 15 todo dia à base de corrupção.

          Melhor mesmo é quando ele questiona o telespectador. Pergunta se o povo quer na prática a polícia que tanto reclama. “Quero ver neguinho aplaudir polícia metendo pé na porta de apartamento de cobertura e prendendo consumidor de cocaína, que é o financiador do traficante. Quero ver nego aplaudindo guarda que multa quem estaciona fora de faixa e não o guarda que recebe uns trocados para livrar a cara do malandro”.

          Corta o pano. Quando ele fala no guarda, aí me vem Natal moderna e um dos seus personagens mais noticiados, badalados, xingados, ironizados e aplaudidos dos últimos tempos. O tenente da Operação Lei Seca, Styvenson Valentim.

          O tenente é herói por cumprir sua obrigação numa sociedade inundada por desvios de conduta. Mérito da exceção. O tenente é crucificado quando não abrie mão do cumprimento da regra que não criou. Distorcem como se agisse por conta própria, um déspota decidido a tomar posse da cidade e dos seus infratores.

          Jamais serei detido pelo tenente. Nunca. E eu bebo cerveja. No fim de semana. Jamais dirigi velocípede, patinete, bicicleta, motocicleta (Deus me defenda) e não tirei Carteira de Habilitação. Não sei guiar carro. Sou passageiro profissional. Tenho como mantra não me meter a fazer aquilo que não sei por saber que vou fazer errado.

          Debocham do tenente. Fotografam o tenente despachando bagagem para viajar e espalham em rede social como peste bubônica: “Bora beber que o homem viajou”. O tenente volta e responde com novas autuações.

          Virou celebridade, foi a programa de televisão, está causando ciúme interno e não pode tangenciar. Há olhares furiosos de silêncio e mágoas ressacadas mais perto do que ele imagina. O gargalo do tenente Styvenson é divergir do pecado como quase regra. Eis a sua guerra bem particular.

          Carlos e Moacir

          A semana termina com a boa sensação do lançamento do livro O Menino do Poema de Concreto, do jurista Carlos Gomes, uma biografia do irmão, o arquiteto Moacir Gomes da Costa, um artista luminoso, criador do Estádio Machadão, derrubado impunemente.

          Odúlio e Mário

          Foi muito bom reencontrar a Velha Guarda em especial no largo do Instituto Histórico e Geográfico. O advogado Odúlio Botelho, amigo do meu pai e americano, recordando jogadas do craque Jorginho do ABC no Estádio Juvenal Lamartine, Mário Roberto Sá Leitão recitando escalações do Expresso da Vitória do Vasco da Gama (quando Vasco da Gama foi).

          Exmar e Normando

          Em lançamento de livro, tenho chegado antes da hora para sair cedo, fugir do aglomerado. Mas agradeci pelo atraso na festa de Carlos e Moacir. Onde encontrei, juntos na mesma mesa, Exmar Tavares, o melhor comentarista da cidade e o professor Normando, alecrinense de primeira linhagem. Carlos iluminou o semblante triste de Moacir pela ausência do Machadão.

          Gileno

          Gileno Souto foi um dos meus ídolos do futebol de salão. O time do ABC de 1990 quebrou a hegemonia do América: Pedro (falecido); Juca, Josinaldo, Gileno e Dennis Lisboa. Técnico: Exmar Tavares. Gileno era artilheiro letal.

          Codesp

          Gileno conseguiu, na Coordenação de Esportes do Estado, fazer do limão, mil limonadas. Mostrou que quem faz o cargo, é o homem. Belo trabalho.

          Compartilhar:

            A favor – Rubens Lemos

            Aos 52 anos descobriu que a boca fora a responsável pelos seus fracassos. Ela e a sua mania de dizer na veia o que vinha na cabeça. Um amigo lhe disse: “Você falou demais. E sempre contra a lógica”. Ele discordou. Tudo deu errado na sua vida porque ele sempre foi a favor. E passou a citar fatos como argumentos.

            Brilhante aluno de Engenharia Civil, enviou seu currículo a uma empreiteira e foi chamado a estagiar. Sua precisão nos cálculos, liderança sobre os colegas até mais velhos e funcionários, surpreenderam o dono da construtora, conhecido ranheta.

            Que ficou cativado pela desenvoltura do jovem que supervisionava cada milímetro de asfalto, cada metro de obra avançando. Num rasgo de espanto, todos na empresa viram quando o dono o convidou para um almoço dominical em sua mansão, junto com sua família (a do empreiteiro). Colegas antigos, há décadas sonhando com um terço daquela gentileza, roeram de inveja.

            Tudo ia bem no almoço. Garçons serviram-lhe o melhor dos vinhos, o patrão falou dos planos de expansão dos negócios e das boas perspectivas para o jovem estagiário. “Você um dia será diretor desta construtora. Tem talento nato. O almoço está bom, quer um contrafilé?!”

            A resposta foi a senha para a demissão imediata: “Contrafilé? De jeito nenhum, eu sou absolutamente a favor do filé, carne tenra, nutritiva, contra filé eu não sou e nem nunca serei”. Falou sério, mas o chefe se retirou da mesa, dispensando-lhe na segunda-feira.

            Formado, foi trabalhar no serviço público. Arranjaram-lhe uma colocação numa secretaria que cuidava do trânsito em sua cidade. Ficou encarregado de construir uma avenida. Reunião com o secretário e equipe técnica. “Então, é assim, são 10 quilômetros de mão e contramão”.

            Ele estava concentrado no projeto e saltou ao ouvir o colega: “Contramão? Absurdo. Eu não aceito. Sou a favor da mão. É a mão que escreve, afaga, pinta, acena, acaricia. Nada de contramão.” Leu o Diário Oficial do dia seguinte: Exonerado.

            Achou que deveria radicalizar. Fez faculdade de Letras. Cismou de escrever um livro. O editor perguntou quem faria a contracapa. “Contra a capa? Negativo. Eu sou a favor da capa, sem ela, não é livro. A capa é o rosto do meu trabalho.” Que não foi publicado.

            >>>>>>

            Persistente, partiu para um estúdio de uma produtora, como diretor de comerciais. Um assistente recomendou: “É preciso um contrarregra para auxiliar no nosso trabalho. Ta todo mundo cansado.” Sua reação veio com fúria.” Contra regra? Eu, um sujeito que sempre primou pela disciplina, por tudo feito bem certinho?”A propaganda não foi ao ar e ele passou a perambular.

            Batendo perna estava, quando reencontrou um companheiro de infância e parceiro de pelada. Submeteu o infeliz a uma retrospectiva dos seus infortúnios e recebeu de sugestão ou de tentativa de fuga, a proposta de tentar o futebol. Bom jogador, fez um teste num time da terceira divisão e passou.

            Seu apelido, Engenheirinho, meia-atacante. Preleção para um jogo decisivo, palavra com o técnico: “Marcação do meio para trás. Na frente só o Arrebite (centroavante que tomava Reativan, remédio estimulante para motorista de caminhão não dormir na estrada). O resto é cada um com um e saindo no contra-ataque. Engenheirinho!, você puxa o contra-ataque.”

            Reação indignada do ex-quase fabricante de artilheiros: “Professor, com todo o respeito, eu sou a favor do ataque. Do ataque pelas pontas, pelo meio, pelos ares, ataque de riso, ataque de nervos. Quem é contra o ataque não entende de futebol.” Recebeu a ordem de deixar o vestiário antes de um incidente de proporções graves.

            Passou a freqüentar bares. Foi numa noite exclusiva para solteiros. Ele e sua dose de uísque nacional. Olhando bovinamente para lugar nenhum. Vários casais bailavam ao mesmo tempo, confrontando-se alegremente uns com os outros.

            Vem uma senhora dos seus 40 anos, todos os instintos e movimentos de uma divorciada caçadora: “O solitário me dá o prazer de me acompanhar na contradança?” Sem mover um músculo do rosto, despachou-a: “Como você quer dançar se você é contra a dança? Eu sou favorável à dança como expressão corporal das mais salutares!” O tapa estalou no seu rosto a ponto de parar a banda.

            Desiludiu-se. Chegou ao apartamento herdado dos pais, pegou uma bisnaga de álcool, banhou-se e acendeu o isqueiro. Fogo total. Um vizinho o salvou. Queimaduras de segundo grau. Recobrada a consciência (?), viu o remédio que estavam passando em seus ferimentos. Contractubex. “Eu sou a favor, sou a favor, eu sou a favor!!!”. Acordou no manicômio onde estava se queixando ao amigo. Aquele do primeiro parágrafo.

            Wallyson, retrocesso

            Dispensado pelo Botafogo, o atacante Wallyson, revelado pelo ABC e com pinta de seleção brasileira, parece fazer o lamentável retorno na pista da fama. Seu auge foi o Cruzeiro, pelo qual obteve a artilharia da Copa Libertadores da América. Machucado, nunca repetiu o desempenho quando retornou.

            Boleirão

            Apático, Wallyson passou sem ser notado pelo Bahia e o São Paulo. Já não era o garoto tímido e indomável dos campos. Cordões dourados e jeitão de boleiro típico, demonstravam vedetismo. No Botafogo, começou bem e a letargia dele tomou conta.

            Deslumbre

            Wallyson e o contemporâneo Rodriguinho, parecem deslumbrados com tanto dinheiro em tão pouca idade.

            América, há 40 anos

            Ontem fez 40 anos do primeiro título estadual do América no Estádio Castelão (Machadão). No dia 11 de dezembro de 1974, após empate em 0x0 com o ABC, o América evitou o pentacampeonato do rival e levantou seu primeiro caneco no monumento de Lagoa Nova, que recebeu 18.040 pagantes. Seu último título havia sido em 1969, no velho Juvenal Lamartine.

            Leônidas

            O ex-zagueiro Sebastião Leônidas, do Botafogo e da seleção brasileira, foi o responsável pela devolução da autoestima rubra. Montou um time que mesclava jogadores experientes e revelações como o zagueiro Djalma, depois do Sport e Corinthians e o atacante Reinaldo, que iria para o ABC e o Santos.

            Times

            América: Otávio; Ivan Silva, Scala, Djalma e Cosme; Edinho, Garcia e Hélcio Jacaré; Jangada (Bagadão), Santa Cruz (Washington) e Reinaldo. Técnico: Sebastião Leônidas. ABC: Renato 74; Sabará, Édson, Robertão e Roberto (Anchieta); Maranhão, Danilo Menezes Alberi; Libânio, Zé Roberto e Morais (Valmir). Técnico: Caiçara.

            Compartilhar:

              Ganso na seleção de Dunga – Rubens Lemos

              Os alemães aceitaram depois de 112 dias de insistência ininterrupta da CBF. Até umas cabrochas a soldo, foram despachadas para Munique num voo de sensibilização. Marcaram o amistoso exigido por Dunga.

              Depois de golear Trinidad e Tobago e vencer o Suriname em apertada disputa de pênaltis erguendo a Copa Nossa Senhora de Paramaribo, das mais significativas e prestigiosas da história do futebol, o soba de beira de campo bateu pé, deslizou num carrinho pelo piso límpido do presidente Del Nero e exigiu: “É chegada a hora da revanche. Vamos vencer os alemães lá dentro. Seremos os Aliados e eu, o Churchill redentor do futebol guerreiro e competitivo”.

              Depois do trabalho de persuasão das popozudas, a Alemanha marcou o jogo para Munique. Na suntuosa Allianz Arena, palco dos jogos do Bayern de Munique, um time campeão de tudo e considerado plenamente razoável pelo técnico da CBF.

              Seguindo a regra de levar um auxiliar temporário, um ex-craque para sentar no banco a cada amistoso, Dunga convidou e Ronaldo Fenômeno aceitou participar de agasalho tamanho Extra GGGG. Ronaldo exigiu passagens para a sua turma de 16 desocupados e passe livre nas cervejarias.

              Dunga fez a sua convocação habitual e a Alemanha levou praticamente o mesmo time campeão do mundo. O capitão do tetra, Philiph Lahn, após anunciar sua aposentadoria da máquina do técnico Joaquim Low, teria de substituto Jerome Boateng, grandalhão de passadas largas com franca experiência na lateral-direita, embora zagueiro de origem. Jogou por ali toda a Eurocopa de 2012 com Lahn do lado esquerdo.

              Dunga resolveu levar a seleção para passar um mês de preparativos para o Jogo da Vingança. Treinos de manhã, à tarde e à noite, com intervalos apenas para palestras motivadoras do narrador Galvão Bueno e do apresentador Pedro Bial, da Rede Globo. “Concentração pode ser um grande Big Brother”, filosofou Bial na sua primeira aula.

              >>>>>>

              Cruzamentos sobre a área. Dunga insiste em bolas altas para enfrentar uma defesa de arranha-céus. “Se temos de imitá-los, insistiremos no que eles têm de melhor”, declarava ao repórter Tino Marcos, que escutava sem dizer nada, sem replicar coisa alguma.

              Dunga não concordava com as imagens do balé alemão, do toque de bola envolvente, dos deslocamentos e dos gols rasteirinhos na grama do Mineirão. “Temos que entender a evolução tecnológica dos meios de comunicação e aqueles lances que estamos vendo podem ter sido editados. Cabeças viram chutes por baixo, é só a edição sair bem feita”.

              No dia da folga, saíram para a balada Ramires, Oscar(estava querendo mesmo era conhecer uma loja de videogame), Paulinho, David Luiz(logo confundido com vocalista de banda de rock) e Willian. Encheram o pote de cerveja e salsicha condimentada.

              Faltavam dois dias para o jogo e a diarreia deixou de cama os homens de meio-campo. Ramires, Oscar, Paulinho e William que – a bem da verdade e para o mal do futebol, estava de centroavante, para receber os cruzamentos do lateral-direito Daniel Alves, incapaz de acertar seis em 712 tentativas.

              Dunga tentou chamar Felipe Melo, seu protótipo de lugar-tenente. Mandou dizer que não. Felipe Melo havia mandado buscar no Rio de Janeiro, o lutador de MMA Rodrigo Minotauro.

              O volante leão-de-chácara está obstinado no objetivo de adotar de vez o octógono. De febre, desabaram Everton Ribeiro, Ricardo Goulart, os craques com nomes de praça do Cruzeiro e Philiphe Coutinho. Faltando 12 horas para o desafio.

              Os alemães, solícitos e entediados, propõem: “Adiemos, não há problema. Não haverá nem prejuízo porque quando o povo soube que era o Brasil, somente 2600 ingressos foram vendidos”. Dunga, colérico: “Estão com medo? vamos jogar”.

              >>>>>>

              O enfermeiro saiu do hotel para comprar soro e fraldão para os acamados e reconheceu um rapaz magro, de nariz proeminente, que circulava monótono pela rua fria: “Ganso! O que é que está fazendo por aqui?”. O outro murmurou: “Estou de férias, soube do jogo, vim assistir e conhecer o museu do futebol alemão. Sou fã do Overath, sabe? Aquele meia elegante da Alemanha de 74. Mas não fala pro Dunga, não. Ele não vai gostar”.

              Despediram-se e o enfermeiro lembrou que a caganeira acumpliciada ao frio arrasara o grupo. Sobraram 13 incluídos os três goleiros. Tomou coragem e disse a Dunga que havia encontrado Ganso. O técnico deu aquela risada de sarcasmo vingativo. “Ele anda por aí, tchê? Vai buscá-lo. Vou provar agora que ele não é jogador de seleção”.

              Com sua eletricidade de tartaruga, Ganso estava no mesmo lugar e em aspecto blazé. Foram 56 minutos de tentativa de convencimento, lábia de malandro punguista e Ganso topou.

              Chegou, pacato, cumprimentou o técnico e recebeu a patada: “Saiba que, por mim, você não estaria aqui, mas é preciso honrar a palavra e enfrentar os homens. Sorte sua que não vou te botar na lateral-direita. Restaram, para o meio-campo, só Luiz Gustavo, Fernandinho e o Ralf, eles, sim, jogadores com espírito de grupo e comprometimento”.

              Dunga adiantou David Luiz para uma das cabeças de área. Thiago Silva entrou na defesa com Miranda e chorou no hino. Luiz Gustavo, Fernadinho, Ralf e um deslocado e humilhado Ganso formavam a meia-cancha.

              No primeiro lance, o genial Toni Kross pressente o criativo Ozil passando e, ao armar o passe, Ganso toma-lhe a bola, enfia-lhe uma caneta de calcanhar e dribla seis alemães, antes de tocar, sem sustos, por entre as pernas do goleiraço Neuer. Brasil 1×0. Dunga dá esporro: “Palhaçada rapaz! Jogando bonitinho, fazendo firula. Se enfeitar de novo, tiro e fico com 10!”.

              Os alemães recomeçam e partem como Divisão Panzer de guerra. Kross para Ozil para Muller para Gotze. Ganso, intercepta de letra, dribla os quatro, lança Neymar, corre, recebe de volta, toca de um lado de Neuer, pega do outro, marca o segundo. Uma pintura. Os quase 3 mil presentes aplaudem de pé.

              Dunga prefere jogar com dez. Nunca vira seus princípios tão desrespeitados. Ordena e Ganso deixa o campo, conformado. A Alemanha se reagrupa e Ozil diminui. Três horas depois, Dunga ainda está desacordado. Paramédicos tentam reanima-lo. Sem Ganso, a Alemanha tripudiou. Dobrou os 7×1 e fez 14×2. Dunga e Ganso, azeite e água pura, são incompatíveis.

               

              Compartilhar:

                O revés do poema – Rubens Lemos

                Ao pó voltou pela força bruta o refúgio sentimental de meu peito. O Castelão, depois Machadão, é a infância infinita da minha vida. Nesse período exato do texto, o tempo será sempre presente.

                Conheci todos os seus encantos e labirintos, o gigantismo de suas arcadas onduladas, sua arquitetura sedutora, seus bares, sua geral, sua arquibancadas, suas cadeiras de igreja, suas especiais, suas cabines de rádio, seu gramado que pisei mascote e vislumbrei, em transe de alegria e pranto de derrota, nas glórias e fracassos do ABC.

                Não me conformo e nem me conformarei com a morte do Castelão. Do Machadão, pois o segundo personagem a batizá-lo (o jornalista João Machado) simbolizava a graça, a doce anarquia de Natal, enquanto o anterior, primeiro dos ditadores, foi imposto pela tirania e a bajulação, corriqueiras nas trevas do arbítrio, da delação e da repressão. Da tortura que afligiu meu pai, um apaixonado pelo estádio do qual, por reconhecimento, foi seu melhor comentarista esportivo.

                Nunca frequentei nem pretendo a edificação em forma de cebola que substituiu como interventora, a beleza tentadora do estádio que recebeu Pelé e o crème de la crème do futebol brasileiro da geração pós-tricampeonato de 1970 e encantada pela arte fluindo de pés compositores.

                A Copa do Mundo foi o pretexto oficial para que o Castelão (Machadão) virasse miragem sempre que passo e me emociono pelo bairro de Lagoa Nova. Em Belo Horizonte, não derrubaram o Mineirão. No Rio de Janeiro, mesmo mutilado em sua essência geográfica e humana,o Maracanã é Maracanã. Em Fortaleza, ninguém arrasou o Castelão, como em Porto Alegre, o Beira-Rio está no mesmo lugar onde foi inaugurado.

                Natal, não. Natal cedeu, entregou-se, dobrando a  espinha aos caprichos arrogantes da Fifa e aos sempre atrativos – para quem gosta – desdobros obreiros. Linda, amor de meu coração, Natal guarda uma atração masoquista por forasteiros e suas artimanhas, esquecendo seus filhos legítimos e leais.

                Reúno-me com frequência com um grande amigo, irmão afetivo, companheiro de quarta e domingo, sem falta, do antigo Frasqueirão do que se foi.

                O professor Sérgio Trindade e eu relembramos lançamentos de Danilo Menezes e Dedé de Dora, de Souza e Didi Duarte, gols de Alberi, Marinho Apolônio, Moura, Silva, Hélcio, Reinaldo, Aluísio Guerreiro, Sérgio Alves, Reinaldo Aleluia, Odilon, Valério, Paulo César Cascavel, Robgol e Leonardo.

                É recorrente e triste. Comparamos com o que se vê na nova e suntuosa casa, onde torcedor humilde raramente se acha, prática nefasta do insosso discurso de que esporte agora é negócio, é o azinhavre dos dinheiros se sobrepondo à expressão cultural mais democrática do Brasil.

                >>>>>>

                Contam-me detalhes das maravilhas estruturais do acebolado templo. Minúcias. Longe de duvidar. Insistem – alguns em zombaria – para que eu vá. Não quero, é direito meu, sem reclamar de quem exalta a (ainda novidade). Quem gosta, , aproveite e me esqueça. Me deixe quieto. Desimportante.

                Não sou contra ninguém de lá, seus donos poderosos. Desejo que lucrem e seus cofres fiquem cada vez mais abarrotados de dinheiro, verdadeira razão e legado principal da Copa do Mundo que veio, com quatro jogos, um deles, espetacular – Uruguai x Itália, turistas gastando e pronto.

                A violência continua se expandindo daninha, o crime trancafiando cidadãos nas suas casas ou matando-os impunemente. A saúde pública é Dante reconstituindo seu Inferno em cotidiano brutal, gente jogada em masmorras e profissionais sem nenhuma condição de trabalho. O trânsito é de cidade grande. No caos.

                O Castelão (Machadão) em recordações é o filho que já morreu do Revés do Parto, cantado por Chico Buarque de Holanda. É duro olhar o seu quarto soprando o vento vazio da melancolia. Sou órfão do estádio que era a extensão telúrica de minha casa. Meu pai, morto há 15 anos, não sofreu o golpe. Eu pago por nós dois.

                Sou órfão e sofro assim. Moacyr Gomes da Costa, um iluminado abatido, esse é o pai do menino gigante autopsiado a céu aberto. Sofre mais. Sofre inconformado e em angustiante silêncio.

                Lutou, quixotesco, pela obra-prima que desenhou como milagre imponente e referencial da cidade que se esvai, transformando em carranca, a sua simpatia nata.

                É fato que o posfácio prático é uma nostalgia fluvial como a procissão de conformados no funeral daquele que nunca deveria ter ido.

                Sobre a morte, vale ao querido Castelão (Machadão), que revejo em flash back quando escrevo, a reflexão do apóstolo Paulo, o mais sábio entre todos, olhando ao infinito: “Morte, afinal, qual é a sua vitória?”.

                O martírio do Castelão (Machadão) foi a vitória da ganância e do desrespeito à memória de Natal. Revés de um poema. Concreto e perene.

                1. Texto escrito para o posfácio do livro O Menino do Poema de Concreto, do jurista Carlos Roberto Gomes de Miranda, biógrafo do irmão, Moacyr Gomes da Costa, arquiteto do estádio destruído. O livro será lançado nesta quarta, 19 horas, no Instituto Histórico e Geográfico, na Cidade Alta.

                Números

                O ABC terminou 2014 como 23o melhor time do Brasil, segundo ranking da CBF. Observada apenas a frieza estatística, sem juízo sobre o futebol demonstrado, foi um senhor desempenho. O ABC superou três, dos quatro catarinenses da Série A.

                Bola

                Com um futebol acima do medíocre, o ABC fatalmente estaria entre os 10. Hoje, ninguém mete medo. A prova foi a Copa do Brasil, que pesou na pontuação alvinegra. O América terminou em 28o.

                Reforços

                Dezembro chega ao dia 10 e há um fato positivo: os clubes não anunciaram fardos de pernas de pau para dispensar depois. No ano do Centenário, ABC e América poderiam buscar no tiro esportivo três características fundamentais para errar menos nas escolhas: frieza, visão apurada e precisão.

                Paulo Musse

                O gigante Paulo Musse, goleiro do ABC há cinco anos, acertou com o Treze (PB). Com 35 anos,  teria sido um dos melhores do mundo se lembrasse um detalhe importante na função: as bolas rasteiras.

                Diretor executivo

                O Flamengo levou o diretor remunerado do Vasco, o homem que ganhava para formar os times que formou. E o Flamengo comemorou como se tirasse um craque. É preciso dar desconto. Hoje, sem jogador, cartola é atração.

                Compartilhar:

                  Alex conta histórias – Rubens Lemos

                  Alex brindou degustadores do futebol-arte com o vinho suave de quem comove jogando bonito. Sua canhota sensitiva guardava algo de melancólico, de desabafo pelo poema incompreendido. Alex, da Guia no Palmeiras, Tostão no Cruzeiro, silencioso superego no Coritiba, encerrou, de uma vez por todas, o capítulo da elegância em campos brasileiros.

                  Chorou na despedida o camisa 10 de toques delicados, de tratamento artesão à bola, desde o desabrochar, em 1995. No Estádio Couto Pereira, onde está sentado, na foto depois da apoteose, contando histórias ao filho pequeno, ato supremo de amor e esperança na ressurreição do sonho.

                  A imagem de Alex e do menino é o confessionário único e reservado ao criador e à criatura encantada, inocente e maravilhada pela figura mítica que é o seu herói de todos os dias, o homem que haverá de tentar imitar para o bem do que um dia se convencionou chamar de futebol. O pai fascina e Alex é um deles.

                  Alex conta histórias. Um mágico de fraque e cartola haverá de criar um brinquedo mais delicioso do que a arte de ditar para alguém ouvir fábulas. Quando verdadeiras, tornam-se maravilhosas com cereja, na imaginação inocente dos garotos acrescentando a própria animação superfantástica.

                  Procure, você, nascido a partir de 1965/68 e não encontrará, de forma alguma, outro Alex, Alex, o Último, em campos brasileiros devastados pelas chuteiras brutais dos orangotangos fardados. Alex jogou até a última gota de sentimento verdadeiro pelo esporte.

                  Poderia estar comentando futebol, como tantos e tantos inferiores, ou simplesmente curtindo sua(justa) aposentadoria. Não, voltou do futebol turco, onde é semideus, catalogando jogadas e gols da importância antológica do Monte Ararate e imortais como a paisagem peculiar da Capadócia.

                  Voltou para jogar bola como um dia surgiu, menino proletário e precoce, arrebatando a torcida paranaense e partindo cedo para a idolatria no Palmeiras, do qual só não é o maior camisa 10 porque – como uma delas – sabe que instituições são sagradas e Ademir da Guia é uma das forças intangíveis da natureza palestrina. Depois dele, é Alex mesmo que seja igual.

                  O futebol diplomata, de arremates arrebatadores, dribles do futebol de salão que conheceu na idade do discípulo que aprende, enternecido, impunha a maturidade de um jovem de poucos arroubos e jogadas imarcáveis, desafiadoras de gargantas de narradores e de limites emocionais de uma torcida alucinada.

                  >>>>>>

                  O técnico da seleção brasileira pentacampeã do mundo em 2002 conhecia Alex mais do que qualquer outro e deixou Alex no Brasil optando pelo esdrúxulo de um Vampeta e o tempero no cozido de um Ricardinho, diminutivo de criador, incapaz de repentes geniais.

                  Felipão foi dolorosa decepção de Alex no futebol. Felipão estava no banco do Palmeiras, no Morumbi, quando seu craque deixou estática a defesa do São Paulo e o goleiro Rogério Ceni numa sequência plástica de dribles de calcanhar por cobertura até a última patada, de sem-pulo, até o fundo das redes.

                  Um dos mais belos gols da história. Entre os 10 dos últimos 20 anos no mundo. Felipão, viu, comemorou, ganhou o bicho, abraçou Alex e não o levou para a Copa do Mundo. Canhoto com canhoto no desenho lógico, ele e Rivaldo fariam saraus para os Ronaldos, então em forma. Liquidaríamos a Copa da Ásia com muito mais sossego. No sushi da categoria.

                  Esquivo e conformado, Alex também esperou para não ver seu nome na relação dos convocados por Carlos Alberto Parreira na seleção mascaradona de 2006, eliminada, de novo, à base do champanhe francês de Zinedine Zidane chapelando Ronaldos e o lateral Roberto Carlos, o cara que foi ajeitar o meião na hora do gol.

                  Alex teria sido um pouco nosso Zidane, a ceia morna no carnaval inconsequente e ininterrupto daquela patota fajuta, na qual viajaram volantes em profusão e milionários delirantes.

                  E Alex, perdeu a vez, daquela vez, para o correto marcador e jamais reluzente criativo, Zé Roberto, escalado de perseguidor. Alex mantinha registrado o CNPJ da função de meia-armador, agora sepultada.

                  Alex está, sentado, conversando com o filho. Repouso sereno do artista. Lembrando a Copa Libertadores que deu ao ingrato Felipão no Palmeiras em 1999, botando o River Plate para dançar tango no Palestra Itália.

                  Alex segreda os truques do drible seco e rivelinesco (de Roberto Rivelino) que sentou o argentino, antes de bater de curva, sem sobressaltos no ângulo, em jogo de título de Copa América.

                  Alex recorda a Tríplice Coroa que conquistou, em 2003, carregando o Cruzeiro nas costas. Alex, o homem que chorou de amor pela bola, demonstra a paz exclusiva dos gênios ao fim da luta. Ele e o filho, seu gol bendito, seu fruto, nossa crença de sucessor.

                  Marasmo

                  ABC e América entram na fase de marasmo numa pasmaceira de preparação de times para 2015. O América ainda tem a Copa do Nordeste no primeiro semestre de rentável. No segundo, vem a selva da Série C. O ABC encara o Rocas/Quintas do Campeonato Estadual e não vai nem pode fazer time caro.

                  Metade

                  A diretoria alvinegra – numa medida lúcida – anunciou a redução da folha salarial pela metade. Cairá de R$ 600 mil para 300 mil. É saber contratar. Cinco jogadores de 30 mil valem mais do que 30 de 10 mil.

                  Dilema

                  O América pode ter de caminhar por um time linear financeiramente mesmo porque terá de adotar o discurso da volta para a Série B no ano do Centenário. O América não pode pensar noutro objetivo que não seja passar pela terceira como um trator, como retorno ao seu devido lugar.

                  Sempre Bruxa

                  Insensível é quem releva a importância histórica de Marinho Chagas, maior esportista do Rio Grande do Norte. A recente edição da Revista Placar dedica-lhe a última página, na seção Mortos-Vivos, escrita no texto privilegiado do jornalista Dagomir Marquezi.

                  Revolucionário

                  Demonstrando ser fã de Marinho Chagas – mas sem perder de vista a verdade, verdadeira -, Dagomir Marquezi traça o paralelo entre o encantador e o triste: “Em campo, ele revolucionou a posição de lateral-esquerdo, chapelou Pelé e encantou Bob Marley. Fora dele, flertou com Grace Kelly e afundou-se no álcool”. Marinho, menino grande, saudade maior ainda.

                  Compartilhar:

                    Repugnante – Rubens Lemos

                    Depois de onze sextas-feiras, o psicopata da Série Dupla Identidade (Globo) dominou a especialista em psiquiatria criminal ou forense. O assassino recorrente Edu (Bruno Gagliasso), tomou a arma da policial Vera (Luana Piovani) durante interrogatório em que a convenceu a abrir suas algemas. Nem principiante aceitaria o pedido. Edu matou e mutilou quase uma dezena de mulheres num ritualismo de especial perversidade.

                    Quando entrou para conversar com Edu, Vera entrou sabendo que estaria diante do insensível e imprevisível. Contrariou normas básicas de segurança obedecidas por países como o Sri Lanka.

                    É proibido ter acesso à sala ou à cela para ficar sozinho com psicopata, ainda por cima, com uma pistola .40 na cintura, mostrada de forma ostensiva e fixa em coldre sem trava. Um pescoço aguardando dentada, na perspectiva do canalha.

                    Terminou assim, já na madrugada do sábado. A estonteante Vera passa a ser caça. Edu foi ligeiro feito um gato. Vera deu-lhe as costas para reclamar do barulho de jornalistas do lado de fora do cubículo – jornalista é o mordomo moderno para levar sempre a culpa.

                    Edu deu-lhe um esbarrão e sacou a arma potente para aponta-la ao pescoço esguio da versão – nem tanto assim – de Clarice Starling, a arguta e de aparência frágil agente do FBI encarregada de perseguir o mestre-sala dos sádicos, o médico Hannibal, o Canibal, Lecter, da sequência iniciada no filme O Silêncio dos Inocentes.

                    Starling jamais entrou na cela de Lecter. Deixava sua transfixante 9mm a 300 metros de distância e conversava com ele a 12 metros, sob a proteção de uma tela blindada com espaços apenas para o assassino respirar transpirando horror e manipulação. Hannibal devora suas vítimas. Come cada pedaço ou deles faz caviar e oferece em jantares suntuosos.

                    É esse o padrão americano. É esse o que eu gosto, desejo e verei, das cinzas, meus tataranetos usufruindo. Nos Estados Unidos, mesmo nos livros ou roteiros de cinema, dá-se um jeito de o bem triunfar no final em tolerável demora.

                    Na vida real, as leis são duras e o Edu bonitão de Dupla Identidade, um sujeito tão inverossímil que acabou se esgueirando e auxiliando a polícia a procurar o criminoso(ele), já teria virado picanha ao alho e óleo, após ser torrado numa cadeira elétrica. Ou levado uma injeção letal diante de testemunhas.

                    Nos Estados Unidos, pena de morte e prisão perpétua não ficaram só para preto, puta, pardo e pobre, retórica de contenção eficiente dos humanistas brasileiros que não querem guardar latrocida na sala de estar de casa . Também não tem essa de que aos 16 anos, não existe domínio sobre os atos.

                    >>>>>>

                    Aqui, vota-se aos 16, mas não se paga na cadeia por atos hediondos. Há estados rigorosos – lá nos EUA -, que trancafiaram na profunda masmorra – para nunca mais sair – criancinha de oito anos que arrancou as cabeças dos pais e botou para assar no micro-ondas. Depois, envenenou professor por ter tirado nota baixa.

                    É uma questão de conceito. Sou fã incondicional da equipe de Criminal Minds (segunda, 22 horas, AXN), liderada por dois sujeitos distintos no comportamento e completos no resultado do trabalho. Aaron Hotchner (Thomas Gibson), formalismo puro, paletó de risca perfeita, o ponto de equilíbrio.

                    Milionário com a venda de livros sobre o estudo das mentes perturbadas, colecionador de casamentos e amante de um bom vinho, o estupendo ator Joe Mantegna usa métodos violentos de Velha Guarda, pouco afeita à tecnologia e vidrada no faro do policial nato.

                    A equipe é um show com a linda implacável J. J., o geniozinho Dr. Reid, o tático e perfeito atirador Derek Morgan, a corajosa novata Kate e a fofinha gorduchinha Penélope Garcia, craque em informática.

                    Criminal Minds é o que desejaria às produções policiais transmitidas no Brasil. O mal prepondera, no máximo, durante metade de um episódio. A equipe, no realismo possível, mostra que há quem combata e desmonte os criminosos, que jamais terminam fora da cadeia. Quem se mete a levantar a arma, infelizmente (para alguns), é alvejado e termina no necrotério para onde mandou antes suas vítimas.

                    Comparar Criminal Minds – na décima temporada e 3,3 milhões de telespectadores por semana, com a verdadeiro festival de afago no ego de uma anomalia em Dupla Identidade, é enxergar paralelo entre o basquete americano e o desempenho de ABC e América na Série B.

                    Glória Perez é uma escritora diferenciada, competente. Mas ao longo das últimas onze semanas – restam mais duas de sofrimento, vem retratando uma polícia de apalermados e a desfaçatez de uma mente repugnante. Edu é repugnante, dá vontade de pular em cima e acabar com ele.

                    Conte poucos dias e começarão a surgir clubes de fãs do personagem manipulador e capaz de enganar a todos no desenrolar dos capítulos. Edu enfrenta um conglomerado idiota.

                    Se penso assim, imagine o psicopata de verdade, ainda em gestação, estimulado a agir assistindo à série onde a impunidade e o veneno do bizarro revoltam quem deseja ordem nem que seja com um pouco de ficção.

                    Edson

                    O volante Edson, hoje no Fluminense, desmentiu o empresário Alex Fabiano, que teria puxado para si os méritos da ida do jovem nativo ao tricolor.

                    Voluntariado

                    Bastou Edson, em ótima fase, retrucar Alex Fabiano, para representantes do, digamos, voluntariado da mídia, saírem em defesa do homem que casa e batiza no futebol do ABC.

                    Samaritano

                    Nada contra Alex Fabiano. Mas é querer pisar a inteligência alheia essa história de estar somente ajudando ao clube. O ABC vem contratando mal, escapou por pouco do rebaixamento e Alex Fabiano é empresário. Nenhum crime.

                    Desafio

                    Alex Fabiano calaria aos que ele considera inimigos (crítico e inimigo são bem diferentes), trazendo jogadores de verdade ao alvinegro.

                    Eduardo Rocha

                    A volta do ex-presidente Eduardo Rocha ao futebol do América garante uma rotina inegável: nitroglicerina. Eduardo não é de alisar couro de malandro.

                    Rogerinho

                    Posso estar muito enganado, mas a contratação de Rogerinho, ex-ABC, pelo América, apenas premiaria a longevidade no Departamento Médico e o descompromisso. Rogerinho nada fez no ABC.

                    Scala

                    No dia 8 de dezembro de 1973, o América se despediu do Campeonato Nacional vencendo o Rio Negro (AM) por 1×0, gol de Scala. Público de 5.114 pagantes no Castelão (Machadão).

                    Compartilhar: