Traições e cascavéis – Rubens Lemos

Um par de chifres fez a Polícia Civil descobrir uma trama macabra dos nocivos Black Blocs: incendiar a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. A vergonhosamente famosa baderneira Sininho, megera usurpadora de nome de fada, estava de namoro com um dos líderes das arruaças. A mulher do pilantra, outra militante do terror, resolveu dedurar o esquema, mordida de ciúme e despeito. Foram todos para a cadeia, mas já estão livres para aprontar de novo.

A história me fez lembrar um caso sem violência sempre ouvido nas rodas de birita e MPB, nas quais me intrometia, menino curioso. Papai participou da presepada pelos idos de 1975. Ele e sua patota estavam revoltados, na ira do machismo Jece Valadão, o ator e símbolo da masculinidade das chanchadas. Eram as traições olímpicas sofridas por um crédulo amigo, casado e apaixonado pela jovem de corpo curvilíneo na proporção dos desvios do passado nas madrugadas do bairro da Ribeira, onde resistiam, asfixiados, os puteiros ancestrais da cidade.

Os dribles da louraça no ingênuo rapaz em prosperidade comercial sassaricavam pela cidade inteira e menos ele – o iludido – atestava e dava fé. Na testa, podia-se observar, em olhar atencioso, o par de antenas apontando para onde o infeliz desviasse a vista. A malta, reunida, decidiu convocar o ludibriado e lhe exigiu uma postura de macho. Reação de virilidade e de honra, à época, ainda lavada com sangue riscado no chumbo ou no corte arregaçado do facão rabo de galo.

Manso como um cordeirinho de desenho animado, reagiu indignado, defendeu a digníssima, criticou a maldade daqueles que considerava “amigos” e exigiu provas. Punha a mão na churrasqueira da piscina pela dignidade da amada e imaculada companheira. “Com a churrasqueira desligada não é?”, zombou um dos boêmios, hoje domiciliado no cemitério Morada da Paz.

Uísque, cachaça, cerveja, cigarro e o líder do grupo, ares de Maigret, o inspetor sensacional dos romances policiais de Simenon, sugeriu providências práticas. Na sexta-feira, à noite, dariam o flagrante. A mulher devassada costumava sair para jogar “buraco” um tipo de carteado bem próprio daqueles anos. Sempre na casa de uma amiga.

O Maigret provincial, acompanhado por um experiente policial civil, integrante da confraria, seguiu-lhe os passos, registrou o itinerário de final inevitável: o Motel Tahiti, o primeiro de alto padrão de Natal, mágica invencão de um dos personagens mais irreverentes, alegres e criativos da cidade: Alcione Dowsley. O Tahiti merece um livro. Difícil é aparecer quem escreva e sobreviva uma semana depois de relembrar episódios e atores.

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Comprovado – em fotografias – o golpe sobre o otário entre os malandros, foi feita outra reunião. Exibiram as imagens do possante carro Maverick do pé de lã bem acompanhado adentrando o bucólico paraíso de Alcione Dowsley. “Isso não quer dizer nada. Pode ser outra mulher, fotografia não é sentença!”, berrou o chifrudo renitente.

Esperaram a sexta-feira seguinte e aplicaram-lhe um porre descomunal. Antes, haviam deixado um espião no motel para dar o serviço do quarto onde rolaria o carteado entre lençois.

Confirmado o lugar certo, a gangue reservou o espaço vizinho. Nunca vi, mas a Velha Guarda contou que algumas suítes lembravam casarios aconchegantes do interior. Eram separadas por meia-parede, não havia teto de uma a outra e as refregas e gemidos podiam ser compartilhados. Não sei se é lenda urbano-sexual.

Pé ante pé, sem alarme nem alarde, o quarteto recambiou a vítima. Os cinco se aboletaram e o mais alto colocou o relutante sofredor no cangote. Um esforço e ele ficou equilibrado, os outros segurando suas pernas. Ele olhando para a cena que fecharia em clímax tragicômico a longa novela. O jovem e quase próspero negociante viu a mulher de calcinha e sutiã, e o parceiro de cueca Zorba, em aquecimento para o clássico de alcova.

Desceu sem alteração alguma. Os amigos esperaram a explosão de fúria e a queda da máscara da vigarista. Então, tomando uma dose de uísque em miniatura, o traído sorriu aliviado e quase matando os outros de raiva: “Vocês são cascavéis de maldade. Não está acontecendo nada. Estão apenas conversando.”

Papai me contou que o primeira tapa na orelha do cidadão conformado ele fez questão de dar. Queriam afogá-lo na piscina, mas seria um escândalo. O ingênuo continuou o casamento, orgulhoso e sorridente em colunas sociais ao lado da musa. E ela “no baralho”, às sextas, no Tahiti.

Uma tarde, ele esqueceu documentos importantes e voltou para casa. A loura praticava hipismo com o jardineiro. Ambos, nus. Pediu o desquite. Chorava e uivava por ela. Papai ficava puto cada vez que lembrava. O Tahiti fechou antes que eu pudesse conhecê-lo. Só pra passear pelo lugar e entrevistar o saudoso Alcione. Sério. O motivo era somente esse. Vocês são umas cascavéis maliciosas.

A excursão

O ABC começa hoje uma verdadeira excursão em busca de pontos importantes na Série B e pela classificação na Copa do Brasil. Hoje, contra o Paraná Clube, jogo que pode fazer o alvinegro disparar entre os primeiros colocados. O Paraná é perigoso, mas nem sombra do assombro dos anos 1990. Seu camisa 10 é matreiro. Lúcio Flávio, veterano e habilidoso.

Depois

Nos 10 dias longe de Natal, o ABC pega o Novo Hamburgo no Rio Grande do Sul. Tem a vantagem do empate. Se fizer um gol, o Novo Hamburgo vai precisar marcar três. Depois, na sequência, o América Mineiro em Belo Horizonte. Voltar com seis ou sete pontos está na medida prudencial.

Zé Teodoro

Fui radicalmente contra a vinda de Zé Teodoro depois que ele acertou e deixou o ABC na mão. Mas reconheço o valor das pessoas e corrijo meus equívocos de análise. Zé Teodoro está conseguindo transmitir segurança à torcida, mesmo que o time não seja tão bom quanto o que terminou a Série B de 2013.

Acerto

O retorno discreto do ex-presidente Jussier Santos ao futebol do América é um gol da atual diretoria. Jussier está atuando como formiga, sem barulho, agregando e cultivando sempre o amor vermelho do seu sangue emocional.

Minha opinião

Na minha opinião, que é minha e ninguém tasca, Jussier Santos é o mais vitorioso cartola do América. Plantou semente, fez história.

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    Ideia fixa – Rubens Lemos

    Reconheço a ideia fixa. A seleção brasileira de 1982 me acompanhará até o crematório. Apenas aquele time poderá ser comparado à lágrima pelo primeiro filho, à emoção do namoro tímido, ao porre homérico pago com o primeiro salário de jornalista, após entregar, feliz e inquilino do mundo, 40% para a minha mãe-avó que me fez crer em santas. Vivas. E mais ainda quando partem.

    É recorrente. Das aberrações retranqueiras e mecânicas, protejo-me no time de 1982, a síntese do futebol de filarmônica , de notas musicais sem chiados quando música ainda ouvíamos nos velhos vitrolões dos discos de vinil agora resgatados em sebos para remoçar o fim de semana e o caminhar de volta ao que é impossível praticar. Certas canções embalam a nostalgia como tapetes mágicos.

    A seleção brasileira de 1982 perdeu a Copa do Mundo por justiça. No dia 5 de julho no Estádio Sarriá em Barcelona, um alçapão consumidor de sonhos, a Itália foi melhor. Não apenas mais eficiente, como nossa presunção insiste em teimar. A Itália foi dolorosamente superior.

    A Itália ganhou na tática e na qualidade de jogadores excepcionais: o goleiro Zoff, o líbero Scirea, o lateral-esquerdo Cabrini, os meias Tardelli e Antognioni, o sutil e giratório Bruno Conti e o artilheiro fatídico – para nós – Paolo Rossi.

    Durante muito tempo, achei que o Brasil havia perdido pela ausência de Roberto Dinamite no lugar do centroavante Serginho Chulapa, hoje de memória atenuada pelo tenebroso papel em branco do fictício Fred, um dos massacrados pelo liquidificador alemão e péssimo nas sete partidas em que disputou na Copa da Vergonha em 7×1.

    A paixão pelo Vasco me fazia cobrar Roberto Dinamite. Um senhor goleador de área, um trombador bem mais inteligente e ágil do que o desengonçado camisa 9 mantido pela teimosia siderúrgica do genial Telê Santana. Telê era fantástico, o último líder preocupado em forjar virtudes invisíveis para os convencionais e a explorar as qualidades extraordinárias do escrete que montou. Ourives e teimoso crônico.

    Roberto Dinamite teria feito bem mais do que Serginho Chulapa. Entre os dois nunca houve o equilíbrio desprezível de Fred e do seu lamentável suplente, Jô, diminuto como a sílaba correspondente à dimensão do seu valor profissional. Roberto estava a milhas de distância de Chulapa.

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    A maturidade e a revisão contumaz daquela Copa mágica, onde aprendi ao vivo que o encanto era tão possível quanto fugaz, corrigem uma injustiça histórica: o centroavante pronto para o idioma sofisticado da seleção de Telê Santana chamava-se Reinaldo, do Atlético Mineiro.

    O Brasil tocava a bola em ritmo alucinante a partir da defesa, de laterais que pareciam meia-armadores em pleno processo criativo, Leandro pela direita e Júnior na esquerda. A orquestra dos Beatles em concerto de dribles, deslocamentos estonteantes e descoberta ilusionista de espaços parava quando a bola chegava em Serginho Chulapa, primata de chuteiras.

    Reinaldo dominava a área na semelhança professoral de um Romário, driblava curto e em direção ao gol tanto quanto Zico, pensava em desequilíbrio subversivo tal Sócrates e impunha a elegância de um Falcão em miniatura. Sem contar o entrosamento perfeito com Cerezo, mamulengo de pernas longas e visão organizacional de um moderno executivo, sem paletós nem apetrechos de computador.

    Nas Eliminatórias para a Copa da Espanha, Reinaldo deu show e parecia escalado por aclamação popular. Na altitude de La Paz, marcou um golaço dando um drible de costas no beque e chutando de canhota, matando os atrevidos bolivianos liderados pelo bom goleiro Jimenez e o meia Aragonés, depois contratado para nada jogar pelo Palmeiras.

    Entrosados, Zico e Reinaldo ressuscitaram as duplas de ataque. Renovaram a tabelinha criada por Pelé e Coutinho no Santos. Dois craques em disparada trocando passes da intermediária até a marca do pênalti em gols de maciez de um movimento bailarino de dunas. Zico e Reinaldo duelaram em decisões históricas pelo Campeonato Brasileiro e pela Libertadores.

    Titular absoluto na boca do povo, Reinaldo contrariou Telê Santana, empedernido conservador, ao tomar posições políticas radicais em favor do comunismo. Sócrates também simpatizava o socialismo e Telê jamais fez menção de tocá-lo.

    Reinaldo era ostensivo e ingênuo, usado pelos oportunistas que foram omissos quando ele caiu, muitos anos depois, por envolvimento com drogas. Hoje está recuperado e limpo. Telê preferiu escalar, em sequência, Nunes do Flamengo, Baltazar Artilheiro de Deus, Roberto Coração de Leão(Sport), Dinamite até acertar na loteria ao chamar o jovem Careca, do Guarani, uma semelhança da categoria de Reinaldo.

    Machucado nos preparativos para a estreia e cortado, Careca viu a Copa de Campinas, abrindo espaço à mediocridade de Serginho Chulapa. É inútil, mas decolo no devaneio. Vejo o néctar da plasticidade extraído por Cerezo, Falcão, Sócrates, Zico, Reinaldo e Éder, bailando em polainas de travas. Minha angústia de 32 anos nem teria nascido.

    Para cima

    Com forte aproveitamento ofensivo na Arena das Dunas e com Rodrigo Pimpão entre os principais artilheiros da Série B, o América deve partir para cima do xará mineiro esta noite. Problemas no meio-campo (sem Morais e Arthur Maia) e no ataque (sem Max e Isac), não devem desanimar a torcida. O seu grito empurra o time à frente.

    Sua Senhoria

    O árbitro Felipe Gomes da Silva, que apita o jogo entre os Américas, atuou em duas partidas da Série B da atual temporada. As duas com a presença da Luverdense. A primeira no dia 3 de maio, entre Ponte Preta e Luverdense, que terminou empatada em 2×2. A outra foi em Lucas do Rio Verde envolvendo Luverdense e ABC, com vitória do time da casa por 3×1

    Noviços

    Novidade será quando alguém anunciar o meia Rogerinho e o centroavante Dênis Marques na lista dos relacionados do ABC para alguma partida. Ver orelha de freira a 100 metros de distância hoje é mais fácil do que ver a dupla em campo.

    Paraná Clube

    A provável escalação do Paraná, adversário do ABC amanhã em Curitiba, às 21 horas deve ter Marcos; Chiquinho, Gustavo, Alisson e Breno; Lucas Otávio, Ricardinho, Marcos Serrato e Lucio Flavio; Thiago Alves e Giancarlo.

    Os agentes

    Dunga nega ter agenciado jogador mesmo com documentos divulgados. Não foi montada uma comissão técnica, mas um autêntico “comissariado”. Em euro.

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      Só sei que foi assim – Rubens Lemos

      O cérebro de Ariano Suassuna bem poderia ser guardado para estudos científicos. Ariano Suassuna nunca foi um homem normal. Seu raciocínio de gatilho jamais se repetirá em nenhum intelectual ou pretensioso literato. Erudição, não, por favor. Ariano Suassuna era um catedrático da simplicidade.

      Ariano Suassuna foi Chicó, foi João Grilo, foi Cabo Setenta, foi o Major Antônio Morais, foi o cangaceiro Severino de Aracaju, foi o iluminado que concebeu a obra-prima popularizada pela TV. O Auto da Compadecida é uma aula de regionalismo e uma demonstração de amor sertanejo puro e legítimo.

      É de matar de rir, é de chorar de realismo. É a saga compartilhada do homem rural humilhado e castigado pela seca, a fome, a ganância e usando a esperteza como forma de sobrevivência. “Esperteza é a arma do pobre”, julga a Compadecida ao absolver João Grilo diante do Deus incrédulo.

      Sincero. Ariano Suassuna era franco. Assisti a várias aulas-espetáculo que ele proferia pelo país afora monopolizando o que a programação definia como debate. A discussão virava monólogo deliciado pelos mortais, os leigos, os admiradores de suas tiradas do bisaco repentista das feiras livres e alpendres catingueiros.

      Ariano Suassuna escreveu o nome no computador e o corretor automático registrou: assassino em lugar do sobrenome. Numa dessas noites que mereciam a eternidade, acho que em Mossoró, numa monótona posse de reitor, ele acordou a plateia de um sono profundo detonando a modernidade e exaltando a natureza e o seu nacionalismo fervoroso.

      Ele gostava de cabras, gostava de Manoelito de Taperoá, gostava de Woden Madruga, a quem citava sempre em artigos na Folha de São Paulo. Ariano Suassuna gostava de gente e tinha medo de avião. “Dizem que a possibilidade de um avião cair é de menos de zero por cento, mas se o avião cai a possibilidade de eu morrer na queda é de 100%”, ele contabilizava o imponderável.

      Muito magro e alto, Ariano Suassuna foi o nordestino mais importante da conjunção dos séculos. O mais sagaz, valente, inteligente e adorado. Somente um ser superior consegue a adoração sulista tantas vezes o preconceito a quem não nasce da Bahia para baixo.

      Minha parte, fiz. Conheci Ariano Suassuna, conversei alguns minutos com ele no Palácio do Campo das Princesas, sede do Governo de Pernambuco, do qual foi Secretário de Cultura.

      O mito de agasalho e calça de tecido fino em meio à multidão de paletós burocratas. Ariano Suassuna sorria e cativava. Os cultos devem ser acessíveis e apreciar a humanidade. Como diria Chicó arrematando a mentira: “Não sei, só sei que Ariano Suassuna foi assim”.

      Taffarel

      Taffarel, o maior goleiro brasileiro de todos os tempos, empobrece sua biografia ao aceitar treinar homens sem um pingo do seu talento. Dunga foi esperto. Taffarel é uma rara unanimidade no futebol brasileiro. Se estiver errado alguém me corrija, mas nem gremista consegue ter raiva do goleiro tetracampeão. No nível atual ele até jogaria, se passasse um mês se preparando.

      Mata

      O primeiro mata o ABC matou.

      Fim tragicômico

      É tragicômico o fim de Adriano, o ex-Imperador, ao aceitar jogar no Terracina, clube da quarta divisão italiana. Adriano teria jogado as duas últimas Copas do Mundo. Ele próprio impediu. Serve de exemplo aos idiotas que se deixam levar por falsos amigos e marias-chuteiras profissionais.

      Desempenho

      Com desempenho notável na Arena das Dunas, o América enfrentará o América Mineiro nesta sexta-feira pela Série B buscando uma vitória para chegar nas imediações do G-4. O América tem quase 80% de aproveitamento no estádio da Copa do Mundo.

      Números

      De acordo com o site Vermelho de Paixão, do sempre atento Sérgio Fraiman, foram 14 vitórias, três empates e duas derrotas. O América marcou 41 gols e sofreu 17. Houve uma identificação à primeira vista entre a torcida rubra e a Arena das Dunas.

      Max

      O Homem de Pedra, artilheiro dos gols decisivos, comove. Max não tem uma carreira normal de jogador de futebol. Max tem uma sina. Sempre aparece um problema para lhe atrapalhar. Agora, outra contusão cruza o caminho do goleador mais identificado com a torcida nos últimos anos. Já o goleiro Andrey, retoma os treinamentos com cautela.

      Premiação

      O sorteio dos grupos da Copa do Nordeste de 2015, marcado para setembro no Recife, terá também a premiação dos melhores jogadores da competição deste ano. Será a primeira vez que haverá distribuição de troféus individuais na competição.

      Destaques

      No evento, serão premiados os melhores de cada posição, além do melhor jogador da Copa do Nordeste e da revelação do campeonato. A Copa do Nordeste retomada foi o maior gol marcado para o futebol da região. É um campeonato que motiva os clubes e reacende rivalidades estaduais.

      O primeiro campeão

      Foi ontem, dia 23 de julho, o 42o aniversário do primeiro título estadual disputado no finado Castelão (Machadão). O ABC conquistou seu tricampeonato em 1972 e abriu a galeria de vencedores na Lagoa Nova. Bateu o América na decisão por 2×0, gols de Jailson e Zé Maria com público de 34 mil pagantes.

      Times

      ABC: Erivan; Biu, Edson, Preta e Anchieta; William, Gonzaga e Alberi; Zé Maria; Jaílson (Baltasar) e Josenildo (Soares). O América perdeu com Juca; Batata, Cláudio, Djalma e Duda; Nunes, Gonçalves e Carlos Alberto Naúva (Osmar); Bagadão, Petinha e Chiquinho.

      Time mudou

      Do time alvinegro da decisão, apenas o zagueiro Edson, o craque Alberi e o ponta-esquerda Soares ficaram entre os titulares no Campeonato Brasileiro. O técnico Célio de Souza trouxe uma delegação de jogadores que atuavam no Rio de Janeiro para a primeira participação potiguar na Série A.

      Maranhão e Danilo

      Vieram Tião (goleiro), Sabará (lateral-direito), Nilson Andrade (zagueiro), Rildo (lateral-esquerdo), Maranhão (volante), Danilo Menezes (meia-armador) e Libânio (ponta-direita), além de vários reservas. Marcou época a dupla de meio-campo Maranhão e Danilo Menezes, que atuou no Vasco de 1965 a 1967. Sabará veio do Bonsucesso. Ofereceram Nelinho, depois titular do Brasil nas Copas do Mundo de 1974 e 78. Preferiram Sabará.

      Correção

      Ao escrever sobre goleiros na última segunda-feira, citei Ribamar, do ABC nos anos épicos do Estádio Juvenal Lamartine e troquei as bolas. O goleiro do América chamava-se Gerin, e não Ervin, zagueiro rubro. Grato ao amigo agitador cultural José Dias pela correção.

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        Sem time – Rubens Lemos

        Escale uma seleção brasileira com 11 titulares e 11 reservas. Nem precisa botar o terceiro goleiro. Só os 22. Tente formar um time razoável e capaz de se classificar para a Copa do Mundo. Faça uma análise ponderada. As emoções foram liquidadas pelos alemães.

        O Brasil não tem um goleiro de alto nível. Um goleiro que a torcida olhe e diga assim: o cara vai fazer milagre se a cuíca roncar dentro da grande área. O menos complicado é Jéferson do Botafogo, ainda assim um tipo nota 7, no máximo.

        Falam os cosmonautas viciados em campeonatos de sábado, no lateral Rafinha. O mundo aos pés de Rafinha. Imagine. Deve ser ele que não faria pior do que Daniel Alves, o Roberto Carlos da lateral-direita apenas com a máscara, sem o futebol. Zagueiros serão fáceis de encontrar e, em forma, David Luiz garante seu lugar. Não consigo vislumbrar de periscópio qualquer lateral-esquerdo.

        Pela convicção de Dunga, o nome para literalmente encabeçar o meio-campo seria o do lutador de UFC Felipe Melo, hoje com 31 anos. Pela razão humana, estaria velho para uma Eliminatória e em 2014 contaria 35 anos e menos força nas pernas para trucidar seus marcadores. Mas o próprio Dunga disputou a Copa de 1998 aos 34 anos. Nunca se sabe.

        O meio-campo será a continuidade periférica de Felipão. Fernandinho, Ramires, Paulinho, Luiz Gustavo devem ser reconvocados ou perpetuados em novos agressores da bola. Dunga, afinal, disse que arte também é desarmar o adversário. É frase de artista no sentido bizarro.

        Oscar, Neymar e ninguém mais. Oscar apenas pela constatação de que é queridinho obediente dos chefetes de beira de campo. O Brasil, hoje, não tem onze de mínima decência sequer para entrar em campo seguro contra o Panamá ou o Suriname em amistoso.

        Dunga irá reformular para trás. Dando marcha à ré conceitual num instante adequado para o recomeço, reencontrando nossas origens. Reinventando as categorias de base, abrindo espaço à molecada habilidosa. Dunga não quer saber de fundamento, o negócio dele é comprometimento.

        Chapou indiretas aos mascaradões de 2014 ao afirmar na coletiva feita por diversos assessores informais de imprensa, que “marketing é importante, mas nem tanto quanto a dedicação”. Dedicação que, saindo da boca dele deve ser lida por força extrema, sem suavidade alguma.

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        Dunga foi para a entrevista mais songa-monga dos recentes milênios anestesiado de precauções para não esbarrar nos repórteres, a exemplo de 2010 quando distribuiu sopapos e carrinhos verbais à vontade, atingindo até mesmo o gente fina Alex Escobar, sujeito tratável que conheci numa feira de literatura em Mossoró, faz cinco anos.

        Explodiu a gafe catastrófica do jornalista que sugeriu a construção de um muro no campo de treinamento da CBF para que a seleção “tenha mais privacidade”. São esses os nossos críticos e formadores de opinião que enfiam a cara na areia e deixam o rabo de fora a cada fracasso quadrienal.

        Dunga Lex, Sed Lex. Comprometimento é a norma que já foi quando ele assumiu pela primeira vez e fechou-se em pactos familiares com sua comissão técnica e seus lamentáveis pupilos da África do Sul. Comprometimento, na prática, é a pilastra sustentável do casto casamento. União estável até que a traição ou a falênca os separe.

        As atenções ficarão com Dunga. Gilmar está caricato de diretor de seleções até mesmo no corte de cabelo, puxado ao personagem Trapaleão, dos meus tempos de Globo Cor Especial, programa infantil da década em que a gente formava, de supetão, quatro seleções brasileiras fortíssimas.

        Cai sobre quem prefere a arte no jogo, a injusta pecha da irresponsabilidade de esquecer a marcação. Combater o adversário é preciso. Melhor ainda é fazê-lo de bobo, à base do toque de bola e da asfixia nas tabelas e triangulações.

        Sim, não somos os melhores do mundo faz tempo. Nem mesmo na América do Sul podemos engrossar o pescoço. Não precisavam os exterminadores ao longo do tempo, exagerar na destruição do esporte e deixar o Brasil entre os piores.

        “O problema do Brasil é que não existem mais bons jogadores”, vociferou Herr Lothar Matthaus, campeão pela Alemanha em 1990 durante mesa-redonda com outros levantadores de taça, Carlos Alberto Torres, do Tri de 1970 e o argentino Daniel Passarela.

        Gigante continental hoje sem o mínimo de 11 indigitados que possam enfrentar um rival histórico sem o pânico de levar uma surra a partir de quatro gols de diferença. Não habemus nem um time. Tente escalar. Tente, teimoso. Nem que seja para encarar a Venezuela.

        Lucidez

        Do narrador Kléber Machado, da Rede Globo. Ele disse certo no Canal Sportv ao lembrar que o futebol brasileiro vive à base de um triângulo continuísta: Parreira, Felipão e Dunga. Parreira substituiu Felipão, substituto de Dunga que, na primeira vez, substituiu Parreira. Mano Menezes não se considera.

        Empresários

        Os “empresários” do futebol, em sua maior parte, nefandos agenciadores, devem levar uma pancada do Ministério do Esporte. A ideia é uma lei em que diminua o lucro desse tipo de muleta e se dê mais garantias aos clubes para permanecer mais tempo e com mais direitos sobre os jogadores.

        Caloteiros rebaixados

        Também está para ser votado no Congresso Nacional, o projeto que transfere para os dirigentes caloteiros as dívidas de responsabilidade deles nos clubes, que seriam penalizados, prevalecendo o calote, com o rebaixamento de divisão. A Série D é capaz de ficar com 250 times.

        ABC

        O ABC entra para fazer saldo de gols contra o Novo Hamburgo (RS) na Copa do Brasil. Sem desrespeito ao clube gaúcho, é assim que deve agir quem joga a primeira em casa. A ausência de Dênis Marques e Rogerinho está virando novela mexicana. Rodrigo Silva e Júnior Timbó substituem bem, precisam apenas ensaiar mais.

        Preto

        O melhor jogador do Novo Hamburgo é o meio-campista Preto, ausente da partida desta noite no Frasqueirão. Preto está suspenso. O Novo Hamburgo chegou devagar na Copa do Brasil e requer os cuidados necessários.

        América na enfermaria

        O técnico Oliveira Canindé termina caçando juvenis para escalar o América, cheio de problemas médicos. O ataque está mutilado, o meio-campo, devastado. O departamento de Maeterlinck Rêgo está com superpopulação de guerra.

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          Dunga é de doer – Rubens Lemos

          A volta de Dunga à seleção brasileira – torço que antes das 11 horas, para quando estava marcado o anúncio e minha coluna já estará nas oficinas, ocorra uma reviravolta cívica ou um impedimento por decreto do Palácio do Planalto.

          Recuso-me a concordar que seja Dunga, providencial blindagem de cartolas e legítimo sucessor dos brucutus de camisa 5, Caçapava moderno, o homem capaz de recuperar o futebol brasileiro do coma induzido pela ridícula Copa do Mundo de 2014.

          Dunga comandou o Brasil por quatro anos e seus defensores alegam que teve 75% de aproveitamento e fez um “excelente” trabalho. Ganhou Copa América e das Confederações. Torneio que Felipão exibia como animal morto e empalhado quando a seleção venceu a Espanha e acionou o gatilho da histeria nacional e ufanista.

          Dunga é passo atrás, é retrocesso, é brutalidade estabelecida. Dunga não serve pelo que se conhece dele. Quatro anos não amadurecem quem nasceu com tortas convicções e ranços incuráveis.

          A trinca Gilmar, o negociante, Dunga, o do futebol zangado e Gallo, a tranca da retranca, sinalizam para a possibilidade real de o Brasil ficar fora de uma Copa do Mundo pela primeira vez. Será difícil conseguir uma vaga nas Eliminatórias. Atacar é verbo que Dunga não conjuga. Criar no meio-campo para ele é desperdício. Então, resolvi republicar o texto escrito logo após a derrota para a Holanda em 2010.

          Não pela derrota, que faz parte do jogo, mas pela desgraçada brutalidade ocupando o jardim da bola. Olhar para Dunga é lembrar Felipe Melo, Grafite, Júlio Baptista, Michel Bastos. Tétrico sorriso de José Maria Marin.

          O Brasil não perdeu

          Em agosto do ano 2000, participei do Congresso Internacional de Jornalismo Luso-Brasileiro. Assisti, em Recife, ao auditório inteiro aplaudir de pé, a frase derradeira do mestre Ariano Suassuna, que defendia o papel como indestrutível diante do surgimento da internet. Ariano disse que não haveria riscos para o livro em formato original nem para o jornal impresso. “Literatura, é amor, vocação, prazer e festa. O que é feito com esses ingredientes é eterno”. O seu contendor, de cabelo cheio de gel, Matinas Suzuki Junior, adormecera a platéia com estatísticas e fórmulas científicas sobre a tendência da objetividade como grande vitoriosa da profissão. Ariano é o Brasil.

          Câmara Cascudo definiu o ser humano nacional com perfeição ao dizer que o melhor do Brasil é o brasileiro. Em seus livros, suas pesquisas, suas correspondências, suas reflexões ancoradas pelo Rio Potengi, Cascudo sempre priorizou as raízes de cada povo, suas características, manias, idiossincrasias e seus gingados, como patrimônio inalienável da cultura. Cascudo é o Brasil.

          Do poeta, romancista e tribuno conterrâneo François Silvestre, numa noite estrelada em Martins, de clima frio e acolhedor, ouvi que se pode destruir um país com uma guerra, seu povo com armas e balas, seus monumentos com canhões. Mas sempre ressurgirá a sua face genuína no primeiro homem renascido. François é o Brasil.

          O Brasil não foi eliminado pela Holanda na Copa. O que foi desclassificado, para o bem do futebol, foi um arrogante e patético circo comandado por um soba que é a antítese de tudo o que o brasileirismo representa em quatro linhas de gramado. A Holanda derrotou o estilo pregado como eficiência e que nunca passou de contradição da lógica e subversiva, intuitiva e inventiva maneira de se jogar em solo pátrio.

          A feiúra defensiva, mecânica e embrutecida que contraria os shows de Djalma e Nilton Santos, Didi,Mané, Pelé, Gerson, Rivellino, Jairzinho, Tostão, Rivaldo, Romário e Ronaldo, os que desequilibraram pelo penta.??Quem vê o futebol como arte e espetáculo, extrairá dos 2×1, a esperança de que conceitos burros e contrários à tradição dos campos de pelada, sejam definitivamente expulsos, não com a estupidez de um Felipe Melo, que é o lugar-tenente e caricatura de uma era de desgosto e truculência.

          Felipe Melo é o oposto de tudo o que significa futebol brasileiro. Ele é como um eslovaco jogando basquete com negros malabaristas numa esquina do Harlem. Ou um irlandês sambando na quadra da Mangueira. Felipe Melo é o alter ego de Dunga, muso de um padrão tosco, feio e expulso do teatro da bola pelos seus resultados práticos: Em quatro Copas, como jogador ou técnico,Dunga perdeu três, as três do seu jeito ridículo de ser.

          Em 1990, Maradona deixou-o de bunda no chão. Em 1998, Zidane fez dele o que não quis. Em 2010, virou farinha o seu casaco degeneral, derreteram suas teses que resultaram num segundo tempo de time de Série D.??

          Mesmo quando ganhou jogando muito bem, Dunga não deixou de Dungar, como se verbo de grosseria ele fosse. Ergueu a taça do tetra chamando jornalistas de “traíras”, desfigurando o gesto nobre de Bellini, Mauro, Carlos Alberto Torres e Cafu. Dunga é a presença viva de um espírito que deve ser extirpado de nossas vidas pelo bem dos nossos filhos e netos.

          Aquela dissimulação vivaldina de que ganhar por ganhar é o que importa, vencer até passando por cima do cadáver do inimigo é sinal de competência, esperteza acima de tudo é que é importante, nunca a dignidade. O brasileiro de verdade é boa gente, solidário, receptivo e contente, não é mercantilista. Disseram que Dunga tem rompantes de Maquiavel. É mais parecido com Noriegas e Somozas que pontificaram como ditadores temporários de republiquetas famintas.

          Chorar a derrota para a Holanda é menos importante do que questionar o que foram fazer na Copa Felipe Melo, Michel Bastos, Gilberto, Josué, Kléberson, Grafite, Júlio Batista e, por ontem, Luis Fabiano. Os que defendiam Dunga diziam que levara seus homens de confiança. Mas que critério é esse num esporte em que o talento sempre prevaleceu sobre toda burrice?

          Por tal e asno raciocínio, legitimados estarão Al Capone, Lucky Luciano, Pablo Escobar, Uê, Sam da Cidade de Deus, Fernandinho Beira-Mar. Eles sempre estiveram ou estão com seus homens de confiança, seus capo regimes, seus soldados, seus asseclas, seus puxa-sacos.

          Quando perdemos em 1982, o futebol-arte foi condenado. Agora, a forca ou a injeção letal devem ser aplicadas no bagrismo ululante que não tem nada com o Brasil. O Brasil não perdeu. O Brasil nem foi à Copa. (Jornal de Hoje, 04/07/2010, republicado por atualidade e imposição histórica).

           

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            Camilo e Fernando Henrique – Rubens Lemos

            Ser ruim com os pés e kamikaze são atributos básicos do goleiro. É o tipo do sujeito sem charme para a glória, o apogeu, a tietagem. O Brasil teve goleiros maravilhosos e nenhum ídolo. Taffarel, Gilmar e Barbosa foram os melhores. Barbosa, coitado, 14 anos depois de enterrado recebeu o alvará de soltura moral pelo gol de Ghiggia em 1950.

            Barbosa, de tantas defesas monstrengas no Expresso da Vitória no Vasco carregou uma culpa que nunca foi dele e a história teve de anotar os 7×1 da Alemanha sobre o Arranca Toco vestido de seleção brasileira, para que os radicais enxergassem o que de fato significa um vexame. Taffarel, goleiro do Tetra e dos pênaltis, levou um gol de falta na Copa América de 1995 e o capo Ricardo Teixeira lhe fez críticas como se um invertebrado de caráter e conduta pudesse julgar alguém.

            Digno, Taffarel passou dois anos sem aceitar convocações. O Brasil padeceu com Dida, tomando frangos olímpicos, Zetti, jogador de clube como de clube eram Rogério Ceni, o grotesco Gilmar, o Agenciador-Geral de Seleções, o palmeirense Velloso e o paraense Clêmer, do Flamengo e depois Internacional. Taffarel voltou por cima. Para pegar pênaltis e eliminar a Holanda na semifinal de 1998, Holanda que hoje olha o Brasil como o Flamengo de Zico pisava o Olaria.

            O fim de semana positivo de ABC e América na Série B comove nas figuras de Camilo e Fernando Henrique, viajantes da gangorra emocional e de prestígio dos que escolhem a baliza de cidadela e – muito mais – de alvo. Camilo fora jogado por algum técnico proprietário das autoridades gerais numa espécie de arquivo morto alvinegro. Sem nada que justificasse o desprezo.

            A (tola) expulsão do ótimo Gilvan na derrota para a Luverdense jogou Camilo na fogueira do Frasqueirão diante do então líder Joinville. Seguro e sossegado como os sábios de monastério, Camilo foi o responsável pela vitória ao fazer uma das mais lindas defesas vistas em Natal desde os tempos de Jorginho, Cocó, Wallace e Cezimar no Juvenal Lamartine de Ribamar e Erwin defendendo cada trave nos clássicos de lendas e calor.

            Reflexo, instinto, preparo físico e agilidade. Inteligência especial sobrou em Camilo quando o atacante Jael ameaçou bater por cima da barreira que saltou e, ligeiro, tocou por baixo. Camilo, tigre de filme de safári mergulhou e evitou o gol de empate que estragaria o prazer da massa. Salve Camilo.

            No Rio de Janeiro, sites, comentários e avaliações pouco isentas minimizaram a atuação estupenda de Fernando Henrique, do América, responsável direto pelo empate em 1×1 contra o ex-Vasco da Gama em São Januário. À base de correria e entusiasmo, volúpias de times pequenos, o Vasco bombardeou Fernando Henrique e ele foi Pearl Harbor que sobreviveu. Pearl Harbor, base americana atacada pelos japoneses para inflamar a Segunda Guerra Mundial.

            Nos segundos finais, Fernando Henrique resolveu abrir o peito do amor próprio, ferido pelos erros terríveis em dois gols do Bragantino no jogo anterior, vencido por 4×2 pelo América. O goleiro americano, revelado pelo Fluminense (RJ), impôs a insaciável loucura da função, jogando-se aos pés de atacantes em chutes à queima-roupa, oferecendo o rosto à saraivada de tiros desesperados amortecidos na raça e no desabafo.

            Salve Fernando Henrique. Ele e Camilo heróicos mortais. Dois homens conscientes e semelhantes na dureza da expressão facial refletindo cicatrizes da alma: a vaia e a injustiça podem voltar na próxima. É a sina solitária do goleiro, nascido para sobreviver no redemoinho da angústia.

            Renato

            A sensação do triunfo dá ao vitorioso a graça da superioridade sem luxo. E é assim que ficou o torcedor do ABC depois da virada sobre o Joinville por 2×1 no Frasqueirão.

            Felicidade

            O alvinegro passou feliz no fim de semana inteiro o que representou piquenique, cangapés em praias e açudes, resenhas intermináveis pelos bares de Natal. O ABC retomou o prumo da bonança na Série B sem mungangas.

            Simplicidade

            O melhor do ABC atual é a simplicidade que nele é estatutária. O que interessa acontece em campo. Em campo, que é onde devem estar os protagonistas, tem Renato, monstro de lateral-direito. Defende, ataca, cruza, bloqueia, parece ter 28 pulmões. Renato deu de presente aos frasqueirinos um gol de Copa do Mundo, não de seleção vexatória de Felipão.

            Golaço

            O gol da virada, de pancada, golaço, lá no alto, foi parecido com o do lateral Josimar, em 1986 contra a Irlanda do Norte. Um gol de talento, de sentimento. Um gol de ABC fazendo sua gente cantar de trás pra frente o Alô Frasqueira cancioneiro.

            Discriminação

            A imprensa do Rio de Janeiro abusou de atribuir ao “bizarro gol contra”, o empate do América contra o Vasco. Menos a verdade. O América estava desfalcado, sem seus homens de criação no meio-campo. Com Morais jogando, o América poderia ter vencido o jogo.

            Bola parada

            Os trepidantes cariocas – que quando aqui chegam são bajulados -, erram de propósito. O Vasco fez um gol de falta, belo gol do seu único jogador capaz de trabalhar a bola com engenho: o meia Douglas. O Vasco é um time medíocre como sua colocação na Série B: oitavo lugar e apenas um ponto à frente do América.

            Decadência

            Vi o jogo com outros dois amigos vascaínos e sem radicalismos. Concordamos que, a continuar na marcha de atraso, gestões caóticas e times medíocres, o Vasco não sobe para a Série A (seria o primeiro integrante do Grupo dos 13) e caminha para um fim bisonho como o do Bangu, que morreu com o bicheiro Castor de Andrade.

            Dunga

            Ainda não caiu a ficha. De ver Dunga técnico da seleção brasileira. Seria perversidade capaz de render episódio na Série Criminal Minds. Tem gente ainda dizendo que Dunga fez “grande trabalho na seleção”. Sacanagem. Sujeito levou Felipe Melo, Grafite, Josué, Júlio Baptista, Elano e Michel Bastos a uma Copa do Mundo.

            Professor Geraldo

            Meu leitor e ombudsman, Geraldo Batista, moleque eterno de Acari, bate o fio na tarde indo embora. Cabeça quente. Assunto: Dunga. Chegamos a tratar de mudança de esporte preferido. Me dedicaria somente ao tiro. Professor Geraldo é bom no beisebol.

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              De Gilmar a pior – Rubens Lemos

              Para você que nasceu a partir dos anos 1980. Gilmar Rinaldi, novo contabilista do futebol humilhado do Brasil foi bom goleiro. No Internacional (RS), no São Paulo e no Flamengo. Quem nasceu antes viu e jamais se impressionou.

              Cortado da Copa do Mundo de 1986, soube esperar. Em 1994, lá estava ele, também reserva do reserva, mas na mesma foto de Romário, Bebeto, Taffarel, Jorginho, Dunga e Aldair. No tetra que está completando 20 anos.

              Rapaz esperto o gaúcho de Erechim e manhoso igual a mineiro. Encerrada a carreira vitoriosa, afinal ganhou Campeonatos Paulistas, Brasileiros e Cariocas, além, claro, da Copa do Mundo sem sequer botar as luvas nas mãos, não cogitou se recolher ao ostracismo dos comuns.

              Bateu tiro noutra meta. Ambicioso e ambíguo, serpenteou nos labirintos da bola e decidiu vestir a camisa do nefasto time dos agenciadores. Dos “empresários” que usam de argumento$ e barganha para impor quem nem joga tanto nos grandes times europeus e no que restou de razoável no Brasil. Tudo à custa de lábia e lobby.

              Gilmar é dono do distintivo mais cobiçado entre os negociantes das beiradas de campo e de jantares refinados em restaurantes de luxo: a carteira de Agente Fifa, que lhe permite circular pelo mundo afora com o seu catálogo de clientes – como o seu site classificava -, oferecendo serviços geralmente de terceira qualidade.

              O “empresário” Gilmar, como todos os seus pares de ofício, administra a vida do jogador, negocia contratos, prêmios, renovações e ganha o seu (gordo) percentual. Nada é melhor para alguém de sua estirpe do que um cliente convocado para a seleção brasileira. O boleiro se valoriza, a venda para o exterior é certa e o lucro do agente se multiplica.

              Ao assumir a diretoria de seleções da CBF, anunciado e interrompido quando falava pelo decrépito José Maria Marin, Gilmar jurou que a partir daquela hora, sua dedicação exclusiva será para a tarefa que aceitou sem pensar muito. Sua aparência era a de um feio surpreso escolhido por uma musa. Cara de pastel com ovo cozido.

              A apresentação patética correspondeu a fim de novela esperado e frustrante. Especulam vários assassinos entre os personagens e, de repente, o autor resolve que a vítima cometeu suicídio. Ninguém sai preso, a megera ou o canalha da ocasião fica impune e a história perde a graça.

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              Gilmar Rinaldi comandando o futebol brasileiro é aberração comparável apenas à hipotética imagem de Pelé vestindo a camisa da Argentina. Não é do ramo, tampouco admira futebol competitivo e belo , é comerciante e a qualquer tempo algum trombará com o técnico que venha a ser escolhido, se digno for. O que, em regra geral, vai ser até menos catastrófico.

              O diretor de seleções da CBF pós- bombardeio alemão e trucidamento holandês na Copa das Copas dos bilhões, demonstrou, pelo aspecto de estafeta, que será pau mandado dos mesmos que sepultaram a arte moribunda e continuarão a lutar pelo extermínio do futebol ente cultural e apaixonante na vida de um país.

              Dizer que Gilmar é raposa no galinheiro seria leviano. É antecipar culpas. Mas que ele brilhou os olhos quando falava em categoria de base, brilhou sim. Mesmo não mandando em nada, de verdade, portará a função institucional de manda-chuva, enquanto o virulento ex-volante Gallo, incapaz de ensinar alguma coisa a qualquer menino pela comprovada incapacidade própria, escalará quem for disciplinado.

              O retrato do anúncio de Gilmar, sobre o qual o impacto me impediu de escrever com maior profundidade ontem, dia de tema intocável, Pelé, foi a cara de capo de José Maria Marin, tomando o microfone do ex-goleiro e empresário quantas vezes quis e respondendo por ele, amarelo de tibieza, de frouxidão.

              Quem for o técnico anunciado saberá – acho até que já contrataram-, que reinará sobre areia. Não formulará revolução alguma, nenhuma mudança drástica. Quem assistiu ao filme Tropa de Elite e acompanha o Jornal Nacional todos os dias, terminou familiarizado com uma palavra que reflete a engrenagem inflexível e intocável: “Sistema”.

              O problema é “o sistema”. O “sistema” é forte, o “sistema” é ardiloso, o “sistema” não aceita perder sua grana. Suas regalias, suas prerrogativas, seu poder voltado para a sobrevivência dele próprio. Gilmar é o “sistema”. É fruto. É continuidade.

              Sai o zagueiro tosco e entra o goleiro esperto. É esperar que as escolinhas de onde deveriam sair dribladores e artilheiros à brasileira continuem deformando a substância criativa dos nossos moleques. Se viesse, por exemplo, um Tite, Felipão remoçado, tudo seguiria. De Gilmar. A pior.

              Dunga

              Dunga, se voltar, é sinal de que o sadismo é norma no Brasil. Não é possível que Dilma, diante das últimas pesquisas, deixe.

              Novidades literárias

              Paulo Mendes Campos, cronista que pisava macio, e João Saldanha, João Sem-Medo, estão por Natal. Em duas obras-primas . Diário da Tarde é uma aula de texto e de ternura de Paulo Mendes Campos compondo um jornal imaginário de verdades geniais.

              Histórias do Futebol

              Lançado nos anos 1960, Histórias do Futebol, de João Saldanha, é narrativa bem humorada sobre seu tempo de técnico do Botafogo, entre 1957 e 1959. O Botafogo excursionando pelo interior do Brasil e no exterior, Garrincha desmoralizando times inteiros, monopolizando puteiros e estrelando episódios magistrais.

              Subterrâneos

              Originalmente, o livro de Saldanha foi batizado de Subterrâneos do Futebol. Lembranças de clássicos e brigas homéricas contra argentinos e uruguaios. Garrincha simplesmente comove e faz gargalhar. Dribla o leitor.

              Alecrim

              Fora de campeonato de divisão de base, o Alecrim só pode estar arrependido de ter se encantado com a facilidade estrangeira que só lhe tem trazido desencanto.

              Nas arábias

              Pouco aproveitado pelo ABC onde atuou em 2012, o atacante Léo Gamalho está deixando o Santa Cruz (PE) para ir aos Emirados Árabes. Jogou bem ainda no Asa de Arapiraca (AL) Pelo qual deu o troco ao ABC na Copa do Nordeste de 2013.

              Raul vai e volta

              Contratado pelo Paysandu na Série C, o meia Raul, ex-ABC, que estava pelo Santa Cruz (PE), se apresentou, tirou fotografias, fez exames médicos e de repente, não mais que de repente feito o poema, foi embora. Sempre de repente, voltou. Era a esposa que conseguiu ser transferida para Belém. Funcionária federal.

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                Menino e Homem – Rubens Lemos

                Aos 16 anos, parecia um veterano. Aos 30, tremia de insegurança juvenil. Na estreia contra a Argentina, Pelé substituiu o famoso Del Vechio, irrompeu a área portenha na astúcia das peladas no Baquinho, seu time de amigos em Bauru.

                Fez seu primeiro gol pela seleção brasileira batendo seco e rasteiro, diante de um incrédulo goleiro Carrizo, assombrando jornalistas e torcedores.

                Havia algo de maravilhosamente estranho no colegial destemido e artesão natural. Uma criança sem autorizacão para filmes de romances quentes, nascia homem e semeava o Rei assustado de 14 anos depois.

                Pelé jogou pela seleção brasileira contra a Argentina e assinou a autoria do tento nacional na derrota por 2×1 pela Copa Rocca. No dia 7 de julho de 1957, o Ex-Maracanã recebia um público indigno do maior clássico das Américas: 60 mil pessoas viram o desabrochar de uma lenda desperta para redesenhar o futebol.

                Atrevido, o negro mirrado da camisa 13 antevia a eternidade: teria súditos onde estivesse. Pediu para jogar a segunda partida, em São Paulo, começou de titular, tricotou os rivais a dribles e balanços e marcou outra vez, selando o 2×0 e o título do torneio.

                Duelos em quadrilátero gramado passaram a ter Pelé mesmo sem ele por perto. O infanto-juvenil do Egito queria imitá-lo, o aspirante do Quixeramobim, raspava a cabeça no seu corte militar.

                Os goleiros – de Yashin da União Soviética, o melhor do século passado, ao ridículo Rubiños, do Peru da Copa de 1970, deixavam de dormir de terça para a quarta ou de sábado para domingo, se a partida fosse contra Pelé.

                No dia 18 de julho de 1971, o homem de colossal compleição física e plenitude técnica está nervoso. Há 138 mil órfãos, viúvos, berrando nas arcadas do ex-Maracanã em coro: “fica, fica, fica!”.

                Companheiros tristes, adversários reverentes. Pelé não acertou nada nos primeiros 20 minutos do amistoso contra a Iugoslávia, sua despedida da camisa 10 que mudou o mundo. A camisa 10 que ele decretou atestado de superioridade, inscrição de craque maior.

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                Com Pelé, nenhuma importância passaram a ter chefes de Estado, líderes religiosos, astros do cinema, popstars da música e da pintura. Pelé foi Picasso, Mozart, Kennedy, os quatro Beatles, a lua e não os que nela pisaram.

                Pelé parou guerras, fez árbitros intrusos serem substituídos, ganhou três em quatro Copas do Mundo, foi cortejado por reis, rainhas e amado por plebeus da Terra .

                Nenhum repórter apurou a popularidade do estupendo Crioulo no restante do Sistema Solar, embora um ET em delírio tenha sonhado com uma declaração de amor editorial publicada no Netuno News, jornal de maior circulação entre os extraterrestres.

                Metade homem, metade bola, acima da limitação humana. Pelé lotaria trilhões de enciclopédias apenas de adjetivos, declarações escritas e desenhadas, translúcidas de amor, poemas, conforme inspirou sambas e sinfonias de exaltação em carnavais e óperas nos teatros suntuosos de Europas aos pés do monarca do Santos Futebol Clube.

                Tanto e no entanto, titubeia o camisa 10. É a hora de partir na glória, machucando milhões de saudades. Enquanto acerta o lançamento longo para o ponta Vaguinho, do Atlético Mineiro.

                Vaguinho, valente e esforçado, parecia o sintoma dos tempos que viriam. Pelé vislumbra a enorme lágrima solidária espraiada pelos flamenguistas, vascaínos, botafoguenses, tricolores, católicos, evangélicos, ateus, agnósticos, politeístas, reacionários e comunistas.

                Só e somente só Pelé, no oceano em formigueiro humano, conseguiu cancelar, no seu adeus à camisa amarela que tornou líder, temida e invejada, parar o campeonato de beisebol dos Estados Unidos, todos defronte aos aparelhos de TV ligados nas cenas do Rio de Janeiro.

                Só e somente só Pelé suspendeu, naquela tarde, todas as touradas programadas na Espanha. Pela solidariedade do sonho encerrado. Só e somente só Pelé parou 150 milhões de soviéticos, fervor da Guerra Fria, para contemplar a arma mais perfeita do Ocidente.

                – Fica, Fica, Fica! Uiva o estádio em desespero de perda na superlotação. O ex-Maracanã, ao grito histérico e sincero das gerais, rasgava o pranto.Nunca mais outra vez, o James Bond de chuteiras explodiria redes inimigas doando glórias e goleadas sacras à seleção que passou a ser pronunciada com temor e admiração, pelos representantes de cada país e continente.

                Pelé permanece em campo durante 45 minutos. Tira a camisa. Dá a volta olímpica mais importante desde a primeira pedra posta na Grécia, passando por garotos vestidos com uniformes de todos os times que ele cansou de humilhar pelo sentimento lindo da arte.

                Saía da ribalta o Pelé sem sucessor, imagem turva do menino de 14 anos antes, o começo da revolução. Na tarde radiosa e implacável de um clarão que completa 43 anos, o Brasil se despedia da superioridade incontestável e descia ao estágio dos corriqueiros competitivos. Era o Brasil D.P. (Depois de Pelé.)

                PS. Brasil x Iugoslávia terminou 2×2 e Pelé foi substituído pelo atacante Claudiomiro, do Internacional. Tremenda sacanagem com Claudiomiro.

                Gilmar

                Entre registrar o fato histórico de Pelé e comentar a escolha de Gilmar Rinaldi na CBF, ainda não estou necessitando de manicômio para escolher o primeiro tema. Gilmar Rinaldi é a ré para o pior do que já está. Anomalia.

                Frasqueirão

                O Joinville é líder e merece todo o respeito do ABC. Mas no Frasqueirão, noite de reencontro, a Alemanha ou a Argentina seria desculpa para qualquer coisa que não três pontos.

                Ritmo

                O ABC necessita da vitória para retomar o ritmo positivo dos jogos antes da parada da Copa do Mundo. Em casa, vencer é primordial para permanecer na área próxima do G-4 ou voltar a ele.

                América x Vasco

                O Vasco está empolgado depois da goleada no Santa Cruz. Gravei e vi o jogo. Nada além do trivial. O América precisa entrar firme porque já ganhou em São januário em tempos bem mais difícil. A camisa vascaína que me orgulhava, pesa tanto quanto pluma hoje em dia.

                Cidadão

                O companheiro de O Jornal de Hoje e amigo de fé, repórter Joaquim Pinheiro, recebe nesta sexta-feira o título de cidadão caicoense. Pinheirão é um sertanejo nato e universal pelo Rio Grande do Norte inteiro. Exlusividade do Agreste, a certidão de nascimento.

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                  Resposta na pelada – Rubens Lemos

                  Inesquecível programa de adolescente era ver peladas de jogadores de ABC, América, Alecrim e de times pequenos na Praia dos Artistas. Nas folgas, os boleiros se reuniam em frente ao Caravela Bar, se afogavam em hectolitros de cerveja, se exibiam para bronzeadas robustas em incandescentes biquínis tipo fio-dental e jogavam bola como se voltassem à infância.

                  Jogadores de qualidade e simplicidade. Todos homens simples, pobres, de salários parcos e categoria que nos emocionava aos domingos à tarde no Castelão(Machadão). Não havia separação de cores. Jogava quem era do ABC no mesmo time do cara que iria ser marcado no duelo contra o América.

                  O calçadão virava uma arquibancada cheia. Sentávamos no chão frito para contemplar, de perto, o malabarismo dos peritos sem chuteiras e bossa pura, sem artificialismos, brinquinhos, tatuagens e pierciengs. A cabeleira Black Power ainda vigorava, simbolizando a negritude dos que nasceram para o ofício sem precisar de professor.

                  O meia Valério do América pontificava, no auge. Driblava fácil, empolgava nas embaixadinhas e invejava a molecada sem talento. Valério apreciava bastante o giro e o toque de calcanhar que sentavam um volante marrento chamado Zé Carlos, jogador suburbano e com pose de astro para desavisados e neófitos. Zé Carlos sofria e a multidão gargalhava aos dribles de Valério.

                  O rival do artista americano vinha bamboleando. Adalberto, jovem meia do ABC, tesouro tão desperdiçado quanto Valério para o alcoolismo que eles iniciavam nas mesas simples do barzinho frequentado por homens e mulheres, amadores e profissionais. Na época, a turma jogava a pelada com tanta disposição quanto no campo da luta pelo campeonato. Depois, entrega total aos engradados acumulados à beira-mar.

                  Muito mais interessante ver os jogadores aos dribles e deslocamentos perfeitos, saltimbancos libertos de esquemas, do que os surfistas com suas manobras arriscadas e que ameaçavam velhos e crianças durante o banho nas ondas espumantes.

                  Aquilo sim, era a pelada, gênese do futebol brasileiro. Critério de pelada categórica superava ao padrão atual da escolha de quem joga em time dominado por empresário e cartola esperto. Brigava-se para se formar o melhor time.

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                  Valério e Adalberto nunca jogavam do mesmo lado. Eram os capitães, puxavam o cara ou coroa e, com jeito desdenhoso, saíam escolhendo os mais talentosos ou menos precários. Construíam o equilíbrio em nome da motivação e do prazer. Davam, cada um, seu show exibicionista porque lhes sobrava ginga e improvisação. Hoje, ambos são sombras do passado e não driblariam a areia da praia.

                  Os homens que usavam a camisa 10 do América e do ABC na metade dos anos 1980 apenas demonstravam a força da lógica das peladas. Repetiam o que era feito na rua em que eu morava.

                  Quem jogava no time de Adriano Didica, ficava fora da lista de Flávio Tércio, seridoense de Jardim e driblador de costura. Era o time de Didica contra o time de Tércio. Eu ficava entre os últimos a formar. Compunha a sobra, a charque dos ruins de bola.

                  Respeitada a lei informal da pelada, o futebol brasileiro não estaria passando pela turbulência de hoje. A pelada perdeu o charme e é jogada – em prioridade – por quem tem o tênis mais bonito, a chuteira de maior preço, o uniforme de layout parecido com o do esquadrão europeu. Enfim, a diversão ficou travestida de desfile de moda e vaidade.

                  A pelada saiu dos campinhos de terra batida porque não existe campinho de terra batida. Há condomínios de luxo com quadras de cimento ou piso sintético onde jogam os moradores e seus filhos desprovidos de inteligência nos pés. De vez em quando, é comovente o olhar oferecido e desprezado do mulatinho filho do porteiro, habilidoso e fagueiro, preso à pequena área do elevador de serviço.

                  Kaká, Alexandre Pato, Bernard. Maxwell. Luiz Gustavo. Não são nem jamais foram peladeiros. Nunca foram Didicas, Valérios, Tércios ou Adalbertos. Adalberto atendia por “Neguinho do Passo”, ou “Novo Adílio”, alusão primeira à comunidade onde nasceu e a segunda uma comparação exagerada com o estilista companheiro de Andrade e Zico, num dos maiores meios de campo da civilização.

                  Peladeiro tinha nome próprio no apelido curto e simples. Didi, Cocó, Orelha, Magrão, Baleia, Tico, Dico, Leco, Lico, Zeca, Zico, Chico, Zureta, Neco. Em algum pedaço de chão, um deles disputou clássico de meio de rua, traves separadas por sandálias, latas de leite ou barras de ferro.

                  Hoje, jogador tem nome de praça e de alameda. O talento é similar. Peladeiro se garante pelo contracheque do pai. Peladeiro parece segurança de gafieira. Para o Brasil recomeçar no futebol, basta entender a pureza da resposta da pelada.

                  Danos Morais

                  Jogador irrequieto e de dribles milimétricos, o meia Morais agradou a torcida do América contra o Bragantino. O time mudou para melhor com ele na criação. Aí Morais sentiu uma dorzinha e está no Departamento Médico, de onde saiu e para onde voltou o titular Arthur Maia.

                  Vasco

                  O América pode, sem exagero, jogar de igual para igual com o Vasco. Hoje um time comum e inferior aos que estão na linha de frente da Série B. O Vasco luta para não ser rebaixado e a chegada do atacante Kléber melhorou o que não merecia adjetivação mediana.

                  Gilmar

                  O atacante Gilmar é experiente e está falhando na finalização, uma de suas principais virtudes. A torcida está irritada com ele e o jogo de amanhã é importante demais para que tudo se volte contra Gilmar. O ABC enfrenta o Joinville, líder da Série B.

                  Xuxa

                  O meia Xuxa fez, quem sabe, sua melhor partida no ABC. A regularidade não tem sido seu forte e o confronto desta sexta no Frasqueirão é o tira-teima ideal para ele firmar prestígio junto à torcida.

                  Octávio

                  Com passagem relâmpago por Natal e algumas boas partidas, o meia Octávio, ex-ABC, agora é da Fiorentina da Itália, onde jogaram astros como o capitão argentino de 1978, Daniel Passarela, o Doutor Sócrates e o campeão mundial de 1982, o clássico meia italiano Antognioni. Octávio foi emprestado pelo Botafogo.

                  Seleção

                  Mudar homens de nada adiantará se os métodos permanecerem. Não há perspectiva de mudança geral no futebol brasileiro, especialmente fora de campo.

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                    Samba em Berlim – Rubens Lemos

                    Um campeão imortal reúne qualidades além do campo de futebol. O campeão acima dos padrões comuns é capaz de seduzir. O campeão natural, potente, espadaúdo, é um carismático. A Alemanha faz parte do rol de vencedores que ergueu a taça e dominou as massas. A simpatia dos seus jogadores contagiou o povo brasileiro como paixão de adolescente.

                    Os alemães venceram no jogo e na preferência das multidões. Ganharam sem a pecha injusta de zebra de 1954 e 1974, quando derrotaram vencedores antecipados e máquinas de produzir futebol espetacular: A Hungria de Puskas e a Holanda de Cruijff.

                    Nos dois primeiros títulos, os germânicos não eram meros mimis cocós de fundo de quintal. Dispunham de excelentes times e a seriedade inabalável, o estilo marcial de combate presente em Fritz Walter e Beckenbauer, os capitães do bicampeonato. A Alemanha superou a Hungria por merecimento e a Alemanha por competência, do jeito que a Itália fez com o maravilhoso Brasil de 1982.

                    Na Copa de 1990, a mais insossa de todas, a Alemanha foi campeã cumprindo tarefa. Seu principal jogador, Lottar Matthaus, chegava à terceira das cinco copas que disputou em plena forma do estilo objetivo e forte.

                    Matthaus raramente driblava, tocava de efeito ou fazia um golaço. Matthaus era um herói de desenho animado de volúpia e martelo. Um Thor. Um Lothor Matthaus. Seu padrão militar, organizado e sem brincadeirinhas conduzia o batalhão de Klinsmann e Voller na artilharia. Faltava graça e irreverência a Alemanha que fez Maradona chorar de se debater no Estádio Olímpico de Roma, a caminho da estrada do pó e da degradação. Maradona, um supercraque, não foi – nunca – um mísero cidadão razoável.

                    Um jornal argentino de ressaca de Obelisco e Recoleta reagiu com amargura à derrota de domingo e disse que o Brasil sofre de “Síndrome de Estocolmo”, o fenômeno maléfico em que a vítima se afeiçoa ao sequestrador, ao algoz. O Brasil levou a surra mais vergonhosa de sua vida por 7×1 dos alemães e o resultado, sumário, impede discussões e questionamentos.

                    Os torcedores não ficaram felizes com os alemães pela goleada que eles impuseram à ridícula patota de Felipão. Foram atraídos pela simpatia imprevisível de um time em paz, em alto astral, bem resolvido, tal balzaquianas de corpo mignon e alma arejada. Balzacas de praia. Tropicanas.

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                    Os alemães atenderam ao povo, distribuíram autógrafos e brindes, foram solícitos com as crianças, trataram com respeito os funcionários dos hotéis e resorts onde ficaram hospedados (calcule as gorjetas), exerceram solidariedade com os mais humildes, deixando para eles, atitudes e benfeitorias que o poder público se omitiu de cumprir há séculos de Pedro Álvares Cabral a Dilma Rousseff.

                    Poucas seleções encerram uma Copa do Mundo gerando tamanha repercussão positiva após a final quanto a Alemanha. O legado benfazejo. Os mexicanos se apaixonaram pelo Brasil em 1970. Pelé, Gerson, Jairzinho, Tostão, Rivelino e Carlos Alberto Torres deixaram muchachos chorando quando partiram, depois do recital de futebol no Azteca. Tiraram a roupa dos tricampeões e gritaram Tri, como se cariocas fossem.

                    O ser humano gosta de atenção e os alemães estabeleceram a infalível sinfonia entre time e povo, fazendo o Maracanã parecer Berlim sambando. Uma fanfarra de Oktoberfest em julho. A Argentina preferiu alimentar uma abominável xenofobia que acomete a eles e a alguns dos nossos rebentos, ódio que não combina com a universalidade mágica do futebol.

                    Parecia a despedida dos campeões de 1958 na Suécia, loiras e guapos arrancando pedaços garrinchianos e do menino Pelé, o homem que ninguém jamais imitará e a Copa 2014 acabou de sentenciar a verdade eterna. Garrincha voltaria a Estocolmo e deixaria um filho, Ulf, criado pela mãe e alucinado pelas peripécias de Mané. Ulf, claro, não joga nada.

                    Os alemães foram embora levando o cetro do futebol e a coroa da integração humana. Ao chegar em casa, sem cansaço, pois Copa do Mundo tem a força de cortar fadigas, mantiveram o ritmo afro e passista, dançando em cima do trio elétrico em europeias epopeias, sambódromos e avenidas soteropolitanas de carnaval.

                    Eles foram o que somos na corda da espontaneidade e receberam acolhimento justo pela correspondência de afeto. Os alemães foram, para os brasileiros, tudo o que os brasileiros esperaram e não receberam do seu pífio e lamentável time. Viva a Alemanha. Tão legal, tão amiga, que bem poderia transportar até a Bavária – para o radiofônico”todo o sempre ” – Felipão e seus pupilos .

                    Fatos coincidentes

                    O América venceu o Bragantino e só não aplicou uma goleada exemplar de 4×0 porque o seu goleiro Fernando Henrique levou dois frangaços. Mas foi uma boa vitória. Em Mato Grosso, o ABC perdeu qualquer chance de reagir quando Gilvan, o seu goleiro, foi expulso ao cometer pênalti e ser substituído por um atacante.

                    Misael

                    Matou o ABC.

                    Exemplo italiano

                    Na eliminação da Itália, aqui mesmo em Natal, a guilhotina não atingiu apenas o técnico Césare Prandelli. O presidente da Federação de Futebol pediu para sair. A presença decrépita de José Maria Marin apaga qualquer discurso de renovação.

                    Joel poliglota

                    Uma das vozes mais revoltosas contra a hipótese de técnico estrangeiro na seleção brasileira se insurgiu em Joel Santana. Considera um desrespeito à classe da qual ele é um dos ex-enganadores de maior conversa fiada. Joel não deveria se preocupar. É belíssimo o seu inglês de comercial de televisão. É outro bom de vestir o pijama.

                    Complexo novo

                    Antes era o Complexo de Vira-Latas, inventado por Nelson Rodrigues. Hoje o futebol brasileiro sofre de Complexo do Alemão, território feito para homem de coragem.

                    Placa para Samuel

                    Dia 16 de julho de 1975, o meia Samuel do ABC fez um dos mais belos gols da história do futebol potiguar. Foi o segundo dele na vitória de 2×0 sobre o Alecrim, 5.109 torcedores aplaudindo no Castelão (Machadão). Samuel driblou três beques em ziguezagues e deu toque por cobertura sobre o goleiro Erivan. As extintas Lojas Sertanejas lhe deram uma placa.

                    Times

                    ABC: Hélio Show; Sabará, Domício, Joel Copacabana e Anchieta; Maranhão, Danilo Menezes e Samuel; Antenor (Luciano), Alberi e Edvaldo Araújo. Alecrim: Erivan, Edilson (Ticão), Ivã Montenegro, Carlos e Carlindo; Nilson, Batista e João Daniel; Natã, Hilton e Betinho.

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