Zico e um sonho – Rubens Lemos

Maracanã das antigas, Maracanã das gerais. Maracanã dos humildes. Maracanã de Waldir Amaral narrando o jogo e João Saldanha nos comentários, Maracanã abocanhando desdentados aos milhares no formigueiro humano a desembocar dos trens da Central do Brasil. Maracanã, 180 mil pagantes. São 200 mil almas, incluída a comitiva de penetras penados.

É jogo de minha melhor seleção brasileira de todos os tempos contra um timaço estrangeiro, também escalado por mim, ao meu critério, do jeito que eu quero, afinal (ainda) tenho direitos. O direito de sonhar não me custa um centavo e é a mola da minha sustentação neste 3 de março de 2015, 62o aniversário do melhor jogador que assisti ao vivo, Zico, meu Pelé possível.

A partida vai começar e é atemporal. É uma comemoração onde se despreza o tempo. Relógios não entram e cada jogador está na idade de sua sagração, no auge de sua melhor criatividade e forma, todos estão perfeitos em homenagem a Zico.

O Brasil do técnico Rubens Lemos Filho vem com Taffarel; Djalma Santos, Carlos Alberto Torres (é o capitão), Orlando Peçanha e Nilton Santos; Gerson e Didi; Garrincha, Pelé, Zico e Romário. Nenhum volante, ninguém sem intimidade sensual com a bola. Marcação e pegada ficaram para os idiotas do 0x0 como mantra.

Do exterior, Yashin (Rússia), no gol, o feroz alemão Vogts na lateral-direita, o inglês Bobby Moore ao lado do soberano kaiser Franz Beckenbauer. Na lateral-esquerda, para correr atrás de Garrincha, poderia escalar o enlouquecido Kutsnetsov, do baile de 1958. Prefiro me vingar do italiano Cabrini, titular e um dos arquitetos da vitória da Azzurra sobre nossa constelação de 1982. Paul Breitner ficará no banco.

No meio, deslumbrante, Cruijff vai girar o campo inteiro ao lado de Maradona (liberado ao pó) e do baixinho Kopa, francês inventivo e ainda hoje inconformado com o show das semifinais da Copa da Suécia, Didi liderando o massacre de 5×2. Kopa era o Didi deles.

No ataque dos visitantes, um louco maravilhoso, driblador e entornado de uísque. O irlândes George Best, astro das fintas homéricas e principal jogador da Europa de 1968. O argentino Di Stéfano começa de titular sabendo que sairá no segundo tempo para o português Eusébio, a Pantera Negra. O húngaro Puskas, o Major Galopante, está na esquerda.

Para apitar o confronto, escalo, em homenagem ao Rio Grande do Norte, o lendário Luiz Meireles, o “Cobra Preta”, senhoria de autoridade nas refregas empoeiradas do velho Juvenal Lamartine. Cobra Preta terá tradutor simultâneo para saber o que os gringos estarão dizendo uns aos outros.

João Saldanha reclama a ausência de um protetor para o meio. Está enfurecido na cabine da Rádio Globo e me chama de irresponsável. “Com Zito ou Clodoaldo, mesmo o Piazza, esse time jogará mais solto, imagina o Kopa liberado e o Maradona partindo para cima de Carlos Alberto.”

Cobra Preta convoca os capitães e o Brasil atacará para o gol do lado direito de quem vê pela televisão, a trave que, nos tempos modernos, recebeu o lance definidor da vitória do Botafogo sobre o Flamengo em pelada na Arena desconectada da essência lúdica do esporte.

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Carlos Alberto (usando cabelo curto, como em 1970), cumprimenta Beckenbauer, entrega-lhe uma flâmula, recebe outra. O Brasil joga de uniforme sem marca, sem patrocínio e calções de cadarço, em homenagem a Gerson, a quem é dado o direito de fumar, quando quiser, durante os 90 minutos ou enquanto durar o devaneio.

O primeiro ataque é estrangeiro. Cruijff gira sobre a bola, deixa-a sozinha e escapa, atraindo Didi. Maradona domina e lança Di Stéfano. Carlos Alberto toma-lhe na categoria e entrega a Gerson que imediatamente vê Pelé em diagonal, vislumbrando Garrincha. Sai o lançamento imediato e Mané puxa Cabrini para perto da massa geraldina.

Primeiro drible. Cabrini senta. Segunda finta, Cabrini deita, terceiro toque é uma caneta. Mané balança para a esquerda e sai pela direita. Cruza, Pelé mata no peito. A bola gruda e desce redonda como as cervejas lavando peritônios pelos bares populares.

O Imponderável Crioulo ameaça o chute e engana Bobby Moore no balanço do tórax. Dialoga com Romário (só em sonho ), recebe de volta e vê Zico passando livre e perseguido por um atônito Vogts. Pelé acha o Galinho que toca de leve, por cima do boné de Yashin.

Comemora abraçado a Pelé e Romário. Garrincha põe a mão na cintura e balança a cabeça, em menosprezo ao sistema defensivo adversário. Diria, depois, que o Madureira dava muito mais trabalho. Com 1×0, o Brasil não descansa.

Didi recua demais. Faz lançamentos longos. O Príncipe Etíope de Rancho procura Di Stéfano, que o boicotara no Real Madrid para a vingança jamais consumada na vida real. Toca a bola entre as pernas do Hermano antipático e aplica-lhe um cavalheiresco drible da vaca. O povo explode e o presidente, que é Juscelino Kubitscheck, faz saudações emocionadas, naquele sorriso oriental.

Eusébio substitui Di Stéfano e Zidane ocupa o lugar do compatriota Kopa. Best é anulado por Nilton Santos e é trocado pelo alemão Littbarski, da geração de 1982, também posto no bolso imaginário da Enciclopédia do Futebol.

Eusébio e Puskas tabelam e o canhoto da Máquina Magiar de 1954, injustamente vice-campeã, desfere o bólido, no ângulo de Taffarel. O Maracanã – o velho Maracanã – silencia no 1×1, traumatizado pela virada uruguaia em 1950.

Sou vaiado quando ponho Barbosa, o goleiro negro humilhado pelo gol de Ghighia em lugar de Taffarel. Eusébio recebe de Maradona e devolve. Maradona passa por Djalma Santos e corta Carlos Alberto e Orlando Peçanha. Chuta da marca do pênalti. Barbosa encaixa, sem rebote e arremessa ao contra-ataque.

Depois de tragar seu sexto cigarro, Gerson enfia no capricho para Romário ziguezaguear entre Vogts, Beckenbauer e Cabrini. Derrubado. Pênalti. São 44 minutos. Pelé entrega a bola a Zico. “É tua Galo. É pelo aniversário e pelo jogo contra a França em 1986″.

Yashin cresce à frente de Zico, que veste a 9 porque a 10 é do Rei. Zico põe na marca frontal, toma distância e bate no canto direito, efeito, goleiro fora da foto. Vitória de Zico, 2×1. Em sonho, direito indestrutível de quem ama o futebol bailarino.

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    O resultado – Rubens Lemos

    Na íntegra, jogadores de ABC x América, noves fora o resultado, seriam reprovados em testes de fundamento futebolístico pelos autênticos técnicos, vivos estivessem, mestres de verdade. Jorginho e Wallace Costa anulariam os meio-campistas dos dois times, Cezimar Borges iria censurar canhotos genéricos. Alberi não gostaria de ser comparado a ninguém.

    Os caras simplesmente não fazem o básico. Nada menos elementar, um fantasma organiza a armação e o torcedor – não o vândalo -, vai de verdade para explodir em alguma cena de circo. É bumba. É boi.

    É ruim de doer quando a bola escapole da grande área e, imitação do drone pavoroso de guerra, cai no pé de um ou outro dromedário achuteirado. O passe é feio, não há ginga, ninguém lança longo e as transmissões do Esporte Interativo podem ser consideradas provocações de talibãs.

    Narrador, comentarista e repórter, coitados, obrigados pelo patrocínio, transmitem um clássico invisível e desnudado pelas verdadeiras imagens de toscos canelando a bola. Ser pago para trabalhar em emissora não significa ser pago para mentir ou, no máximo, tangenciar. Pelada horrível.

    Parabéns aos iludidos e fanáticos alvinegros e americanos. Sair de casa ao domingo, enfrentar engarrafamento, tormento para entrar, sair de um estádio como se prisioneiro fosse, façanha de amante. Todo amasiado é cego. O resultado foi: ABC 1×1 América. Primeiro tempo que durou três horas e o segundo, viagem a Pau dos Ferros. De van. Movida a gás de cozinha.

    Tetra

    Do time do ABC tetracampeão em 1973, cinco titulares morreram. Erivan; Sabará, Edson, Telino e Anchieta; Maranhão, Danilo Menezes e Alberi; Libânio, Jorge Demolidor e Moraes.

    Quem partiu

    O goleiro Erivan, o lateral Sabará, o volante Maranhão, o ponta-esquerda Moraes e, na última quinta-feira, o centroavante Jorge Demolidor, já não estão por aqui.

    Luta e nome correto

    A lutadora Ronda, loira que se transfigura em máquina furiosa no UFC, levou 14 segundos para esmigalhar sua combatente. O nome correto não é Ronda, é Scânia. Caminhão assombroso de bater. Para ela, não vigora a Lei Maria da Penha.

    Urgência para caloteiros

    Plenário da Câmara dos Deputados aprovou, por 292 votos a 26 e 3 abstenções, o regime de urgência para o Projeto de Lei 5201/13, que cria regras para os clubes de futebol renegociarem a dívida com o Fisco federal. Além da renegociação das dívidas em taxas menores, o projeto prevê o rebaixamento do clube caloteiro.

    Acelerar

    O objetivo do regime de urgência é acelerar a análise da proposta, mas ainda não há data prevista para sua votação em Plenário.O governo inicialmente orientou contra o pedido de urgência, mas acabou liberando a bancada após pressão dos próprios partidos da base governista.

    Clubes pequenos

    “Se todos os partidos da base têm posição clara de apoiamento a um projeto que é da Casa, não é do governo, é preciso mudar a orientação para liberar a bancada”, disse o líder do PTB, deputado Jovair Arantes (GO). Segundo ele, a proposta poderá reativar cerca de 750 clubes menores que hoje não funcionam devido à péssima situação financeira.

    Batalha

    Ao liberar o voto dos partidos governistas, o vice-líder do governo deputado Hugo Leal (Pros-RJ) ressaltou que o Executivo não é contra os clubes, mas foi surpreendido pelo pedido de urgência. “Não disse que o governo é contra o projeto. Estamos nos esforçando para que o texto seja de consenso. Apenas fomos surpreendidos por esta urgência. Não há cavalo de batalha”, disse.

    Como é

    Conhecido como Proforte ou Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, o projeto que renegocia a dívida dos clubes foi aprovado por uma comissão especial em maio do ano passado, na forma de um substitutivo do deputado Otavio Leite (PSDB-RJ).

    Anistia, não

    O texto descarta qualquer anistia ou perdão dos débitos dos clubes. Está prevista, no entanto, a unificação de todas as dívidas – com o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), com o Imposto de Renda, com o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e as referentes à Timemania – em um montante único.

    140 Milhões

    Os débitos dos times com o Banco Central também respeitarão essa regra, exceto no caso de dívidas questionadas na Justiça e com decisão, parcial, a favor do clube. “Não tem anistia nem remissão de dívida. O poder público vai receber cerca de R$ 140 milhões ao ano, incluídos todos os clubes”, afirmou Leite, na ocasião em que o texto foi aprovado pela comissão especial.

    Prazo de mãe

    Pelo texto, as dívidas das entidades esportivas serão parceladas em até 300 parcelas a serem corrigidas pela Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP). A dívida consolidada será dividida pelo número de prestações que forem indicadas pela entidade desportiva, não podendo cada prestação mensal ser inferior a R$ 1 mil.Para terem direito ao parcelamento das dívidas, o projeto exige que os times adotem critérios padronizados de demonstração contábeis.

    Potiguares x Gaúchos

    O América trouxe para o Campeonato Brasileiro de 1980, o falante e gaúcho reverberante técnico Chiquinho, que fizera sucesso no Coritiba (RS). Com ele, o balaio de sulistas: o goleiro César – que honrou sua camisa, aqui ficou, já é avô e é ótima figura -, o zagueiro Gilnei, o volante Jackson, os meias Fito Neves, pra lá de superado, Norival e Borjão, este famoso por ser irmão de Carpeggiani, titular na Copa de 1974 e o ponta-esquerda Tarso.

    Panelinhas

    Logo esquentaram as panelinhas, de dentro – excluída e de for a, privilegiada. O América fez péssima campanha, chegando a tomar 8 x 1 do Vitória da Bahia na Fonte Nova. O clima dos piores e até hoje, alguns pretos do time insinuam racismo.

    Há 35 anos

    No dia 2 de março de 1980, o América precisou da negritude e da individualidade do craque Marinho Apolônio para não perder em casa para a Desportiva Capixaba. Botelho fez 1×0 e Marinho empatou aos 29 do segundo tempo. Com 8.130 pagantes no Castelão. Botelho foi Bola de Prata da Placar em 1980. Impune quem deu as notas.

    Times

    América: César; Ivã Silva, Gilnei, Sérgio Poti e Norival; Jackson (Tarso), Borjão (Ari) e Marinho Apolônio; Ronaldinho, Paulo César Cascavel e Fito. Desportiva: Samuel; Fausto, Édson, Edmar e Vicente Paixão; Evandro, Adauto e Vicente Cruz (Cacildo); Botelho, Luís Cláudio (Zuza) e Dario.

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      Goleadas 10 x 0 Retrancas – Rubens Lemos

      Expulsem os retranqueiros, os enganadores, os seguradores de cadeados e operadores de máquina de calcular à beira do campo. Viva o gol e a alegria no clássico ABC x América. À véspera de um jogo sem qualquer estilista ou goleador acima da média e cujo astro é o veterano Cascata, muito mais por exceção que por excesso, prova-se na história dos sonhos reais, a beleza superar o medo em dois exemplos inesquecíveis.

      No dia 27 de março de 1988, o Castelão (Machadão) estava em tarde eufórica e nem o seu cimento mais antigo esperava a apoteose construída pelos homens vestidos de vermelho e treinados por um estrategista conhecido pelo pragmatismo e a cautela excessiva: Ferdinando Teixeira, o maior campeão da história boleira potiguar.

      O América tinha um time arrumado com especial requinte no meio-campo, que dava-se ao luxo de manter no banco o ainda craque Dedé de Dora. Baltasar, o ótimo paraibano Lauro, taticamente astuto e articulador e Baíca eram os titulares. Apenas três na organização.

      No ataque, Curió e Silva, veteranos e mantendo o brilho técnico de sair pelos atalhos e o novato Casquinha, jogador de Ceará-Mirim, de onde também viera o lateral-direito Baeca. O goleiro Eugênio, o seguro miolo de zaga Edson e Romildo e o lateral Soares completavam o time escalado para o clássico.

      Uma atmosfera enganosa dominava o ABC, vivendo de esperança e nenhum brilho além da lucidez do seu volante e armador Alciney. O camisa 10 Adalberto, já padecia de contusões e desânimo. Mas a diretoria sabia como mexer com a Frasqueira, sempre crédula. Trouxe o zagueiro Meri, o lateral-esquerdo Lima, o rodadíssimo meia-atacante Carlos Alberto Garcia, destaque do Londrina dez anos antes e juntara-os a uma farandola de mediocridades.

      Com todo o favoritismo rubro, a Frasqueira fez barulho e era maioria entre os 12.749 torcedores que pagaram ingresso no domingo à tarde. Tão logo o árbitro Charles Eliont autorizou o início da partida, meus olhos tristes acompanharam um dos maiores massacres futebolísticos do sepultado (à força), estádio de Lagoa Nova.

      O ABC não pegou na bola, salvo em raras tentativas de Alciney que paravam nas antecipações do zagueiro Romildo, futuro capitão alvinegro na década seguinte. Aos 18 minutos, em jogada pessoal, o arisco Baíca fez o lado direito do estádio tremer deslocando o goleiro Zezito. Aos 30 minutos, Baíca e Silva tabelaram desde o meio-campo e Silva apenas tocou para Casquinha fintar Zezito e devagar, tripudiando, ampliar para 2×0.

      O que parecia pressentimento, a vida mostrava em teatro de pavor. O ABC desceu vaiado e arrastando-se como prisioneiro a caminho do campo de concentração. Sem chances de reagir. O técnico Caiçara estático temia pelo ruir de sua fama regional de vencedor, comprovada no Nordeste inteiro.

      O América botou pilha nova e encerrou a humilhação. Aos 9 minutos, o goleiro Zezito falhou ao soltar bola em cobrança de escanteio e Baltasar deu um toquinho para escrever 3×0 no velho e feio placar do Castelão.

      O ABC debatia-se como condenado à injeção letal. Baíca tripudiou e ampliou para 4×0. A torcida do ABC – quase toda – havia ido embora. Fiquei até o fim. Vi, aos 36 minutos, o deslumbrante Silva, em jogo de corpo, fazer a zaga desabar e completar o 5×0 de epitáfio.

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      O América estava na Série A de verdade, a elite da elite do futebol brasileiro após gloriosa classificação em 1996, eliminando o favorito Náutico e o tradicional Londrina em quadrangular decisivo. Só se falava nos jogões em Natal. As torres de iluminação do Machadão foram retiradas para dar lugar a luzes modernas, grudadas à marquise e logo em seguida, o gramado seria trocado, com jogos do Estadual transferidos ao Juvenal Lamartine.

      No dia 8 de abril de 1997, convencional terça-feira, apenas 2.313 pagantes foram ao clássico. A intelectualidade chorava a morte de uma das melhores figuras de Natal: o jornalista e editor Carlos Lima, pai do médico e atual conselheiro do ABC, Sérgio Lima, o Sérgio Tareco.

      O América rebolava no campeonato e o ABC, brios feridos, lutava pela hegemonia perdida no ano anterior, quando entregou o campeonato em falhas bisonhas dos seus goleiros Márcio e Oscar. Por isso, surpreendeu a Frasqueira, tirando do rival seu titularíssimo Jorge Pinheiro, um senhor dominador de traves.

      O América não perdia um clássico há um ano e nove meses até o centroavante Claudinho enfiar a cabeça e matar o goleiro Márcio. O primeiro gol foi discretamente comemorado.

      Melhor em campo, o meia Silvério enxerga o atacante Henrique e lhe faz lançamento preciso. Henrique espera o xerife americano Gito e, de uma só vez, corta a ele e ao goleiro Márcio, ampliando para 2×0.

      O calor fez a torcida do ABC descer às arquibancadas intermediárias e a consumir o estoque do Bar 18, o Bar de César, concentração frasquerina. O América levava um baile e o regente era Silvério. Novo passe para Henrique, chute colocado na saída de Márcio: 3×0.

      O América entra em desespero e os jogadores xingam uns aos outros. Silvério resolve fazer o dele, mas é derrubado dentro da área. O volante Ivanildo – que morreria de abscesso cerebral em 2000 aos 24 anos, cobrou o pênalti deslocando Márcio. A roda girava e o América descia, em 1997, o túnel do fracasso.

      No segundo tempo, o minúsculo contingente alvinegro implorava 5×0 e a torcida do América pedia punição aos jogadores pela inércia. O ABC tocava a bola, ensaiava olé, imitava o América quando o América lhe impôs 5×0 em 1988.

      Cansado e exaltado, Silvério, agresteiro do município de Arês, é substituído pelo pequenino e elétrico Tecy. O elegante ponta de lança Fernando Cruz sai para o paraibano Mauro e ele acha Tecy pronto para o arremate sem defesa para Márcio: ABC 5×0 América. Ferdinando, o vitorioso de 1988, líder do acesso do América em 1996, perde o emprego com vários jogadores. O ABC se considera vingado e as testemunhas de uma tarde de trabalho celebram a glória de revide.

      Em dias nem tão remotos, era possível fazer o belo dobrar o feio em dois episódios fincados na história de ABC x América. Goleada 10 x 0 Retranca. Tempo que o tempo enterrou.

       

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        Estou com Dunga – Rubens Lemos

        A adesão é malandragem politiqueira apartada da coerência. Mas quando se trata de cabreiro, pode-se fazer o que quiser. Lembro do caso das Minas Gerais em que o chefe político abandonou o presidente que não foi, Tancredo Neves, quando ele perdeu a eleição de governador para Magalhães Pinto nos anos 1960.

        Em 1982, Tancredo candidato outra vez, semeando caminhos que travaram ao Palácio do Planalto, o sujeito, envelhecido, se aproxima e pede para declarar o voto na raposa, que disputava campanha apertada contra o ex-ministro Eliseu Resende. “Governador, expulsa esse traidor!”. Tancredo, sério: “Traidor não. Ele é profeta!”. Tancredo venceu e o líder interiorano arrumou sinecuras.

        Lembrei da esperteza adesista para deixar claro que não estou passando para o lado do técnico Dunga, da seleção brasileira. Mantenho firme minhas restrições às suas teses defensivistas e moldadas ao jogo baseado na força e na virulência. Ao seu jeito mesquinho e revanchista no convívio com as pessoas, especialmente com jornalista, tipo complicado de pessoa.

        Estou ao lado dele contra o enganador que comanda as categorias de base e planeja derrubá-lo, o seu imitador frustrado Alexandre Gallo, volante medíocre, técnico pior ainda.

        Com Gallo, o Brasil classificou-se para o Mundial Sub-20 na bacia das almas, em quarto lugar na fase final . Não fez um gol nos principais rivais. Contra o Uruguai(0x0), contra a Argentina, derrota de 2×0 e na despedida diante dos colombianos, surra de 3×0.

        Dunga, que joga feio, ficou assombrado com o roteiro pavoroso do time de Gallo e a sua petulância, sua conspiração ardilosa e levemente estimulada pela cumplicidade pela diretoria da CBF.

        Segundo Dunga, Gallo não formou nenhum jogador capaz de ser convocado ao time titular e prioriza apenas o tranco e o barranco, o resultado pífio sem consistência ou respeito à tradição.

        Quando Dunga desabafou, parecia incorporar Telê Santana ou Aimoré Moreira, treinadores que apreciavam o time com cinco atacando o tempo todo. Telê deu azar. Perdeu por teimosia, pela escalação de Serginho Chulapa de centroavante e por não ter enxergado que faltava volante do estilo do gaúcho Batista, Dunga com grife.

        Batista marcava sabendo jogar. Cometia alguns lançamentos. Contra a Itália, Cerezo aos frangalhos nervosos, teria sido o substituto ideal. Paulo Isidoro entraria no lugar de Chulapa e Sócrates ocuparia a função no meio da área, que tantas vezes desempenhou com classe, deslocando-se e abrindo espaços para Zico ou Tita, primeiro ponta-direita improvisado.

        Aimoré não teve do que reclamar. Sagrou-se bicampeão e sem Pelé. Sempre foi adepto do 4-2-4. Uma linha de quatro atacantes fechando a defesa adversária e recebendo lançamentos de Didi, algo que para Didi representava a dificuldade de apanhar lenço jogado no meio da rua.

        Dunga está querendo tomar conta de todas as divisões e Gallo chegou a cometer a petulância de marcar um seminário e não convidar o treinador principal. Dunga e seu temperamento que o planeta conheceu sobretudo nas Copas de 1994 e 1998, no peito e na atitude, entrou porta adentro e acabou com a festa. Dunga espera a atitude final da CBF.

        O Dunga dos carrinhos, das declarações desastradas, dos pendões censores, era bom jogador atrapalhado pela personalidade acima do intolerante. Dunga nunca foi mau caráter. Gallo, além de nunca ter jogado nada, é um boçal com resultados catastróficos, deformando o já tripudiado futebol brasileiro na ala mais importante, a do berço, a do aprendizado. Estou com Dunga. Na briga com Gallo. Se for de Gallo, também.

        Domingo é o que vale

        Os jogos do América contra o Palmeiras e do ABC contra o Potiguar apenas definiram vantagem. O que vale mesmo é o clássico do Frasqueirão. Vejo pequena, quase imperceptível vantagem do América. Por jogar ofensivamente. E por dispor, no elenco, de Cascata. O único prato com tempero no insosso futebol.

        Ingressos

        Os ingressos para o clássico começaram a ser vendidos ontem na loja ABC Store e em quatro pontos de venda, todos destinados exclusivamente para a torcida do ABC. São eles: Bilheteria do Frasqueirão Sterbom (Zona Norte), Sterbom (Midway), Colchões Ortobom (Natal Shopping).

        Torcida do América

        Os ingressos da torcida do América estão sendo vendidos desde a manhã a desta sexta-feira (27), na sede social do clube. Os valores dos ingressos para o setor de arquibancada custam R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia) e para as cadeiras, R$ 60,00 (inteira) e R$ 30,00 (meia).

        No estádio

        Todos os pontos de venda, com exceção da sede social do América e a bilheteria do Frasqueirão no dia do clássico, venderão unicamente ingressos para a torcida alvinegra. Lembrar que Sócio Mais Querido, Cessionários e Conselheiros adimplentes têm lugar garantido na partida. Para ter acesso ao jogo, basta apresentar a carteirinha nas catracas.

        Acesso

        O acesso do torcedor alvinegro será realizado nos portões B (Conselheiros, Cessionários, Sócios Black e torcedores de cadeira) e C (Sócios Ouro e torcedores de arquibancada). Já o acesso dos visitantes será feito exclusivamente pelo portão A.

        JL

        Bela ideia a do presidente da Federação de Futebol, José Vanildo, de brigar pela transformação do querido Estádio Juvenal Lamartine, patrimônio histórico e cultural, portanto, intocável, mas abandonado, em Centro de Treinamento da CBF.

        Chão encantado

        Aquele chão abençoado, por onde desfilaram tantos craques, haverá de fazer germinar novos talentos. Tomara que dê certo e é hora de todos os poderes e correntes se unirem a Zé Vanildo.

        ABC na preliminar

        No dia 27 de fevereiro de 1977, o ABC venceu o Atlético por 2×0 pela Taça Cidade do Natal. Preliminar de América x Força e Luz. Maranhão e Danilo Menezes fizeram os gols do alvinegro.

        Na principal

        O América deu uma goleada de 4×0 no Força e Luz, gols de Garcia, Alberi, Zeca e Cidão (contra), para 7.886 pagantes no Estádio Castelão (Machadão).

        Times

        América: Cícero; Ivã Silva (Valmir), Joel, Ivã Xavier e Zeca; Garcia, Washington e Alberi; Ronaldinho, Pedrada (Rogério) e Ivanildo Arara. Força e Luz: Cavalcânti; Cândido, Ângelo, Cidão, Babau, Babau e Vildo; Arandir, Mica e Alcir; Bebé, Djalma (Flávio) e Burunga.

        Demolidor

        Jorge Demolidor, artilheiro glorioso do ABC, morreu de doença sem verbete em compêndios médicos: abandono. Falta de atenção. Abutres choverão agora, inútil.

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          Pepe – Rubens Lemos

          Pepe brilhava de camisa 11 imaculada e seu arremate ultrapassava 122 quilômetros por hora. Bem mais forte que o do lateral Roberto Carlos, alegria da Jovem Guarda dos anos 1990/2000. Goleiros do interior de São Paulo cansaram de escolher o canto esquerdo quando Pepe cobrava pênaltis, menos por intuição. Apelavam ao instinto de sobrevivência.

          Sabiam que Pepe soltava a bomba com efeito no lado direito. Quem chegava a tocar a mão na bola, saía dolorido e nem impedia o gol. A cinemateca mostra vários lances quase cômicos dos torpedos pepeanos.

          O maior artilheiro da vida do Santos Futebol Clube chama-se Pepe. Fez 405 gols. Certo, Pelé, pela contagem oficial dos arquivistas, marcou 1.091 vezes com a camisa do alvinegro praiano. Pelé não conta, Pelé não vale, Pelé compunha a perfeição extraterrena. Pelé foi único e inimitável.

          Poucos sobrenomes recaem com tamanha perfeição sobre um homem quanto o de Pepe, Senhor Macia. Irreverente, piadista, bom escritor, é um personagem adorável do futebol brasileiro.

          Seu livro, Canhões de Alegria, é delicioso. Pepe, espantoso pela força dos seus chutes, é um caprichoso contador de histórias. Rola-se de rir da lerdeza do meia Mengálvio, reserva de Didi. Mengálvio, bem casado e vigiado, passeia numa segunda-feira pós-goleada santista em seu Fusca e se depara com escultural mulata.

          O flerte é insistente, seguido de aceno. Mengálvio estaciona e a jovem salta dentro do carro. “Vamos Mengálvio, estou com fome”. Era uma de suas irmãs que o Pluto, apelido do armador precioso, não reconhecera de tão desligado.

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          Pepe conquistou duas Copas do Mundo na reserva. E de Zagallo, que não jogava um terço dele. Pepe foi reserva na campanha para o primeiro título, na Suécia. O titular seria o driblador e relaxado Canhoteiro, versão de Garrincha na ponta-esquerda. Feola cortou Canhoteiro.

          Em 1958, o técnico Vicente Feola optou por deixar Pepe de fora e lançar o esquema com três homens no meio-campo. Zagallo voltava para cobrir os avanços de Nilton Santos e combater na intermediária, liberando o talento de Pelé aos 17 anos. Pepe assistiu Bellini levantar a taça sem tocar na bola uma vez sequer.

          Quatro anos depois, a vez era dele, de Pepe. Aimoré Moreira, o treinador, sempre foi mais liberal do que o irmão, Zezé, e gostava de futebol bonito, bailarino, para a frente e montou seu time com base em duas máquinas de jogar bola.

          Fixou base no Santos, que assombraria o mundo em outubro daquele ano humilhando o Benfica de Eusébio e sapecando-lhe 5×2 na final do Mundial de Clubes, e no Botafogo de Nilton Santos, Didi e a criança de formas tortas, Mané Garrincha.

          O ataque titular estava pronto e escalado: Garrincha, Coutinho, Pelé e Pepe. Coutinho foi inscrito com a camisa 9 e Pepe com a 11. No meio-campo, Zito e Didi. Era o amarelo pátrio ocupando a prática alvinegra de dois times inesquecíveis.

          Faltando 18 dias para a estreia contra o México, marcada para 30 de maio de 1962 no Estádio Sausalito, no Chile, o Brasil jogava seu penúltimo amistoso preparativo contra os vikings do País de Gales, conhecidos pela brutalidade de não distinguir o couro da pelota do tecido da canela de qualquer adversário.

          O Maracanã recebia 83.733 torcedores e vaiava Pelé, considerado pela mídia radical e burra, da qual não faziam parte João Saldanha, Armando Nogueira, Nelson Rodrigues e Oldemário Touguinhó, o padrinho da titularidade de Coutinho e Pepe.

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          Garrincha abriu 1×0 e Coutinho não comemorou o segundo gol, que fez aos 30 minutos de partida. O País de Gales diminuiu e Pelé, esplêndido, driblou dois beques e encobriu o goleiro Kelsey, também sua vítima na meia-lua sensacional das quartas de 1958.

          Pepe arrisca um drible no lateral e recebe uma pancada forte. Torção no joelho esquerdo. Estava fora do time titular. O homem que alegrava a concentração com suas piadas e a paz de espírito intocável, teve uma crise de choro no vestiário. O destino lhe pregava a segunda peça.

          Pepe foi ao Chile e fez companhia a Pelé e Coutinho nas cadeiras, ambos também contundidos. As substituições só seriam permitidas na Copa do Mundo de 1970. Zagallo, sortudo e aplicado, cumpriu as ordens de Aimoré e ajudou correndo atrás de marcadores e impondo sua indiscutível disciplina tática.

          Pepe engoliu em seco o sabor de vencer sem lutar as duas Copas. Devolveu em cruzamentos e passes medidos nas duas partidas contra o Benfica, ainda em 1962 e enxurrou a alma de alegria no bicampeonato.

          O Santos, em 1963, perdeu Pelé para o segundo jogo contra o Milan no Maracanã. Os italianos abriram 2×0. Comemoraram como se dançassem tarantellas diante de uma multidão em silêncio de fúria.

          Gramado encharcado, Pepe virou o jogo com dois disparos granadeiros que rasgaram a zaga milanesa como as bombas que explodiram a Ilha de Navarone no célebre filme sobre a Segunda Guerra e a luta no Mar Egeu.

          O Santos fez 4×2 e ganhou a terceira de 1×0, gol de Dalmo, batendo pênalti. Pepe era bicampeão mundial ou tetra, contados os dois canecos em 1958 e 1962.

          Ao completar 80 anos, Pepe é a lembrança viva de uma geração quase toda esquecida ou falecida. Pepe é biografia, referência e glória do futebol nacional.Com muito humor, obrigado. José, Seu Macia.

          Ainda Gilmar

          Estripa-se na mídia o atacante Gilmar, que saiu do ABC por decisão judicial. Revela-se o seu salário e compara-se com sua produção frágil.

          Culpa

          Gilmar tem culpa por não ter cumprido em campo o que dele se esperava. Passou mais tempo no chinelinho. Quanto a questões financeiras, Gilmar pediu o que achava que merecia e o clube concordou. Então, a culpa não é de Gilmar.

          Reputações

          O assassinato unilateral de reputações no esporte precisa ser estancado. Em qualquer circunstância, há a versão do acusado. Gilmar vai para o América e não seria nem preciso. Acertando o pé, Tiago Potiguar resolve.

          Kelvin

          O lateral-direito Kelvin chega da Desportiva (ES) para o ABC. Vem substituir Madson, agora hóspede do departamento medico do Vasco. Quando jogou, jogou bem. Renato, no Fluminense, outro bom nome revelado pelo ABC.

          Risco

          Coragem a do ABC em abrir o jogo de domingo.

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            Ao Oscar – Rubens Lemos

            Demorei para compreender. O gênio Falcão das quadras está disputando o prêmio de melhor jogador de futebol de salão do mundo em 2014. Falcão é dispensado de competições. É maior da história, é a própria modalidade ambulante e, no entanto, cumprirá o protocolo de ser votado com outros dois brasileiros – Gadeia e Rodrigo (cardápio feijão com arroz e cuscuz com ovo frito por cima) e mais sete estrangeiros.

            É gasto desnecessário com festividade e a Fifa é perdulária com dinheiro alheio. Ela arrecada, mas seus cofres cheiram azinhavre público. Falcão é superado em talento apenas por Messi. Mesmo aos 37 anos, é majestoso, imprevisível e malabarista, inventor de dribles e autor de gols verossímeis pela existência do videoteipe.

            No ano passado, sagrou-se campeão paulista e brasileiro e fez 43 gols em 52 jogos, média de juvenil recém promovido. Faz o que quer com a bola e é invencível. É instituição, não apenas o homem. Carne e osso formam o corpo criador de obras de arte maiores que séculos e opiniões banais.

            Falcão deveria ser no futebol de salão o que a Revista Placar fez com Pelé na Bola de Prata, entregue aos melhores de cada campeonato brasileiro. Entregou-lhe um exemplar em 1971 e decidiu que o maior de todos nunca mais seria parâmetro, comparado a nenhum outro mortal.

            Fosse justo o país berço de Falcão, ele teria direito ao gesto. Ninguém na história jogou melhor do que ele e ninguém será melhor no futuro. Vi Jacskon, o mineiro estupendo , Morruga, o gaúcho desconcertante, vi Choco, um carioca no gingado fantástico de pivô, vi Vânder, vi Leonel do Sumov do Ceará, vi Douglas, irresistível goleador.

            Respeito os mais experientes que exaltam os irmãos cariocas Aécio e Serginho. Pouco ou nada existe de imagem sobre os dois. Falcão, não. É um brinde renovado à vida sempre que entra, por um minuto qualquer, fintando caçadores inertes e criando maravilhas para olhos cansados.

            Ao Oscar, sim, ao Oscar, Falcão deveria concorrer. Ele é filme e ator principal. Falcão é de cinema. Faz roteiro e o resultado é nenhuma edição moderna e artificial. É natural e verdadeiro igual à verdade e o sopro de uma finta seca e afiada , clássico do seu repertório.

            Esquema policial

            Pelas próximas horas, com toda a liturgia e circunstância, os atores principais do ABC x América apresentarão seus esquemas e atrações para o jogo. Nenhum craque. É a polícia, para quem os homens de bem recorrem contra marginais mascarados de torcedores.

            Bem demais

            O técnico do ABC, Roberto Fonseca usou uma justificativa simplista após a pelada horrenda contra o Alecrim: “Se o time ganhou, foi bem.” A depender do resultado de domingo contra o América, será muita coragem repetir a frase.

            Saulo

            O ABC tem um jogador que está em condições de atuar em qualquer equipe regional : o goleiro. O resto é um bando orientado a fazer o cerco à defesa para não perder.

            Gilmar

            O furo de reportagem do narrador Marcos Lopes, divulgando a ida de Gilmar para o América, dita pelo próprio Gilmar em rede social, sinaliza ao menos um motivador para o jogo de domingo à boca da noite. Gilmar, cujo futebol ficou no final de 2013, depois apenas enrolou no ABC. Ainda assim, supera os seus substitutos submetidos à torcida.

            Mais arrumado e nada

            O fato de estar mais arrumado que o ABC não dá ao América o direito à soberba. É clássico e nos clássicos, a falta do talento é compensada pela raça. O danado é que raça não necessariamente significa retranca, cartão de visitas ou de recepção alvinegro.

            Leonardo

            Com cinco títulos estaduais e boas campanhas regionais, o ex-presidente Leonardo Arruda, do ABC, bem poderia se colocar na posição de outros homens inesquecíveis no clube, tipo Bira Rocha, Severo Câmara, José Nilson de Sá. Esquecer o bate-boca repetitivo e inócuo. A história lhe será justa. Seu pecado foi – um dia -, ter se aproximado de quem não lhe desejava por perto.

             Porsche e o juiz

            O juiz encarregado de sentenciar o bi ou milionário Eike Batista foi flagrado dirigindo um Porsche. De Eike Batista. O juiz declarou que apenas guardava o carro – e outros veículos luxuosos do réu – em casa. Se Eike Batista andasse de alternativo, o magistrado certamente não iria guiá-lo. Ou iria. Para evitar danos à prova. Mas Eike não anda de transporte coletivo. O coletivo de palhaço quer dizer todos nós.

            Tragédia e futebol

            Hoje é um dia terrível para a minha geração. Faz 31 anos que um insano jogou um ônibus sobre um bloco carnavalesco na subida da Avenida Rio Branco, na altura do Baldo, em prévia carnavalesca.

            Corpos na rua

            Morreram, na hora, 19 pessoas e a orquestra da Polícia Militar perdeu quase todos os seus integrantes. Ex-mascote do ABC, Dinarte Mariz, neto do ex-governador e então senador, foi uma das vítimas. Ele e uma das mais bonitas meninas da cidade à época, Simone Banhos Teixeira. O motorista fugiu, chegou a ser preso e liberado. Foi julgado e condenado à revelia, em 2009. Nunca mais apareceu.

            Sangue no asfalto

            Natal parou e, assombrado, me vi num espetáculo de terror. O sangue dos mortos e feridos grudado ao asfalto e sendo retirado a jato pelos bombeiros naquele cheiro acre, único e aterrador.

            ABC de luto

            O acidente aconteceu de madrugada e à tarde o ABC disputou sua última partida pela primeira fase do Campeonato Brasileiro da Série A de 1984 , em Aracaju (SE), diante do Confiança. Dirigentes tentaram adiar o jogo, mas a CBF não permitiu.

            Gol e homenagem

            O ABC venceu com gol do artilheiro Silva, aos 15 minutos do segundo tempo e nem comemorou a classificação para a etapa seguinte. Os jogadores deixaram o gramado do Estádio Batistão chorando e de mãos dadas, sob aplausos de 4.717 torcedores. Dedicaram o resultado aos mortos na tragédia.

            Escalações

            ABC: Rafael; Saraiva (Lúcio Sabiá), Joel, Sérgio Poti e Luís Antônio; Baltasar, Dedé de Dora e Marinho; Curió (Nicácio), Silva e Severinho. Técnico: Erandy Montenegro. Confiança: Luisinho; Esmerino (Édson), Fiscina, Nei e Fernando; Fanta, Clodivaldo e Celso; Gilson Lopes, Luís Carlos e Zé Raimundo (Albertino). Técnico: Givanildo Oliveira.

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              Estaduais – Rubens Lemos

              Pensei que fosse apenas eu. Muitas vezes reflito e questiono. Será que sou injusto ou o que vejo nos jogos do Campeonato do Rio Grande do Norte, apenas eu acho feio? Defendo o fim dos estaduais e a Copa Nordeste no primeiro semestre inteiro, fermentando velhas rivalidades e com divisões para separar bons de ruins. Quem é amador, não combina com profissionalismo.

              Acessei o portal da ESPN e li com atenção o texto cítrico do jornalista Mauro Cézar Pereira, que muitos criticam pela franqueza de suas opinião e por não passar banha em safadeza. Ele pensa parecido comigo. Não estou sozinho. Mauro Cézar é até mais duro, lâmina das palavras sangrando hipocrisias.

              Leiam: Tá chato. É chato. E conseguem piorar. Assim podemos resumir os campeonatos estaduais que se arrastam. Iremos com eles conviver até o dia 3 de maio. Serão 70 dias falando sobre jogos insossos, clássicos que não fazem jus ao rótulo e times tão fracos em campo que clubes tradicionais e sem elenco parecem, em determinados momentos, terem boas equipes. Um mundo de fantasia, de mentira.

              Para que servem hoje esses campeonatos que no passado agitavam as massas e mexiam com nossos corações? Serve para um Botafogo que recomeça do zero elevar sua auto-estima, mas sob o risco de se deixar enganar. Serve pra Alexandre Pato marcar gols (no plural mesmo) e “renascer” pela enésima vez. Serve para o Vasco manter a freguesia do Fluminense. Serve para Robinho se destacar.

              Mas e daí? Sim, e daí? Não, senhoras e senhores, este não é um post em defesa do fim dos campeonatos estaduais. Digamos que aqui iremos clamar pela sua completa reformulação e enxugamento. De novo. Pois isso se faz necessário. Menor número de times, jogos com relevância, um filtro mais eficiente que eleve a qualidade técnica, um certame que volte a agitar o povo. E que faça sentido.

              Como além desses 70 dias seguiremos aturando o aspecto político, a cartolagem, os interesses diversos que ficam acima do futebol, evidentemente os estaduais não irão se modificar. E seguem nos obrigando a repetir o que é dito há anos: não se iluda, não se deixe enganar. Vitórias nesses campeonatos importam muito menos do que os mais ingênuos imaginam. Não sejamos ingênuos. É isso que eles querem.

              É de profissionais assim, comprometidos apenas com seu veículo de comunicação e o seu público, que o futebol necessita e deve priorizar caso queira imprimir revolução distante e imposta pelos 7×1 da Alemanha.

               

              Sacanagem com João Paulo

              Há situações constrangedoras na vida. O atacante João Paulo pouco fez no ABC. É um jogador que peca na pontaria ao finalizar. Mas merecia o mínimo de respeito. Qualquer cidadão merece.

              Desabafo

              Daí, seu desabafo em rede social sobre o descaso com que vinha sendo tratado. Nem sim, nem não sobre sua renovação de contrato. João Paulo demonstrou dignidade e chutou o balde, saiu. Bastava tê-lo chamado e dito: Até logo, João Paulo, você não nos serve mais.

              Impasse e omissão

              No futebol e na vida, muita gente esquece que desprezar trabalhador é pisotear sua autoestima. O tempo que um dia gira para cima, despenca. Há inúmeros exemplos do carrossel que é nossa trajetória nesse plano.

              Mais um volante

              Sem perseguição. O ABC traz Neto Coruja, do Vitória, mais um volante, quando sua necessidade é de um meia criativo e de um atacante goleador. O ABC tem mais volantes que o Exército Talibã.

              No Frasqueirão

              Nada mais lógico, nada mais correto, do que o ABC x América no Estádio Frasqueirão. A Arena das Dunas, agora tratada como moeda de troca ou venda para capitalizar empreiteira encrencada, caminha para um dos maiores micos da história potiguar.

              Números do América

              Com a vitória de ontem sobre o Globo, o América emplacou o melhor início de temporada dos últimos dez anos. Em sete jogos, o time conquistou cinco vitórias (Potiguar, Serrano, Corintians, Confiança e Globo), um empate (Baraúnas) e sofreu apenas uma derrota (Vitória). Aproveitamento de 76,19%.

              Campanhas mais próximas

              As campanhas mais próximas foram nas temporadas de 2006, 2007 e 2011, todas com cinco vitórias e duas derrotas. Aproveitamento de 71,42%.

              Ernesto, o foclórico

              O ABC disputou seu ultimo Campeonato Nacional tido como série A, mais de araque, em 1985. Série A de verdade pela última vez foi em 1984, quando vieram Santos e Fluminense. No ano seguinte, a CBF dividiu os grandes em dois grupos de 20 e os medianos em uma espécie de Série B camuflada.

              Péssima campanha

              O ABC desmontou o time bicampeão de 1983 e 84 e trouxe uma penca de jogadores rodados. Foram mais de 30 sem que se formasse o básico de 11 por duas partidas seguintes. Quem chamou a atenção pelas atitudes esdrúxulas foi o técnico gaucho Ernesto Guedes, com passagem pelo Internacional de Porto Alegre (RS). Chateado com uma crítica de um comentarista da Rádio Globo, pediu demissão ao vivo, durante a resenha esportiva, sem entusiasmar a Frasqueira. Queria mesmo era pretexto.

              Loucura

              Nessa ciranda maluca, o ABC começou o campeonato com Ferdinando Teixeira de técnico, depois assumiu Ernesto Guedes e o categórico Sebastião Leônidas encerrou a infeliz jornada que teve, entre tantos fracassos, a derrota de 2×1 para o CSA (AL) no Rei Pelé, que completa 30 anos hoje.

              Gols

              O ABC abriu o placar com gol do excelente centroavante Arildo, raro a se salvar da hecatombe. O CSA empatou e virou com o atacante Luisão, versão piorada do tanque Serginho Chulapa, contratado pela família de PC Faria, tesoureiro do ex-presidente Fernando Collor de Mello e morto em 1996 em misterioso assassinato ou suicídio, até hoje nem cigana descobriu. Luizão veio do Bangu.

              Times

              ABC: Ajala; Manu, Luís Oliveira, Zé Adilson e Vassil; Baltasar, Arié e Valério; Carlinhos Mocotó, Jorge Demolidor (Leandro) e Arildo. Técnico: Ernesto Guedes. CSA: Adeildo; Agnaldo, Café, Edvaldo e Zezinho; Carlinhos Marechal (Édson Silva), Ednaldo e Josenílton; Jacozinho, Luizão e Zé Carlos. Técnico: Waldemar Carabina.

              Coincidências

              Waldemar Carabina havia sido técnico alvinegro e campeão em 1978. Jacozinho, o foclórico ponta-direita, jogaria no ABC em 1989. O zagueiro Café e o lateral e meia Carlinhos Marechal fariam parte do elenco do ABC, campeão potiguar de 1993.

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                Terror – Rubens Lemos

                O melhor dia para o futebol é o sábado. Se o jogo for à tarde, chocolate no pudim. Tira-se o domingo para o descanso, a cura da ressaca e a resenha da partida. O domingo foi criado para a reclusão do corpo e da alma. Olhar pela janela é um exercício de tortura depressiva. Vazio existencial. O sábado é a liberdade abrindo alas e asas.

                O verbo do texto, de verdade, deveria ter sido escrito no passado, mantida a opinião sobre o domingo sempre triste. Ver futebol no Brasil hoje é castigo seja no Carnaval ou na Quaresma e o que aconteceu no festival de caneladas de ABC e Alecrim pode ser incluído no rol das perversidades decretadas pela incompetência.

                Vi muitos jogos preliminares na minha infância e na adolescência. Não queira saber o que era assistir Ferroviário, Riachuelo, Atlético, Força e Luz, Emserv, Mauá, Racing, Palmeiras, Vênus da Cidade da Esperança, Monte Castelo, Estrela do Mar e outras constelações de Enxaquecas League. Hoje, aqueles lutadores, alguns estivadores e outros frequentadores de distritos policiais na condição de hóspedes jogariam fazendo pose.

                O pior – para mim – no ABC 1×0 Alecrim, gol de Kaike em jogada de sorte ou azar da lógica, pois o 0x0 seria a punição correta para os dois timecos e o chicote injusto para os coitados que saíram de casa para chegar ao Estádio Nazarenão, em Goianinha, é que paguei 4 reais para ver a desgraça pela televisão no pacote do Esporte Interativo.

                Por vontade própria, jamais sacaria um centavo. Mas é preciso, por dever profissional e, desde que pisei pela primeira vez numa redação, a 6 de abril de 1988, nunca recebi qualquer reclamação por deslize ou relaxamento no cumprimento do dever.

                As câmeras do computador portátil, durante o intervalo após o horrendo primeiro tempo, passearam pelas arquibancadas. As melhores imagens da jornada. As menos ruins. Nostálgico e compulsivo, puxei fios e fiz ligação direta com o velho Estádio Juvenal Lamartine, sua arquibancadinha desconfortável.

                Futebol de verdade é feito para os simples. Os que encaram qualquer parada. A arquibancada do Nazarenão estava folgada, com notáveis clarões e notei sujeitos de clareira na cabeça. Calculei mentalmente e presumi gente na faixa dos 60 anos. Gente que viu jogões entre ABC e Alecrim no JL e depois no assassinado Castelão (Machadão).

                Aqueles caras testemunharam duelos de Alberi e Debinha contra Pedrinho e Valdomiro no campeonato de 1968, ganho pelo Alecrim, sem vitórias sobre o alvinegro. Era o primeiro ano de Alberi por aqui. Aqueles caras viram Alberi duelar com Vasconcelos em 1971, no bicampeonato do alvinegro, já sem Marinho Chagas, vendido ao Náutico e substituído pelo ótimo Anchieta, bom de bola e de conduta.

                Os coroas também estavam na Lagoa Nova, no palco gigante e ondulado na arquitetura, quando Alberi, aos 34 anos, superou o ABC na conquista da Taça Cidade do Natal de 1979 do Alecrim, alvinegro com Baltasar, Danilo Menezes e Noé Macunaíma na meiúca. Coroas que não perderam os 6×1 de uma sexta-feira à noite, ABC massacrando o Alecrim de Odilon, pelos pés de frevo em trio de Dedé de Dora, Marinho Apolônio e Silva em 1983.

                Entediado e – pior – horrorizado com o que vi, fui tomado de vontade súbita, o incansável ímpeto do repórter que muitos pensam morto. Saber dos mais velhos o que eles pensariam do ontem e do hoje. Do quanto ganhavam os bambas e os capengas.

                O jogo entre ABC x Alecrim nada mais foi do que a repetição do que se vê em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Paraná e no Amapá. A falência fraudulenta de um esporte que simbolizava o país. Ninguém dá um passe de cinco metros nem domina uma bola sozinho. O ABC é de fazer pena e tem um técnico de ideologias patéticas. O Alecrim não existe. É caricatura do passado glorioso, ainda que nas derrotas.

                Custa entender como alguém paga ingresso para ver uma pelada horrenda como a de sábado. Um crime de lesa-futebol, de inversão dos princípios básicos de um jogo parido para encantar. Feio. Triste. E eu paguei. Para não ver.

                Arena das Dunas

                O tempo também arrasa o inexpugnável. Aquele que humilha contribuinte com Estado acocorado.

                América x Globo

                Espero não ter que escrever sobre América x Globo no tom de ABC x Alecrim.

                Rogério

                O deputado federal Rogério Marinho é sujeito sensato, inteligente, embora sem simpatia. Direito dele. Simpatia não define caráter. Só não pode criticar oposição no ABC. Logo ele, dos mais ferozes críticos do Governo do PT. É incoerente.

                Judas

                A entrevista de Rogério na Rádio Cabugi (Globo) foi clara resposta ao ex-presidente Judas Tadeu Gurgel, que destilou veneno contra a atual diretoria. Gosto (muito) de Judas, mas ele não pode criticar. Quando alguém do ABC chamava, ele se apresentava, obediente. Aí, morre a credibilidade do discurso.

                Talvanes

                Elegante, Talvanes é pouco citado no grupo seleto dos meias clássicos do Rio Grande do Norte. Jogava demais. Foi dos maiores. Driblava curto, desvencilhava-se do marcador sem que este pudesse atingi-lo na pancada.

                Talvanes contra o América

                Hoje faz 42 anos que Talvanes estava em campo vestindo a camisa do Alecrim contra o América, que venceu o clássico por 2×1. Taça Cidade do Natal de 1973. O ponta-esquerda Gilson Porto, que veio do Internacional (RS), fez os dois do América, de virada. O primeiro, do Verdão, foi marcado por César, para 5.113 torcedores pagando ingresso no EstádioCastelão (Machadão). Arbitragem de Guaraci Augusto Picado.

                Times

                América: Sombra; Odimar, Cláudio, Djalma e Cosme; Nunes (Chico), Washington (Romualdo) e Gonçalves; Almir, Bagadão e Gilson Porto. Alecrim: Franz; Edson, Valdo, Vavá e Brito; Varela, Talvanes e Maia (Erivã); Tiquinho, César e Wilsinho.

                Duelos

                Travou duelos marcantes no Estádio JL com Arandir, do ABC e Pedrinho, cracaço do Alecrim. Decisivo na conquista do improvável título de 1969, Talvanes transferiu a gene do craque.

                O filho

                Natal viu nascer, no final dos anos 1980, um pivô deslumbrante no futebol de salão. Ricardo Lima driblava no espaço curto, transformava brechas em latifúndios no Palácio dos Esportes. Não exagero quando digo que meus olhos viram um gênio jogar. Gênio efêmero que parou cedo e tornou-se competente técnico. Era Ricardo, filho de Talvanes.

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                  Teorias e teoremas – Rubens Lemos Filho

                  O primeiro gol do Corinthians na vitória de 2×0 sobre o São Paulo pela Copa Libertadores tirou a semana da pasmaceira recorrente do futebol. Serviu também para mostrar que a imprensa ajuda a enterrar o pouco restante da nossa matéria-prima em lampejos.

                  Encheram de teses matemáticas o lance primoroso. Simples. Jogada de pelada de rua, de campinho de bairro, de beira de praia. Blogueiros e colunistas priorizaram o “banho tático” do técnico Tite sobre Muricy Ramalho e enalteceram o esquema parecido com algoritmo decifrado pelos espiões de chapéu Borsalino em tempos da Guerra Fria.

                  Um deles, presunçoso, culpa da idade, escreveu no seu site que o Corinthians venceu por conta de uma fórmula inventada pelo técnico do Real Madrid, Carlo Ancelotti, o misterioso 4-1-4-1, que teria asfixiado o toque de bola no São Paulo como se o São Paulo exibisse algum toque de bola nos dias em que Paulo Henrique Ganso entra em sono comatoso.

                  Zezé Moreira ou Vicente Feola chamando Garrincha, ele depois de uma noitada de gemidos e roucos sussurros com Elza Soares e impondo-lhe a indecorosa numerologia. Garrincha, presumo, entenderia em campo driblando quatro adversários no primeiro minuto, um no segundo,mais quatro no terceiro e outro no quarto minuto, para em seguida cruzar a Vavá, Quarentinha ou Coutinho, escolha você a sobremesa de centroavante.

                  Teorias e teoremas estão ajudando a sacrificar o paupérrimo futebol brasileiro que nem a Rede Globo aguenta mais transmitir ao vivo. Nem otário profissional aceitaria perder uma noite de quarta-feira amena vendo o Barra Mansa disputar horrendo clássico dos times pequenos cariocas contra o Vasco da Gama e entregar o empate numa jogada de pura sorte do extinto heroico português.

                  Corinthians e São Paulo fizeram uma partida elétrica , a melhor dos últimos tempos, o que praticamente nada quer dizer por aqui. E não sou pessimista, vade. O melhor em campo foi Jádson, sonho dos olhos miúdos dos milionários chineses, oferecendo milhões de euros para levá-lo embora. A história ensina sobre a paciência, não a vocação masoquista dos orientais.

                  Pois o baixinho Jádson fez um lançamento perfeito para o primeiro gol, um toque de chapa, macio, de leve, do volante Elias. Sabe o que é bater de chapa, menino? É desviar com a parte interna do pé, o lado de dentro, artifício de malandro, astúcia de “pai-veio”, de artista que nasce com a bola no berço.

                  Elias fez um gol de categoria, concluindo primorosa construção. Ele recebeu um instintivo toque do lado direito, enganou o marcador reinventando o corta-luz(você escuta alguém falar em corta-luz, o drible em que o caboclo está de costas, passa o pé por cima da bola e gira rápido iludindo o perseguidor?), encontrou Danilo que achou Jádson.

                  No rasgo de clarividência, o objeto de consumo da Rua 25 de Março sequer esperou para dominar (não sabe fazer embaixada) e bateu à visão antiga , encontrando Elias de frente para o ancestral goleiro Rogério Ceni. Então, o golpe mortífero e o golaço. Pronto.

                  O Corinthians mereceu golear o São Paulo. O Corinthians não fez jogadas teatrais fora o gol de Elias. Mas o gol de Elias fez renascer um pouquinho daquilo que víamos sem sobressaltos a cada 15 minutos de rachas entre veteranos barrigudos nos velhos jogos de casados contra solteiros apostando engradados de cerveja.

                  Deixa o banho tático pra lá. Bom era quando dizíamos que o time deu um show de bola, um olé, um vareio no outro, que Rivelino debochou em drible tão irresistível que o coitado do vigilante caiu de bunda. Os burocratas de notebook e estatísticas jamais entenderão que a raiz lírica do futebol sempre esteve no prazer. É igual ao sexo. Bem feito.

                  Medo

                  O técnico do ABC, Roberto Fonseca, treinou o time com apenas um atacante, é, um só homem na frente para o jogo contra o Alecrim. E alegou que Clebinho joga na frente Clebinho foi o melhor meia-direita da Série C. E meia-direita, ao menos no tempo da bola jogada sem medo era assim, fazia parte do meio-campo. Encostava no centroavante.

                  Tire suas conclusões

                  Qualquer que seja o resultado, ainda que o ABC dê uma goleada, está entrando num caminho perigoso. Poucas vezes, desde Paulo Porto e Ademir Fonseca, se jogou com tanto receio. O ABC é clube de massa, não nasceu para ficar na defensiva.

                  Há tempo

                  Ainda há tempo para Roberto Fonseca escalar até um poste de atacante junto a Fabinho Alves e tirar um dos soldados de sua tropa de volantes.

                  América x Globo

                  Tudo bem, o Globo está numa boa fase, mas não passa das divisas. Não ganha nada contra times de fora do Rio Grande do Norte. Contra o Bahia, perdeu por infantilidade de berçário. Chamar o jogo de amanhã de clássico é menosprezar a tradição do América, em qualquer circunstância, muito maior e mais forte. Mesmo que dê Globo.

                  Sem menosprezo

                  Nenhum menosprezo ao Globo, que tem no seu comando técnico o ex-jogador Leandro Sena, uma uva entre as raposas do meio do futebol, sujeito competente, silencioso e correto. O Globo é que tem de provar que é grande não só nos factoides e na ligeira impressão de ser mero laboratório de jogador para ser vendido.

                  Há 39 anos

                  Esqueçam o resultado, alvinegros e americanos e detenham-se no público desse jogo, que amanhã completa 39 anos e valeu vaga na decisão da Taça Cidade do Natal de 1976. ABC 1×0 América, gol de Zé Carlos Olímpico, monstro de jogar bola. Nada menos que 42.526 pessoas pagaram ingresso para se espremer no Castelão (Machadão), quase 15% da população de Natal. Nunca mais outra vez.

                  Times

                  ABC: Hélio Show; Fidélis, Pradera, Vágner e Vuca; Draílton, Danilo Menezes (Joel Maneca) e Zé Carlos Henrique; Noé Silva, Zé Carlos Olímpico e Noé Macunaíma (Raimundinho). América: Sombra; Ivã Silva (Cosme), Queiróz, Alberto e Olímpio; Zeca, Garcia (Paúra) e Alberi; Pedrada, Hélcio Jacaré e Ivanildo Arara. Técnico do ABC: João Avelino. Técnico do América: Sebastião Leônidas.

                  Seleção do jogo

                  As emissoras de rádio escolheram a seleção do clássico: Hélio Show; Fidélis, Pradera, Vágner e Olímpio; Drailton, Garcia e Danilo Menezes; Noé Silva, Zé Carlos Olímpico e Ivanildo Arara. Técnico: João Avelino.

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                    Anderson, replay e nocaute – Rubens Lemos

                    É fácil colocar minha verdade diante do computador e longe de um soco do mito arruinado. Anderson Silva repete na queda a versão original do canadense Ben Johnson. Vou ter que resumir a história. A moçada desconhece Ben Johnson, afinal o tempo é impiedoso. Apaga, consome, fulmina e crema qualquer oponente.

                    Era uma vez Ben Johnson, velocista ambicioso. Decidiu superar o chatíssimo norte-americano Carl Lewis na briga pelo topo dos 100 metros raros do atletismo, a corrida mais rápida da modalidade. Em 1988, ano em que comecei na profissão também fulminante, Johnson assombrou o mundo.

                    Nas Olimpíadas de Seul, disparou como que impulsionado por molas atômicas e bateu o recorde mundial inimaginável para um ser humano: 9 segundos e 79 centésimos. “É uma bala de fuzil”, gritou o vizinho de rua, pela madrugada, fuso horário invertido.

                    Johnson perdeu a medalha de ouro. Havia consumido substâncias proibidas, confessou e caiu no ostracismo. Recebeu solidariedade de Diego Maradona, gênio argentino que o convidou para ser seu personal trainer na década de 1990. Maradona que igualmente reluzia auxiliado pela química.

                    Anderson Silva, o porrador, era apenas um garoto que sonhava jogar futebol no Corinthians, foi reprovado no teste (Felipão o escalaria de 8o volante) e acabou substituindo um faltoso no treino da equipe de boxe.

                    Acendia a estrela. Ganhou o octógono e de lutador passou a vedete, derrubando seus adversários sem esquecer de humilhá-los em comemorações pedantes. Gostava de vê-los desmaiar e abria os braços pedindo pancada, para depois esmagá-los.

                    No dia 7 de julho de 2013, ao vivo e para o mundo inteiro, Anderson Silva levou uma surra desmoralizante do norte-americano Chris Weidman. Apanhou por todos os que sofreram em suas mãos. Ali, esportivamente, era o seu fim.

                    O Spider, aranha de comerciais de TV, de participação repercutida em novelas e filmes, estava acabado, mas entre os sete pecados, há dois irmãos gêmeos xifópagos :cobiça e gula . Anderson Silva decidiu prosseguir e sai pelo quintal da fama. O doping é apenas o detalhe. O tempo é o professor, é a roda que gira. É o nocaute.

                     

                    Goianinha

                    O Nazarenão é o salvador do futebol de Natal. Depois de acolher o América por um bom tempo, receberá o clássico Alecrim x ABC no domingo. O Olimpo da Arena das Dunas sairia muito caro para o mandante que é o Verdão.

                    Dramático

                    De repente, o jogo banal ganha ares de drama. O técnico Roberto Fonseca nem de longe agrada à torcida alvinegra. É um retranqueiro institucionalizado. Ganhar é a última instância e garantir o emprego é preciso tanto quanto viver na navegação capenga do comandante do ABC.

                    Processo contra o América

                    Um homem entrou na Justiça contra o América por ter perdido dois dedos durante um treino no ano passado, ao qual compareceu para protestar. Lembro da confusão no Centro de Treinamento em Parnamirim durante o período de iminente rebaixamento para a Série C afinal consumado.

                    Fogos infelizes

                    Ninguém deve ser sacrificado por mutilação causada por fogos de artifício. Presenciei um infeliz perder quatro dedos de uma das mãos e os políticos continuaram sua passeata festiva enquanto ele se debatia aguardando socorro para o hospital.

                    Clubes e organizadas

                    Acho que treino é lugar de trabalho e não deve ser aberto a torcedor muito menos com fogos de artifício. Foram embora os tempos românticos. Como também acho que clube não deve ter qualquer relação além do prudencial com torcida organizada.

                    Promiscuidade

                    Por exemplo: não deve doar ingresso ou ajudar no financiamento de viagem. Não estou declarando que o América faz desse jeito, mas é a cultura geral. Cria promiscuidade e abre um precedente que termina no problema que cai no colo do América sem que tenha tido culpa. Na minha opinião.

                    Meio-campo

                    É preciso saber o que houve com Cascata no começo da carreira. Com o futebol que tem, ainda hoje, imagine com 21, 22 anos o que não fazia. Contra o Vitória, enquanto teve fôlego, botou no bolso o camisa 10 rubro-negro, o rodado Jorge Wagner, com passagem por clubes tradicionais do Brasil.

                    Pato doze vezes Romário

                    Romário no auge da forma vale menos que Alexandre Pato, creia. Pode parecer mentira, mas a comparação surreal entre os maiores salários do futebol brasileiro em 20 anos mostra como o mercado local valoriza, e muito, os pernas de pau de hoje em dia.

                    Como era

                    Em 1995, o Baixinho tinha o maior salário do futebol no Brasil. Ganhava R$ 62,5 mil por mês na época. Isso depois de ser eleito o melhor do mundo um ano antes, quando carregou a seleção na conquista do tetra nos Estados Unidos. Túlio, fanfarrão e campeão nacional naquela temporada, e Edmundo, também em grande fase, completavam o pódio.

                    Como está

                    Atualmente, o maior salário do futebol brasileiro é o de Alexandre Pato, emprestado ao São Paulo pelo Corinthians. O atacante fatura R$ 800 mil, valor semelhante ao de Fred, no Fluminense. Reserva no time de Muricy Ramalho, Caso não se levasse em conta em conta a inflação dos últimos 20 anos e as oscilações da moeda, Pato ganharia 12 vezes mais do que Romário em 1995.

                    Absurdo

                    Um mês do são-paulino equivaleria a um ano de Romário, que mesmo com os valores corrigidos pela inflação continuaria em desvantagem: o herói do tetra passaria para cerca de R$ 320 mil. O salário mínimo aplicado a partir de 1º de maio de 1995 era de R$ 100,00 (Lei 9.032/1995).

                    Números

                    Em 1º de janeiro de 2015 o mínimo passou a valer R$ 788,00 (Decreto 8.381/2014). O salário mínimo bruto de 2015 é quase oito vezes maior que o mínimo de 1995. Seguindo essa matemática simples, caso o salário de Romário também fosse valorizado em 7,88 vezes como o salário mínimo, chegaria ao valor de R$ 512.200,00, ainda bem inferior aos R$ 800 mil recebidos por Pato.

                    Pato vezes 14

                    Mais do que isso, um mês salário bruto de Pato também seria suficiente para bancar, com bastante folga, os 14 jogadores mais bem pagos de 20 anos atrás, incluindo nomes como Djalminha, Marcelinho, Renato Gaúcho e Zetti.

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