Autismo: Mais comum do que se imagina, transtorno ainda é pouco conhecido
Nos últimos anos, os progressos tecnológicos e científicos influenciaram muito nos avanços de estudos sobre diversas doenças, síndromes e transtornos mentais, facilitando os diagnósticos, trazendo bons resultados em tratamentos e desvendando mistérios a cerca das causas de cada uma delas. Mas apesar de se tornarem mais conhecidas pela sociedade, ainda há aquelas sobre as quais pouco se sabe, como por exemplo, o autismo.
O autismo é uma alteração no desenvolvimento neurobiológico, que acomete cerca de um em cada 166 indivíduos nos Estados Unidos, tornando-se mais comum do que o câncer infantil, a diabetes e a AIDS reunidos. Denominado como transtorno global do desenvolvimento, pouco se sabe sobre o que origina esse transtorno, mas muitos especialistas afirmam que a predisposição genética aliada a fatores ambientais, pode favorecer o aparecimento dos sintomas.
É chamado de transtorno global por provocar uma desordem que afeta diversas áreas do desenvolvimento do indivíduo, sendo uma patologia diferente do retardo mental ou da lesão cerebral, embora algumas crianças com autismo também tenham essas doenças, e não se tratando apenas de um fator isolado, na parte física ou mental. O autismo pode comprometer, além da parte física, a comunicação e a imaginação, apresentando o seu portador, inabilidade para interagir socialmente, dificuldade no domínio da linguagem para comunicar-se ou lidar com jogos simbólicos e um padrão de comportamento restritivo e repetitivo. Em contrapartida, além de poder provocar um retardo mental severo, a pessoa autista pode apresentar habilidades acima do normal, tornando-se, de certa forma, superdotado. Toda essa diferenciação na manifestação do autismo acaba por tornar esse transtorno, objeto cada vez mais complexo de estudos.
De acordo com a psiquiatra Maria Madalena Alves, o autismo requer uma atenção especial, e precisa ser cada vez mais conhecido pela sociedade. “O autismo é um transtorno invasivo que altera de várias formas o desenvolvimento do indivíduo. Não é uma condição única, trata-se de um espectro muito grande, que pode vir junto de muitas outras doenças como epilepsia, Síndrome de Down, esquizofrenia, deficiência mental, distúrbio de comportamento, depressão, enfim, muitas outras formas. No início, o autista era visto apenas como alguém que não sabia se comunicar, mas hoje em dia, sabemos que o autismo vai muito além. Eles não percebem a linguagem não verbal e, por isso, se relacionam mal. Muitas vezes tem crise de nervosismo e birras, mas os autistas têm um modo especial de se comunicar e é preciso entendê-las, mostrá-las ao mundo e ensinar a sociedade a conviver com elas, pois à medida que o autismo for se tornando conhecido, mais diagnósticos serão realizados e os tratamentos também”, afirma a psiquiatra.
Apesar de as causas do autismo serem desconhecidas, estudos comprovam que é mais comum em meninos, sendo uma proporção de 3 para um diagnóstico em meninas. Além disso, em gêmeos idênticos, se um deles apresentar o autismo, a chance de o outro desenvolvê-lo pode chegar a 98%. Com essas comprovações, muitos especialistas atribuem as causas do autismo a componentes genéticos e defendem a teoria de que existe uma predisposição contida em um certo gene que ao interagir com um fator ambiental não conhecido provoca alterações ao sistema imunológico, no sistema sensorial dos nervos, o cérebro e, muitas vezes, no trato gastrointestinal.
Os sintomas do autismo podem aparecer nos primeiros meses de vida, mas não são facilmente identificados e, por isso, o diagnóstico mais objetivo só é dado após o primeiro ano de idade, quando os sintomas começam a se mostrar mais evidentes. Os principais deles são classificados clinicamente em três grupos: Interação social, comunicação e comportamento.
Com os sintomas referentes à interação social, o indivíduo autista não realiza nenhum tipo de contato interpessoal, desde bebês, não prendendo a atenção às pessoas, brinquedos, movimentos e luzes, e ao crescer, também pode não usar ou não compreender a comunicação verbal.
Além disso, os autistas não expõem sentimentos e emoções, criam seu próprio mundo e isolam-se nele. Os sintomas associados à comunicação apresentam-se por um atraso significativo ou a ausência do desenvolvimento da língua, e em alguns casos, o autista não desenvolve a fala ou quando a desenvolve perde algum tempo depois. Também pode apresentar dificuldade em iniciar ou manter uma conversa, e quando o faz, repete as mesmas palavras ou frases, constantemente e só fala sobre tópicos de seu interesse.
Já nos sinais refletidos no comportamento, crianças autistas podem não gostar de brincar, e repetem movimentos com o corpo, como por exemplo, bater as mãos e os pés, inclinar o corpo pra frente e pra trás e girar objetos. Come somente alguns tipos de comida ou insiste em um tipo de textura de roupa, resiste fortemente a qualquer mudança de rotina, e não gosta de ser tocado.
“O preconceito existe, e é muito difícil conviver com isso”
Não existe tratamento padrão para o autismo, pois este se apresenta de diversas maneiras e em diferentes níveis de complexidade, fazendo com que cada paciente tenha um acompanhamento pessoal, de acordo com suas necessidades e deficiências.
Por exemplo, crianças autistas com inteligência subnormal com QI abaixo de 50 em testes padrão, geralmente são tratadas com cuidado especial, com atividades realizadas em instituições especializadas, em tempo integral, até mesmo quando forem adultos. Já nas crianças autistas que apresentam a faixa de QI próximo ao normal ou mais alto, o tratamento indicado geralmente é a psicoterapia e educação especial. A fonoterapia, a fisioterapia, a terapia ocupacional e a terapia comportamental, também ajudam a estimular o desenvolvimento dos portadores do autismo.
De acordo com Nilda Paiva, mãe de Lucas Paiva, autista de 8 anos de idade, o menino consegue desenvolver atividades comuns, mas o preconceito ainda existe e deve ser combatido. “O Lucas tem uma rotina em casa igual a qualquer outra criança. Gosta de assistir televisão, cantar e brincar e com os tratamentos ele está interagindo cada vez melhor com outras pessoas. Mas, infelizmente, a sociedade ainda olha para ele de um jeito diferente. O preconceito existe e é muito difícil conviver com isso. Seria bom se existisse uma maior divulgação sobre o autismo, como é feito com outras doenças, para que conhecendo o autismo, as pessoas deixassem o preconceito de lado”, afirmou Nilda Paiva.
A convivência diária com uma pessoa portadora de autismo, principalmente em níveis mais severos, pode representar a mudança na rotina, nos hábitos e no dia a dia de toda a família. Por isso, todos os envolvidos precisam de atendimento e orientação especializados.
Para a psicóloga Érika Costa, a apoio e participação de toda família no tratamento do autista, pode influenciar nos resultados de desenvolvimento do paciente. “O autismo é algo que não se vê, diferente da Síndrome de Down, por exemplo, e por isso, às vezes as pessoas se esquecem que ela é mais comum do que se imagina. Por ser pouco conhecido, muita pessoas escondem o familiar autista da sociedade. Mas existem trabalhos que buscam inserir o autista na sociedade e o interesse deve partir da própria família, pois a medida que o autista começa conviver com outras pessoas, ele pode passar a interagir mais. Esse contato é extremamente necessário para o desenvolvimento”, explica a psicóloga.
Durante muito tempo, os pais não sabiam como lidar com seus filhos autistas e procuravam especialistas para ajudá-los. Com o passar dos anos e o aumento de registros de casos de autismo, foram criadas instituições especializadas no tratamento dos portadores e na assistência aos pais desses pacientes. Em Natal, existem a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) e a Associação dos Pais e Amigos dos Autistas do Rio Grande do Norte (Apaarn), que recebem diariamente crianças e adultos autistas.
A Apaarn, por exemplo, atende atualmente, um total de 52 pessoas, com idade entre 3 a 31 anos, que participam de atividades de integração social, com terapia ocupacional, atendimento psiquiátrico e psicológico, fonoaudiologia e pedagogia. As atividades são realizadas separadamente para adultos e para crianças, que vão duas vezes por semana à sede da Associação para realizar o tratamento, que é diferenciado entre as faixas etárias.
De acordo com a terapeuta ocupacional da Apaarn, Juliana Gosson, “os pacientes participam de diversas atividades que estimulam o desenvolvimento, como aulas de alfabetização, recreação, oficinas de arte, culinária, informática e também são ensinados a realizar tarefas básicas como escovar os dentes e se vestir, já que muitos deles dependem das mães para muitas coisas”, explica.
Segundo ela, o tratamento dá resultado, mas é preciso muita paciência, principalmente, dos pais. “É importante os pais estarem integrados no tratamento deles, dando continuidade ao nosso trabalho em casa com estímulos ao desenvolvimento. Esse trabalho integrado faz toda diferença”, afirmou a terapeuta ocupacional Juliana Gosson.
Além de oferecer tratamento aos portadores do autismo, a Apaarn também recebe pais que não sabem lidar com o fato de ter um filho autista, e até mesmo os que não têm certeza se o filho é portador ou não. Ali, os pais são orientados sobre quais especialistas devem procurar e o melhor tratamento a ser feito.
Para a dona de casa Arlete de Oliveira, que tem um filho de 25 anos, portador do autismo, o trabalho desenvolvido pela Apaarn ajudou não apenas o filho, mas também a ensinou a lidar com ele da maneira correta. “O meu filho Felipe é uma pessoa que muda constantemente de comportamento, às vezes está calmo, mas de repente fica agitado e por muito tempo eu não soube com lidar com isso. Desde que ele começou o tratamento na Apaarn eu percebi umas mudanças nele, e com a ajuda do pessoal, eu aprendi a trabalhar com ele, estimulá-lo. Ele sempre foi mais reservado, mas ultimamente, está mais aberto às outras pessoas, e isso com certeza é resultado do tratamento”, disse Arlete.
Apesar de oferecer o tratamento gratuito, ainda há uma longa lista de espera, com 80 nomes de pessoas que esperam para fazer tratamento na Apaarn. Porém, que não pode ampliar o atendimento devido à estrutura física e econômica do local, que apesar de ser uma instituição reconhecida pela Prefeitura do Natal por sua utilidade pública, não recebe recursos suficientes para manter as atividades. Com isso, os próprios associados ajudam. As doações externas materiais ou financeiras também são recebidas pessoalmente, na sede da Apaarn, localizada na rua Dr. Nilo Bezerra Ramalho, 1724, no bairro do Tirol. Depósitos podem ser feitos na conta do Banco do Brasil, Ag. 3777-x, Conta Corrente 7.000-9.
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