Autor de “Amores Roubados” explica por que mudou o final da história

A mudança provocou alguma polêmica entre os espectadores que acompanharam a série

Formado em jornalismo e com mestrado em artes cênicas, o pernambucano George Moura é autor de dois dos melhores trabalhos exibidos pela Globo no intervalo de um ano, as minisséries “O Canto da Sereia” (2013) e “Amores Roubados” (2014). O sucesso desta última superou todas as expectativas. “É um sonho quando conseguimos, na TV aberta, a difícil equação entre a qualidade e a comunicação, a mais ampla possível”, diz Moura em entrevista ao UOL.

Com longa experiência em televisão, trabalhou inicialmente como editor de texto, na TV Globo Recife e no programa “Fantástico”, e depois como roteirista de séries como “Carga Pesada” e “Cidade dos Homens”, e no programa “Linha Direta”. Entre 2007 e 2011, roteirizou diversos episódios da série “Por Toda a Minha Vida”, também exibida na Globo, pela qual recebeu seis indicações consecutivas ao Emmy.

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Na entrevista a seguir, Moura explica por que decidiu alterar o final do livro “A Emparedada da Rua Nova”, no qual se baseou para escrever “Amores Roubados”. A mudança provocou alguma polêmica entre os espectadores que acompanharam a série, cujo décimo e último capítulo foi exibido na noite de sexta-feira (17).

Por que você optou por um final diferente para Jaime (Murilo Benicio) e Antonia (Isis Valverde) em relação ao texto que serviu de base para série, o livro “A Emparedada da Rua Nova”?
George Moura: Foi uma escolha difícil, muito pensada, conversada, refletida, que me tirou algumas noites de sono. No original do maravilhoso livro de Carneiro Vilela, a questão central é a moral do século 19. Antônia fica grávida de Leandro e não pode aparecer assim para a sociedade; grávida e sem um marido para casar. Jaime então propõe à filha que ela faça um casamento de conveniência com João, no original, seu primo legítimo. Era muito comum nessa época casamento entre primos. João aceita a proposta, mas Antônia se rebela. Diante disso, Jaime, para manter as aparências na tradicional sociedade recifense, toma uma atitude extrema. Ele empareda a filha viva e grávida dentro de um cômodo da própria casa. Esse caráter moral da punição já não faz sentido em pleno século 21.

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Diante desta constatação foi preciso repensar o desfecho desse folhetim do século 19 para uma minissérie que se passa e é vista no século 21. Acredito que a maior punição para Jaime, nos dias de hoje, é que toda a sua riqueza, construída com afinco ao longo da vida, seja herdada pelo filho de um homem que ele matou. Quer punição maior do que esta para um homem que dedicou a vida para construir um império de dinheiro e poder? E ainda mais: as mulheres hoje estão cada dia mais fortes. Antônia e Isabel, cada uma a seu modo, conseguem se solevar no final. E Leandro, amor verdadeiro de Antônia, renasce, à margem do rio São Francisco, em forma de um filho. O rio, com sua água pura, além de fazer o sertão frutificar, leva tudo, até as grandes mágoas. Como diz o poeta Ferreira Gullar: “O que passou, passou. Jamais acenderá, de novo, o lume que apagou”.

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Muitos espectadores ficaram frustrados com os finais em aberto dos personagens João (Irandhir Santos) e Carolina (Cassia Kis). O que você pode dizer a respeito?

O mais óbvio seria que o protagonista, Leandro, não morresse. Ele morre, ao tentar fugir de uma emboscada, no capítulo seis, portanto, na metade da minissérie. Mesmo assim, Leandro permanece vivo, seja na memória das mulheres apaixonadas por ele, seja na saga de vingança perpetrada por Jaime e João, que parece nunca chegar ao seu fim. Outro dado curioso é que na construção da narrativa, o antagonista de Leandro, Jaime, passa a ser o protagonista, a partir de um determinado ponto da história. Existe uma troca de posição. Leandro era movido pelo desejo e pela paixão. Jaime é movido pela vingança e pela danação.

São formas de contar uma história, que fogem a uma narrativa mais previsível.

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Se ao final tivéssemos o desfecho de cada um dos personagens, talvez o telespectador veria exatamente o que ele esperava, mas é preciso surpreender. O telespectador toma um susto inicial, mas depois ele vibra e agradece de ver este frescor na trama. Decidimos juntos pelo final em aberto, é uma outra forma de narrar que pode fazer o telespectador imaginar o desenlace para João, Carolina, Oscar, Ana Clara… Acho que em “Amores Roubados” isso foi mais rico. Não é uma fórmula, mas sim uma escolha para esta história específica.

Qual (ou quem) foi, para você, a maior surpresa em “Amores Roubados”?
A maior surpresa foi o quanto a minissérie tocou fundo nas pessoas das mais diferentes latitudes. Foi uma paixão à primeira vista, que durou dez capítulos. É um sonho quando conseguimos, na TV aberta, a difícil equação entre a qualidade e a comunicação, a mais ampla possível. Vamos continuar trabalhando para perseguir esta meta.

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Na comparação com “O Canto da Sereia”, como você avalia o resultado de “Amores Roubados”?

O frisson causado por “Amores Roubados”, seja no público – ótimo resultado de Ibope – seja na crítica, foi ainda mais forte do que “O Canto da Sereia”. E olha que no “Sereia…” já tínhamos chegado em ótimos patamares nesses dois aspectos. Em “Amores…” existia uma expectativa, até certo ponto natural, se iríamos voltar a alcançar o grau de realização do trabalho anterior. Trabalhamos com aquela torcida e, ao mesmo tempo, com aquela dúvida: será que vamos conseguir chegar lá de novo?

Acredito que “Amores…” foi um novo passo de realização de toda a equipe. Seja na complexidade, na sutileza e nas várias camadas da escrita do roteiro, na atuação dos atores, na direção do José Luiz Villamarim, na fotografia do Walter Carvalho, na geografia física escolhida, que foram as locações desse sertão contemporâneo, entre as vinícolas e o Raso da Catarina. Ou seja mostramos para o Brasil um nordeste que tem riqueza e adversidade. Tudo para contar da melhor maneira essa história.

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Foi muito mais difícil de realizar “Amores…”. O roteiro foi ainda mais trabalhado, o esforço de produção foi gigante. Para você ter uma ideia, foram do Rio de Janeiro para Petrolina e Paulo Afonso sete caminhões com figurino, arte, cenografia e maquinários. A equipe de “Amores…” foi composta por cerca de 120 pessoas e rodou 250 mil quilômetros entre todas as locações, durante quase três meses vivendo no sertão nordestino.

Para mim, o resultado de “Amores…” foi ainda mais preciso, de acordo com o nosso desejo apaixonado de fazer uma TV de qualidade e com frescor. É como se “Sereia…” já trouxesse dentro de si, embora tratando de um universo tão diferente e com uma história tão diversa, a semente de “Amores…”

Qual é o seu próximo projeto de trabalho?

É uma releitura da novela original “O Rebu”, de Bráulio Pedroso, para o horário das 23h. A direção é de José Luiz Villamarim, fotografia de Walter Carvalho e estou fazendo junto com o roteirista Sérgio Goldenberg, parceiro do “Sereia…” e do “Amores…” Já estamos trabalhando duro e torcendo para fazer algo digno da inteligência do telespectador.

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