Banda Revolver: do ingênuo iêiêiê para experiências psicodélicas

No próximo sábado, a banda natalense grava CD ao vivo no Whiskritório Pub, em Capim Macio

Conr3

Conrado Carlos

Editor de Cultura

O jovem Geoff Emerick tinha 20 anos, no momento em que o produtor George Martin o convidou para assumir a engenharia de som dos Beatles. Era1966, e quatro anos antes, após ver uma transmissão radiofônica ao vivo, em uma feira de negócios, ele decidira que queria ser “o cara que aperta os botões”. A chance de ver o surgimento dos Fab Four no estúdio Abbey Road virou história na hora em que John Lennon chegou com um pedido inusitado. Para sua nova composição, Tomorrow Never Knows, queria que sua voz soasse como um monge no alto de uma montanha. “Eureka!”, pensou Emerick, antes de iniciar o processo que resultaria em um dos maiores discos da história do rock: Revolver, o álbum que enterrou o Iêiêiê e mostrou que os garotos de Liverpool tinham amadurecido. Na noite do próximo sábado (05), a banda natalense que tomou emprestado o nome da arma de fogo para seu epíteto reviverá algo dessa narrativa no show que comemora dez anos de estrada. Com a gravação de um CD ao vivo, e abertura da banda coirmã Fullsion, uma noite sem fim está agendada para o Whiskritório Pub.

Em 2004, garotos potiguares, com idade entre 17 e 21 anos, começaram a tocar covers dos Beatles em barzinhos. “She Loves You”, “Twist and Shout” e “Can’t Buy Me Love” animavam festas no extinto Budda Pub e correlatos. Até que dois anos depois, um disco homônimo e autoral foi lançado. “Já nessa época, tocávamos iêiêiê, mas curtíamos outras coisas, como Pink Floyd. O que acontecia é que nossa habilidade técnica não permitia que fizéssemos muitas coisas, que tocássemos sons mais complexos”, confessa o vocalista Paulo Henrique. A aposta em acordes simples deu resultado e logo um público cativo estimulou as apresentações. No decorrer da década de 2000, à medida que rasgavam folhas de aniversário, houve o esperado amadurecimento musical, o que abriu o leque de influências para grupos ‘rebuscados’, como Yes, Queen e Deep Purple. A mudança no repertório foi imediata. Agora os 70s e sua mistura de hard rock, jazz fusion e psicodelia ditavam o rumo do Revolver. “Sempre fui fã do Pink Floyd e sempre pensamos em fugir do esquema de quatro acordes básicos”, reitera Paulo.

O triunvirato original do Revolver é composto por Paulo, Cléo Lima, na guitarra, e pelo baixista Carlos Aires – completam a atual formação, o outro guitarrista, Felipe Rebouças, o tecladista Mateus e o baterista Samir Santos, músico com inúmeras participações em bandas locais. Eles prepararam três músicas novas para executar em primeira mão durante o show sem limite de tempo. Paulo dá o roteiro sobre o que encontrarão os curiosos a partir das 22 horas. “Além dessas três músicas, todas com uma pegada mais Yes, com compassos complexos, vamos tocar coisas da fase autoral, quando tínhamos influência dos Beatles e praticamente o The Dark Side Of The Moon e o Wish You Were Here [dois clássicos do Floyd] quase na íntegra”. O cantor garante que as faixas autorais é diferente de tudo que tem sido feito na cena roqueira nativa, com valorização da parte instrumental em mais de oito minutos para cada uma delas. “Aqui tem bandas boas, mas muitas se preocupam mais com clipe e com o cartaz do show do que com a música. Talvez por acomodação, muitas apresentam qualidade no som muito abaixo do que o clipe”.

Mesmo com a facilidade de divulgação e o aumento da oferta de material artístico que a internet promoveu, Paulo fala na redução no apuro musical do rock feito no Brasil. O sumiço dos solos, um dos elementos fundadores do blues e, consequentemente, do rock and roll, é prova cabal da efemeridade com que o desenvolvimento instrumental tem sido tratado. “Por isso também que quero dizer o quanto é legal termos uma banda como o Fullsion na abertura. O Thales Alexandre [líder] é nosso amigo de infância e foi aos nossos primeiros ensaios. Eles não estão nessa de quatro acordes, que vejo tanto por aí. Eu acredito que Natal tem espaço para o rock, sim. Aqui têm bandas com mais de 15, 16 anos de atividade e sabemos que várias pessoas que irão ao nosso show de sábado estavam lá no Budda, dez anos atrás. Elas curtem o que é feito aqui”. A confirmação de que a festa cruzará a madrugada é somente um dos atrativos que o especial Revolver 10 Anos tem a oferecer aos roqueiros de plantão. Com preço justo e estrutura adequada, vale registrar na agenda dentre as opções do final de semana.

Compartilhar:
    Publicidade