Banquete indigesto

O Vasco foi sacaneado e nem assim merecia vencer o Campeonato Carioca. Incoerência nenhuma. O Flamengo ficou com a taça…

O Vasco foi sacaneado e nem assim merecia vencer o Campeonato Carioca. Incoerência nenhuma. O Flamengo ficou com a taça na farra da miséria no gramado e ganhou comemorando o nada. Foi campeão com outro gol roubado, impedido e inventado, o que não significa piedade ao adversário pilhado.

Flamenguistas saíram às ruas vestidos com suas camisas exibindo o triunfo da mediocridade enquanto os vascaínos protestavam como se um time tivessem para torcer. Ontem, encontrei alguns eufóricos que pareciam a caminho da Caixa Econômica para buscar dinheiro de loteria.

Foi a final mais horrorosa entre os dois clubes de maior apelo popular do passado no futebol brasileiro, entidades que arrastavam multidões e que retrataram, no dente a menos da bola murcha, a fase tétrica nacional.

Vasco e Flamengo retiraram os últimos neurônios de comentaristas que tentam lavar cérebros afáveis jogando conversa mole sobre a realidade impiedosa. Nua e nítida na imagem em HD digital, que não deixa dúvidas. Ninguém é escravo dos velhos rádios de pilha onde locutores enxertavam fantasia no que já era ótimo.

Craque sobrava e o clássico cumpria sua solenidade emoldurada pela emoção. No duelo em cada compartimento do campo, no berro ensandecido do desdentado de arquibancada, do descamisado de geral, do povão arrancado à força de um espetáculo artificial onde quem joga também não traz no pé o ritmo de partido alto dos predestinados de favela.

Dos excluídos para dar lugar à imitação da Disneylândia instalada na terra da bala troando, do hospital sem curativo e da escola sem lápis nem giz. No lugar desenhado por Henfil no filme Tanga, Deu no New York Times? Cinema desdenhado nos anos 1980 e real na intervenção armada nos negócios da cartolagem medonha.

O tempo está para os homens como sentença e opção de lucidez. Lutei e venci passional dentro de mim. Crítico das topeiras de chuteiras, saudoso das pérolas de categoria. Qualquer jogo é observado aos olhos da neutralidade. Ao primeiro chute tosco, ação no controle remoto, permuta ligeira por um bom filme ou por uma partida autoral do passado. Um show de dribles e gols bonitos.

Torço pelos meus times desejando a vitória com bom repertório, a exemplo do que faço quando vou a um show. O artista deve estar inspirado e afinado. Simplesmente cumprir o horário não me satisfaz. Desafinar jamais, enrolar com gemidinhos, nem pensar. Conversar cantando, nunca. Quero meu ingresso valendo cada centavo de prazer.

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O Flamengo é campeão porque o Vasco é hoje Olaria com camisa branca e faixa cruzada em negro. O Vasco treme ao ouvir o nome do rival, não dorme pensando no dia anterior ao jogo, é o cachorrinho de madame obediente que se esconde ao encontrar o pitbull valente apenas em sua imaginação covarde. É duelo de dois inofensivos. Um sortudo, outro incompetente e medroso. Conformado e assaltado quantas vezes for conveniente.

O jogo de domingo, com o Vasco carimbando a sina de Corinthians dos tempos de 23 anos de jejum de títulos (ainda falta uma longa década para acabar o trauma), sintetizou a limitação simplória de dois times espelhados em seus técnicos, zagueiros medíocres. Estilos parecidos. Caneladas, cotoveladas, chutes imperfeitos, passes tortos.

Uma decisão resumida a um gol de pênalti e a um empate em impedimento cínico. Causado também pela confusa decisão de um zagueiro metido a xerife que deixou a grande área livre para a cabeçada do atacante e a safadeza do bandeirinha, cuja confraria é especializada em tripudiar sobre a lerdeza do judiado Vasco de Roberto Dinamite. Decisões não permitem vacilacões nem contusões.

O torcedor do Flamengo festeja. Tem razão. Menospreza o vice estabelecido. Faz parte do script. Parece estar no paraíso. É enganoso. Na mesma semana, perdeu para o Leon, time do México, levando um olé no mesmo ex-Maracanã feito de Arena para a Copa do Mundo.

O futebol no Brasil, dos importados equatorianos, dos erros sacanas de arbitragens, dos times grandes reduzidos a borrões do passado, é o deslumbre das arenas. É a ansiedade pela Copa do Mundo. E parece fadado a terminar na Copa. Não se sabe de que jeito.

Exportador de zagueiros e parco em meio-campistas e goleadores fascinantes, é esporte em retrato amarelado de vitórias na parede. É o país amedrontado diante do México, antigo saco de pancadas e tido, pelo próprio técnico Felipão, como concorrente de primeira linha.

O México vem aí. Cuidado. Sombrero assombroso com bandeirinhas estrangeiros, comensais a menos no banquete azedo das arenas borralheiras, monumentos da subserviência colonial à madastra Fifa.

Decisão

Na falta de temática mais interessante, o gramado de pântano do Estádio Barretão é o assunto em pauta para a primeira partida das finais do Campeonato Estadual entre América e Globo, amanhã à noite. Conseguindo um resultado razoável em Ceará-Mirim, o América fica bem pertinho de levar a taça para a sede da Rodrigues Alves.

Tudo igual

Nos últimos 10 anos, apenas três decisões foram entre ABC x América. Em 2005, com Sérgio Alves e Barata garantindo o caneco alvinegro, em 2007, com Wallyson dando o show nos 5×2 e em 2012, com Fabinho inaugurando seu módulo informal de arquibancadas no Frasqueirão e iniciando a recuperação local do América .

Capital x interior

De lá para cá, os dois grandes da capital, quando não estiveram fora, decidiram com clubes de Mossoró, sem falar na final de 2009, onde o Assu conquistou seu caneco derrotando o Potyguar de Currais Novos. O Estadual passou a rimar com oriental, todo mundo japonês.

Um ano e 30 jogos

Se estrear contra o Santa Cruz no Arruda, sábado pela Série B, o novo atacante do ABC, João Henrique, poderá quebrar um tabu de um ano e quase três meses ou 30 jogos sem marcar gols. O último foi no dia 20 de janeiro de 2013, jogando pelo Paulista de Jundiaí, contra o Corinthians.

Destino generoso

O destino não costuma fazer concessões, mas vem sendo generoso com o meia Rodriguinho, ex-ABC. Depois de uma temporada apagada no Corinthians, tem nova chance no Grêmio (RS). Rodriguinho jamais poderá reclamar de falta de oportunidades.

Ituano

O novo campeão paulista é da Série D. Está mesmo tudo certo né? É.

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