Barba e bigode
Outro dia, vi uma sandália tipo havaiana decorada com bigodes pretos, de pontas arrebitadas, e não entendi. Fui a Rejane saber as razões do símbolo tão em moda. E ela explicou: a ideia de usar o bigode nasceu na Austrália. Símbolo de campanha alertando os homens para os exames preventivos do câncer de próstata. É nessas horas, Senhor Redator, que a gente descobre o quanto o mundo é veloz, quase meteórico, diante desses livros que ainda contam muitas histórias do tempo velho que passou.
Penso assim e com razão. Existe aqui, esquecido como em qualquer acervo de livros com certo gosto por costumes e tradições, o ensaio ‘A Barba em Portugal’, 1925, do etnógrafo português José Leite de Vasconcelos. Não duvido que possa existir algo mais clássico em língua portuguesa. É referência desde a segunda metade dos anos vinte do século passado. E há também edição mais recente – Publicações D. Quixote, Lisboa, 1996 – também reunindo os ensaios Signum Salomonis e A Figa.
Leite de Vasconcelos sempre foi uma fonte de consulta de Câmara Cascudo. Mereceu Acta Diurna em A República na edição de 27 de maio de 1941, dez dias depois de sua morte, a 17 de maio. E em 1943 o mesmo Cascudo estava entre os colaboradores de uma revista especial lançada em Lisboa para homenagear o mestre da etnografia. Em 2008, Portugal festejou 150 anos do nascimento do filólogo, arqueólogo e etnógrafo, reeditando e estudando toda sua obra no chamado mundo lusófono.
Ao escrever em 4 de fevereiro sua Acta Diurna ‘A barba crescida e o luto’, Cascudo informa que até princípios do século XX, no Brasil, era ‘tradição familiar o enlutado só fazer a barba para a missa de sétimo Dia’. É costume velhíssimo. E cita o exemplo de D. Manuel, em dezembro de 1521, quando ‘ordenou-se aos barbeiros, como manifestação pública de tristeza, que durante seis meses não barbeassem a ninguém nem cortassem cabelos’. E vai buscar a informação em Leite de Vasconcelos.
Meticuloso, Vasconcelos antes de erguer o ensaio ordena suas partes específicas dentro do tema geral: I – a barba antropologicamente; II – feitura da barba; III – formas e cortes da barba; IV – a barba no decurso dos tempos; V – simbolismo da barba; VI – a barba no léxico e na literatura; e conclusão. E cita a bibliografia consultada, mas observando a pobreza das bibliotecas portuguesas, limitando as suas consultas a artigos de velhas enciclopédias de vários países europeus, além de gregas e romanas.
É longo e erudito o ensaio de Vasconcelos Leite, Senhor Redator, acrescido de copiosas citações e da transcrição integral de um velho ‘Regimento dos Barbeiros’ ainda do século dezesseis. Não caberia reduzi-lo um canto de página de jornal. O tema, no entanto, não parece morto como hão de pensar os modernos. Assim como o bigode ainda figura no rosto de artistas de hoje. Traço fino ou felpudo de uma marca de beleza máscula que resiste ao tempo como toque tão eternamente sensual.
Guardo aqui um recorte da coluna do poeta Ferreira Gullar – ‘Chapéus, bigodes e assobios’ – na Folha de S. Paulo, publicado em 17 de julho de 2005, convencido do desprestígio do uso do chapéu e dos bigodes e de como caiu de moda assobiar. Ora, Senhor Redator, já não tem sido assim nesses anos recentes. O chapéu de palhinha do Panamá ganhou as vitrines masculinas e femininas e o bigode de Brad Pitt, mesmo ralo, hoje é tão glorioso quanto o bigodão espesso de machão do ator Tom Selleck.
E o assobio? Gullar acha que fracassou por culpa dos gângsteres assobiando nos filmes. E que na União Soviética do seu tempo de exílio assobiar era ofensa nacional. Como caiu de moda a mão no bolso, marca da elegância de André Malraux, ministro da cultura de De Gaulle. E lembra o bigode de Josef Stálin. Para o poeta, o modelo ainda hoje adorna o rosto de alguns petistas, como Olívio Dutra e Aloizio Mercadante. Fica o registro, Senhor Redator. Nesta véspera de um carnaval tão sem graça.
TÁTICA – I
Foi estratégia do deputado Henrique Alves o tom enfático ao papel da Câmara Federal no julgamento dos mandados dos três parlamentares na hora em que perdia votos vítima do bombardeio de denúncias.
SAÍDA – II
Henrique sabia da reação silenciosa do PT, daí sua votação ter caído a pouco mais de 270 votos diante do vice, o petista que ultrapassou os quatrocentos, o que acabou tornando relativo o apoio do Planalto.
MÉRITO – III
A estratégia foi sustentar o discurso da altivez da Câmara até a urna e só depois visitar o presidente do Supremo, ministro Joaquim Barbosa, declarando que o papel da Câmara é só aplicar o rito de cassação.
EFEITO – IV
Há um efeito político remoto a ser dado à classe política – Câmara e Senado – quando da discussão da redução dos poderes constitucionalmente atribuídos ao Ministério Público avaliados como excessivos.
ALIÁS – V
O MP, a julgar pelas discussões públicas, pode perder o direito triplo de investigar, fazer o inquérito policial e denunciar sem garantir o direito de defesa antes da prisão para efeito de investigação prévia.
CONFUSO – I
Tem razão o deputado Fernando Mineiro: a convocação extraordinária da Assembleia Legislativa para dia 14 é ilógica quando os trabalhos ordinários da AL começam 24 horas depois, dia 15 de fevereiro.
PRESSA – II
O argumento da pressa também é ilógico. No caso bastaria não ter vetado ou, se era para repor valores, o acordo deveria ter sido proposto no sentido de derrubar os vetos para manter o orçamento original.
REMENDO – III
Derrotado pelo poder de fogo dos outros poderes com reações como pedido de prisão de secretários e bloqueio das contas oficiais, o governo tenta remendar com trapos puídos o seu próprio erro político.
HUMOR
De Luiz Almir no seu programa de rádio bombardeado por notícias de crimes e assaltos por todos os lados num apelo dramático apelando ao governo: ‘Aqui policiamento virou pé de cobra. Não existe’.
POESIA
Do poeta Manuel Bandeira nas cinzas tristes do seu Carnaval perdido na infância do Recife: Quero beber! Cantar asneiras / no esto brutal das bebedeiras / que em tudo emborca e faz em caco… / Evoé Baco!


