Barrados na festa – Rubens Lemos

Depois da Copa de 1950, o Brasil surrou o Uruguai em três ocasiões históricas devolvendo com juros e soberba a…

Depois da Copa de 1950, o Brasil surrou o Uruguai em três ocasiões históricas devolvendo com juros e soberba a derrota do Maracanazo. Em 1970, ganhou de 3×1 nas semifinais, em 1989, conquistou a Copa América depois de 50 anos, num 16 de julho, data do desastre da derrota funeral.

Para não restar dúvidas, em 1993, Romário despachou a Celeste da Copa do Mundo numa das maiores exibições individuais do templo do futebol. No Ex-Maracanã épico igual ao tempo das imagens do Canal 100, o Baixinho deu lençol, meteu caneta, deu de um lado, pegou de outro, tocou de chilena, de calcanhar e marcou os dois gols que evitaram a primeira eliminação do Brasil de um Mundial e começaram a garantir o tetra.

Foi suficiente? Não. Ainda se quer ganhar 1950 mesmo com todos os 11 jogadores mortos. O último ataque foi uma jogada aérea desordenada e desesperada sobre a pequena área e o goleiro Máspoli defendeu pressionado pelo centroavante Ademir Menezes.

O árbitro apitou e 200 mil pessoas instalaram um velório coletivo seguido de uma procissão lenta e fluvial que permanece até hoje na teimosa expectativa do impossível 2×2. O Uruguai celebra 1950 com menos fervor do que o Brasil comemora seus cinco títulos mundiais. O luto é um prazer mórbido e mais atraente que o florescer para muita gente.

É quando entra o imaginário bem nosso de buscar nos ausentes as razões dos fracassos incorrigíveis .Muitos viúvos de 1950, hoje devidamente sepultados e repousando em suas covas, protestavam com fervor pela falta do ponta-direita Tesourinha, gaúcho revelado pelo Internacional e integrante do fabuloso Expresso da Vitória do Vasco(RJ), base da seleção amaldiçoada pelo vice-campeonato.

Cortado pelo técnico Flávio Costa, que optou por usar Maneca improvisado, Friaça ou Alfredo Segundo, Tesourinha foi o primeiro grande driblador brasileiro. Depois dele veio Julinho e para sempre nasceu Mané Garrincha.

Tesourinha, para os finados inconformados, teria sido o Ghighia patropi, destroçando os uruguaios em cortes delirantes e cruzamentos para Ademir e Zizinho. “Ah! Se Tesoutinha estivesse no Maracanã naquela tarde”, sofria um tio querido, que viu o jogo na arquibancada e jamais curou a ferida.

Em 1954, o conservadorismo do técnico Zezé Moreira deixou no Brasil o gênio Zizinho. Aos 33 anos, jogava o fino e era unanimidade para vestir a camisa 10, usada pelo palmeirense Humberto Tozzi. Na famosa Batalha de Berna, Zizinho, segundo os antepassados, teria evitado o vexame da derrota de 4×2 e o nervosismo geral do time, que não soube perder e brigou no vestiário, atingindo até o Ministro de Esportes adversário.

Na máquina de 1958, campeã brincando na Suécia, há quem reclame duas ausências. A do armador Luizinho, o Pequeno Polegar, ídolo do Corinthians, e do vascaíno Almir Pernambuquinho, preteridos pelos flamenguistas Moacir e Dida. Mero detalhe. Ambos seriam, como foram os escolhidos, talentosos e privilegiados espectadores.

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No bicampeonato de 1962, Almir jamais perdoou a escolha do salvador Amarildo, o Possesso, que entraria no lugar do machucado Pelé para marcar os gols do Brasil na decisiva virada contra a Espanha no último jogo da classificatória. No ano seguinte, pelo Santos, Almir tirou Amarildo, então no Milan, com uma porrada no tornozelo: “Você tomou meu lugar, safado!”.

Outros nomes incontestáveis ficaram fora da lista dos 22. De Sordi, o homem que não jogou a final de 1958 alegando duvidosa contusão e ofereceu Djalma Santos ao mundo, perdeu a vaga reserva para Jair Marinho.

Djalma Dias, exuberante, foi mandado embora, como seria em 1966. Em 1970 foi excluído após ser titular nas Eliminatórias. E Quarentinha, artilheiro do Botafogo, perdeu, com justiça, o lugar para Vavá e Coutinho.

Fora de forma e praticamente ex-jogador, Djalma Santos foi à Copa de 1966 manchar sua biografia. Viajou pela dignidade tão gigante quanto o futebol. O outro lateral era Fidélis, do Bangu, limitado e marcador, futuro campeão no ABC. No Brasil ficou um jovem virtuoso, Carlos Alberto Torres, inconformado. Foi melhor para ele. Escapou do fiasco.

Dirceu Lopes e Ademir da Guia tinham vez em 1970 nos lugares de Dario e de um dos cinco zagueiros. Tampouco influiriam no resultado. Clodoaldo foi literalmente sacaneado em 1974. O médico Lídio Toledo gostava de guilhotinar craques.

Liberou Corró para jogar um amistoso na Suiça, ele saiu machucado e pediu para ficar em tratamento, junto com o lateral-direito Zé Maria. Deixaram Zé e cortaram Clodoaldo, afetando diretamente o craque Rivelino, seu grande amigo e solidário até a despedida do camisa 5.

Falcão fez falta em 1978 e teria mudado, sim, o trem desgovernado de Cláudio Coutinho. Ele, Marinho Chagas e Paulo Cézar Caju tinham vaga de costas no time tosco e “campeão moral”.

Em 1982, Reinaldo seria o centroavante ideal pelo toque de bola eletrizante ao estilo de Cerezo, Falcão, Zico e Sócrates. Sem ele, Careca. Sem Careca, Roberto Dinamite. Jogou Serginho Chulapa, o melhor zagueiro central daquela Copa perdida por capricho e para o futebol pragmático da Itália.

Renato Gaúcho, um boçal, não deveria ter sido cortado em 1986. Não existia melhor atacante no Brasil do que ele. Jogava por seis vezes Muller. Renato, naquele calor contra a França, teria arrebentado a zaga em fintas descadeirantes.

Na Copa da Itália, a pior depois de 1966, não se deve prolongar o papo sobre um time com Sebastião Lazaroni de técnico, três zagueiros, Dunga e Alemão no meio-campo e Bismarck entre os 22 enquanto Geovani assistia pela TV em Vitória(ES). Maradona foi (nosso) justiceiro.

O tetra significou Romário, apunhalado em 1998. Cortado com prazer por Lídio Toledo, Romário não tremeria como amarelou Ronaldo na final. O Brasil talvez perdesse. Mas com o Baixinho, qualquer bala acertaria a testa do inimigo. É o requiem dos que não foram. É inútil, mas faz bem pra história.

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