Bate, bate, bate na Porta da Céu! – Juarez Chagas, Professor do Centro de Biociências da UFRN (Juarez@cb.ufrn.br)

“Mama, take this badge off me I can´t use it anymore It´s getting´ dark, too dark to see I feel…

“Mama, take this badge off me

I can´t use it anymore

It´s getting´ dark, too dark to see

I feel I´m knockin´ on heaven´s door”

- Bob Dylan

 

Não conhecendo a famosa e tendenciosa frase do título deste artigo, o leitor pode ser levado a enveredar por algumas interpretações que não o conduzam ao real significado semântico das mesmas. Na verdade, a frase reporta-se ao título da música de Bob Dylan, Knock, Knock on the Heaven´s Door, um sucesso de paradas musicais e mais uma pérola poeticamente cantada que está mais enraizada na cultura americana do que muitos possam imaginar.

Aliás, compor e cantar sua música, a qual foi influenciada pela música popular americana e sua cultura (o que tem feito por mais de cinco décadas) com doses de crítica, ironia e protesto, por mais poética ou contestadora que possa se apresentar, ele sempre que pode, põe o dedo na ferida do poder e da banalidade social. Por esta razão, a música de Dylan se incorporou no contexto político, social, filosófico e literário do modus vivendi americano, do qual é referência imprescindível.

Muitas bandas, como por exemplo, The Grateful Dead, U2, Guns N´ Roses, The Alarm e outras, assim como cantores solos como Arthur Louis, Eric Clapton, Vlado Kreslin, entre outros, cantaram esta emblemática música, que foi composta e cantada por Dylan para ser a trilha sonora do filme Pat Garrett & Billy the Kid, filme este do qual o próprio Bob Dylan participou. Na verdade, este hit tornou-se também uma de suas canções mais famosas e por isso regravada por diversos artistas.

É importante também observar que Zé Ramalho também a gravou esta música, em versão do próprio cantor, a qual, diga-se de passagem, foi muito fiel à música original, tanto no que diz respeito à melodia, assim como sua letra. Por outro lado, é notório que muitas versões vão além do sentido original, dada a liberdade e o resultado inovador do trabalho criativo realizado. Poderia citar aqui inúmeros exemplos.

Mas, não é exatamente sobre sua trajetória musical e artística que queremos tratar aqui e sim chamar a atenção sobre a questão de certas interpretações de versões as quais podem tomar diferentes sentidos no que diz respeito ao seu conteúdo e mensagem.

É do conhecimento de todos, especialmente no mundo da música que a versão não é simplesmente uma tradução da letra original. Na verdade, há de se considerar aspectos socioculturais, respeitando-se questões como ideologia, religião, dogmas e etc, para que no final obtenha-se o contexto ideal. Mesmo combinando em termos de métrica e rima, compasso e andamento da música de acordo com o original, a mensagem deve ser respeitada. Porém, a letra da versão, para ser bem sucedida e popularmente aceita, não pode diferenciar muito do som e do sentido que a música original apresenta.

Vejamos um pequeno exemplo, quando Zé Ramalho, em sua versão canta: “Mãe! Tire o distintivo de mim, que eu não posso mais usá-lo. Está escuro demais pra ver. Me sinto até batendo na porta do céu”

É claro que a maioria dos brasileiros (mais de 95%) que cantam a versão de Zé Ramalho não deve ter qualquer ideia do que Bob Dylan quis dizer com isso! Obviamente, Zé Ramalho, apesar de cantar a mesma coisa, no contexto, não tá dizendo o mesmo que Dylan que, em sua eclética ironia e senso justiça social, poderia estar dizendo “mãe tire esse distintivo de mim, pois não posso mais usa-lo” no sentido que muitos xerifes do velho Oeste, mataram muitos índios antes e depois da colonização americana. E, portanto, a música é um protesto contra a matança dos índios. Ou ainda quando Dylan, canta “Mamãe, ponha minhas armas no chão, não posso mais atirar com elas. Aquela grande nuvem negra está descendo. Sinto como se eu estivesse batendo na porta do céu”. Ou seja, agindo assim, o poder estabelecido estaria dando uma trégua e tentando não repetir mais abusos e injustiças.

Com essa letra e melodia, é claro que Dylan quis sugerir que dependurassem as armas e não matassem mais inocentes e aí, no contexto da música, ele se revestiu da personagem pra dizer que não pode mais usar a insígnia e nem os revólveres (aparatus que dariam condição legal de matar), pois está escuro demais pra ver…Resumindo, mesmo que muitos cantem a versão de Zé Ramalho sem entender a fundo o contexto da música, ficar à mostra a genialidade do inconfundível Bob Dylan que, melodicamente, protestou mais uma vez contra uma questão nacionalmente americana.

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