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Batendo lata

Data: 24 janeiro 2013 - Hora: 14:16 - Por: Conrado Carlos

Editado em 2005, Guerra e Spray vendeu mais de 1 milhão de cópias em todo o mundo, desde então. O número isolado é quase insignificante, se comparado ao total multiplicado por quarenta, atingido por best-sellers como Cinquenta Tons de Cinza. Mas o fato é que um livro com reproduções de imagens de arte urbana em grafites e estêncils de um artista anônimo, que atende pelo nome de Banksy, chegou com atraso ao Brasil, não sem deixar os fãs do britânico em estado de êxtase.

Considerado um ícone urbano, Bansky espalhou desenhos pelas ruas de Bristol e Londres, onde o foco é a militância política, a ironia, o anticonsumismo, crítica social, vazio existencial e até amores impossíveis. À surdina noturna, escondido, o sujeito joga tinta em prédios para impor a cultura da lata de spray, polêmica por natureza. O livro, lançado no Brasil com ótimo acabamento pela editora Intrínseca, traz uma coletânea de imagens fortes, por vezes, abstratas e sempre reflexivas – como não ficar besta com o que eles registrou no muro que circunda a Palestina?

Guerra e Spray tem poucos textos. Quando aparecem, entra em cena um homem invisível ligado aos problemas mundiais e senhor da arte em que atua. “Eu vou falar o que penso, então isto não vai ser nada demorado”, é a primeira frase do primeiro escrito, editado em uma fotografia, aparentemente, do próprio Bansky em ação. Com lucidez, ele divaga sobre a arte do grafite. “Não existe elitismo ou badalação, o grafite fica exposto nos melhores muros e paredes que a cidade tem a oferecer e ninguém fica de fora por causa do preço do ingresso”.

Confundidos com pichadores, grupo sombrio que rabisca desconexas mensagens em lugares não autorizados, o grafiteiro pode trabalhar na legalidade, sob permissão de proprietários de empresas e residências que emprestam muros para servirem de tela. Banksy prefere a escuridão. Optou por ter a identidade preservada para, assim, garantir sobrevida a seus desenhos – e distancia da polícia. Ainda não se sabe se ele recebeu os direitos autorais pelas 240 páginas subversivas, segundo seu editor inglês.

Na contracapa de Guerra e Spray, a reprodução de uma fala do porta-voz da polícia metropolitana londrina é emblemática do sentimento que envolve o artista. “Não há a menor chance de você conseguir uma declaração nossa para usar na capa do seu livro”. Enquanto na folha de rosto, a imagem de um policial com o dedo estirado serve de ilustração para o pronunciamento oficial raivoso.
“Um muro sempre foi o melhor lugar para divulgar seu trabalho. As pessoas que mandam nas cidades não entendem o grafite porque acham que nada tem o direito de existir se não gerar lucro, o que torna a opinião deles desprezível”, filosofa Banksy em notas distribuídas em silêncio. Para quem ainda despreza desenhos observados em muros da capital potiguar, o livro-portfólio de um dos maiores nomes do grafite mundial funciona como manual introdutório dessa arte contemporânea presente em cada esquina.

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