Bell fala ao JH sobre saída do Chiclete, novas músicas, Copa do Mundo…

Cantor baiano foi um das atrações do Natal Music Festival

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

O extenso e variado esquema regional deste país reservou para a Bahia um lugar destacado. “O ponto onde o Brasil foi descoberto”, berço da maior comunidade africana fora da África, ela já fez parte do Leste Setentrional (juntamente com Sergipe), e foi cantada em verso e prosa. Seu território foi disputado por portugueses, holandeses, tupinambás, aimorés e tupiniquins. Se fosse uma nação europeia, seria a quinta maior em área, atrás de Rússia, Cazaquistão, Turquia e Ucrânia – três dos quais nos questionamos o grau de europeísmo. O que resultou em uma mistura étnica e cultural das mais prolíficas (devidamente mal explorada como propaganda nacional, com os baianos entregues à violência e a miséria endêmica). Reginaldo Rossi exaltou sua Recife, com seus “encantos mil”, um “paraíso tropical”, mas é a Bahia que embala as principais concentrações humanas Nordeste acima.

Na noite desta última sexta-feira (04), para inaugurar a praça de eventos da Arena das Dunas, o famigerado estádio de futebol que virou marco regulatório na vida prática do cidadão natalense, duas máximas expressões do pop baiano foram convocadas: Ivete Sangalo e Bell Marques. Aquela se transformou em uma artista multimídia, presente em novelas e programas das maiores redes de televisão. Este, dono de uma estética peculiar, inventou uma sonoridade que alçou o Chiclete com Banana ao Olimpo do Axé. Seja fã ou detrator, é impossível não reconhecer sua batida percussiva e do violão que faz meio mundo dançar. Sempre questionei a frequência com que essa turma toca por aqui. “Eles não enjoam?”. É ‘festa do ano’, abertura de temporada, o Carnatal, e a classe média segue o barba de bandana ou a pernuda desbocada – como que grudados no botão do repeat. “Dançando, dançando, dandandandandan, dançando”.

Via assessoria e por e-mail, consegui cinco respostas de Bell Marques sobre a sua saída do Chiclete, saudade dos antigos companheiros, novas sonoridades, a Copa do Mundo e a música baiana. “Grande coisa”, diria um naziroqueiro. Talvez eu concorde com ele, só que a quantidade de automóveis adesivados com o orgulhoso Sou Chicleteiro revela que estamos sozinhos nesse distanciamento do gosto popular. Somos ‘os do contra’, para a imensa maioria que galope vem, galope vai, monta na lambreta e solta o grito de guerra. Portanto, trocar meia dúzia de palavras com um dos ídolos de boa parte dos leitores é manter a troca diária proposta neste espaço. Uma breve pesquisa pelos jornais de Salvador deixa no ar que o negócio entre Bell e seu irmão Wado foi mais sério que o divulgado – quem danado termina uma relação de mais de 30 anos sem rancores, balas cruzadas e empurra-empurra?

“[...] às vezes, para você ser feliz ao lado de pessoas queridas, como meus irmãos, é preciso passar por algumas mudanças. Rompemos profissionalmente, mas ainda somos uma família”. A longa estrada percorrida por Bell Marques tem vias alternativas que deságuam em Natal há mais de 25 anos. Toda uma geração de foliões foi forjada por uma música pélvica, calcada no merengue, na lambada, no carimbó, no afoxé e em leves pitadas jamaicanas, cuja fórmula repetitiva sustenta multidões apaixonadas. São tantas músicas de sucesso que, para enumerá-las eu precisaria da página policial a seguir. Chiclete virou verbo. Entrou em domínio público desde o instante em que empacotou uma penca de ritmos e entregou um produto bem acabado, para consumidores de fast food cultural – uma hora ou outra, você se perguntará o que está fazendo na fila do McDonald´s, domingo à noite.

A sonoridade do Chiclete resultava da coesão da voz e guitarra de Bell, do teclado de Wado, da percussão de Waltinho, do baixo de Lelo e, outrora, da guitarra do cacique Jonne (afastado em 2001, decorrente de uma doença rara chamada Ataxia Cerebelar, um transtorno neurológico que fulmina a coordenação motora). “Não sinto a presença deles [no palco], porque cada músico tem uma forma de tocar, uma sonoridade diferente. Estou com uma nova banda, novos tecladista, baixista e percussionistas, tão talentosos quanto meus companheiros de tempos de Chiclete, mas são outras pessoas, outros músicos. Não existe comparação”. As milhares de pessoas que pagaram cem, duzentos reais para ver a apresentação de ontem no Natal Music Festival entendem isso. Para elas, como na matemática, Música + Chiclete Com Banana=Bell Marques. Qualquer elemento que extrapole a conta deve ser recalculado.

Os 32 álbuns (de inéditas, ao vivo, coletâneas, etc) lançados pelo grupo formam um dos acervos mais decorados por quem tem fôlego para pular durante duas horas de suingue. Da estreia com “Tras os Montes”, em 1982, até o homônimo de 2012, a trilha sonora de romances e farras homéricas de muita gente adentrou na quarta década com desgaste. Bell trocou de jogadores, mas manteve o esquema tático. “O estilo será mantido, a pegada da minha guitarra, a levada da minha música continua e as pessoas vão reconhecer isso nas minhas novas músicas. O que faço é aproveitar outros instrumentos, como violino, violoncelo e um trio de metais que chamei pra minha banda e fazer um som mais completo, digamos assim. O som está mais encorpado, mas o público vai reconhecer Bell Marques muito facilmente ali”. Mais do mesmo vencedor que os chicleteiros ecoarão até o fim dos tempos.

Contratado para celebrar um ambiente dentro de um estádio da Copa do Mundo, ele evita engrossar o coro dos insatisfeitos com a gastança disparada pelo ego inflado de um ex-presidente da República que acreditou no papo de sermos o país da moda, na segunda metade da década anterior. “Ser o centro das atenções para o Brasil é muito bom. Algum legado sempre fica para o país, que ganha notoriedade e desperta a curiosidade nas pessoas de fora. O que exatamente vai ficar, saberemos só depois”. Pois é, só depois. Até lá, seguimos “entre flores e guerras, deslizando entre o bem e o mal”, por ruas infestadas de carros comprados em prestações a perder de vista, em hospitais sucateados, com ares de matadouros e escolas infrutíferas, que nos jogam para baixo em rankings educacionais. Neymar e Cia tem uma responsabilidade imensa para conter uma revolta mais grave.

Estamos amarrados em dívidas por décadas adiante. Como ninguém reclamou quando ainda havia chance de veto, cheques foram assinados e obras, iniciadas. Agora só nos resta cantar e dançar ao som de algum trio elétrico ou sujeito de camisa xadrez metido a galã. Na Bahia, a produção musical segue o fluxo contínuo de um caldeirão cultural que poderia ser melhor explorado. Apostaram na causa errada, mas Bell acredita em revolução. “A música baiana vive um momento muito bom, de reinvenção, de novas caras. Temos outros artistas além de mim saindo em carreira solo, o que movimenta bastante o mercado. Artistas novos, como meus filhos da Oito7Nove4, estão surgindo com força, trazendo uma nova roupagem à música baiana. São jovens modernos, ligados em tudo o que acontece no mundo, criam novas sonoridades, reinventam e atualizam nossa música. Isso é muito bacana”. Então tá.

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