Bem feito

Nunca o masoquismo pela derrota. A cerveja lavou meu peito por dentro assim que o árbitro encerrou a participação brasileira…

Nunca o masoquismo pela derrota. A cerveja lavou meu peito por dentro assim que o árbitro encerrou a participação brasileira na Copa do Mundo de 1990. Maradona enfileirou o batalhão de volantes e zagueiros e, caído, serviu ao atacante Cláudio Caniggia, que driblou o goleiro Taffarel e mandou as redes do Estádio Delle Alpi, em Turim.

Campanha horrorosa a de 1990, comandada por um técnico sepultado pela história: Sebastião Lazaroni, pelo qual pagamos o preço da boçalidade, da incompetência e do cinismo. Não vivi o pandemônio de 1966 em Londres, 44 jogadores convocados para a preparação e nenhum time definido, Brasil eliminado com direito a show dos húngaros Albert e Bene e do português Eusébio, em duas derrotas (nossas) por 3×1.

O bolo azedo de 1990 juntou a ostentação de um técnico, a invenção de um esquema medroso com três zagueiros e a reunião do grupo de jogadores mais arrogante da história das Copas do Mundo desde 1930.

Na Itália, o atacante Careca, tido e antecipado um dos principais nomes do Mundial, exalava antipatia, negando-se a dar autógrafos a pequenos fãs. Mandava no time e Lazaroni obedecia. Seu companheiro natural de ataque seria Bebeto, destaque na Copa América e nas Eliminatórias.

Careca bateu o pé e escalou seu ex-colega de São Paulo, Muller, uma piada em campo. Muller chamava atenção pelas manobras ariscadas numa possante Ferrari. Hoje, perambula de supervisor em times medianos.

Feio o Brasil jogando e terrível assistir a qualquer jogo do Brasil. Lazaroni, que fez comercial da Fiat, instituiu o líbero, função plenamente europeia, escalando Ricardo Gomes, sem velocidade para a saída de bola nem para o combate aos atacantes.

Dunga e Alemão não acertavam passes e a criatividade ficava aos pés de Valdo, revelado no Grêmio. Valdo rodava, rodava, antecipando em quatro anos o que seria feito por Zinho em 1994. Romário estava no time de 1990, sem condições físicas. Em forma, ninguém tomaria o seu lugar, nem Muller, nem Careca.

A falta de criatividade, de jogadas de efeito, da improvisação natural do craque brasileiro estampava editoriais e artigos, inspirava comentários radicais e reclamações irritadas dos torcedores mais serenos e preocupados em ver o futebol que um dia havia sido nosso.

O baixinho Geovani era o cara, o homem de confiança do técnico nos tempos de Vasco e fora preterido. Lazaroni, além de fraco, acumulava a sombria maldade da trairagem, conceito terrível no ramo da boleirada. Geovani lançava, driblava e poderia iluminar o tosco meio-campo.

O veterano Júnior esnobava técnica no Flamengo e foi considerado “velho” pelo treinador terrível. Dois anos depois, Júnior ganhava sozinho o Campeonato Brasileiro, correndo e fazendo gol com fôlego juvenil. Ao contrário do que esbraveja, o hoje comentarista Neto jamais foi cogitado.

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Passei a torcer – definitivamente – contra Lazaroni e a sua turma quando, após vitória suada sobre a Escócia por 1×0, gol de Muller com a bola quase saindo pela linha de fundo, ele fez pose para dizer em seu dialeto particular: “Estamos galgando parâmetros”. Surgia o Lazaronês de vida brevíssima. Para o autor, porque seguidores atuais não lhe faltam.

Naquela época, os melhores terceiros colocados passavam para a segunda fase e por um delicioso (pelo menos para mim), capricho do destino, os maiores rivais da América do Sul iriam medir bigodes nas oitavas de final. A Argentina desacreditada por uma vitória, um empate e uma derrota para Camarões na primeira fase.

O Brasil Lazaronês venceu Suécia (2×1), Costa Rica (1×0) e Escócia (1×0). Com um jogo sonolento e se aproveitando da ruindade ainda maior dos seus adversários. Estava sendo apontado favoritíssimo contra os hermanos combalidos e dependentes químicos literais da canhota de Diego Maradona. O time argentino também sofria.

Lembro que era sábado e depois haveria Alemanha x Holanda, outro jogo tradicional. Fanáticos previam liquidar estoques de cerveja comemorando a vitória brasileira e assistindo ao duelo que virou rivalidade desde a final de 1974.

O Brasil atacou. Chutou duas ou três bolas na trave e Galvão Bueno se esgoelando. A bola não queria entrar, não aceitava obedecer aquele time autossuficiente e medíocre, cujo símbolo chamava-se Dunga. Maradona passeava em campo.

Sossegava no sofá. Bem diferente do menino encantado e depois triste ou do adolescente decepcionado em 1982 e 1986. Maradona arranca do meio-campo. Dribla Alemão, Dunga, Ricardo, Rocha, Ricardo Gomes, Mauro Galvão, o presidente Collor de Mello se ali estivesse e serve para Caniggia fazer 1×0.

Em 10 minutos, Lazaroni, como legítimo escapista, jogou fora o seu esquema inviolável e botou Renato Gaúcho, e o meia Silas para tentar lançamentos. Chorou ao som do tango. Lembro de ter gritado um palavrão. Contra Lazaroni. Soltei um brinde a Maradona, desfilando com a camisa do Brasil.

 

América x Boavista

Em sua casa, a Arena das Dunas, o América tem tudo para despachar o Boavista da Copa do Brasil. O time de Saquarema (RJ) não vence por dois gols de diferença desde outubro do ano passado.

Deu liga

Deu liga, como diz a meninada. A torcida do América sai melhor na foto no Arena das Dunas.

Meio-campo

Enquanto não chegam reforços, o técnico Zé Teodoro pode colocar Octávio no meio-campo e tirar um do batalhão de volantes. Octávio rendeu no Estadual e nos jogos da Copa do Brasil como legítimo meia-atacante, armando e chegando para concluir.

Reforço

O Boa Esporte, adversário do ABC sábado à noite em Santa Cruz está contratando o volante Sandro Silva, do Vasco, encostado desde janeiro no grupo dos renegados de São Januário. Se o time titular do Vasco não vale um vintém, calcule o reserva do reserva.

Ingresso

Tem nego disposto a pintar na camisa branca: “Eu tenho ingresso para a Copa do Mundo”. Orgasmo dos maracatus.

ABC x América na Série A

No dia 23 de abril de 1978, empate no clássico ABC x América pelo Campeonato Brasileiro (1×1). Público de 21.295 pagantes no Estádio Castelão. Ronaldinho marcou para o América e Jorge Costa empatou para o alvinegro.

Times

ABC: Hélio Show; Moreno (Domício), Pradera, Cláudio Oliveira e Orlando; Baltasar, Danilo Menezes e Zezinho Pelé; Noé Silva (Gilvan), Jorge Costa e Noé Macunaíma. América: Valdir Appel; Ivã Silva, Joel Santana; Argeu e Moura; Ronaldo Alves, Humberto (Ubirani) e Gilmar (Jangada); Ronaldinho, Aluísio e Soares.

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