“The Big Beat”, de Art Barkley & The Jazz Messengers, merece ecoar em sua casa

Em The Big Beat, ele atingiu o apogeu como bandleader e como gênio criativo, complementado por um grupo de virtuosos que marcaram história no jazz

Conr1

Até os anos 1950, bateristas eram vistos como “aqueles que fazem barulho”. A concepção errônea partia do lado europeu, no nascedouro do jazz, ao contrário da relevância que a percussão sempre teve na música africana. Até que três nomes surgiram para impulsionar uma nova linguagem ao instrumento, como coordenador do discurso jazzístico que sempre foi: Kenny Clarke, Max Roach (talvez o maior de todos os tempos) e Art Barkley, sem dúvida o mais furioso (e meu predileto). Após uma viagem à África Ocidental, naquela mesma década, ele ampliou as possibilidades da bateria e criou um estilo sonoro que fundiu base folclórica e expressões de vanguarda em discos antológicos. Um deles é The Big Beat (1960), seu maior terremoto musical, em uma época repleta de pedras fundamentais.

Um time de primeira formava o Art Barkley & The Jazz Messengers. No sax tenor, ninguém menos que Wayne Shorter, um dos maiores instrumentistas que a terra viu surgir, futuro líder do Weather Report, banda de jazz-fusion que revolucionou os anos 1970. No trompete, Lee Morgan, outro artista presente na lista dos principais, dono de um fraseado blueseiro e autor de um dos discos mais reverenciados que se tem noticia: The Sidewinder (1963). Já Bobby Timmons, no piano, era o compositor de vários dos clássicos lançados por Art Barkley, como Moanin’, faixa que nomeou o álbum de dois anos antes que, juntamente com The Big Beat, é considerado o suprassumo dessa galera. Jymie Merritt, no baixo, completava a escalação com o mesmo brilho dos outros.

Lançado pela Blue Note, The Big Beat tem clássicos eternos do jazz, como Dat There e Lester Left Town. Dificilmente você não as reconhecerá, caso goste de música instrumental. Em tempos de ouvidos ‘eletronizados’, escutar o que faziam os Mensageiros, em plena vitalidade e elevado nível de execução instrumental, funciona como uma sacudida na preguiça dos menos afeitos ao gênero. Aposto todas as fichas que o disco funciona com sobras, por sua concepção rítmica e suingue, cuja capacidade de iludir o sentido do ouvido com a sensação dúbia de regularidade e negativa métrica, nos transporta a lugares tão desconhecidos, hoje em dia. Os seis temas apresentam melodias soberbas – três compostos por Shorter, The Chess Players, Sakeena’s Vision e a supracitada Lester Left Town.

Barkley (1919-1990), artista engajado politicamente, foi rebatizado Abdullah Ibn Buhaina, durante a febre islâmica que pegou meio mundo negro, ainda no final dos 40s. Antes de chegar ao topo do bebop, ele tocava piano para mineiros da região de Pittsburgh, sua cidade natal. Ganhou tanta grana com gorjetas que montou uma banda com 14 integrantes. Daí em diante, virou um dos expoentes de um instrumento outrora condenado à coadjuvância – a ascensão do suingue só foi possível em países onde houve miscigenação, casos de Brasil, Cuba e Estados Unidos; por isso a recusa dos europeus em aceitar bateristas como músicos, nas décadas iniciais do século XX. Em The Big Beat, ele atingiu o apogeu como bandleader e como gênio criativo, complementado por um grupo de virtuosos que marcaram história no jazz.

Compartilhar:
    Publicidade