BIU DOIDO

Hoje me bateu a rescordação do ano da graça de 2003, quando passei trêis dia de incantamento e felicidade no…

Hoje me bateu a rescordação do ano da graça de 2003, quando passei trêis dia de incantamento e felicidade no I Encontro de Contadores de Causos, na Fundação Gilberto Freyre, cum derêito a trêis dia de cunvívio cum gente de imaginação, fantasia e curtura populá, artamente prodigiosa… E cumeço dizendo assim:

Toda comunidade, seja povoado, distrito ou a sede de município do interior que se preze, tem suas figuras folclóricas como “o enrolão, o prisiáca ou tirador de onda, a fofoqueira, o mentiroso, o corno mor, a chifreira mais conhecida, a rapariga mais famosa, o fresco mais debochado, e, prá fechar com chave de ouro essa maravilhosa fauna, o doido oficial da localidade”… Purinzempro, na minha amada Boa Vista, no Carirí paraibano, tive a honra e a felicidade de cunhincê e unvivê cum o frentista Zé Sabino, cum seu Zé Jove, cum o Doido de São Joãozíin, cum Bastião do Bar, cum Zômíin, Maciel de Seu Zé Maurício; Sebastião Doido; tudo gente da mais arta qualidade…

Esse causo de hoje, jamais poderia deixar de ser como o é na realidade; uma colaboração do Mestre Ariano Suassuna, que me contou pessoalmente em dezembro de 2003, quando participei com êle, Mestre Ariano, durante três dias de verdadeiro encantamento, do I Encontro Nordestino de Contadores de Causos, na Fundação Gilberto Freyre, em Recife-PE, e que nessa ocasião, passo às mãos e aos olhos dos meus queridos leitores; refrescando-lhes a memória, pois já publiquei naquela o casião, ao vortá do incronto…

A cidade de São José do Egito, alto sertão pernambucano, além de ser um inesgotável celeiro de poetas e repentistas como José Marcolino, Antonio Marinho, os saudosos irmãos Lourival, Dimas e Otacílio Batista; também não foge da regra, e tem (ou tinha) em Biu Doido, o seu doido oficial, aquele que onde chega é ou era logo alvo de todas as atenções, e que não sei se ainda vive batendo perna por lá ou se já está no andar de cima.

Pois bem; contou-me o Mestre Ariano, que quem quizesse ver Biu Doido “barrê da quenga” (ficar prá lá de emputecido), era bastante lhe perguntar as horas, pois êle andava com um relógio no braço, do tamanho de sua doidice; só que o dito cujo relógio, era quebrado e servia apenas para enfeitar o braço e as fantasias de Biu.

Quem lhe perguntasse as horas, que preparasse o “escutador de novela” para ouvir um rosário de palavrões (Ah! Se eu morasse lá nessa época!…) e desaforos, de fazer inveja ao palavreado que sai durante uma briga de rapariga, daquela de cabaré de enésima categoria…

E um determinado dia, chegou um delegado novo na cidade, que saiu conhecendo os moradores de todos os recantos e as pessoas mais populares e conhecidas da comunidade. Andou de boteco em boteco, fez a mesma coisa em relação aos prostíbulos, casas de jogo, enfim, passou um verdadeiro “pente fino” na cidade, de norte a sul, leste a oeste.

E no final da tarde, se juntou com um bocado de moradores, daqueles desocupados que conversavam num dos bancos da praça, quando lá vem vindo Biu Doido.

E o delegado, prá lá de observador, falou para o grupo que conversava:

- Quem é aquele ? Sinceramente eu não me lembro de tê-lo visto no meu reconhecimento à cidade e aos seus moradores.

Prá variar, foi o “prisiáca” que respondeu:

- É Biu Doido! Farta munto pôco mode êle cumê merda e rasgá dinhêro. Mais delegado; o sinhô faça de tudo, mais num pregunte ais hora a êle, mode num tê uma decepção e sê obrigado a butá êle detrais dais grade…

Mas o delegado quis “pagar prá ver”, e se dirigiu a Biu Doido:

- Amigo; por bondade, você poderia me dizer as horas ?

Para espanto dos que estavam reunidos, Biu não disse absolutamente nada de imediato. “Sério qui só um sapo cagando”, olhou para o delegado, naturalmente sem saber quem era aquele que lhe perguntara as horas e falou surpreendentemente calmo:

- O sinhô é novo na cidade ?

- Sou!

- Intonce é mode isso qui o sinhô me preguntô ais hora! Todo mundo aqui in São José do Egito, sabe qui êsse meu relógio é quebrado e séive só de infeite p’ro meu braço…

O delegado, para ver onde ía a doidice de Biu, tentou argumentar, fingindo uma cara de ispanto qui tava munto longe de sintí:

- Ora, meu filho; se é quebrado, não adianta.

Aí, Biu Doido “barreu da quenga”:

- Mais tombém num atraza, seu fíi de rapariga!…

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