Boia, boiar, boiado

Há umas duas semanas, se tanto, a revista Veja registrou naquela sua Blogosfera, editada sob a direção de Kátia Perin,…

Há umas duas semanas, se tanto, a revista Veja registrou naquela sua Blogosfera, editada sob a direção de Kátia Perin, uma consulta do leitor Álvaro Vasconcelos sobre as origens da palavra ‘boia’, como designação de comida ou refeição. Na resposta, citou Câmara Cascudo com as duas acepções que formula no ‘Locuções Tradicionais do Brasil’, lançado originalmente em 1970, pela Universidade Federal de Pernambuco, hoje na sua quarta edição nas livrarias brasileiras, agora pelo selo Global.

Para Cascudo, é brasileirismo e tanto pode ter nascido de simples analogia com a fome mortal dos náufragos quando são salvos, o prato de comida que salva como a boia do faminto, hipótese que não convence a Perin; e a tese de Pereira da Costa que Cascudo cita como resultado de uma gíria dos quartéis: ‘Boia seria o feijão semicozido, boiando no caldo incolor e ralo. Boia de soldado’. Antônio Houaiss quer assim e Aurélio Buarque concorda: ambos informam que ‘boia’ é a comida das casernas.

As duas acepções não invalidam o boiar no sentido de excesso ou desinteresse designando a tudo quanto sobra por excesso ou flutua sobre a água, inclusive o instrumento de sinalização marítima usado pela navegação. Restaria saber se nos acervos de gírias e brasileirismos mais antigos se mantém o sentido de comida quando se refere ao prato dos soldados nos quartéis, ou se surgiu de tudo quanto ‘sobrenada num caldo ou sopa’. Ou se esse sentido é de sobra, do que ‘boiou’ por ninguém desejar.

Há três acepções correntes: a comida, a sobra e instrumento de sinalização na navegação. O que fez o prato de soldados e operários se chamar boia? Eis a questão. Cuidadoso, Cascudo fixa a versão corrente nos dicionários de brasileirismos e gírias e abre caminho com ‘o prato que salva os náufragos famintos’. Mas a expressão não é tão velha nos falares dos brasileiros e portugueses. Tanto não é que não consta na primeira edição do Elucidário de Viterbo que chegou aos olhos do mundo em 1799.

Há um século não figurou nos dois volumes de Cândido de Figueiredo e o grande Moraes não registra como alimento. Boia sinaliza e flutua, mas registra ‘boião’, vaso para cozinhar ou conservar alimentos, que poderia sugerir o vasilhame no qual se prepara a comida. Há boião nos ‘Subsídios para um Vocabulário de Gíria Militar’, do general Jonas Moraes Corrêa, edição da Biblioteca do Exército, 1958, pelas informações do primeiro-tenente Francisco Félix Filho: ‘Boião, comida no nome geral’.

O bem vasto e sabido Dicionário da Diversidade Cultural Pernambucana, de Adriano Macena, 2010, nada tem além de boia, comum a todos, sem qualquer tentativa de explicar a arqueologia de sua origem e do seu uso. Raimundo Girão repete Lourival Serraine e este acrescenta o significado popular da parte que cabe a cada pescador da despesca dos currais de peixe e das redes nos tresmalhos de pesca coletiva, onde cada um tem direito a um pouco do que for pescado e puxado na força física do corpo.

O verbete mais longo e detalhado está n’A Gíria Brasileira’, de Antenor Nascentes, um livro de 1953. Registra ser comida ou refeição de origem militar, mas acrescenta uma versão que atribui a uma possível origem tupi, segundo informação de Chermont de Miranda no Glossário Paraense. Seria uma diluição de ‘bohyc’. Arthur Neiva, nos Estudos da Língua Nacional, nega essa procedência guarani e fixa a origem nos falares comuns nos quartéis, ou ‘sopa de pão’ segundo uma velha gíria portuguesa.

Não há – e nisto a jornalista Kátia Perin tem razão – a versão admitida por Cascudo ao formular a hipótese de boia associada ao prato que mata a fome do náufrago. Nada é possível encontrar na gíria popular de Manuel Viotti, na erudição de Dino Preti, no Dicionário do Nordeste, de Fred Navarro, e no Dicionário de Expressões Populares da Lingua Portuguesa, de João Gomes da Silva. No que dei por finda a busca, mas não matei a esperança. As palavras andam. E se transmudam como seres vivos…

PLENÁRIO – I

Não há dúvida: o pedido de impeachment passa pela Comissão de Constituição e Justiça e vai mesmo a plenário como deve ser. É o fórum soberano. Mas dificilmente obtém a maioria que a Marcco deseja.

ALIÁS – II

Uma casa política tende sempre, quando ouvida, a preservar os mandatos conquistados pelo voto, sob pena de conferir caráter judicial a um regime que, apesar da grande crise que vice hoje, é democrático.

REAÇÃO – III

Pouco a pouco prevalece a tendência de que o Governo Rosalba Ciarlini, mesmo perdendo a boa noção das prioridades da segurança e saúde, não responde pela de corrupção. O impeachment não vai passar.

LEGADO

Deu no Blog do BG que, por sua vez, citou como fonte a revista Der Spiegel, uma das mais acreditadas do mundo: Fifa terá um lucro de R$ 32 bi com a Copa 2014. Já o Brasil um prejuízo de R$10 bilhões.

PODER

O prefeito Carlos Eduardo está na soleira de junho, décimo-oitavo mês de gestão e não tem sequer uma data para fazer a concorrência pública das linhas de ônibus. Os empresários dominam a luta interna.

GREVE

É mais intensa do que se pensa a mobilização da Polícia Militar. O movimento é discreto, mas é forte e o governo, se pagar para ver, irá constatar sua unidade da luta: dos praças aos seus oficiais superiores.

POUSO

Será amanhã, ao meio dia, o pouso dos dois aviões Cesna pilotado por franceses no raid histórico para comemorar a presença da Aeropostale. Na Lagoa do Bonfim, lá onde pousou e decolou Jean Mermoz.

EXPO

Abre amanhã, no Palácio Potengi, a exposição dos quadros de Abraham Palatnik com as cinco novas aquisições feitas pelo Governo do Estado. É o maior nome das artes plásticas do Rio Grande do Norte.

ORGULHO

Enquanto aqui, cabisbaixos, cedemos a todas as exigências, Pernambuco reage e luta para manter suas vendedoras de tapioca nas imediações do estádio. A tradição não se queda diante da famigerada Fifa.

AZUL

Quem avisa é Valério Mesquita, grão-senhor do país de Macaíba: Jansen Leiros reúne hoje os amigos no salão da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras para lançar o seu novo livro: ‘O Planeta Azul’.

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