Do bolsa-partido

Não foi no clássico ‘O Povo’, de Jules Michelet, que surpreendeu a França de 1845, ainda pós-revolucionária nas décadas finais…

Não foi no clássico ‘O Povo’, de Jules Michelet, que surpreendeu a França de 1845, ainda pós-revolucionária nas décadas finais do Século XVIII e traduzido no Brasil desde 1988, que o antropólogo Renato Janine Ribeiro foi buscar o paradigma para explicar o fenômeno das multidões que bateram às portas das loterias e Caixa Econômica naquele boato do fim do bolsa-família. Para a surpresa de alguns, ao invés do tratado, preferiu citar a trama, até mais antiga, da ópera ‘O Barbeiro de Sevilha’, de 1816.

O que poderia parecer ousado e estranho na formulação do seu artigo ‘O que o rumor revela’, publicado em maio deste ano na Folha de S. Paulo, acabou ganhando uma força de referência. Na ópera de Rossini, os dois velhos tentam impedir o amor dos jovens. ‘Para isso usam a calúnia’, escreve Janine. E conta: ‘Começa baixinho e discretamente para apagar suas origens; cresce; forma uma rede garantindo o anonimato; torna-se irrefreável; e elimina o infeliz caluniado’. A maldade tem a força de uma torrente.

O boato do fim do bolsa família ainda produziu uma revelação inesperada para a própria Dilma Rousseff no seu pronunciamento cheio de uma ira cívica em defesa dos pobres e a culpar os adversários prometendo apurar e depois denunciar a mentira e seus autores: o ardil teria sido perfeito se os erros não tivessem sido da própria Caixa, adiantando depósitos como se fosse uma justa antecipação de parcelas devidas, antes que os ‘inimigos’ do bolsa família destruíssem o programa que é uma dádiva dos petistas.

O caráter de dádiva, aliás, deificado pelo marketing e nutrido pelo fato de que só Lula, um Silva de origem pobre se lembrou dos pobres, é o que ainda hoje alimenta a força do programa. Não foi à toa que semana passada ele foi às telas e outra vez reforçou no imaginário de trinta 30 milhões de ‘bolsistas’ o rumor que os ‘inimigos’ tentam destruir o programa acusando de não ser saída, como se matar a fome e promover e inclusão não fosse, por si só, a saída perfeita para garantir a vida dos mais necessitados.

Como alerta Janine, o boato é algo próximo da teoria da conspiração, e isto tem certo sentido. Para ele, também os paranoicos, às vezes, são perseguidos de verdade. A grande diferença está entre a polícia e a academia. O olhar policial se interessa por investigar a ação dos criminosos, sem inventarem, se eles existirem, enquanto o olhar dos teóricos quer entender o fenômeno sem criminalizá-lo. Ou, como indaga o próprio Janine, a questão é saber como tantos são enganados por um boato tão mal contado.

A experiência do rumor que levou milhares de ‘clientes’ do bolsa famílias à Caixa Econômica e loterias acabou consagrando ainda mais a ‘dádiva’ do PT e, particularmente, de Lula, seu criador, agora tendo como avalista o próprio povo. Ou seja: há inimigos do programa do PT que mata a fome do povo. Esses inimigos, ele, Lula, não comete o erro de apontar – seria arriscar perdê-los. Ao contrário: ele sabe nutri-los para ser aquele ruído subliminar que mantêm vivos os adversários políticos do bolsa-partido.

 

HIGIA – I
O peso da sentença no caso da Operação Higia caiu com seus efeitos explosivos muito mais no colo da governadora Wilma de Faria do que nos ombros do seu filho Lauro Maia. A oposição não vai perdoá-la.

TEMOR – II
Registre-se: esse temor se revelou desde a prisão de Lauro, na fase de investigação do MP, quando, na condição de governadora, e no exercício do cargo, não visitou seu próprio filho. Foi um erro elementar.

PEIXES
Um Trabalho de Conclusão de Curso na área de Ciências Sociais da UFRN chama a atenção: ‘Cronistas, Viajantes e Peixes na Formação do Conhecimento Científico: Litoral Brasileiro, Séculos XVI e XVII’.

DEZ
Pescador e estudioso de peixes, Florizel de Medeiros Júnior mostra a influência indígena na definição de nomes de peixes. Orientação da professora Francisca de Souza Miller e nota dez da banca examinadora.

AVISO
Tem secretário mossoroense, com a serena consciência dos que sabem das coisas, convencido de que no Governo Rosalba o problema é de gestão. Faltou a contenção de gastos e a prioridade nos investimentos.

VOCAÇÕES – I
A Igreja de Natal vive uma crise: além de dois padres suspensos ‘a divinis’, das chamadas ordens sacras, três outros abandonaram o ministério para se tornarem pais. E mais três casos previstos de suspenções.

SEGREDO – II
Hoje, sussurram fontes clericais, o maior segredo da Arquidiocese é o conteúdo de uma carta que veio da Nunciatura, em Brasília, escrita em latim, sobre três padres passíveis de suspensão das ordens sacras.

MANCHA
A criação de camarões sofre mais um ciclo da Mancha Branca, doença que chega hoje ao mundo daqui transportada nos porões dos navios que levam e trazem camarões. Mas nada que não possa ser debelado.

AUSENTE
Na ordenação de diáconos permanentes a grande ausência na cerimônia foi de Mons. Lucas Batista que durante anos dirigiu a Escola Diaconal. E sequer foi convidado. Tempos feios esses que mancham a fé.

ALECRIM – I
Já que o impeachment está na vitrine do noticiário local, é bom lembrar: entre as citações do Mandado de Segurança de Fernando Collor quando do pedido de impeachment no Senado, está Octacílio Alecrim.

CITAÇÃO – II
O macaibense ilustre está citado no voto do então ministro Ilmar Galvão segundo o acórdão do relator Carlos Veloso: Mandado de Segurança 21.623 em dezembro de 1992, retirado de um artigo seu de 1954.

ALIÁS – III
É de Octacílio sobre o papel do poder legislativo: ‘Um povo amante do direito à liberdade deseja que o Congresso exerça com liberdade o direito de investigação, mas que o faça nos limites da Constituição’.

REGISTRO
O que resta das gravuras, roubadas na gestão da professora Isaura Rosado, é o registro que ela fez em 2007 e publicou um volume com o inventário das artes visuais fotografando cada quadro da Pinacoteca.

BRAILE
De Ronaldo Tavares, presidente da Sociedade dos Cegos do RN, neste JH, numa frase que mais parece o verso de um poema: ‘Deus foi tão generoso com a gente que nos deu o prazer de tocar nas palavras’.

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