Borogodá

O time de futebol de salão da Escola Técnica Federal era o favorito para ganhar os jogos escolares de 1985.…

O time de futebol de salão da Escola Técnica Federal era o favorito para ganhar os jogos escolares de 1985. Montado pelo goleiraço Nilson Barrote, metia medo em todos os adversários pela fama de habilidade e conjunto. Uma safra de garotos suburbanos havia ingressado na ETFRN e Barrote conseguira montar uma teórica seleção.

Na minha limitação caneluda, acompanhava os treinamentos e torcia fervorosamente na certeza de que seríamos vencedores sem nenhum temor dos colégios tradicionais como o saudoso CIC, um verdadeiro celeiro de craques e o sempre assustador Marista.

Jorian ou Fabiano no gol; Itamar, João Balboa, Serginho e Henrique Hélio eram os titulares. Entrosados e atrevidos. Itamar de uma habilidade monstruosa e Serginho um artilheiro fatal, vindo exatamente do CIC, onde já se tornara lenda infantil entre peladeiros bairristas. João e Henrique emprestavam firmeza, articulação e chutes fortes pelas alas.

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A dúvida e o medo mataram o time da ETFRN. Conhecedor profundo das balizas e seus mistérios, Nilson Barrote tratou de fazer um revezamento entre os goleiros. Na estreia, contra um oponente tratado como zebra antecipada, primeiro tempo duro e time nervoso, tremendo diante da fúria de sua torcida, conhecida pelo destemor até mesmo no enfrentamento com a polícia. Foi 0×0 graças às defesas de Jorian.

No segundo tempo entrou Fabiano, que arrasava nos treinos. Um sujeito legal, extrovertido e que entrou na paranoia dos colegas. Os gols do Sagrada Família foram saindo em oração. Um, dois, três, quatro, cinco e apenas um para a ETFRN humilhada: 5×1. O timaço de teoria acabria eliminado na primeira fase com outra derrota, para o Marista, por 2×0, sem forças, carregando o peso do vexame nas costas daqueles meninos.

Um deles, porém, estava revoltado. Tinha cabelos crespos, black power, rosto redondo, barriga saliente, era baixinho, usava tênis colorido e extrapolava na ingenuidade brega. Ronaldo, sem o futebol de Amarildo na Copa de 1962, tomava ares de Possesso justificando a campanha ridícula à sua ausência.

Reclamou diante dos colegas desolados até que um deles sacou um desabafo infame:

- Cala a boca Borogodá!

Ronaldo ficou quieto e não se ouviu sua voz no restante daquele 1985. Ronaldo era a cara de Reginaldo Rossi, um sucesso com a música Deixa de Banca, em ritmo dançante, tocando sempre aos intervalos na área de lazer da Escola Técnica Federal.

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Borogodá, Borogorodá, eram os sons inverossímeis que saíam da boca de Reginaldo Rossi em sua voz anasalada e decididamente pernambucana, ele um apaixonado pela Recife “de encantos mil”, verdadeiro hino que compôs em homenagem à sua capital.

Deixa de Banca é a lembrança que tenho de Reginaldo Rossi assim que surge a notícia de sua morte, aos 69 anos. Estive a poucos metros dele numa solenidade em 2001, aniversário do Diário de Pernambuco, quando todo o society recifense esqueceu governadores, ministros, senadores, deputados, o prefeito e vereadores para requebrar ao som do cara que chegou atrasado, abusado e reclamando da banda. “Vocês são uns desafinados! Imagina o João Gilberto quebrando o violão em vocês!”.

Esconda-se de sua falsa altivez e intelectualidade, entre no youtube, digite Reginaldo Rossi e Deixa de Banca e solte o corpo e as mazelas. Borogodá, borogorodá. É melhor do que qualquer frescura de ginástica. Rebole o esqueleto, deixa de banca.

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O conceito de brega é estreito como o visor de leitura de grande parte dos críticos. Fernando Mendes cantando Você Não Me Ensinou a Te Esquecer era feio, mundano, pobreza letrista e lixo suburbano como os parques de diversão que ele embalava enamorando empregadinhas domésticas e policiais militares, segundo o preconceito das análises da época, final dos anos 1970.

Quando Caetano Veloso foi cantar Você Não Me Ensinou a Te Esquecer, a música virou hit, pop, cult, original, espetacular, admirável. Fernando Mendes tornava o feio, mais feio. Caetano Veloso maquiava o que nunca foi cafona. A letra é bonita, é comovente, é para dor de corno, que não tem classe social.

Dancei e não tenho o menor receio de confessar, as músicas de Reginaldo Rossi nos bailes interioranos em Monte Alegre, para onde fugíamos aos sábados afoitos por uvas e tentando imitar a raposa da canção do astro que dava banana para os elitistas.

Falava em calcinhas, chifres, garçons, batons, arriscava um francês torto de puteiro, alegrou o tempo de uma gente que encontrava felicidade exclusiva em suas melodias calorosas na tristeza do amor. Reginaldo Rossi nunca vai deixar de botar banca. Comigo, não.

 

Base do América
O técnico Leandro Sena conta com uma base consolidada, sem contar com os jogadores trazidos do São Paulo. Permanecem no clube o goleiro Andrey, Norberto (o melhor do time), Edson Rocha, Cléber, Zé Antonio, Raí, Márcio Passos, Fabinho, Max e Adriano Pardal.

Base do ABC
Permanecem oficialmente Somália, Daniel Paulista, Gilmar e o técnico Roberto Fernandes tem apalavrados jogadores para mais de um time. Só guarda segredo para ninguém chegar e melar o negócio.

Renatinho Potiguar
Renatinho Potiguar tem muito futebol, mas existe algum mistério que faz com que os clubes simplesmente o descartem. A acusação é a de ser jogador de grupo, mas é clara uma pressão exagerada sobre o jogador. Que, sem dúvida, ficou menos humilde e eu pude comprovar quando o encontrei no Aeroporto de Brasília, este ano.

Chance
Ainda assim, acho que Renatinho Potiguar seria útil a qualquer time do Nordeste. Basta lembrar que somente Wanderson no América chegou próximo ao seu futebol ofensivo e habilidoso. O ABC terminou a Série B com Somália improvisado.

Júnior Xuxa
Fez bem o ABC em não querer Júnior Xuxa de volta. Não tem dado certo em time algum, tem certa capacidade, mas se considera um Zidade. Um Zidade em 1998 e 2006 contra o Brasil.

Fado e Samba
Os escritores portugueses Francisco Pinheiro e Victor Andrade de Mello lançaram uma pérola de livro que ganhei do amigo e historiador Sérgio Trindade: A Bola ao Ritmo de Fado e Samba.

Relações
É um estudo profundo e bem narrado das relações entre os dois países quando o assunto é futebol, centrado nas duas figuras emblemáticas de Pelé e de Eusébio, o craque da Copa de 1966.

Respeito
O livro revela respeito reverencial dos patrícios pelo Brasil.

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    • Jorian Fontes

      Grande Borogoda.
      Conhecia do riscado. Por onde andara?